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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

YOUTH (2015) de Paolo Sorrentino


A Juventude Youth Sorrentino Michael Caine

 Em 2013 parecia que a crítica internacional, pelo menos a online, se tinha dividido em duas fações no que dizia respeito ao muito celebrado filme de Paolo Sorrentino, A Grande Beleza. Havia quem proclamasse a obra como uma das melhores do ano cinemático, enquanto outros a acusavam de ser um exercício em vazia opulência e superficialidade pueril. Eu, apesar de ainda não estar a escrever sobre cinema nesse ano, fazia parte da ideologia primeiro referida. Nesse filme, como na maior parte da sua filmografia, Sorrentino usava um estilo exuberante, bastante derivativo de Fellini, como instrumento para a criação de um mundo de superfícies tão belas como bizarras. O génio do autor italiano estava precisamente no vazio da suas visões, cuja falta de conteúdo humano era o próprio sujeito dos seus filmes. Em A Grande Beleza, a beleza é vazia e espetacular, e apenas no momento final somos confrontados com a totalidade de nada que se esconde por detrás de tal fachada, num momento de pulsante humanidade. Em Il Divo, Sorrentino usou a estrutura do filme biográfico para tornar um dos mais infames políticos italianos numa gárgula monstruosa, e tornar lenda grotesca as maquinações governamentais e criminosas da sua nação. Em Consequências do Amor, A beleza era como que atirada para os olhos da audiência como modo de salientar a solidão e desconexão absoluta na vida do seu protagonista, ao mesmo tempo que o realizador olhava com pena e acídico humor o enredo humano.

 Em A Juventude, o seu mais recente filme, Sorrentino volta a usar o seu característico estilo mas, infelizmente, o autor parece ter substituído o vazio superficial por uma tentativa de filosofia humana. O resultado final é, talvez, o maior desastre na carreira de um realizador que eu tinha vindo a adorar nos últimos anos.

 Depois de ter homenageado La Dolce Vita com A Grande Beleza, Sorrentino parece ter-se inspirado noutra das obras-primas de Federico Fellini para A Juventude, neste caso 8 ½. Neste novo filme, observamos a vida de Fred Ballinger (Michael Caine), um compositor inglês, enquanto este está recluso numa estância de luxo, na companhia do seu amigo Mick Boyle (Harvey Keitel), um realizador americano que está a desenvolver aquele que será o seu filme testamento, e ocasionalmente pela sua filha e assistente pessoal, Lena (Rachel Weisz). A juntar-se a este trio está uma coleção de outras figuras, muitas delas bizarras.

 Apesar do elenco estar repleto de sonantes nomes, e das personagens apresentarem-se como um vasto leque de excêntricas criações, como um ator tragicamente sério interpretado por Paul Dano, é na perspetiva dos dois amigos idosos que o filme se apoia. Convém dizer, há nessa perspetiva um absoluto elitismo, especialmente no modo como estas privilegiadas personagens olham e encaram o mundo à sua volta e seus humanos.

 Este referido elitismo é ainda mais forte e inescapável na abordagem de Sorrentino. O elitismo e superioridade deste autor não se trata apenas de uma manifestação de privilégio social, ou conhecimento artístico, pois no modo como Sorrentino fetichiza os corpos desnudos, envelhecidos e decadentes ou luminosos com a flor da juventude, há algo de desconfortável, senão eticamente dúbio.

 Por muito que esta observação autoral me irrite e destrua a experiência do filme, talvez o maior problema não seja o trabalho de realização, mas sim o horrendo argumento, uma verdadeira montanha de clichés mascarados de profundos pensamentos filosóficos. Tirando os dois protagonistas, o desfile de personagens bizarras nunca contém sombra de humanidade. Sorrentino quer fazer grandes reflexões sobre a vida, o amor, o envelhecimento, etc., mas parece preferir olhar com desejo, escárnio ou curiosidade juvenil as suas belas marionetas de carne e osso, do que se confrontar com qualquer complexidade humana que não corresponda ao seu mundo de superfícies extravagantes e emoções gritadas que pintam o filme como grossas pinceladas em tons ácidos e puramente artificiais. Tenho de honestamente admitir que, aquando do meu visionamento de A Juventude, quase tive pena do elenco que tem de se debater com tal monstruosidade textual, especialmente Michael Caine que, mesmo assim, é quem se demonstra como uma das poucas salva-graças de A Juventude.

 Fred Ballinger como interpretado por Caine não difere muito do usual modelo de protagonista dos filmes de Sorrentino. Jep Gambardella e Titta di Girolamo poderiam ter acabado por viver a sua velhice numa posição semelhante à deste compositor, mas há algo de indubitavelmente distinto na abordagem do veterano inglês. Caine consegue encontrar alguma emoção genuína no artifício sufocante de A Juventude, sendo o único membro do elenco que realmente encontra alguma réstia de humanidade nas marionetas de Sorrentino, algo essencial para que o filme tenha esperança de funcionar.

 Neste vazio de artifícios e pirotécnicas estilísticas, o restante elenco está completamente perdido. Harvey Keitel é bastante sólido, mas os desenvolvimentos tardios da sua personagem são completamente repentinos e nunca justificados no trabalho do ator. Weisz tem um monólogo cortante, mas rapidamente se torna num adereço vivo ao estilo do pseudo-Maradona que se passeia pelos cenários como um símbolo de decadência depressiva e glórias passadas, ou mesmo a Miss Universo que parece uma revista da Playboy que ganhou vida para atormentar os homens que a observam. Paul Dano perde-se por completo nas reviravoltas deste circo cinemático e Jane Fonda, muito admirada pela sua minúscula presença no filme, é uma explosão de enfurecida energia, onde, no entanto, qualquer sombra de complexidade, nuance ou subtileza foi completamente obliterada.

 Em contrapartida, os visuais, como seria de esperar, sendo este um filme de Sorrentino, são maravilhosamente concebidos como um espetáculo absoluto de visões ousadas e pitorescas. No entanto, é a sonoridade de A Juventude que realmente se mostra como a absoluta joia da coroa deste filme e sua luminosa salvação. A climática canção, Simple Song #3, é particularmente extasiante na sua gloriosa intensidade, simplicidade, e carga emocional. No seu clímax, o filme é glorioso e um dos melhores de 2015. É só pena o resto do filme que antecede estes derradeiros momentos.

 Uma sedutora mistura de epicúria e primor técnico fazem de qualquer obra de Sorrentino uma criação essencial, mas, ao fugir à abjeta superficialidade inteligentemente vazia que tem caracterizado o seu trabalho e tentando criar um filme cheio de sabedoria e filosofia barata, o realizador trai-se a si mesmo e constrói um dos seus piores filmes. Sorrentino parece propor-se a dissecar uma cultura obcecada com a juventude, a superficialidade, a glória passada, o vazio, mas o seu olhar é demasiado caracterizado por tudo isto para poder fazer algo mais do que simplesmente se deixa cair na indulgência dos seus próprios vícios. É triste, pois A Juventude contém em si o inequívoco potencial para ser algo infinitamente superior, que, infelizmente, nunca se materializa por completo na final construção do filme.


sábado, 7 de novembro de 2015

MIA MADRE (2015) de Nanni Moretti

 O LEFFEST ’15 teve o seu início ontem. Como filme de abertura em Lisboa, foi Anomalisa de Charlie Kaufman o filme selecionado, mas, numa sessão especial, foi primeiro exibido o novo filme de Nanni Moretti. Mia Madre já passou por Cannes, e outros festivais, tendo já arrecadado alguns galardões, entre eles o prémio do Júri Ecumérico de Cannes.


 Para um realizador que por duas vezes ganhou a honra máxima do festival de cinema mais importante do mundo, Nanni Moretti é, para mim, uma figura um tanto ou quanto estranha se não sobrevalorizada. Tenho sempre a expetativa que com um dos seus novos filmes eu vá perceber esta admiração generalizada que o mundo tem pelo seu trabalho, mas sempre me acontece o mesmo. Apesar de Mia Madre estar longe de ser o pior filme que já vi de Moretti, é, mesmo assim, mais um desapontamento para mim, que espero um dia conseguir compreender o resto da massa crítica que venera este autor italiano.

 O filme vai buscar a sua história a inspirações reais da vida do realizador, não fosse a protagonista do filme, Margherita (Margherita Buy), uma realizadora de cinema. Quando filmava Habemus Papam, Moretti foi confrontado com o definhar e morte da sua mãe, e aqui também Margherita se depara com o fim da sua matriarca aquando das difíceis filmagens de um novo filme. Acrescentamos a isto uma relação tempestuosa entre a realizadora e Barry Huggins (John Turturo), uma estrela de Hollywood envolvida neste novo filme, e uma boa dose de sonhos da protagonista e temos o esqueleto narrativo de Mia Madre.

 Muitos têm proclamado este filme como uma das obras mais comoventes do ano, e tenho de admitir que é difícil negar as emoções suscitadas pelo filme nos seus melhores momentos. Isto deve-se tanto a um guião de carácter extremamente pessoal, assim como a uma coleção de exímias interpretações, nomeadamente as de Margherita Buy e Giulia Lazzarini como a mãe da realizadora. Buy tem alguma tendência em cair nas mais melodramáticas tendências do texto, mas ao mesmo tempo mostra uma refrescante vulnerabilidade, para além de ser o único intérprete no filme que consegue pôr a funcionar o humor forçado de Moretti. Mas é Lazzarini a chave do filme, com um papel tão humano como simbólico a atriz é impressionante no modo como conjura uma visão de uma mulher inteligente e independente a progressivamente perder o controlo de seu corpo, mente e existência. As cenas entre as duas atrizes são as melhores do filme e graças ao seu trabalho, quando a perda final ocorre, é difícil não nos deixarmos levar pelo sofrimento que pulsa do ecrã.

 Infelizmente, o filme não é apenas um comovente, se simples, retrato do definhar de uma mulher e sua relação com seus filhos, sendo que Moretti interpreta o irmão de Margherita num gesto que parece indicar algo de expiação cinemática. O realizador, como me parece ser usual na sua filmografia, tenta injetar uma leveza humorística em contraste com a tragédia humana e, como tem sido usual no seu trabalho, a comédia é da mais forçada e irritante que se encontra no panorama do cinema de autor contemporâneo. Eu percebo que é suposto que Turturo seja insuportável como Huggins, mas há um exagero imensamente grotesco na sua presença que longe de expor um ator caprichoso, apenas nos revela um ator mal dirigido por um realizador à procura de um humor fácil e francamente estúpido. Mesmo os momentos cómicos que não giram à volta do deplorável trabalho de Turturo são, na sua maioria, intragáveis, corroendo mesmo os momentos mais íntimos e bem construídos da história familiar.

 Outro elemento que me deixa muitas dúvidas é o uso insistente de sonhos de Margherita, simplesmente porque nunca me convenço pelo estilo de Moretti. O realizador, apesar da sua fama de autor consagrado, tem uma abordagem estilística que, por vezes, mais se assemelha a um filme televisivo. Planos médios e close-ups predominam, cenas bem iluminadas e com ar de polida eficiência são a norma, e as composições são sempre o mais básico e desinteressante imaginável. Há algo nos filmes de Moretti que ultrapassa a mera austeridade, classicismo ou mesmo simplicidade cinemática, e que ameaça sempre sugerir uma certa displicência por parte do seu realizador.

 Apesar disso, quando Mia Madre funciona, nomeadamente nos seus momentos de maior sinceridade emocional, há algo de tocante na sua humanidade latente. Numa cena de jantar, a personagem de Moretti brinca que “a realizadora tem sempre razão”, o que, infelizmente, não poderia estar mais longe da verdade quando somos confrontados com Mia Madre. Neste filme a delicadeza emocional é fruto do trabalho do elenco e de um texto de Moretti que, ocasionalmente, consegue encontrar transcendência humana na sua simples sinceridade emocional.


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

SICARIO (2015) de Denis Villeneuve



 Depois do tecnicamente impressionante, mas textualmente limitado, Raptadas e da opacidade intrigante de O Homem Duplicado, eu não sabia bem o que esperar de Sicario - Infiltrado, o novo filme de Denis Villeneuve e o seu terceiro em inglês. O cinema e, especialmente, a televisão americana têm estado pejados de narrativas em volta da guerra contra a droga e da relação entre os EUA e o México, sendo que nos últimos anos tem havido como que uma calcificação narrativa e formal neste tipo de histórias, infetadas por uma banalidade e simplicidade politica que me têm repelido. Sicario – Infiltrado está longe de qualquer acusação de complacência ou simplismo, sendo um dos mais surpreendentes filmes narrativos a sair de Hollywood e a debruçar-se sobre temas tão politicamente acesos como estes.

 O filme desenvolve-se à volta de Kate Macer (Emily Blunt), uma agente do FBI que, depois de uma horrenda abertura numa casa armadilhada e forrada de cadáveres, é convidada a fazer parte de uma equipa especial, com supostas ligações com a CIA, que está envolvida na guerra da droga. Sem grande informação e desejosa de finalmente fazer alguma diferença, Kate é mergulhada num pesadelo acordado, seguindo a liderança dúbia de Matt Graver (Josh Brolin), um agente da CIA, e Alejandro Gillick (Benicio del Toro), um misterioso consultor que outra foi um advogado cuja família foi devastada por um dos senhores da droga perseguidos pela equipa central ao filme. O que, juntamente com Kate, vamos descobrindo é uma teia de horrenda manipulação em que os “heróis” americanos são, em parte, culpados pela criação do inferno na Terra que observam no México.

 Longe de simplificar a visão do México e da guerra contra os cartéis, o filme parece recusar-se a cair nos simplicismos de outras narrativas semelhantes. Quase todo o filme é passado a acompanhar Kate e a partir da sua perspetiva olhamos o mundo dos agentes americanos a ser um pesadelo tão sufocante e imoral como o caos aterrador das cenas passadas no México. Apenas nos afastamos ocasionalmente da perspetiva horrorizada e quase paralisada da protagonista, sendo que, num momento crucial do filme, acompanhamos Gillick. A sequência relembra tantas outras narrativas de anti-heróis vingadores. Aqui, no entanto, a figura do anti-herói e suas ações estão longe de glorificações banais, sendo que nos apercebemos da irremediável amoralidade e desumanidade das suas ações. A outra figura que observamos proximamente é um polícia envolvido com os cartéis, Silvio (Maximiliano Hernández). Vemo-lo maioritariamente em casa com sua família, sendo que antes de ser mais um peão neste violento jogo de guerra, o vemos como um pai, como um humano com quem é fácil simpatizar. Quando o seu final chega, temos a impressão que, em outros filmes, esta personagem seria uma figura de uma só cena, algo dispensável e esquecível, mas aqui é uma vítima, não completamente inocente, de um mundo negro que se parece ter esquecido da noção de básica humanidade.

 O mundo aterrador do filme é requintadamente criado por um formidável trabalho técnico que faz a precisão admirável de Raptadas parecer um pueril exercício escolar. A fotografia é um dos melhores trabalhos na filmografia do mestre Roger Deakins, assim como é um dos seus trabalhos menos característicos. As imagens são cristalinas e precisas, evitando os filtros amarelados que na televisão americana parecem sinónimos do México, e trabalhando com sombras negras e profundas que ora se manifestam como manchas cortantes na paisagem luminosamente infernal ou como ambientes envolventes de sombras que tudo parecem consumir, abatendo-se ameaçadoramente sobre as personagens. O visual do filme também deve muito à discreta e eficaz cenografia de Patrice Vermette, sendo a casa de horrores que abre o filme um espaço de particular horror e eficácia visual.

 Ainda mais importante e magistral que o visual do filme é o seu estupendo som. A música, da autoria de Jóhann Jóhannsson, funde-se com os efeitos sonoros numa avassaladora atmosfera de constante ameaça. Há algo de horrendamente opressivo na sonoplastia do filme, como se criaturas infernais se fossem movimentando debaixo dos pés da audiência, sendo que por vezes parecemos ouvir a terra mover-se em estrondosa intensidade, como se num submundo invisível o caos fosse tão grande como na realidade em que habitam as figuras humanas do filme, e seus movimentos cataclísmicos se fizessem ouvir por toda a narrativa. Há algo de demoníaco no som, e ao mesmo tempo de impressionantemente expressionista e imersivo, tornando, em algumas sequências, o som de um caótico ambiente urbano numa cacofonia infernal digna de pesadelos aterradores.

 Este fantástico ambiente é habitado e vitalizado por um elenco formidável com Emily Blunt no protagonismo e a apresentar o seu mais complexo e impressionante trabalho até à data. A sua presença aterrada e impetuosidade palpável lembram Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes, sendo que, especialmente na segunda metade do filme, Blunt vai muito mais longe que Foster mostrando como Kate quase fica paralisada pela descoberta da realidade corrupta e horrenda e seu papel nas maquinações masculinas à sua volta. O filme sem Blunt sem Blunt seria impensável, sendo que a luta de Villeneuve pela sua escolha de uma atriz para protagonista do filme bem pagou os seus dividendos. Del Toro, Brolin e Daniel Kaluuya, como o parceiro de Kate, são de louvar também. Del Toro é particularmente estrondoso na sua reticência misteriosa e agressividade assustadora, enquanto Brolin brilha na sua repugnante criação de arrogância nojenta e perigosa e Kaluuya oferece uma visão de rara humanidade e apoio num mundo em que o perigo parece espreitar por entre as sombras.

 Sem Dilleneuve, contudo, toda esta mestria técnica e performativa seria inútil, sendo a mão segura do realizador que une todos os componentes do filme numa obra de mestria quase maquinal na sua precisão. Uma das sequências mais impressionantes do filme passa-se no regresso de uma frota de carros aos EUA, depois de passarem por Juarez. Num engarrafamento, na fronteira entre os países, os carros ficam bloqueados e explode um confronto violento. Aqui todos os componentes do filme chegam a gloriosa união, sendo a tensão criada por Villeneuve uma maravilha que lembra o que Hitchcock em tempos fez com uma bomba escondida na pasta de um rapaz. Sabemos há muito que algo violento vai ocorrer na passagem pela fronteira, sendo essa informação explicitamente atirada à audiência, a construção cénica aponta inexoravelmente para o conflito que se despoleta, mas no entanto há algo de fulgurante em toda a experiência da sequência. Tal como na maior parte do filme, aqui a violência é repentina, expectável e intensa, sendo mais aterradora pela sua fugaz banalidade que pela glorificação acentuada que outros realizadores menores tentariam nela explorar.

 Sicario – Infiltrado funciona como uma das armas que tanto aparecem ao longo da sua narrativa. Todos os seus componentes estão precisamente criados e calibrados para uma violenta funcionalidade final, sendo que nada é desperdiçado ou erroneamente concebido. Por detrás de toda a sua perfeição estrutural, interpretativa e formal está ainda um dos mais formidáveis e desafiadores textos sobre a guerra contra a droga no México e nos EUA, renunciando a simples dicotomias entre o bem e o mal ou a glorificações repugnantes de desumanidade e amoralismos. Não é um filme fácil de ver ou particularmente agradável de experienciar mas é, sem dúvida, uma das mais importantes obras a sair de Hollywood neste ano cinematográfico.

domingo, 13 de setembro de 2015

CIKE NIE YINNIANG (2015) de Hou Hsiao-Hsien



 O novo filme do mestre taiwanês Hou Hsiao-Hsien não é, decerto, para usuais fãs de wuxia ou para pessoas aliciadas por qualquer promessa de ação, vinda do título e alguma publicidade do filme. Aliás, eu diria que esta primeira aventura do realizador por um dos mais famosos géneros do cinema chinês é, acima de tudo, uma continuação das preocupações artísticas do seu realizador que aqui reinterpreta o género quase que por completo. O projeto teve cerca de 25 anos de desenvolvimento e 7 anos de concretização, e mais que um épico de artes marciais adaptado de um conto de Pei Xing, o filme é um poema cinemático da autoria de Hou Hsiao-Hsien e um dos seus mais belos e formidáveis trabalhos.

 Apesar de existir como que uma reinterpretação e, talvez possamos dizer, subversão do cinema wuxia, A Assassina contém em si uma narrativa bastante típica do género, cheia de intrigas políticas e pessoais, traições e vinganças. No centro de tudo isto está a figura de Nie Yinniang (Qi Shu), uma jovem assassina encarregue de matar Tian Ji'na (Chen Chang), o seu primo, outrora noivo, e presente governador de Weibo, uma região independente do controlo imperial chinês. Desta premissa inicial desenrola-se um enredo com mudanças de lealdade, auto reflexões pessoais, uma esposa vingativa, uma concubina perseguida por magia, numerosas, mas breves, cenas de ação. De todo este enredo origina-se um filme distante, alienante na sua estranheza, mas profundamente humano apesar da sua frieza. A obra final, longe de ser um usual tratamento do enredo segundo as tradições do género, é como uma pintura magistral, tão bela como distante, tão fascinante como, por vezes, inescrutável.

 Qi Shu regressa à filmografia de Hou Hsiao-Hsien de novo como a protagonista da sua criação, concebendo sob as direções de um mestre, aquele que é, talvez, o seu mais fascinante trabalho até agora. A protagonista é caracterizada principalmente por uma quase inabalável inexpressão, uma reticência que a atriz parece partilhar com o filme, também este reticente no que diz respeito a emoções e exposição, mas não por isso são ambos menos eficazes ou esmagadores no seu esplendor. Esta é uma escolha obviamente deliberada e estudada e que vai sofrendo variações ao longo do filme, sendo que em dois momentos fulcrais as emoções e a dor física parecem se apoderar da performance da atriz. Esta assassina, demasiado humana para ser uma perfeita arma mortífera, torna-se uma personificação de dúvida e escolha no centro do filme, um paradoxo vivo de piedade e agressão sanguinária, uma humanidade pulsante que não permite deixar o filme e sua história se perderem em vazios exercícios estéticos.

 A assassina move-se pelo filme como uma pincelada de tinta-da-china numa aguarela viva, os pretos do filme tão profundos que parecem engolir a luz que se filtra e entrelaça pelos cenários naturais e artificiais com uma precisão e beleza incomuns. Há um primor sensorial na concretização do filme que é inegável. A paisagem sonora é tão meticulosa e perfeita como os visuais, incluindo a formidável fotografia que nos oferece momentos tão sublimes como essa pincelada que se movimenta pela imagem. Os cenários e figurinos de Wen-Ying Huang conferem uma textura e tatilidade absoluta ao filme, enchendo o frame de sedas ruidosas e camadas de transparências que enchem o olhar e os espaços interiores. Isto permite ao realizador um jogo estonteante de bidimensionalidade e tridimensionalidade na imagem, que por vezes apresenta, por exemplo, uma floresta como um conjunto plano de sombras e formas, noutras ocasiões explorando um interior na sua profundidade labiríntica e níveis de sombras e visibilidade. Há uma precisão e distanciação perfeccionista que torna o filme frio e belo, e algo supremamente especial, mesmo no contexto da obra do realizado. Por vezes a própria natureza parece obedecer à vontade do autor, enchendo um monte de névoa apenas quando apropriado para o ritmo da cena, tal é a perfeição formal desta obra.

 Numa imagem fortemente repetida ao longo do filme, a imagem da protagonista aparece por entre flutuantes cortinas bordadas. Primeiro nada vemos, depois uma sombra parece materializar-se, até que vemos a figura humana para a depois voltarmos a perder por entre esse jogo de luz, sombra e movimento. Tal momento parece converter a assassina numa sombra sobrenatural, injetando ao filme um misticismo e magia. Tais elementos sobrenaturais apenas se manifestam numa hipnotizante sequência em que acompanhamos um farrapo de fumo pelo palácio de Tian Ji'na, acabando por alcançar a sua concubina favorita (Hsieh Hsin-ying) e tornando-se numa sufocante nuvem de fumo. É magnífico, tornando o filme numa lenda de uma era sombria cheia de magia e desconhecido, um mito contado aqui por um mestre.

 Será possível observar no filme e nele encontrar uma mensagem política por entre a sua opacidade, sendo a relação entre Weibo e o império facilmente ligado à relação entre Taiwan e a República Popular da China, mas eu gostaria de me focar mais nessa opacidade narrativa em si. O enredo, a narrativa, é algo bastante difícil de percecionar completamente, sendo que o realizador parece ativamente trabalhar no sentido de tornar a intriga o mais fragmentada e nebulosa possível. Tal abordagem tem um efeito bastante paradoxal, por um lado frustra a audiência e torna a apreciação completa do filme algo difícil e trabalhoso, por outro isto também pede uma observação diferente à sua audiência, mais simples e visceral, mais sensorial.

 E desse tipo de observação, o filme emerge como um estudo formidável de movimento e ritmo. A obra decorre vagarosamente e cheia de contínuos movimentos, tão subtis como o balançar de uma câmara entre cortinas durante um diálogo. Uma serenidade visual tão dependente do movimento leve como da observação estática, sendo que tal harmonia é constantemente pontuada e cortada por ruturas no ritmo e movimento. Falo das cenas de violência e ação que acontecem em suprema brevidade e intensidade. Os movimentos são automáticos e baléticos, rápidos e explosivos, acabando tão depressa como começaram. O próprio enredo, nas suas repetições e lentidão, parece copiar e explorar o ritmo da circulação de informação numa corte, um ritmo humano e comunal transmitido e incorporado na forma do filme e no modo como a informação e as imagens coexistem num fluido e exato movimento rítmico.

 O vencedor do prémio este ano para melhor realizador no festival de Cannes, cria neste filme um exemplo de puro cinema. Quando rarefeito e reduzido, A Assassina é o cinema na sua mais gloriosa simplicidade. Som, cor, luz, movimento, tempo e ritmo, jogando em harmoniosa criação. É uma maravilha miraculosa que me deixa quase que extasiado na minha adoração, um filme que não será para todas as audiências e que desafiará muitas paciências, mas que, quando observado de uma certa perspetiva, tem em si contidos prazeres cinemáticos que raramente encontramos tão perfeitamente realizados, um filme sem compromissos ou transigências, uma obra segura, perfeita na concretização de uma visão de um autor, e um espetáculo magnífico. Movimento e ritmo como poucas vezes vistos no cinema contemporâneo, hipnotizante no seu estudo e no seu estilo, talvez o mais formalmente impressionante e esmagador filme do realizador. Viva o mestre Hou Hsiao-Hsien!