quinta-feira, 22 de outubro de 2015

SICARIO (2015) de Denis Villeneuve



 Depois do tecnicamente impressionante, mas textualmente limitado, Raptadas e da opacidade intrigante de O Homem Duplicado, eu não sabia bem o que esperar de Sicario - Infiltrado, o novo filme de Denis Villeneuve e o seu terceiro em inglês. O cinema e, especialmente, a televisão americana têm estado pejados de narrativas em volta da guerra contra a droga e da relação entre os EUA e o México, sendo que nos últimos anos tem havido como que uma calcificação narrativa e formal neste tipo de histórias, infetadas por uma banalidade e simplicidade politica que me têm repelido. Sicario – Infiltrado está longe de qualquer acusação de complacência ou simplismo, sendo um dos mais surpreendentes filmes narrativos a sair de Hollywood e a debruçar-se sobre temas tão politicamente acesos como estes.

 O filme desenvolve-se à volta de Kate Macer (Emily Blunt), uma agente do FBI que, depois de uma horrenda abertura numa casa armadilhada e forrada de cadáveres, é convidada a fazer parte de uma equipa especial, com supostas ligações com a CIA, que está envolvida na guerra da droga. Sem grande informação e desejosa de finalmente fazer alguma diferença, Kate é mergulhada num pesadelo acordado, seguindo a liderança dúbia de Matt Graver (Josh Brolin), um agente da CIA, e Alejandro Gillick (Benicio del Toro), um misterioso consultor que outra foi um advogado cuja família foi devastada por um dos senhores da droga perseguidos pela equipa central ao filme. O que, juntamente com Kate, vamos descobrindo é uma teia de horrenda manipulação em que os “heróis” americanos são, em parte, culpados pela criação do inferno na Terra que observam no México.

 Longe de simplificar a visão do México e da guerra contra os cartéis, o filme parece recusar-se a cair nos simplicismos de outras narrativas semelhantes. Quase todo o filme é passado a acompanhar Kate e a partir da sua perspetiva olhamos o mundo dos agentes americanos a ser um pesadelo tão sufocante e imoral como o caos aterrador das cenas passadas no México. Apenas nos afastamos ocasionalmente da perspetiva horrorizada e quase paralisada da protagonista, sendo que, num momento crucial do filme, acompanhamos Gillick. A sequência relembra tantas outras narrativas de anti-heróis vingadores. Aqui, no entanto, a figura do anti-herói e suas ações estão longe de glorificações banais, sendo que nos apercebemos da irremediável amoralidade e desumanidade das suas ações. A outra figura que observamos proximamente é um polícia envolvido com os cartéis, Silvio (Maximiliano Hernández). Vemo-lo maioritariamente em casa com sua família, sendo que antes de ser mais um peão neste violento jogo de guerra, o vemos como um pai, como um humano com quem é fácil simpatizar. Quando o seu final chega, temos a impressão que, em outros filmes, esta personagem seria uma figura de uma só cena, algo dispensável e esquecível, mas aqui é uma vítima, não completamente inocente, de um mundo negro que se parece ter esquecido da noção de básica humanidade.

 O mundo aterrador do filme é requintadamente criado por um formidável trabalho técnico que faz a precisão admirável de Raptadas parecer um pueril exercício escolar. A fotografia é um dos melhores trabalhos na filmografia do mestre Roger Deakins, assim como é um dos seus trabalhos menos característicos. As imagens são cristalinas e precisas, evitando os filtros amarelados que na televisão americana parecem sinónimos do México, e trabalhando com sombras negras e profundas que ora se manifestam como manchas cortantes na paisagem luminosamente infernal ou como ambientes envolventes de sombras que tudo parecem consumir, abatendo-se ameaçadoramente sobre as personagens. O visual do filme também deve muito à discreta e eficaz cenografia de Patrice Vermette, sendo a casa de horrores que abre o filme um espaço de particular horror e eficácia visual.

 Ainda mais importante e magistral que o visual do filme é o seu estupendo som. A música, da autoria de Jóhann Jóhannsson, funde-se com os efeitos sonoros numa avassaladora atmosfera de constante ameaça. Há algo de horrendamente opressivo na sonoplastia do filme, como se criaturas infernais se fossem movimentando debaixo dos pés da audiência, sendo que por vezes parecemos ouvir a terra mover-se em estrondosa intensidade, como se num submundo invisível o caos fosse tão grande como na realidade em que habitam as figuras humanas do filme, e seus movimentos cataclísmicos se fizessem ouvir por toda a narrativa. Há algo de demoníaco no som, e ao mesmo tempo de impressionantemente expressionista e imersivo, tornando, em algumas sequências, o som de um caótico ambiente urbano numa cacofonia infernal digna de pesadelos aterradores.

 Este fantástico ambiente é habitado e vitalizado por um elenco formidável com Emily Blunt no protagonismo e a apresentar o seu mais complexo e impressionante trabalho até à data. A sua presença aterrada e impetuosidade palpável lembram Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes, sendo que, especialmente na segunda metade do filme, Blunt vai muito mais longe que Foster mostrando como Kate quase fica paralisada pela descoberta da realidade corrupta e horrenda e seu papel nas maquinações masculinas à sua volta. O filme sem Blunt sem Blunt seria impensável, sendo que a luta de Villeneuve pela sua escolha de uma atriz para protagonista do filme bem pagou os seus dividendos. Del Toro, Brolin e Daniel Kaluuya, como o parceiro de Kate, são de louvar também. Del Toro é particularmente estrondoso na sua reticência misteriosa e agressividade assustadora, enquanto Brolin brilha na sua repugnante criação de arrogância nojenta e perigosa e Kaluuya oferece uma visão de rara humanidade e apoio num mundo em que o perigo parece espreitar por entre as sombras.

 Sem Dilleneuve, contudo, toda esta mestria técnica e performativa seria inútil, sendo a mão segura do realizador que une todos os componentes do filme numa obra de mestria quase maquinal na sua precisão. Uma das sequências mais impressionantes do filme passa-se no regresso de uma frota de carros aos EUA, depois de passarem por Juarez. Num engarrafamento, na fronteira entre os países, os carros ficam bloqueados e explode um confronto violento. Aqui todos os componentes do filme chegam a gloriosa união, sendo a tensão criada por Villeneuve uma maravilha que lembra o que Hitchcock em tempos fez com uma bomba escondida na pasta de um rapaz. Sabemos há muito que algo violento vai ocorrer na passagem pela fronteira, sendo essa informação explicitamente atirada à audiência, a construção cénica aponta inexoravelmente para o conflito que se despoleta, mas no entanto há algo de fulgurante em toda a experiência da sequência. Tal como na maior parte do filme, aqui a violência é repentina, expectável e intensa, sendo mais aterradora pela sua fugaz banalidade que pela glorificação acentuada que outros realizadores menores tentariam nela explorar.

 Sicario – Infiltrado funciona como uma das armas que tanto aparecem ao longo da sua narrativa. Todos os seus componentes estão precisamente criados e calibrados para uma violenta funcionalidade final, sendo que nada é desperdiçado ou erroneamente concebido. Por detrás de toda a sua perfeição estrutural, interpretativa e formal está ainda um dos mais formidáveis e desafiadores textos sobre a guerra contra a droga no México e nos EUA, renunciando a simples dicotomias entre o bem e o mal ou a glorificações repugnantes de desumanidade e amoralismos. Não é um filme fácil de ver ou particularmente agradável de experienciar mas é, sem dúvida, uma das mais importantes obras a sair de Hollywood neste ano cinematográfico.

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