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terça-feira, 22 de setembro de 2015

MADAME BOVARY (2014) directed by Sophie Barthes

A partir de hoje, pelo menos uma vez por semana, eu irei publicar uma tradução para Inglês de uma das minhas antigas críticas. Vamos ver se consigo alcançar mais visitas ao blog com este esquema.

From now on, at least once a week, I'll publish an English translation of one of my old reviews. Let's see if I can get more visits with this ploy. 





 What makes a film a good adaptation of a literary work? An efficient translation of the author’s intentions into a cinematic form? A new exploration of the piece through the perspective of the film’s director, thus creating a film that is, more or less, a work independent of its literary roots? Or, perhaps, an accurate and complex representation of the psychology of characters such as the protagonist of Madame Bovary?

 I don’t want to imprudently proclaim Sophie Barthes’ (The first woman to direct an adaptation of Madame Bovary) adaptation of Gustave Flaubert’s most celebrated novel a good literary adaptation or a failed one, but I want to say that regarding all those parameters I’ve mentioned in the above paragraph, the film is a failure. But it fails in a fascinating way, not seeming to be at all concerned with achieving any of those things.

 This is made possible, in part, by the screenplay which cuts quite a lot of important portions of the novel, like its ending, or the Bovary’s daughter. But the main thing that brings to such a view of the film is the way in which the film observes and portrays the central character of Emma Bovary.
 In the hands of Barthes and her lead actress, the Australian Mia Wasikowska, Emma never stops existing in the film as a cypher for its audience. Emma seems to constantly be at a palpable distance from us, her motivations impenetrable both for the audience and, at certain moments, for the woman herself. There’s a moment, when Emma looks at herself in a mirror, which reminds one of such a scene in New York, New York. In that film, Martin Scorsese directed Liza Minnelli in such a way that in her unwavering stare there’s something vitreous and impenetrable, mysterious and unreachable by the audience. As in that moment in Scorsese’s musical, there’s a persistent aura of strangeness regarding the central character in Madame Bovary, as well as an apparent reluctance, from everyone involved, to interpret, explore, or resolve Emma Bovary.

 Wasikowska’s work is essential for the success of such a distant and essentially superficial approach. It brings to mind her similar work in Cary Fukunaga’s Jane Eyre, but while in that film there seemed to be an implied interior world and perspective never expressed externally by the character, in Bovary we have a character full of external actions and reactions whose interiority is a complete inaccessible. Many will, and have, looked at this as an unswerving flaw, but to me there’s something special that her portrayal injects in the film, separating it from many similar adaptations that spread their banality through the history of cinema like weeds pretending to be prestigious roses.

 By denying such an exploration, visibility or even mere comprehension of Emma, the film never really falls in the usual downfalls of simplification or forced reinterpretation that torment other, much more famous and celebrated, adaptations of Flaubert’s opus. As I said before, this is helped by the textual choices and by Barthe’s approach, especially in what refers to the rest of the cast and the film’s visuals.

 One of the more discussed choices, supposedly made by the director, is the way the entire cast employs deliberately disparate accents, avoiding, in most cases, the usual English accent that is so prevalent in period films independently of their setting. Ignoring that no community in 19th century France would be speaking in English, one has to observe the way such a choice contributes to the game of distancing and alienation that seems integral to the film. This is particularly noticeable when scenes feature actors speaking with American accents, some of them with a shockingly contemporary tone. The language itself seems to distance itself from the narrative and from the reality of the world depicted in it.

  That distancing is never better visually expressed than in the costumes worn by Emma Bovary, and in the way they relate to the rest of the world surrounding them. The work of Madame Bovary’s costume designers (Christian Gasc and Valérie Ranchoux) in previous films like Adieux à la Reine had left me with a negative opinion on their contributions, considering them often cheap looking and clumsily stylized in such a way that they never seemed to truly belong in the films they appeared in. This doesn’t happen here.

 Visually speaking, it’s impossible to look at Emma Bovary without understanding that she is in a certain disconnect regarding everything around her. While the remaining cast seems locked in a general aesthetic of elegant historical recreation, a bit common and expected, Mia Wasikowska emerges as a strangely stylized and colourful creature. Her clothing looks as if it belongs in another film, especially in what regards its colours, turning Wasikowska in a brush of acidic aggressive colour that rips through the images. Her presence creates a visual unbalance, destroying the harmony of even the more idyllic and pastoral images, attractively shot by Andrij Parekh.

  Bovary is thus incomprehensible to herself, to the audience and to the physical world she inhabits. A colourful insect one moment, a tropical flower the next, she emerges from the classically romantic settings of the rest of the film. The distance that Barthes imposes on her protagonist makes this adaptation, certainly not perfect or even particularly exciting, but unequivocally different. When one speaks of a work that has been so often adapted, a little surprise and a little variety of intentions and approach is much more than what a great majority of prestige literary adaptations have to offer.


quinta-feira, 30 de julho de 2015

MADAME BOVARY (2014) de Sophie Barthes



 O que é que faz de um filme uma adaptação de uma obra de literatura? Uma transladação eficiente das intenções do autor literário para uma plataforma cinematográfica? Uma exploração nova por parte do autor do filme sobre a obra, criando uma obra independente da sombra do livro em si? No caso de uma obra como Madame Bovary, uma representação da psicologia das figuras literárias?

 Não quero afirmar desde já que a adaptação de Sophie Barthes da obra máxima de Gustave Flaubert, é uma boa adaptação literária em filme, mas quero desde já apontar para o facto que o filme desta realizadora (a primeira mulher a filmar esta tão adaptada obra) de certo modo falha todos os parâmetros acima referidos.

 Mas falha de um modo fascinante, não parecendo de todo ter como sua intenção suceder a nenhum desses parâmetros.

 Isto é possibilitado, em parte, por um guião que corta partes aparentemente essenciais da obra, como o facto de eliminar o final do livro, ou mesmo a filha do casal no centro do enredo. O outro elemento fulcral para esta minha conclusão acerca do filme é o modo como o filme observa e representa a figura central de Emma Bovary.

 Nas mãos de Barthes e da sua atriz principal, a australiana Mia Wasikowska, Emma Bovary nunca deixa de ser uma completa cifra para a audiência, algo a ser observado à distância com um olhar e motivações impenetráveis tanto pelo observador como, em certos momentos, pela própria personagem. Um momento em que Wasikowska se olha n um espelho lembra um momento semelhante em New York, New York (1977) em que Martin Scorsese dirigiu Liza Minnelli, indicando-lhe que apenas pensasse em não pestanejar os olhos, criando um olhar vítreo e impenetrável no produto final do filme. Tal como nesse momento do filme de Scorsese, persiste sobre Madame Bovary uma aura de estranheza em relação à sua figura central assim como uma aparente relutância de todos os envolvidos para interpretar, explorar ou resolver a personagem de Emma Bovary.

 O trabalho de Wasikowska é essencial no sucesso de tal retrato distante e essencialmente superficial de uma tão célebre figura literária que lembra o seu semelhante trabalho em Jane Eyre de Cary Fukunaga. Enquanto nesse filme, a atriz parecia conter no seu olhar uma vida interior nunca expressa pelas suas ações, neste filme o contrário existe, sendo que temos uma figura cheia de ações e reações externas cuja interioridade nos é completamente inacessível. Muitos dirão que isto é um defeito inabalável do filme, mas para mim uma interpretação assim confere algo especial ao filme, algo que o separa da infinidade de adaptações banais desta mesma obra que se espalham pela história do cinema como ervas daninhas a tentarem fazer-se passar por rosas.

 Ao negar a exploração ou mesmo a visibilidade ou mera compreensão de Emma, o filme nunca cai nos erros de simplificação ou interpretação forçada que atormentaram e afetaram outras mais célebres adaptações da obra de Flaubert, como o sufocante trabalho de Claude Chabrol de 1991. A distância que mantém da sua protagonista é também imensamente ajudada pelas escolhas textuais brevemente mencionadas anteriormente, mas também pelas escolhas de Barthes no que diz respeito ao restante trabalho de ator do filme, assim como aos aspetos formais do filme.

 Uma das escolhas mais discutidas da realizadora, foi o facto de esta ter decidido usar um elenco com sotaques deliberadamente díspares, não existindo, de todo, o normal sotaque inglês de filmes de época. Pondo logo de parte o facto que este é um filme passado em França no século XIX, e não em qualquer país de língua inglesa, há que observar o modo como tal escolha contribui para o jogo de distanciamento que parece caracterizar o filme. Isto é particularmente evidente quando temos cenas com um elenco maioritariamente a utilizar sotaques americanos, alguns deles com um toque de contemporaneidade que parece sempre chocar com todo o ambiente envolvente. A própria linguagem parece distanciar-se da narrativa, das personagens, da própria realidade em que os eventos do filme se desenrolam.

 Esse distanciamento da realidade dentro do próprio mundo do filme nunca é melhor expresso do que quando observamos os figurinos de Emma Bovary em relação ao mundo que a rodeia. O trabalho dos figurinistas deste filme (Christian Gasc e Valérie Ranchoux) em obras como Adieux à la Reine, deixou-me no passado bastante insatisfeito, mostrando um certo amadorismo e estilização desajeitada que nunca pareciam corresponder às produções onde se inseriam. Tal não acontece aqui.

 Visualmente, é impossível não olharmos para a figura de Emma sem nos apercebermos da sua desconexão com tudo o que a rodeia. Enquanto o resto do elenco do filme parece trancado numa estética de elegante reprodução de vestuário de época, um tanto ou quanto banal e tradicional, a figura de Wasikowska emerge constantemente como um figura estranhamente estilizada e colorida no meio do filme. As suas roupas parecem emergir de um filme completamente diferente, especialmente no que diz respeito à cor, sendo que em quase todos os planos em que se encontra presente, a figura de Wasikowska rasga a composição como uma pincelada de cor ácida e agressiva, quebrando e desequilibrando até as mais idílicas e pastorais imagens atraentemente capturadas pela fotografia de Andrij Parekh.

  Bovary é assim quase que incompreensível tanto para si, como para a audiência, como para o próprio mundo físico que a rodeia. Ora um insecto colorido ora uma flor tropical no meio de uma paisagem classicamente romântica. A distância, até visual, que Barthes insiste em impor à sua protagonista faz desta adaptação, não perfeita ou particularmente excitante, mas faz dela uma adaptação diferente. Quando falamos de uma obra que já foi tantas vezes adaptada, um pouco de surpresa e um pouco de variedade de intenções é muito mais do que a grande maioria deste tipo de adaptações de obras literárias de prestígio tem para oferecer.