Mostrar mensagens com a etiqueta Festa do Cinema Chinês. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Festa do Cinema Chinês. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

ZHIQU WEIHUSHAN (2014) de Tsui Hark



 Antes de mais, há que dizer que o final de A Tomada da Montanha do Tigre de Tsui Hark é uma das mais bizarras conclusões de que tenho memória. O filme retrata, na maioria da sua duração de 141 minutos, uma tomada militar da dita Montanha do Tigre, que estava tomada por bandidos em meados dos anos 40 na China. O filme é adaptado de um conto de, supostamente, uma grande popularidade e fama, uma glorificação em forma quase mítica das forças militares da República. Mas o final, longe de ser a conclusão de tomada, tendo esta já sido vista, preocupa-se com uma figura apresentada no início do filme e brevemente vislumbrada pelo meio do mesmo. Trata-se de um estudante chinês a viver nos EUA e que, numa noite de Passagem de Ano, vislumbra uma antiga versão desse mesmo conto na televisão. Aí feita em forma de ópera chinesa. Depois dessa noite, vemo-lo viajar de volta a casa à China, onde o rapaz visita a montanha onde decorreram as ações principais do filme e, no final do mesmo, regressa a casa da sua avó, onde, na bizarra companhia dos espíritos dos heróis militares da Montanha do Tigre, celebra o Ano Novo Chinês. Conjetura na sua mente uma versão dos acontecimentos finais da tomada que consegue ser ainda mais hiperbólica e maravilhosamente exuberante que o que realizador ainda há momentos havia mostrado à sua audiência. O filme termina mesmo com imagens da versão em ópera do conto, assim como algumas imagens dos homólogos reais dos soldados que aí lutaram.

 Tendo-me dado ao trabalho de investigar um pouco estes estranhos momentos finais, apercebi-me que na figura do estudante Tsui Hark se retratou de modo vagamente autobiográfico. Tal como essa estranha figura contemporânea, que vai aparecendo por entre este épico histórico, o realizador foi um estudante em Nova Iorque, ele nos anos setenta, e também lá viu pela primeira vez essa versão operática da tomada e se tornou seu irreverente fã. Também nessa cena é, talvez, possível verificar a influência do estúdio no filme, pontuando a conclusão com um pouco de indubitável glorificação e celebração patriótica, mas que, nas mãos do realizador, é mesclada com uma celebração do cinema em si, especialmente do cinema inerentemente chinês.

 Tsui Hark, há que lembrar, pertence à corrente do cinema de ação de Hong Kong, onde a ação é hiperbólica, operática e preenche todo o filme num modo poucas vezes visto no cinema de ação de outras nacionalidades. É, devido a isso, fácil dizer que o seu estilo é algo inerentemente chinês, algo que quase segue a tradição da singular ópera chinesa, e com este filme ele pega no seu estilo e cria a sua própria versão bombástica deste tradicional e célebre conto chinês. No entanto, ao longo do filme, apesar de todo o exagero e gritante exuberância, existe uma certa modulação do estilo normal de Hark, sendo que talvez no final tenhamos uma mostra da expressão máxima dos devaneios estilísticos do realizador, por momentos mostrados sem o filtro temperado e mais convencional que, talvez, tenha sido imposto pela produtora no filme final. O fim, por muito bizarro que seja, é um momento de fascinante turbilhão entre duas abordagens ao filme, três se considerarmos as imagens da versão antiga do mesmo conto, uma celebração das possibilidades e uma exuberante desconstrução dos conflitos de interesse do filme.

 O filme, se nos afastarmos desse final por momentos, é cinema tornado espetáculo hiperbólico. Tudo no filme, desde a fotografia à banda-sonora, explode com um excesso delicioso, destruindo qualquer sombra de subtileza e tornando o filme numa maravilhosa experiência de cenas de ação, cada uma mais improvável e classicamente emocional que a outra. Há uma enorme simplicidade no filme, o que por vezes prejudica a obra, que se estende especialmente ao texto e ao trabalho dos atores, reduzindo as personagens e a trama do filme em algo semelhante a um caótico e explosivo cartoon. O principal vilão do filme é, aliás, um senhor de guerra ridiculamente grotesco, com um falcão de estimação que responde às suas ordens e uma esmagadora silhueta tão exagerada como impressionante. O herói, por outro lado é interpretado por Zhang Hanyu e é simplesmente, um brilhante herói de ação, carismático e impossivelmente adequado ao estilo excessivo e estilizado do filme. A maioria dos atores está nesse apropriado registo de teatralidade exuberante, mas o protagonista é, sem dúvida, o píncaro do elenco, que, com personagens tão simplistas, acaba, infelizmente, por se tornar um pouco aborrecido e até cansativo. O elemento humano e narrativo é, eu diria, o maior problema do filme que, estando preso a uma narrativa histórica e mítica de heróis e vilões, parece ter pouco interesse na criação desses mesmos humanos.

 Tirando esse significativo detrator, assim como a duração excessiva do filme e alguns efeitos digitais pouco convincentes, a Tomada da Montanha do Tigre, é simplesmente delicioso. Para começar, é lindíssimo, com uma fotografia imensamente estilizada em que a luz artificial é usada em desavergonhada teatralidade, e onde os cenários e figurinos são requintadamente criados de modo a oferecerem uma experiência de extasiante festim visual à sua audiência e em que até a paisagem sonora é maravilhosamente excitante. O ritmo, por vezes, mostra um pouco de momentos mortos sem grande sentido narrativo ou estrutural, mas a experiência em geral é uma de simples e leve êxtase de cinema de entretenimento.

 É um filme que celebra a teatralidade da sua espetacular visão, não se preocupando com complexidades nem subtilezas, avançando bombasticamente contra a audiência e deliciando aqueles que estiverem dispostos a embarcar nesta viagem peculiar pelos excessos do cinema de ação de Hong Kong tornado mito patriótico chinês. Há uma elegância e sofisticação na execução e simples divertimento na apresentação de todo o excesso que torna o uso de fórmulas e clichés classicistas, algo integral e inseparável da experiência do filme. Pode não ser dos melhores trabalhos do seu realizador, em parte pela clara interferência dos produtores e estúdios na sua visão, mas a Tomada da Montanha do Tigre, não deixa por isso de ser uma peculiar e maravilhosamente hiperbólica experiência de cinema como espetáculo de massas.


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

AMERICAN DREAMS IN CHINA (2013) de Peter Chan



 Antes de mais, peço desculpa a qualquer pessoa que esteja a ler isto e que tenha, de algum modo por mim desconhecido, apreciado ou gostado deste filme.
´
 Continuando…

  Quando os créditos finais deste filme se desdobram é possível verificar o uso de fotos de pessoas reais que parecem corresponder às personagens do filme, revelando O Sonho Americano na China de Peter Chan como um filme baseado em factos reais. “Revelando” é a palavra errada, pois isso foi apenas uma revelação para mim que não me tinha grandemente informado em relação ao filme antes de o ver. Se tivesse, não sei se me tinha sujeitado a tal tortura desumana, sendo que aquando me apercebi desse factoide crucial, apenas tive a vontade de felicitar o cinema biográfico em geral. Mais uma vez mostras a tua malvadez meu velho amigo, e mais uma vez consegues fazer com que eu queira arrancar os meus olhos durante um filme. Bom trabalho cinema biográfico!

 O Sonho Americano na China retrata três amigos que se conheceram na universidade e que fundam uma escola de inglês na China, com o intuito de ajudarem os seus alunos a passarem o teste que lhes permite estudarem nos Estados Unidos da América. Dos três, apenas um deles consegue realmente visitar esse tão desejado país, no entanto, se há um protagonista no filme, ele é Cheng Dongqing (Huang Xiaoming), um rapaz de um ambiente rural que tem uma espécie de trajetória narrativa de Cinderela, sendo que o filme começa com ele e termina com um discurso inspirador por si declamado. Esse discurso vem como modo de finalizar uma parte do filme em que os três amigos e parceiros de negócios se veem frente-a-frente com acusações de ajudarem os seus alunos a terem vantagens injustas e ilicitamente conseguidas para passarem os testes americanos. Essas sequências são dos momentos mais marcadamente ridículos e incompetentes do filme, sendo apresentados com uma seriedade absoluta enquanto parecem ser o resultado de um produtor ter pedido a um amador realizador uma cópia de The Social Network, quando esse dito realizador apenas tinha visto filmes americanos vencedores de Razzies.

 O filme é pejado de clichés, desde o trabalho pueril de todo o elenco, que nas partes passadas na universidade são gritantemente mais velhos que as suas personagens, ao desastre apocalíptico que é a montagem, direção e texto sobre o qual o filme se constrói. O filme, aliás, é mais uma peça de propaganda que o filme inspirador com toques de comédia que parece declarar ser, glorificando a ambição dos estudantes chineses e dos três amigos e denegrindo os EUA. Numa parte crucial do filme é revelado que, apesar de tantas vezes chumbar o teste americano, o protagonista é um génio capaz de memorizar tudo que lê, sendo que era apenas inferior quando comparado com os restantes colegas chineses e a sua imensa superioridade face aos americanos. Eu não tenho presente interesse em criticar ou explorar o lado mais declarativamente político deste filme, mas como um filme de propaganda ideológica, o filme é um desastre. Existem filmes de propaganda imensamente sofisticados e que são verdadeiras obras-primas de cinema, mas também existem filmes tão simplistas, medíocres e incompetentes que alguém lhes chamar cinema é um insulto a todo o legado dessa mesma arte. Adivinhem qual destas duas descrições se melhor aplica ao filme de Peter Chan.

 Desde os primeiros momentos que a montagem do filme parece explodir numa energética e desenfreada tentativa de injetar dinâmica ao filme, sendo que é dos trabalhos de montagem mais imbecis e detestáveis que vi nos últimos anos, tornando até os momentos mais dramáticos do filme em algo semelhante a uma paródia. Um momento em que um casal amoroso se vê, enquanto os dois estão em escadas rolantes, em sentidos opostos, é particularmente alarmante, parecendo que o editor do filme teve um ataque psicótico enquanto editava a cena e simplesmente decide cortar do modo mais formuláico e cliché possível a cena, mas incluindo uma impetuosidade idiótica que parece ser a mais característica marca estilística do filme. A fotografia segue o mesmo caminho com uma infinidade de floreados mal conseguidos e a música é um desastre de impossível descrição, parecendo copiar o cinema americano mas com um toque de dramatismo esmagador e forçado que dilacera até os menos catastróficos momentos do filme.

 Há uma tão esmagadora e indescritível quantidade de clichés e fórmulas estúpidas presentes neste filme, que quase parece ser uma paródia subversiva do tipo de cinema americano que se desenvolve à volta de histórias inspiradoras e factos verídicos. O filme parece quase criar um catálogo de géneros cinemáticos fortemente associados à produção de Hollywood, mostrando-os na sua suprema incompetência e ridículo como a comédia universitária, a comédia romântica, o romance dramático, o drama empresarial, etc. Em relação à componente romântica do filme, eu gostaria de chamar a atenção para o repreensível e repugnante sexismo que afeta todo o filme, sendo que a relação entre Cheng e a sua namorada é de particular horror.

 Mas, apesar de todas essas possíveis referências ao cinema americano, havendo mesmo uma cena em que eu penso que o realizador estava a referenciar Giant de George Stevens, o filme não tem qualquer inteligência ou capacidade crítica para oferecer tal subversão de ideias. Por variadas vezes no filme, parece que vai haver uma exploração relativamente interessante sobre a relação ora aspirante ora antagónica entre a China e os EUA. Mas o filme nunca segue tal caminho, apenas se preocupando em, no final, mostrar a superioridade chinesa num discurso enfaticamente ridículo, e que poderia ter sido criado a partir de uma colagem de discursos semelhantes numa infinidade de outros filmes.

 Numa nota final, quando vi que o diretor de fotografia deste filme foi Christopher Doyle, o génio por detrás de algumas das mais magníficas imagens do cinema mundial das últimas décadas, eu senti que tudo o que sabia sobre cinema se desfez num momento de horror. Este filme destruiu-me, ofendeu-me, insultou-me com a sua incompetência e estupidez e ainda por cima teve de me destruir a imagem mística e maravilhosa que tinha de Doyle. Odeio tanto este filme. Só desejava que Laurence Fishburne aparecesse agora à minha frente, e me oferecesse um comprimido para eu esquecer a existência desta pestilência cinematográfica



terça-feira, 15 de setembro de 2015

HUANG JIN SHI DAI (2014) de Ann Hui



 Quando decidi ver o novo filme de Ann Hui, A Era de Ouro, apresentado na Festa do Cinema Chinês que, de momento, decorre em Lisboa, não tinha grande ideia do filme que me esperava. Sabia que tinha no papel da protagonista a atriz Tang Wei, cujo trabalho em Sedução, Conspiração de Ang Lee lhe garantiu a minha eterna devoção, e também tinha uma vaga ideia que era um filme biográfico sobre uma autora chinesa do século XX. O filme é, de facto, uma obra biográfica sobre a celebrada escritora chinesa Xiao Hong, cujo trabalho era para mim completamente desconhecido, e depois de ver o filme, há que dizer, me mantenho na mesma condição de ignorância. Sei agora da sua importância e relevância artística, intelectual e literária, mas não tenho que agradecer tal coisa ao filme mas sim à pesquisa que fiz depois de o ver, sendo que com quase três horas, o filme pouco faz para elucidar o espetador acerca da sua figura central.

 Não se pode, no entanto, acusar o filme de não conter em si informação e facto histórico, pois disso o filme tem em sobra, mas mantenho a minha opinião de que o filme pouco ou nada tem a dizer sobre a sua figura central cuja breve vida conteve uma infinidade de amizades com outras importantes figuras literárias, fugas do país, o sofrimento da guerra, uma coleção de admiradores numerosos, entre outros, sendo que quase tudo isso está, de certo modo, contido no filme. Desde o início que o filme começa, de maneira clara e direta, a bombardear o espetador com factos, aqui na forma da protagonista, filmada a preto-e-branco, a olhar diretamente para a câmara e a descrever factualmente dados sobre a sua vida, incluindo detalhes da sua morte. Depois disso passamos para um registo típico de um filme biográfico não fosse o constante uso de personagens secundárias a falarem diretamente para a câmara, dando mais informação ao espetador sobre a escritora no amago do filme. Esta técnica bastante surpreendente num filme deste malfadado género, mantém-se durante todo o filme, expondo Xiao Hong a partir dos olhares dos seus amigos, admiradores e família, e mantendo uma constante distância da mesma.

 Isto, mais do que fornecer qualquer tipo de retrato perspicaz da autora, cria uma confusão, talvez intencional, de informações, por vezes contraditórias, e que, apesar da sua claridade, criam uma sobrecarga imensa sobre o filme, que parece se perder por entre essa inundação de diálogo expositivo dirigido à audiência. Os intervenientes são, francamente, muito mais interessantes e bem definidos do que a protagonista, devido a isto e ao resto da abordagem do filme, o que permite a um exemplar elenco secundário injetar alguma vida neste filme, que com a sua estrutura e duração consegue testar a paciência do mais forte dos cinéfilos. Gostaria de especialmente louvar o trabalho de Yawen Zhu no papel de Duanmu Hongliang, um autor admirador de Xiao Hong e uma figura central no último terço do filme, que consegue capturar uma adoração apaixonante pela protagonista e é, talvez a única pessoa no filme, que realmente transmite a perda e melancolia que tanto impregnam a atmosfera da obra.

 No papel principal d’A Era de Ouro temos a, já referida Tang Wei. A sua contribuição ao filme é bastante curiosa. A atriz torna bastante verosímil o génio e coleção de admiradores da autora, personificando na sua presença um inegável carisma, beleza e inteligência. É fácil perceber porque é que todas estas pessoas se sentiriam atraídas como traças a uma chama por Xiao Hong, mesmo nos seus momentos mais petulantes ou abrasivos. No entanto, tudo isto é exclusivamente superficial, sendo que a atriz, tal como todo o filme, parecem querer manter uma distanciação colossal da vida interior da personagem histórica. Isto não seria necessariamente problemático não fosse o extremo foco do filme na vida pessoal da autora e visível desinteresse em explorar o seu trabalho ou importância a não ser em alguns momentos fugazes. Com três horas de melodrama histórico, e uma miríade de observações feitas sobre Xiao Hong, é impressionante o quão pouco sabemos sobre ela ou a honesta falta de empatia que, pelo menos, eu senti em relação à sua morte. A figura é fascinante e elusiva mas há uma opacidade irritante sobre si, que parece paradoxal ao interesse obsessivo no filme em catalogar cada movimento e momento da sua vida pessoal e emocional. Isto é tanto culpa da atriz, como do texto como da realizadora.

 Ann Hui cria aqui aquele que é talvez o seu mais ambicioso projeto, pelo menos em escala, virando as costas ao íntimos e simples estudos de uma realidade contemporânea que caracterizam muito o seu trabalho e virando-se para um épico biográfico de uma figura de aparente extrema importância e fama literária. A simplicidade de obras passadas é aqui substituído por floreados estruturais, como os atores a olhar para a câmara ou a utilização de ocasional texto no ecrã, que cobrem e decoram o que é, na verdade, um filme biográfico imensamente classicista. E seguindo esse classicismo, temos uma sólida mas banal e desinteressante concretização formal, sendo que apenas a fotografia tem algum interesse com o seu uso de cores fortes e composições precisas e clássicas. O filme é tão inegavelmente belo como é entediante e ineficaz.

  No final, talvez tenha sido a minha predisposição para detestar documentários ou a minha falta de familiaridade com o sujeito do filme que me levam à minha presente situação de insatisfação perante a obra, mas o facto é que não consigo encontrar grandes aspetos positivos no filme, mesmo que o considerando apenas como um filme e ignore toda a informação histórica na sua periferia. É uma obra de estranhos paradoxos, um melodrama sem dinamismo dramático, um filme obcecado com a vida privada mas que se mantém sempre distante da protagonista, uma montanha de factos, citações e informações que deixa o público tão desinformado como estava antes de ver o filme. A Era de Ouro é quase um ensaio académico à volta de Xiao Hong, que apesar de estar sobrecarregado de informação factual e histórica, parece se ter esquecido de mostrar qualquer perspetiva ou formular qualquer tese acerca dessa informação. Um filme ineficaz sobre uma celebrada autora e génio literário, que, infelizmente, não contém nem sombra de inteligência ou perspetiva artística, sendo apenas longo, enfadonho e ocasionalmente agradável nos seus visuais clássicos e bastante comuns.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

TUI NA (2014) de Ye Lou



 O novo filme de Ye Lou debruça-se sobre uma parte da sociedade chinesa poucas vezes vislumbrada no seu cinema nacional, observando a vida num centro de massagens em que todos os massagistas e até os donos são invisuais. Apesar de por vezes cair no moralismo e em alguns clichés de histórias inspiradoras, o filme preocupa-se mais com um retrato de um grupo de personagens do que com qualquer tipo de crítica social abrasiva ou qualquer tipo de narrativa bem delineada.

 Acompanhamos um grupo mais ou menos vasto de personagens, sendo que, devido à estruturação do início e final do filme, poderíamos designar o jovem Xiao Ma (Hiang Shuan) como o protagonista do filme. O filme, aliás, começa com uma narração acompanhada por imagens quase impressionistas sobre o modo como o jovem perdeu a visão num acidente que o deixou órfão de mãe. Pouco depois disto e de uma tentativa de suicídio, vemos o protagonista frequentar uma escola para cegos onde aprende a fazer massagens e depressa está a trabalhar no centro de massagens no centro do filme.

 Aí, a audiência e o protagonista, encontram o resto do principal elenco do filme, incluindo os donos do centro, o acanhado e muitas vezes silencioso Zhang Zongqi (Wang Zhihua) e o exuberante e carismático Sha Fuming (Qin Hao). Fuming acaba por tentar ganhar os afetos de Du Hong (Mei Ting), uma massagista que detesta os constantes elogios que lhe são concedidos pela sua beleza, especialmente quando vêm de Fuming a quem a massagista acusa de se apaixonar pelo conceito de beleza, que na verdade ele não consegue percecionar. Também temos Dr. Wang (Guo Xiaodong) e a sua namorada, Kong (Zhang Lei), que ainda não perdeu a visão por completo e que captura a atenção do jovem Xiao Ma. O protagonista acaba por virar as suas atenções para uma prostituta que visita como cliente, Mann (Wang Lu), originando uma das mais estranhas relações no filme tão íntima como desconfortável.

 O filme é mais uma Anatomia de Grey que um filme inspirador de prestígio, fugindo a qualquer retrato santificado e forçosamente inocente das suas personagens cegas e abordando-as com uma intimidade quase confrontacional. Apesar de quase dignas de telenovela, as interações entre as personagens são refrescantes no modo como o realizador não desvia o olhar da sua carnalidade, fisicalidade e feiura. Este não é um filme de personagens agradáveis e afáveis, mas sim um melodrama com intenções realistas e um elenco de louvar que incorpora em si uma mistura de atores profissionais e amadores, sendo que Hiang Shuan e Qin Hao são de especial atenção, criando retratos de palpável desespero e necessidade no centro do filme.

 Esta faceta de melodrama abrasivo é tão peculiar e interessante como é muitas vezes simplista e cliché, sendo que o seu tratamento das personagens femininas é particularmente desconfortável. Louvo o filme pelas suas representações implacáveis de sistemática agressividade e até violência sexual, mas pergunto-me se o texto do filme não se perderá por entre as intrigas que cria e não acaba por cair no mesmo tipo de mentalidade nociva que parece caracterizar muitos dos comportamentos das suas personagens. Para além disso, muito do diálogo parece-me desastrado e forçado, o que, admito, poderá ser um problema de tradução, mas, não sabendo mandarim, é com essa impressão que fico.

  Mas se o texto é muitas vezes vítima de clichés, intenções dúbias e uma crónica falta de sofisticação, a forma do filme é algo completamente diferente. Usando a sua usual estética de câmara ao ombro quase intrusiva como meio de criar uma intimidade naturalista, Ye Lou aqui encontra um perfeito meio para brincar com a perceção subjetiva das suas personagens, criando expressivos ambientes sonoros e momentos de um caos visual impenetrável. A luz muitas vezes assume uma natureza completamente anti naturalista, sendo usada como modo de expressar tanto as emoções como a condição das personagens, especialmente no caso do protagonista acima referido. Os momentos de sexo são particularmente formidáveis, permitindo à câmara capturar algo entre o abstrato e o tátil, intimidade física como poucas vezes visualizada no cinema contemporâneo. O estilo, apesar de louvável na sua complexidade, parece, por vezes, arbitrário ou um pouco confuso nas suas intenções. Mais do que criar empatia ou relacionar a audiência com a perspetiva das personagens, a exuberância estilística destes momentos parece cair mais no alienamento dessa mesma audiência face ao drama humano.

 Também pegando nessas intenções dúbias e confusão de perceções e estilos, a presença de uma voz que narra o filme pode ser interpretada de dois modos, para mim. Primeiro poderá parecer uma escolha interessante que possibilita um visionamento do filme por uma audiência invisual, explicando tudo e dando imensa informação mesmo em relação ao que está a acontecer no ecrã. Por outro lado, poderá ser um modo de não perder as raízes literárias do filme, simplesmente adaptando o texto em narração. Ambas as opções são problemáticas, sendo que a presença de narração em filme é algo que tenho uma predisposição para detestar a não ser quando usada com algum propósito, de tal modo que não consigo pensar na narração que envolve todo o filme com qualquer soslaio de afeição.

 O filme é muito forçado na sua abordagem, deselegante e desastrado, mas, em certos momentos, há algo de magnificamente belo e íntimo que emerge da obra. Uma sequência durante a chuva é particularmente magnífica, transmitindo uma serenidade imensa, ao mesmo  tempo que vai passando por várias personagens, que são vistas por entre vidros cobertos pela água, e ouvidas por entre o som opressivo mas magnificamente relaxante da chuva. A intimidade e beleza de tais momentos faz esquecer alguns dos problemas do filme, cujo final é tão abrupto e dependente da narração como seria de esperar, contendo, no entanto, um momento tão problemático como sincero e belo, num sorriso do protagonista, acompanhado por uma figura feminina que ele parece ver por entre a escuridão da sua visão sobre a vida. Uma das obras menores do realizador, mas uma em que a sua visão, apesar de confusa, continua a transparecer em momentos de fugaz beleza e intimidade.

domingo, 13 de setembro de 2015

CIKE NIE YINNIANG (2015) de Hou Hsiao-Hsien



 O novo filme do mestre taiwanês Hou Hsiao-Hsien não é, decerto, para usuais fãs de wuxia ou para pessoas aliciadas por qualquer promessa de ação, vinda do título e alguma publicidade do filme. Aliás, eu diria que esta primeira aventura do realizador por um dos mais famosos géneros do cinema chinês é, acima de tudo, uma continuação das preocupações artísticas do seu realizador que aqui reinterpreta o género quase que por completo. O projeto teve cerca de 25 anos de desenvolvimento e 7 anos de concretização, e mais que um épico de artes marciais adaptado de um conto de Pei Xing, o filme é um poema cinemático da autoria de Hou Hsiao-Hsien e um dos seus mais belos e formidáveis trabalhos.

 Apesar de existir como que uma reinterpretação e, talvez possamos dizer, subversão do cinema wuxia, A Assassina contém em si uma narrativa bastante típica do género, cheia de intrigas políticas e pessoais, traições e vinganças. No centro de tudo isto está a figura de Nie Yinniang (Qi Shu), uma jovem assassina encarregue de matar Tian Ji'na (Chen Chang), o seu primo, outrora noivo, e presente governador de Weibo, uma região independente do controlo imperial chinês. Desta premissa inicial desenrola-se um enredo com mudanças de lealdade, auto reflexões pessoais, uma esposa vingativa, uma concubina perseguida por magia, numerosas, mas breves, cenas de ação. De todo este enredo origina-se um filme distante, alienante na sua estranheza, mas profundamente humano apesar da sua frieza. A obra final, longe de ser um usual tratamento do enredo segundo as tradições do género, é como uma pintura magistral, tão bela como distante, tão fascinante como, por vezes, inescrutável.

 Qi Shu regressa à filmografia de Hou Hsiao-Hsien de novo como a protagonista da sua criação, concebendo sob as direções de um mestre, aquele que é, talvez, o seu mais fascinante trabalho até agora. A protagonista é caracterizada principalmente por uma quase inabalável inexpressão, uma reticência que a atriz parece partilhar com o filme, também este reticente no que diz respeito a emoções e exposição, mas não por isso são ambos menos eficazes ou esmagadores no seu esplendor. Esta é uma escolha obviamente deliberada e estudada e que vai sofrendo variações ao longo do filme, sendo que em dois momentos fulcrais as emoções e a dor física parecem se apoderar da performance da atriz. Esta assassina, demasiado humana para ser uma perfeita arma mortífera, torna-se uma personificação de dúvida e escolha no centro do filme, um paradoxo vivo de piedade e agressão sanguinária, uma humanidade pulsante que não permite deixar o filme e sua história se perderem em vazios exercícios estéticos.

 A assassina move-se pelo filme como uma pincelada de tinta-da-china numa aguarela viva, os pretos do filme tão profundos que parecem engolir a luz que se filtra e entrelaça pelos cenários naturais e artificiais com uma precisão e beleza incomuns. Há um primor sensorial na concretização do filme que é inegável. A paisagem sonora é tão meticulosa e perfeita como os visuais, incluindo a formidável fotografia que nos oferece momentos tão sublimes como essa pincelada que se movimenta pela imagem. Os cenários e figurinos de Wen-Ying Huang conferem uma textura e tatilidade absoluta ao filme, enchendo o frame de sedas ruidosas e camadas de transparências que enchem o olhar e os espaços interiores. Isto permite ao realizador um jogo estonteante de bidimensionalidade e tridimensionalidade na imagem, que por vezes apresenta, por exemplo, uma floresta como um conjunto plano de sombras e formas, noutras ocasiões explorando um interior na sua profundidade labiríntica e níveis de sombras e visibilidade. Há uma precisão e distanciação perfeccionista que torna o filme frio e belo, e algo supremamente especial, mesmo no contexto da obra do realizado. Por vezes a própria natureza parece obedecer à vontade do autor, enchendo um monte de névoa apenas quando apropriado para o ritmo da cena, tal é a perfeição formal desta obra.

 Numa imagem fortemente repetida ao longo do filme, a imagem da protagonista aparece por entre flutuantes cortinas bordadas. Primeiro nada vemos, depois uma sombra parece materializar-se, até que vemos a figura humana para a depois voltarmos a perder por entre esse jogo de luz, sombra e movimento. Tal momento parece converter a assassina numa sombra sobrenatural, injetando ao filme um misticismo e magia. Tais elementos sobrenaturais apenas se manifestam numa hipnotizante sequência em que acompanhamos um farrapo de fumo pelo palácio de Tian Ji'na, acabando por alcançar a sua concubina favorita (Hsieh Hsin-ying) e tornando-se numa sufocante nuvem de fumo. É magnífico, tornando o filme numa lenda de uma era sombria cheia de magia e desconhecido, um mito contado aqui por um mestre.

 Será possível observar no filme e nele encontrar uma mensagem política por entre a sua opacidade, sendo a relação entre Weibo e o império facilmente ligado à relação entre Taiwan e a República Popular da China, mas eu gostaria de me focar mais nessa opacidade narrativa em si. O enredo, a narrativa, é algo bastante difícil de percecionar completamente, sendo que o realizador parece ativamente trabalhar no sentido de tornar a intriga o mais fragmentada e nebulosa possível. Tal abordagem tem um efeito bastante paradoxal, por um lado frustra a audiência e torna a apreciação completa do filme algo difícil e trabalhoso, por outro isto também pede uma observação diferente à sua audiência, mais simples e visceral, mais sensorial.

 E desse tipo de observação, o filme emerge como um estudo formidável de movimento e ritmo. A obra decorre vagarosamente e cheia de contínuos movimentos, tão subtis como o balançar de uma câmara entre cortinas durante um diálogo. Uma serenidade visual tão dependente do movimento leve como da observação estática, sendo que tal harmonia é constantemente pontuada e cortada por ruturas no ritmo e movimento. Falo das cenas de violência e ação que acontecem em suprema brevidade e intensidade. Os movimentos são automáticos e baléticos, rápidos e explosivos, acabando tão depressa como começaram. O próprio enredo, nas suas repetições e lentidão, parece copiar e explorar o ritmo da circulação de informação numa corte, um ritmo humano e comunal transmitido e incorporado na forma do filme e no modo como a informação e as imagens coexistem num fluido e exato movimento rítmico.

 O vencedor do prémio este ano para melhor realizador no festival de Cannes, cria neste filme um exemplo de puro cinema. Quando rarefeito e reduzido, A Assassina é o cinema na sua mais gloriosa simplicidade. Som, cor, luz, movimento, tempo e ritmo, jogando em harmoniosa criação. É uma maravilha miraculosa que me deixa quase que extasiado na minha adoração, um filme que não será para todas as audiências e que desafiará muitas paciências, mas que, quando observado de uma certa perspetiva, tem em si contidos prazeres cinemáticos que raramente encontramos tão perfeitamente realizados, um filme sem compromissos ou transigências, uma obra segura, perfeita na concretização de uma visão de um autor, e um espetáculo magnífico. Movimento e ritmo como poucas vezes vistos no cinema contemporâneo, hipnotizante no seu estudo e no seu estilo, talvez o mais formalmente impressionante e esmagador filme do realizador. Viva o mestre Hou Hsiao-Hsien!