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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR DOCUMENTÁRIO



Eu adoro documentários. Para mim, este é um tipo de cinema, em que, mais do que em qualquer outro género, existe uma possibilidade imensa de experimentação e criação de novas ideias e visões do que é a linguagem cinematográfica. Mais do que outros filmes, os documentários, ao exporem informação e terem uma certa noção de realidade às suas apresentações, criam um diálogo intelectual com as suas audiências que filmes narrativos não têm hipótese de emular ou equiparar.
Infelizmente, apesar deste meu amor e da crescente relevância do cinema documental nos mercados cinematográficos contemporâneos, as seleções dos Óscares nem sempre são grande mostra dessa mesma genialidade contida neste cinema. Um dos mais irritantes tipos de documentário que contaminam de modo sistémico todos os grupos de nomeados nesta categoria, é o” talking head documentary”, basicamente uma direta exposição de informação a partir de entrevistas filmadas.

Este tipo de abordagem nem sempre tem de ser um sinal de má qualidade ou desinspirada mediocridade, basta observar filmes como The Unknown Known que torna uma comprida entrevista a Donald Rumsfeld numa exímia dissecação da sua retórica e personalidade enquanto força política, ou Shoah, possivelmente o melhor documentário de sempre que consiste essencialmente em nove horas e meia de entrevistas a vários intervenientes do holocausto e estudiosos, sem qualquer pirotecnia formal a temperar o poder do testemunho direto. No entanto, algo muito importante separa estes filmes da maior parte dos favoritos dos óscares. Ao invés de simplesmente apresentarem a informação de modo prosaico e se recusarem a desafiar e dialogar com as suas audiências, estes filmes apresentam teses de pensamento, criam discursos sobre o que estão a observar e examinar, para além de conceberem uma magistral ligação para com as suas audiências forçando-as a pensar e avaliar, questionar e reconfigurar o seu pensamento sobre estes temas.

Um dos mais comuns tipos de “talking head documentaries” é aquele género de filme que se propõe a explorar uma personalidade famosa, muitas vezes depois da sua morte. Este ano temos Amy e What Happened, Miss Simone? a ocuparem este nicho da categoria de Melhor Documentário, sendo que, tanto pela sua popularidade e sucesso comercial como pela sua convencionalidade ideológica, o documentário sobre Amy Winehouse é o claro favorito para arrecadar este prémio.

Filmes como essas explorações de personalidades do passado raramente se debatem com temáticas minimamente controversas ou desafiadoras, encontrando-se na segurança pacífica da especificidade individual do seu retrato. Obras com intenções claramente políticas são bastante mais raras nesta categoria, mas este ano os nomeados são dominados por questões de caráter político. Cartel Land debruça-se sobre as lutas contra os cartéis de droga no México e nos EUA, enquanto Winter on Fire propõe-se a retratar a crise ucraniana, nomeadamente a revolução que teve início no final de 2013.

O Olhar do Silêncio também é um filme de cariz violentamente político e quase ativista, mas a sua exploração da Indonésia atual e das cicatrizes putrefactas que o genocídio de comunistas tem nesta nação é de uma sofisticação e impetuosidade cinematográfica que completamente ofusca os outros nomeados. Este filme é uma espécie de sequela de O Ato de Matar, outro documentário de Joshua Oppenheimer sobre este mesmo genocídio, mas ao invés de se focar na horrenda perspetiva dos assassinos, este filme cimenta a sua observação no olhar das vítimas. Com esta abordagem muito menos desconcertante, eu ainda tinha esperanças que este filme conseguisse alcançar o galardão que o seu antecessor não conseguiu arrecadar, mas com a monumental popularidade de Amy tal parece ser apenas um sonho de impossível concretização.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Cartel Land, Matthew Heineman e Tom Yellin


Na sua abordagem do tema da guerra aos cartéis de droga que assombram o México contemporâneo num opressivo pesadelo de bárbara violência e selvática criminalidade, Heineman decidiu focar-se em dois grupos de vigilantes armados que enfrentam esta ameaça criminosa dos dois lados da fronteira. Em Cartel Land, podemos observar de uma estonteante proximidade as lutas destas milícias armadas, uma mexicana e outra americana, sendo que o filme se foca principalmente nos seus líderes, o Dr. José Meireles e Tim Foley. É de perceber o fascínio que o realizador tem com as imagens que conseguiu acumular, assim como com a dramática violência que caracteriza toda esta realidade, mas também é fácil de perceber como, devido a essa fenomenal proximidade, Heineman parece ter-se perdido na celebração destes dois grupos de resistência civil. Nunca o realizador se afasta dos seus sujeitos para questionar as suas ações e seus princípios, nunca explorando o fanatismo que caracteriza os esforços destas duas organizações, ou o claro racismo e xenofobia que infecta o pensamento dos americanos envolvidos nesta luta. Ao invés de tentar explorar este mundo, Heineman apresenta-o como um filme de ação cheio de sanguinária violência humana, sem se preocupar ora em criar uma tese, ora em examinar os seus sujeitos ou mesmo em construir algum tipo de discurso cinematográfico a partir de estrutura e imagem. É verdade, que Cartel Land consegue ser uma obra de grande intensidade e que contém em si magníficas visões do deserto mexicano e americano, maravilhosamente fotografado pelos dois diretores de fotografia do filme, mas como cinema, mesmo cinema jornalístico, este filme deixa imenso a desejar e acaba por cair nos simplismos ideológicos que, do meu ponto de vista, deveria a todo o custo tentar evitar.




4. Amy, Asif Kapadia e James Gay-Rees


Quando se fala dos documentários de Asif Kapadia, muito se celebra o modo como este realizador constrói retratos de personalidades famosas a partir de um exclusivo uso de filmagens de arquivo, recusando-se a incluir entrevistas filmadas ou imagens encenadas. Para dizer a verdade, essa é a única escolha interessante que este autor faz em Amy, e certamente se poderá afirmar que a única razão pela qual este filme teve tanto sucesso foi exatamente pela riqueza de algumas das filmagens que ele consegue aqui reunir, sendo de particular interesse as imagens da vida privada de Amy Winehiuse antes de ela se tornar a decadente estrela que todos conhecemos. Mas isto também é imensamente problemático, pois é impossível separar qualquer mérito que o filme possa ter do modo como Kapadia ativamente procura despertar na sua audiência um certo prazer de voyeur ao expor esta coletânea de momentos na vida desta cantora. O filme é ostentosamente uma homenagem a Winehouse, mas é ao mesmo tempo uma repugnante exploração da mesma, tornando alguns momentos imensamente privados e desconfortáveis em algo de entretenimento, construindo uma obra que, sinceramente, me parece mais um insulto que uma celebração. Isto é exacerbado pela completa superficialidade na abordagem de Kapadia que se recusa a explorar a personagem que foi Amy Winehouse, reduzindo-a a um simples arquétipo de uma artista trágica e incompreendida. Eu ainda desculparia os aspetos mais voyeur do filme se ainda houvesse alguma fascinante examinação da figura de Winehouse, mas tal não ocorre, reduzindo este filme a uma infeliz e banal mediocridade. Enfim, muitas vezes é precisamente este tipo de cinema populista e prosaico que ganha Óscares.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

THE LOOK OF SILENCE (2014) de Joshua Oppenheimer



  The Look of Silence, o segundo documentário de Joshua Oppenheimer sobre os massacres de 1965 e 66 na Indonésia, é praticamente impossível de separar do seu antecessor, The Act of Killing. De tal modo que sinto ser essencial o visionamento do primeiro filme para se poder completamente apreciar este filme. Não é que este filme não consiga existir como uma obra individual, mas há um contraste em termos de foco e interesse entre os dois filmes, que me parece essencial. Em termos mais pragmáticos, o primeiro filme oferece muito mais contexto histórico que o primeiro, o que é absolutamente necessário para o entendimento dos horrores humanos expostos no filme.

 Não explicarei aqui o contexto histórico e politico do filme pelo que encorajo quem quer que pense em ver este filme em, ou ver o primeiro filme, ou em pesquisar sobre os massacres contra os comunistas que assolaram a Indonésia nos anos 60, e cujos assassinos são, hoje em dia, heróis, em que os massacres são ensinados nas escolas como algo glorioso na história da nação.

 Em The Act of Killing, a informação sobre o massacre e a psique dos assassinos está no centro do filme, o ato de contar histórias e interpretar o passado pessoal temas tão fortes como a história sangrenta do país. Na pseudo sequela desse mesmo filme, o que temos é algo bastante diferente, um foco muito menos abrangente, havendo uma família como elemento principal do filme. 

 Acompanhamos Adi, cujo irmão foi morto durante os massacres antes do seu nascimento, e a sua família, nomeadamente os seus pais anciãos. Adi vai aparecendo como um oculista, atividade que vai possibilitando uma série de entrevistas e confrontações improvisadas entre este descendente de vítimas e vários assassinos e familiares dos que executaram centenas de milhares de pessoas durante os massacres anticomunistas.

 É um filme sobre a assimilação do passado, sobre reações e olhares silenciosos. A face humana foi poucas vezes tão perspicazmente explorada por uma câmara do que neste filme. O filme oferece uma coleção de cenas e sequências em que os momentos em que os assassinos e suas famílias pausam e pensam sobre o que vão dizer parece mais importante que o que dizem. Uma filha ouve o pai descrever como bebia o sangue dos comunistas que matava e vemos a sua assimilação da atrocidade e o modo como a põe de parte e sorri para o homem que a entrevista. A boa educação parece corroer cada entrevista, o horror do passado ignorado ou glorificado. O crime tornado uma cicatriz para onde ninguém quer olhar. Quando confrontados, por vezes com provas irrefutáveis, as pessoas entrevistadas lutam por desviar o olhar da verdade do passado, e nesses momentos o filme expõe algo incrivelmente horrendo acerca da natureza humana, melhor do que qualquer filme que vi anteriormente.

 Uma nação que cresce sobre os cadáveres de um verdadeiro genocídio e em que as famílias vitimizadas vivem lado a lado com os assassinos de seus pais, filhos, irmãos, etc. Há uma tensão de cortar à faca por todo o filme que se vai progressivamente intensificando à medida que os entrevistados se começam a aperceber do retrato que Oppenheimer está a criar e que está longe da cicatriz não olhada que caracteriza a sua relação com o passado.

 Quando vi Shoah de Claude Lanzman, a sua frieza e clareza na transmissão de informação a partir de vítimas e perpetradores do Holocausto impressionou-me, aqui tal frieza não aparece no contar das informações. Longe da narração aterradoramente objetiva de Lanzman na sua leitura de documentos oficiais, aqui temos uma câmara que não corta, que não desvia o olhar da face de assassinos, muitos dele com a aparência de afáveis avós, à medida que eles vão relembrando e racionalizando o seu massacre, enquanto vão contando como cortavam os genitais aos homens e os atiravam às águas de um rio.

 Mas, talvez, mais que a reação individual dos humanos no filme, a reação coletiva de uma nação seja o aspeto mais assustador e fascinante do filme. Uma reportagem da NBC em que é dada uma perspetiva glorificada e americana ao massacre é particularmente chocante, mostrando a purga da ameaça comunista e a utilização de mão-de-obra escrava tirada de campos de prisioneiros numa fábrica americana de borracha. O olhar que se afasta do passado e da realidade, não se trata só do olhar do indivíduo, é também o olhar do mundo.

 Há uma simplicidade formal na abordagem de Oppenheimer que surpreende depois dos floreados exuberantes de The Act of Killing, assemelhando-se The Look of Silence mais a um documentário afetado pelo legado de Ingmar Bergman, do que ao noir delirantemente absurdo em que o documentário anterior perversamente se ia transformando. O filme é menos ambicioso e impressionante nesses aspetos, mas em termos de impacto, é tão monumental como o outro filme. Os dois compondo uma das mais importantes obras documentais na história do cinema contemporâneo, e talvez na história do meio desde a sua génese. Como uma documentação de testemunha política, se quisermos ignorar tudo o resto na obra, o filme continua a ser imprescindível e essencial, nem que seja pela sua abjeta coragem e humanidade latente.

 Não sei se consigo expressar por palavras a importância e o génio deste filme, mas apelo qualquer pessoa a ver esta obra-prima, com a consciência que estão prestes a vislumbrar um dos mais horrendos documentos sobre o horror e fealdade do ser humano. Angustiante e aterradora na mesma medida que é uma inegável magistral joia cinematográfica.