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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

MAGIC IN THE MOONLIGHT (2014) de Woody Allen

 Ando com este texto no computador há meses. Finalmente tenho aqui uma boa oportunidade para o publicar, tendo em conta que ontem coloquei o texto sobre o novo filme de Allen. Uma coisa que tenho a dizer é que, apesar de criticar Stone nest texto, acho que o seu trabalho em Irrational Man é infinitamente superior e não merece qualquer das palavras que eu aqui uso para falar do seu trabalho no filme anterior de Allen.



 Woody Allen é um autor incrivelmente prolífico, oferecendo aos seus fãs um filme por ano. Isto traz os seus benefícios e os seus problemas, e o principal problema é perfeitamente exemplificado pela coleção de inegáveis fracassos que marcam a sua extensa filmografia, sendo que, por vezes, parece apresentar um estilo e uma voz fossilizadas com o tempo e já ultrapassadas, revelando, ocasionalmente, o seu génio em obras de surpreendente vivacidade e sagaz inteligência. Magic in the Moonlight não é de todo um desses sucessos, estando até perfeitamente posicionado para ocupar o título de pior filme do realizador não fosse a existência de outros desastres inegáveis.

 O filme desenvolve-se à volta da figura de Wei Ling Soo ou Stanley Crawford (Colin Firth) um carismático ilusionista britânico que se disfarça de chinês para fazer a vida nos palcos europeus da gloriosa década de 20. Para além desse entertainer existe um homem fortemente cínico, cético e com uma desagradavelmente franca personalidade. Um protagonista bastante desagradável, não fosse o carisma de estrela de cinema que irradia de Firth e o deixa deslizar elegantemente pelos nós e clichés deste guião e enredo.

 Stanley é contactado por um amigo (Simon McBurney), também ele ilusionista, e é levado à Cote D’Azur onde uma abastada família americana está a ser aparentemente ludibriada por uma jovem e aparentemente legítima mística e vidente, Sophie (Emma Stone). Ela é tão popular que conseguiu, aliás, seduzir o filho da família (Hamish Linklater) e convencer a matriarca (Jacki Weaver) da possibilidade de comunicar com o seu falecido marido. O filme será então uma confrontação entre Stanley e Sophie, estando este constantemente a tentar provar a falsidade dela, acabando os dois, obviamente, por se apaixonarem. Outras coisas acontecem ao longo do filme, incluindo alguns rasgos de irracionalidade que fazem de todo o desenvolvimento de personagens do filme algo de bastante duvidosa integridade, mas a única coisa que interessa mencionar é a ocorrência de variados interlúdios de Stanley com a sua idosa tia Vanessa (Eileen Atkins), sendo que os diálogos entre os dois são a única prova do verdadeiro talento de Allen presentes nesta pútrida criação.

 O elenco, com a exceção de Firth e Atkins é bastante desinspirado, sendo Stone o inequívoco elo mais fraco, não conseguindo transformar o turbilhão de clichés e contradições em nada semelhante a um ser humano ou a uma personagem coerente apesar da insistência de Allen em forma de texto e direção, não sendo ajudada pela óbvia falta de “química” entre ela e Firth. Isto faz com que, pelo menos, o elemento romântico do filme seja um redundante fracasso. Não fosse já a diferença etária entre os dois protagonistas românticos, que apesar de ser algo comum na filmografia de Allen não deixa de ser um cliché deplorável e pouco convincente no modo como ele acaba por escrever a dita relação.

 Mas se o guião está cheio de clichés e o trabalho do elenco é competente e agradável quando não é um completo desastre, então como é a concretização técnica do filme? É agradável, tenho de dizer. Nada de extraordinário decerto, mas agradável. Os figurinos de Sonia Grande são particularmente maravilhosos na sua elegante recriação de uma visão simples e glamorosa da década de 20. Os cenários, especialmente nos primeiros momentos do filme também são particularmente bons, especialmente na recriação do decadente e requintado mundo da Alemanha de Weimar nos seus últimos momentos de glória e de cultura de cabaret. Também o trabalho de Darius Khondji como diretor de fotografia é agradável e bonito, palavra odiosa e terrível elogio. O filme captura uma certa beleza de postal que parece apropriada ao filme sem parecer idealizado em demasia.

 O que me traz grande pena é, sem dúvida, o potencial do filme para ser algo melhor com outra protagonista, um desenvolvimento diferente da trama romântica e com uma mais interessante exploração da figura do seu ilusionista, que é baseado numa figura da vida real e que poderia ter trazido consigo uma interessante exploração do mundo do entretenimento da época, do seu racismo casual, da sombra colonialista que se abate sobre esse tipo de representações. Ou mesmo a decadência económica que tanto marcou essa década antes de a Depressão arrasar com os sonhos dourados de tantas pessoas como Sophie, essa aparente caçadora de tesouros. A época do filme é simplesmente uma escolha estética, quase cosmética, e parece ser apenas uma indulgência de Allen para com o seu próprio gosto pessoal, tendo já feito imensos filmes neste ambiente histórico em particular.

 É, portanto, outra triste e medíocre entrada na filmografia de Allen que ainda há dois anos tinha conseguido achar alguma glória tardia com Blue Jasmine, merecida ou não está aberto a debate. O filme será, certamente, apreciado por fãs de Allen e por quem consiga achar algum estímulo nas suas ocasionalmente fascinantes ideias, e desenterrá-las do filme menor em que se encontram depositadas.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

IRRATIONAL MAN (2015) de Woody Allen



 No início do novo filme de Woody Allen, o seu protagonista, um professor universitário de Filosofia, ao apresentar-se aos seus alunos fala um pouco do que irão falar na sua cadeira. Quando fala de filosofia, Abe (Joaquin Phoenix) refere-se ao seu objeto de estudo como, essencialmente, masturbação verbal. Tal descrição é bastante apta a grande parte da filmografia de Allen e é particularmente perfeita para uma crítica de Irrational Man. Com uma filmografia em constante crescimento, o realizador parece ter-se estabilizado numa oscilante qualidade nos seus filmes, sendo que depois de alguns fracassos parece sempre haver uma obra digna da fama do realizador. Este filme, mais do que um sucesso, junta-se à companhia do seu último filme, Magic in the Moonlight, e parece existir como uma ocasionalmente fascinante exposição de ideias do realizador em forma de insistentes e longos diálogos, dentro de um filme com uma infinidade de problemas estruturais, rítmicos e temáticos. Mas, enquanto via o filme, algo não me saía da cabeça, estaria Allen, com tão descarada categorização de um dos seus sujeitos favoritos, num modo de autorreflexão e até autocrítica? Não seria inédito no seu trabalho, mas poucas vezes parece o realizador ter sido tão direto.

 O filme, como já mencionei, tem como protagonista um professor de Filosofia, amargo, alcoólico, em postura intelectual de superioridade inabalável, estranhamente carismático e imensamente misantrópico e até niilista nas suas visões sobre a vida, em geral, e sobre a sua própria existência em particular. Estabelecendo uma amizade intensa e mais tarde um, incrivelmente previsível e óbvio, romance, temos Jill (Emma Stone), uma das suas estudantes. O filme começa por ser estritamente centrado à volta de Abe, do seu cansaço e desistência da sua vida, engendrando-se à volta de filosofias simplificadas e vazias na sua intelectualidade e franca presunção. Ao ter as suas personagens a discutir e dissecar as filosofias umas das outras de modo quase sintomático, Allen consegue alcançar um tipo de humor extremamente crítico e ridículo, em que quase goza com o vazio e futilidade da sua postura intelectual e auto romantização constante das suas condições.

Mas, o filme tem uma estrutura bastante bipartida, sendo que o filme, a partir de um momento crucial num restaurante, passa a ser um recontar existencialista e grotescamente humorístico de Crime e Castigo de Dostoyevsky, sendo tão óbvio ao ponto de referenciar o autor inúmeras vezes ao longo do filme, inclusive esta obra, num momento que é tão óbvio e flagrantemente descarado que é quase cómico. Allen volta assim a uma estrutura imensamente semelhante a Match Point, mas temperado com uma boa dose de autocritica que a passada obra não possuía. Também vários temas de Manhattan, Crimes and Misdemeanors e uma infinidade de outros filmes regressa. O filme é uma repetição inescapável no trabalho do realizador, pelo que a repetição constante e insistente dentro do texto do próprio filme começa a tornar-se mais irritante que fascinante. O filme chega mesmo a fazer uma referência ao trabalho do autor na Europa nos últimos anos, o que junto às referências que o filme parece querer gritar ao espetador no que diz respeito a nomes de autores e de correntes filosóficas, faz do filme mais uma coleção de ideias soltas e nomes sonantes que Allen aprecia do que um filme minimamente interessado em explorar a relação entre tais referências.

 Há uma falta de elegância imensa no filme, apesar de ser uma das obras mais esteticamente agradáveis que Allen produz em anos, e uma estrutura bastante reacionária e desajeitada que deixa algumas das suas mais fascinantes ideias num estado de vazio tão superficial e desinteressante quão as suas personagens. Personagens estas que não poderiam ser mais típicas do autor, o que é simultaneamente algo bom e característico do seu idioma de autor mas também um enorme cansaço para quem já tenha visto grande parte da sua filmografia que já ultrapassa os 50 títulos. Mas, apesar destas críticas e de uma colossal falta de ritmo, que quase lembra os horrores de Judd Apatow e o seu olhar vago e monótono, o filme não deixa de ser uma experiência prazerosa para o espetador. Pelo menos foi-o para mim.

 Parte do que permitiu tal reação pessoal foi o elenco, sendo que Phoenix foi uma inspirada escolha, tornando o papel do substituto de Allen dentro do filme e tornando-o em algo completamente diferente. Outros atores, como Owen Wilson, imitam o autor em demasia quando postos no papel análogo a Allen, mas Phoenix injeta Abe com um cansaço palpável e decadência arrogante que faz muito para separar este professor de filosofia do nervoso nova-iorquino que tantas vezes se manifesta nestes filmes do autor. Stone, com um papel, que na primeira parte do filme é um cliché ambulante sem qualquer função a não ser mover o enredo e vomitar as ideias que Allen quer discutir, consegue contornar as limitações do texto e implicar uma inteligência inocente e imatura a Jill, sendo que o final bastante convoluto do filme apenas funciona devido ao seu trabalho. Uma confrontação entre Abe e Jill é particularmente brilhante no modo como Phoenix se vai tornando cada vez mais apreensivo e consequentemente predatória e Stone se vai expondo cada vez mais como uma inocente assustada não só com Abe mas com as suas mesmas implicações. Uma visão do mundo estilhaçada num momento, e Stone é fantástica ao mostrá-lo. E, finalmente, temos Parker Posey que torna uma professora de Química com quem Abe estabelece uma relação, na mais precisamente abrasiva e clara presença no filme. Enquanto Phoenix e Stone se ocupam a desembrulhar o turbilhão de ideias em vácuo que Allen lhes atribui, Posey é uma presença palpavelmente humana e cujo olhar espelha um sofrimento e solidão que parecem troçar das crises existencialistas e egotistas do par no centro do filme.

 É invariavelmente fascinante observar estas criaturas semelhantes a humanos, discutirem as ideias do seu mestre de marionetas. A uma distância que Allen não concede facilmente, insistindo em voz-off e uma proximidade permanente com as suas personagens, as figuras são impossivelmente ridículas e turbilhões catastróficos de pretensão intelectual. Em várias partes do filme, o diálogo de Allen aponta para este mesmo vazio. As discussões destas personagens e sua retórica são impossíveis de relacionar com qualquer realidade, as figuras de Allen parecem viver num congresso académico onde os humanos foram substituídos por teses em forma humanóide, tanto que o filme parece ciente disto e entrar num jogo de crítica e julgamento com a sua própria abordagem. Allen parece querer julgar esta sua postura e esta sua frivolidade intelectual, mas acaba por tentar fazê-lo usando esse mesmo tipo de pensamento. O filme torna-se uma espécie de redundância falaciosa, em que Allen, mais que um autor preciso e certo das suas intenções parece mostrar uma confusão crescente com o que quer dizer, estando demasiado apaixonado e preso ao seu usual registo, fixo desde os anos 70.

 Mas, pelo meio desta confusão, está algo de fascinante. Por muito repetitivas que as ideias de Allen são, algumas delas não deixam de ser interessantes. Por muito que o seu uso de referências pareça vazio e sem propósito, há algo de estimulante em começar a pensar em Kant, Dostoyevsky, Harendt, entre outros enquanto se vê o filme e tentar aplicar os seus pensamentos ao filme. Allen é um autor extremamente popular nos dias de hoje, e grande parte disso devém do modo como os seus filmes, por muito vazios que sejam, estimulam o pensamento e a discussão. Tenho sérias duvidas em relação a este filme e, sinceramente, à relevância de Allen no panorama do cinema contemporâneo, mas não posso negar que adorei ver o filme e passar a sua duração a pensar em argumentos a utilizar em relação a este, a pensar na retórica do filme e a desafiá-la silenciosamente, etc. Se Allen cai nessa mesma masturbação verbal e intelectual na sua crítica, também eu faço o mesmo erro e acabo por ser estimulado por isso. O filme, para quem está na mesma frequência de pensamento que Allen, deverá ser uma experiência extraordinária, mas para quem não se encontra aí, o filme revelar-se-á provavelmente como uma entediante coleção de discussões entre pessoas insuportáveis e sem grande ligação a qualquer versão de realidade humana. Talvez aí, Allen se revele como um derradeiro elitista cinemático, mas o facto é que a popularidade da sua obra o demonstra quase como um populista e tal como os estúdios que criam as mais formidáveis obras populistas, Allen vai reciclando as mesmas ideias e formulas ad nauseum e assim vai inevitavelmente satisfazendo o seu público.