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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

LEFFEST'15, Post Mortem


 Apesar da inatividade deste blog nas últimas semanas, consegui ir escrevendo a cobertura do LEFFEST'15, apenas não o fiz totalmente neste site. Se desejarem ler as minhas opiniões sobre grande parte dos títulos a serem exibidos na edição deste ano do Lisbon & Estoril Film Festival, deixo-vos aqui links para alguns dos meus artigos na Magazine HD, assim como para o que já aqui tinha publicado. No total, vi 26 filmes, sendo que ainda não escrevi sobre alguns deles, nomeadamente aqueles que vi como parte das Homenagens e Retrospetivas, mas talvez ainda o consiga fazer este mês.



11 Minut de Jerzy Skolimowski
"11 Minut, é um impressionante feito técnico, mas, tirando os seus sons e visuais, tem pouco para oferecer que não seja um risível e forçado dramatismo."


45 Years de Andrew Haigh
" (...)É especialmente nesses silêncios e subtilezas que existe o génio e humanidade dolorosa de 45 Years, que, nos seus derradeiros momentos, nos oferece um dos finais mais emocionalmente esmagadores no cinema de 2015."

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

ROOM (2015) de Lenny Abrahamson


 As miraculosas interpretações de Brie Larson e Jacob Tremblay fazem de Room um dos filmes mais comoventes de 2015, assim como um dos mais indispensáveis para quem esteja interessado na corrida aos Óscares.




 Room, uma adaptação de um romance de Emma Donoghue dirigida por Lenny Abrahamson, relata a história de uma mãe e filho que, depois de anos aprisionados num quarto, são confrontados com a sua liberdade, que está longe de ser um idílico e romantizado desfecho para o seu tormento. Toda a narrativa se desenrola a partir da perspetiva de Jack (Jacob Tremblay), uma criança de 5 anos que, no início do filme, nunca viu nada do mundo que se estende para além da sua prisão, sendo que inicialmente nem consegue acreditar que tal exterior possa existir. Longe de limitar prejudicialmente o impacto ou complexidade do filme, esta insistência na perspetiva infantil confere à obra uma dimensão trágica onde, mesmo assim, ainda há espaço para alguma esperança e luminosa humanidade.

 Joy (Brie Larson) é a mais fascinante presença em Room, sendo vista unicamente a partir dos olhos de seu filho que muito não conseguem compreender devido à sua ingénua inocência. Isto torna a observação da protagonista maternal num jogo de perceção com a audiência que, mais do que o seu jovem protagonista, consegue ir-se apercebendo de quão estilhaçada pelo seu trauma está a personagem de Brie Larson. Um voz-off constante de Jack vai contribuindo para este gentil retrato dos dois protagonistas, caindo, por vezes, num sentimentalismo desnecessariamente evidenciado tanto pelo texto como pela irritante e melodramática banda-sonora.

 É o seu elenco que permite a Room ser uma obra de glorioso sentimentalismo que, na sua generalidade, consegue evitar o melodrama forçoso sugerido por alguns dos seus elementos. Trembley, com apenas oito anos, cria um dos mais avassaladores retratos do ano, e Larson oferece aqui o melhor esforço da sua jovem, mas ilustre, carreira, sombreando a sua interpretação com momentos de abrasiva frustração, fúria e desespero. O restante elenco é igualmente formidável apesar dos seus limitados papéis, com especial menção para Joan Allen como a mãe de Joy, que em breves momentos consegue estabelecer uma presença tão complicada e multifacetada como a de Larson.

 Infelizmente nem todo o filme prima pela sua complexidade e surpreendente eficácia, sendo que a, já mencionada, banda-sonora é um imparável desastre. Em vários momentos, a música apenas acaba por revelar quão emocionalmente manipulador todo o exercício cinematográfico está a ser, traindo, de certo modo, os esforços do seu elenco e mesmo do ocasionalmente problemático texto. O último plano do filme, por exemplo, perde todo o seu poder emocional devido a um acompanhamento musical demasiado insistente na manipulação chorosa das emoções da sua audiência, quando a simples imagem dos dois protagonistas a se afastarem do quarto titular pela derradeira vez seria suficiente.

 Isto é tão culpa de Stephen Rennicks, o compositor do filme, como de Abrahamson que, especialmente no que diz respeito aos sons, tem uma tendência para o convencionalismo simplista que apenas prejudica a experiência total do filme. No entanto, há que admitir que o realizador tem uma surpreendente capacidade de moldar o espaço com a sua câmara, nunca permitindo que a primeira metade do filme desabe num registo teatral, apesar do seu confinado espaço. A sequência de fuga também revela um bom domínio de Abrahamson no que diz respeito à criação de tensão e adrenalina, não esquecendo o seu foco humano, não fosse Room essencialmente um espetacular exercício de atuação e perseverança humana.

 Room é o único filme norte-americano em competição no LEFFEST’15, e mesmo que não arrecade qualquer prémio na cerimónia de Encerramento do festival, o seu lugar na corrida aos Óscares parece estar cimentado. Brie Larson, em particular, tem vindo a revelar-se como a inicial favorita para o galardão de Melhor Atriz. No entanto, Trembley será tão merecedor de tais honras como a sua coprotagonista, sendo que o jovem ator oferece às suas audiências uma das mais formidáveis interpretações infantis das últimas décadas de cinema. O filme como um todo tem alguns problemas, há que dizer, mas é uma inegável experiência de emoções arrebatadoras, que consegue ser tocante mesmo quando a manipulação emocional é grosseiramente óbvia.


domingo, 8 de novembro de 2015

ANOMALISA (2015) de Charlie Kaufman e Duke Johnson

Já vamos no terceiro dia do LEFFEST ’15 mas acho que vale a pena relembrar o filme de abertura. Anomalisa é o primeiro filme de animação de Charlie Kaufman, sendo que Duke Johnson também assina a obra. Apesar de grandes reservas que tenho em relação ao filme, Anomalisa é uma das experiências essenciais deste ano.


 Durante os créditos finais de Anomalisa, a mais recente obra de Charlie Kaufman e o seu primeiro esforço no cinema de animação, chegamos a uma porção em que se listam os nomes dos vários contribuidores que, a partir do Kickstarter, financiaram o filme. Os nomes destes adoradores de Kaufman são de um imenso número, sendo irrevogavelmente mais numerosos que os nomes da própria equipa de produção do filme. Enquanto somos expostos a esta parede de texto, uma cacofonia de vozes assalta os nossos ouvidos. Todas as vozes são, contudo, do mesmo ator (Tom Noonan) no que é um dos marcos estilísticos do filme. Durante Anomalisa, Kaufman tece uma tragédia humana à volta da incapacidade de um homem se relacionar com o resto do mundo, que ele vê como uma multiplicidade infinita da mesma cara e voz. Muitas vezes, ao longo da história, várias pessoas proclamam o seu amor pelo protagonista e neste momento que referi dos créditos, há algo de inequivocamente inseparável entre o protagonista de Anomalisa e o próprio Kaufman. O autor, com o amor e adoração de uma imensidão de fãs criou aqui uma obra de insular indulgência, onde nos pede a pena lacrimosa e a simpatia, ao mesmo tempo que ignora o resto do mundo que não a sua individual psique e frustrações.

 Isto está longe de ser uma novidade no trabalho de Kaufman. Praticamente todos os filmes escritos por este autor têm como protagonista um homem bem-sucedido, branco, heterossexual e solitário que demonstra problemas em se relacionar com a realidade à sua volta. E, nesses filmes passados, nunca tive um problema com a limitada perspetiva da sua visão e das suas preocupações mas penso que isso se deveu maioritariamente a uma dose de humor, surrealismo e criatividade que fazem dos seus filmes obras tão fascinantes. Em Anomalisa a criatividade regista-se, nem que seja a um nível de simples técnica, o surrealismo marca presença, mas praticamente nada se vê do humor que tanto caracteriza o usual trabalho do autor. Em Sinédoque Nova Iorque, a obra-prima máxima da sua voz autoral, havia uma completa aceitação do ridículo e das limitações do seu protagonista, e era a partir desse lado mais sardónico e irónico que o filme encontrava a humanidade pulsante que tanto o caracterizou, como que emergindo do ridículo do indivíduo. Anomalisa tem pouco tempo para tais levezas, sendo um filme caracterizado por uma colossal sinceridade e seriedade, de tal forma que parece forçar a sua tragédia humana na audiência, ao invés de a deixar emergir do ridículo, do espetacular e do surreal.

 Com isto não quero afirmar que a sinceridade nunca resulta neste filme. De facto, Anomalisa obtém os seus mais gloriosos momentos durante uma prolongada sequência em que Michael Stone (David Thewlis), o protagonista, leva uma sua fã para o quarto de hotel em que habita por uma noite e acaba por dormir com ela. A fã chama-se Lisa e apresenta uma face e voz distintas da restante população. A sua voz é a de Jennifer Jason Leigh que nesta alma entristecida encontra um dos melhores papéis da sua carreira recente. Quando Kaufman e Duke Johnson, o co-realizador, observam estes dois humanos, uma mulher que não espera o reconhecimento, apreciação ou simpatia do mundo e um homem que não consegue evitar recusar tais simpatias à humanidade, há algo de mágico na intimidade conjurada. Aqui sim, a sinceridade e seriedade resulta, mas, infelizmente, o filme não é apenas uma curta-metragem sobre esta delicada sedução e consumação, mas sim uma prolongada experiência da hubris de um autor em aparente crise de meia-idade.

 Por muito que me seja difícil engolir a narrativa, a técnica demonstrada na execução deste filme é estrondosa. Utilizando impressões em 3D, Kaufman e Johnson constroem um mundo de figuras tão artificiais quanto humanas. Os corpos são realistas, assim como a expressão, mas as faces apresentam as marcas da união das várias componentes da marioneta, e as próprias proporções parecem, ocasionalmente, sugerir algo de irremediavelmente desumano nas pessoas que povoam o mundo de Anomalisa. E não é só a animação das figuras humanas a primar, sendo que os cenários, a música, o som e a belíssima fotografia também demonstram uma impressionante construção formal. No entanto, toda esta virtuosidade tem o deliberado efeito de provocar uma enorme alienação entre as audiências e o drama humano que Kaufman quer espremer do seu protagonista, pelo que longe do filme ser uma experiencia de comovente humanidade, há algo de controlado e frio exercício estilístico durante toda a experiência.

 Com tudo isto dito, tenho de admitir que, apesar dos seus numerosos defeitos e problemas, Anomalisa é uma das obras essenciais de 2015. Charlie Kaufman é uma voz imperdível no panorama do cinema contemporâneo, mesmo quando se mostra indulgente consigo mesmo e estranhamente sério, e com esta sua primeira obra de animação, o autor demonstra uma formidável nova possibilidade para o mundo da animação stop-motion.  Anomalisa está longe de ser dos melhores filmes de Kaufman mas, na sua delicada passagem central entre dois solitários humanos, há algo de efemeramente humano e intenso e de uma beleza rara e fugaz tanto na totalidade do filme como no cinema americano atual.

sábado, 7 de novembro de 2015

MIA MADRE (2015) de Nanni Moretti

 O LEFFEST ’15 teve o seu início ontem. Como filme de abertura em Lisboa, foi Anomalisa de Charlie Kaufman o filme selecionado, mas, numa sessão especial, foi primeiro exibido o novo filme de Nanni Moretti. Mia Madre já passou por Cannes, e outros festivais, tendo já arrecadado alguns galardões, entre eles o prémio do Júri Ecumérico de Cannes.


 Para um realizador que por duas vezes ganhou a honra máxima do festival de cinema mais importante do mundo, Nanni Moretti é, para mim, uma figura um tanto ou quanto estranha se não sobrevalorizada. Tenho sempre a expetativa que com um dos seus novos filmes eu vá perceber esta admiração generalizada que o mundo tem pelo seu trabalho, mas sempre me acontece o mesmo. Apesar de Mia Madre estar longe de ser o pior filme que já vi de Moretti, é, mesmo assim, mais um desapontamento para mim, que espero um dia conseguir compreender o resto da massa crítica que venera este autor italiano.

 O filme vai buscar a sua história a inspirações reais da vida do realizador, não fosse a protagonista do filme, Margherita (Margherita Buy), uma realizadora de cinema. Quando filmava Habemus Papam, Moretti foi confrontado com o definhar e morte da sua mãe, e aqui também Margherita se depara com o fim da sua matriarca aquando das difíceis filmagens de um novo filme. Acrescentamos a isto uma relação tempestuosa entre a realizadora e Barry Huggins (John Turturo), uma estrela de Hollywood envolvida neste novo filme, e uma boa dose de sonhos da protagonista e temos o esqueleto narrativo de Mia Madre.

 Muitos têm proclamado este filme como uma das obras mais comoventes do ano, e tenho de admitir que é difícil negar as emoções suscitadas pelo filme nos seus melhores momentos. Isto deve-se tanto a um guião de carácter extremamente pessoal, assim como a uma coleção de exímias interpretações, nomeadamente as de Margherita Buy e Giulia Lazzarini como a mãe da realizadora. Buy tem alguma tendência em cair nas mais melodramáticas tendências do texto, mas ao mesmo tempo mostra uma refrescante vulnerabilidade, para além de ser o único intérprete no filme que consegue pôr a funcionar o humor forçado de Moretti. Mas é Lazzarini a chave do filme, com um papel tão humano como simbólico a atriz é impressionante no modo como conjura uma visão de uma mulher inteligente e independente a progressivamente perder o controlo de seu corpo, mente e existência. As cenas entre as duas atrizes são as melhores do filme e graças ao seu trabalho, quando a perda final ocorre, é difícil não nos deixarmos levar pelo sofrimento que pulsa do ecrã.

 Infelizmente, o filme não é apenas um comovente, se simples, retrato do definhar de uma mulher e sua relação com seus filhos, sendo que Moretti interpreta o irmão de Margherita num gesto que parece indicar algo de expiação cinemática. O realizador, como me parece ser usual na sua filmografia, tenta injetar uma leveza humorística em contraste com a tragédia humana e, como tem sido usual no seu trabalho, a comédia é da mais forçada e irritante que se encontra no panorama do cinema de autor contemporâneo. Eu percebo que é suposto que Turturo seja insuportável como Huggins, mas há um exagero imensamente grotesco na sua presença que longe de expor um ator caprichoso, apenas nos revela um ator mal dirigido por um realizador à procura de um humor fácil e francamente estúpido. Mesmo os momentos cómicos que não giram à volta do deplorável trabalho de Turturo são, na sua maioria, intragáveis, corroendo mesmo os momentos mais íntimos e bem construídos da história familiar.

 Outro elemento que me deixa muitas dúvidas é o uso insistente de sonhos de Margherita, simplesmente porque nunca me convenço pelo estilo de Moretti. O realizador, apesar da sua fama de autor consagrado, tem uma abordagem estilística que, por vezes, mais se assemelha a um filme televisivo. Planos médios e close-ups predominam, cenas bem iluminadas e com ar de polida eficiência são a norma, e as composições são sempre o mais básico e desinteressante imaginável. Há algo nos filmes de Moretti que ultrapassa a mera austeridade, classicismo ou mesmo simplicidade cinemática, e que ameaça sempre sugerir uma certa displicência por parte do seu realizador.

 Apesar disso, quando Mia Madre funciona, nomeadamente nos seus momentos de maior sinceridade emocional, há algo de tocante na sua humanidade latente. Numa cena de jantar, a personagem de Moretti brinca que “a realizadora tem sempre razão”, o que, infelizmente, não poderia estar mais longe da verdade quando somos confrontados com Mia Madre. Neste filme a delicadeza emocional é fruto do trabalho do elenco e de um texto de Moretti que, ocasionalmente, consegue encontrar transcendência humana na sua simples sinceridade emocional.


sábado, 31 de outubro de 2015

Os 10 Filmes mais antecipados do LEFFEST ‘15


 Os bilhetes para o Lisbon & Estoril Film Festival são hoje colocados à venda e como tal decidi fazer um top 10 pessoal dos filmes que mais antecipo para esta edição do festival, que tem, nos últimos anos, sido um evento cinematográfico indispensável para a minha vida de cinéfilo.


10. ROOM de Lenny Abrahamson


 Este filme tem sido aclamado desde que passou em Toronto e ganhou o Prémio da Audiência, sendo que muitos dizem que este é já um dos frontrunners em algumas das corridas ao Óscar, nomeadamente Melhor Filme e Melhor Atriz. Em relação às possibilidades de galardões, ainda tenho as minhas dúvidas, mas o meu interesse foi, sem dúvida, captado pela reação extremamente positiva que se tem manifestado na maioria dos espetadores deste filme. Apenas temo uma queda no sentimentalismo forçado para o qual o trailer parece insinuar, mas, mesmo que tudo o resto seja mau, penso que posso contar com uma fantástica interpretação de Brie Larson, uma atriz que me tem vindo a surpreender ao longo dos últimos anos e que ainda nunca me desiludiu.