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terça-feira, 15 de março de 2016

Hit Me With Your Best Shot: ATONEMENT (2007)


Este post foi escrito para a série Hit Me With Your Best Shot do blogue The Film Experience de Nathaniel Rogers, sendo que é aqui apresentado em inglês, ao invés do que é usual neste blogue. 




First of all, I’d like to apologize for the length of the text, but Atonement is a film that means a lot to me (as any Portuguese readers can attest in my review) and I couldn’t pass the chance to talk about my appreciation of it, and especially my love for the shot I picked, the film’s ending and one of my favourite actresses. Before all that though, here are 10 runner-up shots in chronological order:













As you can see, Atonement is a gorgeous film, beautifully shot by Seamus McGarvey under the direction of Joe Wright and designed by Sarah Greenwood and Jacqueline Durran, whose sets and costumes are an essential part of the film’s overall success. I have to confess that despite their brilliance, I chose a shot that features neither sets nor costumes. I know this may be considered an obvious choice for best shot but here it is:

My Best Shot

I understand many fans of Ian McEwan’s novel truly despise the ending conceived by Tom Stoppard and Joe Wright, which allows Briony to publically confess the crimes that have consumed her life, while in the novel such unwavering and unexpressed guilt follows her unto her grave, with the book, posthumously published, acting as her titular act of atonement. While it’s true that the film drastically changes this finale, by ending on an interview where Briony explains her intentions with the publication of her, Cicely and Robert’s story, and confesses both to the world and to the audience the way in which she destroyed their lives through lying, I would like to believe that such changes don’t perniciously affect the film or make it a less complex work, rather the contrary.

You see, to me, Atonement is not a film about a love story, and not even about guilt, but rather a film about storytelling itself, its powers, and the personal tragedy of this particular author. That’s why I’m never bothered by the extremely self-conscious construction of so much of the film’s mise-en-scéne, since that same construction is part of the film’s thematic centre. The finale exacerbates this but also becomes, in its own special way, a celebration of happy endings as a narrative mechanism. Is it wrong to show kindness and forgiveness to one’s own fictitious characters? I find it’s precisely in that artificial construction and falseness of the final narrative coup that Atonement finds its most transcendent and human dimensions.

Considering such a heartfelt defence of happy endings it seems fitting that the film’s authors decided themselves to show generous empathy and forgiveness towards their protagonist, a fellow storyteller, allowing her to find some solace in life. And it isn’t as if this conclusion to Bryony’s story is of particular joyfulness and absolute catharsis, after all she’s slowly succumbing to dementia and it’s quite clear that she has spent her entire life under the strenuous and crushing burden of her guilt.

I’ve talked about the ending of the film’s narrative, but I’ve not even mentioned anything about my specific pick for best shot, that gorgeous close-up of Vanessa Redgrave’s face.
Speaking less about narrative and more about form, I do believe this is one of Atonement’s most beautiful visuals. It’s true that the film is filled with gorgeous images, like those countless shots of a summer afternoon where the bodies seem to irradiate heat, those almost operatic landscapes of wartime devastation, or the severe and purposeful shots of Briony swiftly moving through white hospital corridors. Nonetheless, it’s difficult to deny the power of the human face as an image. My favourite director, Ingmar Bergman, for example, built great part of his style on that very same understanding of the visual power of a human face, shot in close-up and confronting the audience with its humanity.


Speaking of Bergman, this shot reminds me a great deal of the final image of Harriet Andersson in Summer with Monika, one of the best films of the Swedish master’s early work. Like in the 1953 film, the audience is confronted by the direct look of the film’s protagonist as the space around her disappears into shadows, leaving the public with no escape but to confront those piercing eyes. Despite this visual similarity, the effect of both shots is quite different, mostly due to the work of its actresses. While Andersson turns that look into something like a defiant confrontation of her audience, Redgrave is doing something much more akin to a tender plea for empathy, understanding and mercy. In Briony’s eyes we don’t see defiance, but a need for forgiveness, for some sort of absolution before her sickness drowns her in the waters of oblivion. There’s something seismic about the simplicity of such an image, something powerful that transcends the film’s artificial construction, justifying it at the same time it explodes the entire edifice of the narrative with a moment of searing painful humanity.



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

ATONEMENT (2007) de Joe Wright

 Hoje estreia Pan, o sexto filme de Joe Wright. Com este texto, continuo uma reflexão sobre os seus anteriores filmes, tendo já falado sobre o seu primeiro filme.


 Expiação, a adaptação de Joe Wright do célebre livro de Ian McEwan, é aquilo que usualmente denominamos de romance trágico. Normalmente, eu diria, que todos os mais bem-sucedidos romances têm um toque de tragédia, sendo que mesmo quando deixamos os amantes juntos e felizes no final de uma obra, há sempre a sombra do tempo e da morte que se abate sobre o seu amor. Quando a tragédia encerra o romance na história, como na opressivamente célebre tragédia de Shakespeare sobre Romeu e sua Julieta, temos, pelo menos, algo belo eternamente preservado, sendo que os amantes morrem na plenitude da sua paixão. Neste filme há algo que parece exceder mesmo a pontuação trágica de romances como esse que referi e é algo que se evidencia especialmente no seu final, sendo que é impossível falar deste filme sem referir seu fim (quem temer spoilers não deverá ler este texto). Em Expiação, temos uma elegia ao poder da ficção em si, e aí contido temos um romance, cuja verdadeira tragédia, mais que a morte, parece ser a de não ter a manhã de felicidade que marca a história de amor dos amantes de Verona, aqui há algo de absolutamente incompleto, apenas curado pela imaginação piedosa do autor, tanto do filme como a autora dentro da própria narrativa.

  A narrativa em si gira à volta de três principais figuras, Robbie (James McAvoy), um homem falsamente acusado de um crime que não cometeu por Briony Tallis (Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave), uma jovem aristocrática e imaginativa cuja irmã Cecilia (Keira Knightley) se tinha acabado de envolver com Robbie na noite em que os eventos decisivos para toda a narrativa ocorrem. Não é só o protagonismo que é tripartido, sendo que o filme está rigidamente separado em três secções bastante distintas com uma coda que encerra o filme e onde nos apercebemos que toda a história que fomos acompanhando é em si uma ficcionalização da autora protagonista, aqui concretizada sob o olhar romântico e exuberante de Wright. De certo modo temos aqui uma dose de ficção que se revolve sobre si mesma numa espécie de celebração do poder da imaginação, assim como uma mostra do seu horrendo poder destrutivo.

  No seu âmago, mais que uma história de amor, Expiação é uma exploração da estratificação social ossificada numa Inglaterra de outrora, e isto nunca é mais percetível que na primeira secção do filme, passada na casa da família Tallis durante um dia e noite de Verão durante o período que antecedeu a segunda Guerra Mundial. Robbie é o filho de uma das cozinheiras da família, e sua educação foi assegurada pelo nunca visto patriarca num gesto de benevolência aristocrática. Apesar da acusação de Briony que traça o seu destino, uma perversa aura de elitismo consome todo o enredo, como se o verdadeiro crime de Robbie não fosse a agressão sexual com que é acusado mas a ousadia de tocar ou almejar a algo que transpõe os limites sociais, que apenas a caridade condescendente das classes altas se pode atrever a traspor. É aqui também que Wright se permite ser mais desenfreadamente exuberante na sua abordagem, movendo a câmara em delirante movimento pelos magníficos cenários da casa, e filmando tudo com uma exposição elevada que tem a consequência de tornar a imagem quase que impressionista na sua luminosidade e cor ao mesmo tempo que opressivamente quente, como que transpirando com o calor desse dia de Verão. A música de Dario Marianelli, que vai enfatizando as proporções quase divinas da escrita de Briony ao usar uma máquina de escrever como instrumento, mescla-se com este movimento e faz de Briony algo de ameaçador e estranhamente puro, como um fantasma vestido de branco que assombra todos os procedimentos do filme. É na sua observação e nas suas palavras que a tragédia é despoletada e Wright não consegue ser mais óbvio no modo como isto salienta, especialmente em sequências onde cenas são repetidas de dois pontos de vista separados.

 No segundo capítulo de desenvolvimento narrativo, temos Robbie como claro protagonista, aqui como um soldado em França durante a 2ª Grande Guerra. Sua figura é a de um herói trágico que tenta regressar a casa, como que se movendo numa odisseia pelos horrores da Europa destruída em direção a Dunkirk onde se situavam os navios para regressar a Inglaterra. Se a exuberância romântica de Wright tem o seu mais intenso nível de expressão no capítulo anterior, aqui é o seu dramatismo e simbolismo melancólico. De uma aguarela luminosa, o visual do filme passa a ser o de paisagens cinzentas e desoladas, onde momentos fugazes de beleza, como um campo de papoilas excessivamente simbólicas, apenas servem para estabelecer um desesperante contraste com o horror do resto da narrativa. É aqui que Wright coloca o seu mais famoso feito técnico, ao filmar toda a praia de Dunkirk num plano sequência que substitui os movimentos desenfreados e rapidamente editados da primeira parte, com uma vagarosa precisão tão fatalista no seu movimento como a história no seu conteúdo. É durante flashbacks que aqui aparecem, que o lado mais afetado e nostálgico de Expiação começa a emergir, assim como a sua curiosa frieza, revelando um encontro que deveria explodir em emoção, numa manienta troca de palavras entre duas figuras tão reprimidas nas suas emoções como rígidas na sua apresentação e existência.

 Longe da nostalgia de um Verão idílico mas perverso, e da tragédia dramaticamente expressiva que marcam os dois primeiros terços do filme, a terceira porção narrativa posiciona-nos, de novo, com Briony como nossa protagonista. Aqui ela é uma enfermeira sediada em Londres durante o auge da Guerra, atormentada pelas consequências que a sua mentira despoletou. O movimento e ritmo da primeira porção voltam a se manifestar aqui, como que seguindo Briony pela sua interpretação de si própria, mas ao invés de beleza e euforia, aqui apenas dor e espetáculos de sofrimento são revelados pelo estilo. Dois momentos de pausa, um deles marcado por um soldado francês moribundo (Jeremie Renier) e o outro por um encontro entre Briony e os enfurecidos amantes que protagonizam o romance central, são de referência, não pela sua calma ou serenidade mas pelo modo como estilhaçam qualquer inocência e quase que cospem a culpa de Briony na sua face. Se outrora Wright retratou Briony como uma presença quase divina, aqui ela é quase criminosa e a audiência quase é convidada a participar na sua martirização.

 Nestes três capítulos regista-se uma opulência que apenas se pode chamar de simples, ou subtil, quando comparada com a espetacularidade teatral de Anna Karenina na filmografia de Wright. O design, tanto como o texto, contribui para a noção de três secções separadas e de vários níveis de ficção. A casa dos Tallis é primeiro avistada sob a forma de uma casa de bonecas, um brinquedo onde as crianças são o deuses do mundo, e os seus interiores quase que reforçam esta artificialidade latente ao brinquedo. Há uma estratificação absoluta no próprio edifício, onde as áreas de passagem são opressivas e em madeira escura, onde os quartos e áreas de repouso são explosões de padrões pálidos que quase ameaçam o kitsch, e áreas da criadagem, onde as paredes são pintadas de verde, quase lembrando hospitais na sua simplicidade contrastante. As paisagens de guerra são como paisagens apocalípticas pintadas com uma delicadeza que desafia a sua destruição, tornando o espaço físico numa extensão da desolação humana, completamente removido do kitsch aristocrático, e da simplicidade da reprodução estudada dos ambientes exatos do hospital da terceira secção narrativa. Mas, para além dos magníficos cenários de Sarah Greenwood e da fotografia de Seamus McGarvey, também os figurinos de Jacqueline Durran são essenciais, criando um mundo de romantismo extremo, que desafia o próprio verismo histórico com criações como o vestido verde tão celebremente usado por Knightley e cuja delicadeza é obtida a partir de cortes a laser absolutamente impossíveis na época. Com o trabalho de Durran, Cecilia é uma constante presença saída de uma Vogue da época, Robbie um herói romântico caído em tragédia e Briony ora é uma visão de hipócrita pureza na infância, ora é uma mulher congelada no tempo do seu crime, em que os únicos traços de cor forte, como uma capa do uniforme de enfermeira, apenas lhe conferem a imagem de um anjo de morte marcado pelo vermelho sanguíneo.

 É claro que também o elenco é de louvar, sendo esta, talvez, a melhor coleção de atores que Wright já reuniu. Os três protagonistas são particularmente bem interpretados, havendo diferenciações suficientes nas suas abordagens para não tornarem inverosímil a revelação de falsidade que marca o final do filme. Keira Knightley é de particular relevo, quando falamos dos amantes, pontuando a sua elegância de estrela de cinema e carnalidade subliminal, com momentos de feiura e snobismo irrevogável, como se num retrato glamoroso e elegíaco de uma irmã, algumas impressões de elitismo repugnante permanecessem. Mas é no papel tripartido de Briony que Expiação tem o seu mais valoroso sucesso, obtendo em Ronan, Garai e Redgrave, três visões de uma mulher tão distintas como semelhantes. Ronan é uma visão quase diabólica, injetada com a teatralidade estilística da sua parte da narrativa, Garai é rígida como que imobilizada pela culpa e sempre pronta à martirização que o texto impõe sobre a sua pessoa e, finalmente, Redgrave é avassaladora, despojada das escolhas estilísticas das suas antecessoras, ela transmite a corrosão da culpa assim como o crescimento pessoal em apenas alguns momentos finais, transmitindo, no seu olhar, toda uma vida de arrependimentos.

 Na final revelação que o que até agora vimos é uma ficcionalização feita por Briony sobre sua vida, Wright e Christopher Hampton, que adaptou o texto, tornam o epílogo numa entrevista televisiva, direta e sem grandes devaneios formais. Os amantes nunca chegaram a viver unidos depois da noite fatídica, sendo que ambos morreram antes de tal acontecer, e assim a autora culpada da sua separação criou um final feliz, e tudo o que vimos foi a sua história baseada na realidade por ela percecionada e investigada. Uma história escrita, contada e depois filtrada pelo ouvinte, aqui Wright, que tornou o texto introspetivo da prosa de McEwan num exercício de observação romântica e estilizada, acrescentando níveis de ficção que apenas parecem reforçar o papel que a imaginação e criar de historias têm nesta narrativa.

 Expiação, nestes derradeiros momentos, torna-se uma das mais belas defesas dos finais felizes e sua reconfortante falsidade que alguma vez foi posta em cinema. O artifício e distância que tanto parecem existir no filme, revelam-se como a distância da ficção da realidade, mas não é por isso que, pelo menos para mim, este final tem menos impacto. A verdadeira tragédia do filme acaba por não ser a do romance, mas a de Briony, que olha para nós, envolta em trevas como Harriet Andersson em Mónica e o Desejo, e nos confronta com a sua tentativa de expiação. Wright passa dessa face, marca de maior sinceridade e intimidade em todo o filme, para mais artifício distante, um final que sabemos ser pura ficção dentro de mais ainda ficção, mas que, por momentos fugazes, parece conceder alguma felicidade tanto às suas personagens como à audiência. E assim uma tragédia romântica acaba, não com a morte dramática, mas com uma mulher em final de vida a tentar redimir os seus erros de juventude, e um final feliz. Há quem chame a este filme superficial e distante, mas é exatamente nessa superficialidade que expiação encontra a sua transcendência, tornando a imagem forçosamente idílica de dois amantes na praia, numa visão de pura superficialidade e falsidade, celebrando o poder de tais coisas e encontrando na ficção e na falsidade, a derradeira manifestação da emoção e da piedade de sua protagonista, Briony, a autora de Expiação, um livro fictício inserido num livro fictício tornado filme fictício mas não por isso menos impactante e avassalador na sua emoção.