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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Hit Me With Your Best Shot: REPULSION (1965)

 Este post foi escrito para a série Hit Me With Your Best Shot do blogue The Film Experience de Nathaniel Rogers, sendo que é aqui apresentado em inglês, ao invés do que é usual neste blogue. 



 This week’s episode of Hit Me With Your Best Shot is almost the antithesis of last week’s, or at least it was to me as a viewing experience. While A Room with a View is an endless source of pleasure and a film I’m always eager to revisit, Roman Polanski’s Repulsion is a bottomless pit of discomfort and a film that, since I first watched it, I’ve never had any desire to suffer through again.

 This is not to say that Repulsion is a bad film, far from it. While the film is rather disturbing in its exploration of female sexuality turned into violent psychosis, perhaps showing some rather ugly aspects of Polanski’s view of women, as a horror film it’s quite riveting and a veritable miracle of ingenious technique. The sound is especially miraculous but, alas, we’re here to discuss the film’s visuals, which are quite impressive in their own right.

 The cinematography is an amazing mix of British realism with a very continental feeling surrealism. The black and white is often stark and almost abrasive in its cutting contrast, rendering the protagonist into a sort of ghostly vision of feminine innocence. The greatest visual accomplishment of the film, though, isn't so much its beautiful yet creepy cinematography, but its masterful set design. The apartment where most of the film's narrative occurs is practically a second protagonist, going from realistic banality to a nightmarish vision of hell with an extraordinary ease. From arms jutting out through clay walls to a bathroom that seems to have grown to twice its original size in the middle of a sequence, Repulsion’s apartment is comparable to The Shining’s hotel when it comes to startlingly effective but deceptively normal looking horror film sets.


 Repulsion is very often discussed alongside Rosemary’s Baby and The Tenant, as a sort of trilogy of the terror of living in apartments, which I think is rather misleading. While I can understand a great similarity between this film and The Tenant, I think that when comparing it to Rosemary’s Baby a key difference comes to the forefront. When we’re watching Mia Farrow descending into a spiral of paranoia and satanic conspiracies there’s a great closeness between the audience and the protagonist. In a way, we’re experiencing the terror through her eyes and it’s because of her responses and reactions that we’re engulfed in the film’s suffocating atmosphere. In Repulsion, in contrast, Polanski seems almost reluctant of getting too close to his protagonist, Carol played by a stunningly beautiful Catherine Deneuve.

 While the director himself insists that the entirety of the film is a subjective experience seen through Carol’s perspective, I strongly disagree that this is what the film, as a finished work, ends up accomplishing. When I watch Repulsion I never get the feeling that I’m experiencing Carol’s psychic meltdown, but rather that I’m watching it from a distance, almost in a voyeuristic manner. This is mostly a byproduct of the opacity with which Polanski and Deneuve render the character, never trying to explain, empathize, or simply attempt to comprehend the troubled psyche around which the entire edifice of the film is built.

 For my best shot I chose a shot where the presence of a camera watching Carol from a distance is unquestionably present:

Best Shot

 This shot appears quite early in the film, before we’ve even glimpsed the nightmarish apartment where loneliness turns into terror. In it, Carol simply walks through London almost floating through the screen with her ethereal beauty that is augmented by the contrasting black and white cinematography, almost turning her into a luminous and inhuman spirit.

  Catherine Deneuve’s beauty and her  icy persona are essential to the success of Repulsion. The actress has been often considered an Ice Queen of the screens, her beauty rather than calling for our touch or devotion seems to position the audience at a distance from its radiance, Deneuve is a goddess of the screen and as a divinity she must be adored and venerated from afar, but never sullied by our unworthy touch. All of this is quite odd of me to say when Repulsion is one of the actress’s most vulnerable performances. Carol possesses Deneuve’s chilly and beautiful presence, but in this character it’s not a goddess we observe but a cold porcelain doll, with cracks subtly appearing and threatening to shatter the entirety of her existence at any given moment.

 Polanski’s gaze is distant, voyeuristic and almost perverse in its unblinking intensity, but it’s the tempest of beauty, innocence and coldness that is Deneuve as Carol that really turns the film into the strange and brilliantly discomforting experience that it is in the end.



 And that’s why this is my best shot. Because Deneuve as rarely been more beautiful than when floating through London’s streets, seeming like she’s in a fashion editorial but without the confidence or pose of a model. Because the cinematography completely turns her into something distant and impenetrable, a spirit or an idea rather than a human, And because, despite all the technical brilliance of the film, we can see the shadow of the camera, completely making us aware of the act of distantly watching a person. To me, Repulsion isn’t about experiencing the horror of loneliness and possible mental illness, but rather about distantly watching it in all its incomprehensible spectacle and terror.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

THE SOUND OF MUSIC (1965) de Robert Wise

 Tal como foi pedido através de um comentário no Google+, aqui estão os meus pensamentos sobre Música no Coração.


 The Sound of Music de Robert Wise é, ainda hoje, um dos mais bem-sucedidos filmes alguma vez criados por Hollywood. Um sucesso de bilheteiras, um dos filmes mais lembrados e adorados de sempre, um vencedor de 5 Óscares, incluindo Melhor Filme, e um filme que, apesar da passagem do tempo, se mantém firmemente na psique coletiva da contemporaneidade e que continua a ser relevante em termos de cultura popular. O filme é difícil de observar sem o seu legado se intrometer, sem qualquer nostalgia pessoal se infiltrarem no espetador, mas o contrário também acontece, não fosse este um dos mais menosprezados e erradamente descartados filmes para uma audiência contemporânea cheia de cinismo e superioridade irónica.

 O filme, cujo enredo penso ser tão conhecido que seria uma tola futilidade colocar aqui um resumo, é uma adaptação de um musical do duo Rodgers e Hammerstein, sendo que é, para mim, a melhor adaptação do seu trabalho em filme. O verdadeiro herói por detrás do sucesso do filme será, aliás, o argumentista Ernest Lehman que, libertando-se de quaisquer noções de fidelidade para com a obra teatral, pega num dos mais problemáticos trabalhos desse lendário duo do teatro musical e sintetiza, reformula, reestrutura, molda e adapta o espetáculo num maravilhoso texto, onde a maioria dos problemas que amaldiçoam o texto original se dissipam. Lehman muda canções de lugar, muda motivações e comportamentos de personagens, corta cenas e encurta momentos com uma absoluta precisão. O final é um texto claro e dissimuladamente simples e com um ritmo onde as pausas dramáticas são perfeitamente calibradas, permitindo que o filme flua delicadamente apesar de ter quase três horas. Tantos outros musicais pecam por uma falta de libertação das suas origens teatrais que The Sound of Music salta logo à vista. Longe de teatral, o filme é intrinsecamente cinemático, se bem que a agradecer a esse facto temos também a realização de Robert Wise.

  Este não foi o primeiro musical de Robert Wise a alcançar tão grande sucesso, tendo o realizador criado a versão para cinema de West Side Story alguns anos antes deste filme, mas nunca o impacto do seu cinema foi tão monumental como com este filme, e raramente foi a sua eficiência melhor empregue que aqui. Tal como muitos dos seus filmes, o início do filme é um triunfo de dinâmica e emoção avassaladora, um momento de puro cinema cheio de grandiosidade e majestade, sendo que o seu uso das paisagens naturais e dos planos por helicóptero é inegavelmente inspirado. A sua insistência em filmar nas localizações reais, por exemplo, representa tanto da sua abordagem ao filme, em que a atenção do realizador com detalhes e pormenores paga os seus dividendos. No meio de toda a grandiosidade do filme há um magistral domínio de tom, uma fuga ao simplicismo sacarino da história e, como já disse, uma atenção ao pormenor que é típica do realizador Veja-se a sua direção do simples número Maria, uma introdução na segunda pessoa da protagonista do filme, em que a coreografia das mãos das freiras é de uma enorme precisão, mostrando sempre um contraste entre as pessoas que estão a favor ou contra Maria e apenas se tornando uma união visual no final do número quando as freiras, como unidade de linhas pretas e respeitosas, observam a chegada apressada e desajeitada da noviça que passa o tempo a cantar e rodopiar pelas montanhas austríacas.

 O visual do filme, de forma geral, é do melhor que Hollywood poderia oferecer, com uma cenografia que, seguindo o uso de localizações reais, parece almejar a um certo realismo se bem que este é temperado por uma suavidade visual que engloba todo o design do filme. Tanto na cenografia como nos figurinos há uma escolha insistente em cores pastéis e suaves tonalidades em que o dramatismo cromático pertence unicamente ao choque de vermelho que infeta a segunda metade do filme. Os cenários são detalhados e complexos na sua superficial simplicidade, e os figurinos, mais do que recriarem o ambiente pré-guerra são confortáveis desenhos completamente pertencentes aos anos 60, mas com uma harmonia magistral em relação ao resto da imagética do filme. A imagem do filme é de simplicidade precisamente construída e que esconde o que é, na verdade, uma cuidada e pormenorizada concretização. Isso nunca é mais visível que na fotografia do filme que, mais do que triunfar nas filmagens de paisagens naturais, vai encontrando, nos momentos mais negros e de pausa que Wise concede ao filme, uma delicadeza e elegância visual surpreendente. O uso de luz e sombras é de imensa perfeição, especialmente na segunda metade do filme e em cenas na abadia.

  Mas toda a perfeição visual do mundo seria um desperdício de talento e trabalho não fosse o elenco genial. Julie Andrews e Christopher Plummer são de uma genialidade especial, trabalhando num modo em que, apesar de aparentemente simples e pouco complexas, as suas prestações são essenciais em não deixar o filme cair num vazio adocicado, sem, no entanto negar a sua sinceridade. Andrews, que tinha acabado de ganhar o Óscar de Melhor Atriz por Mary Poppins quando este filme primeiro estreou, é um milagre em forma humana, sendo capaz de injetar uma melancolia e sentido de abnegação dolorosa ao otimismo avassalador que caracteriza a personagem de Maria Von Trapp, que é completamente removida da realidade histórica da verdadeira Maria. Nas mãos de muitas outras atrizes, Maria é um vácuo de fútil simplicidade, um sorriso santificado na forma de uma jovem heroína romântica, uma imagem distante e inalcançável de melodiosa e inabalável felicidade, mas, com o trabalho de Andrews, Maria nunca é distante ou fútil, mas sim o coração emocional de toda a construção do edifício do filme. Plummer não é de menor importância, sendo que o seu bem conhecido ódio pelo filme contagia a sua presença no filme que, longe de ser simples e docemente ríspida, é verdadeiramente abrasiva e severa, acrescentando uma acidez notória ao desenvolver do romance e ao desenrolar do enredo, nunca permitindo que o filme caísse na tolice açucarada que o ator julgava o filme ser.

 Mas este tempero dos mais simplisticamente doces aspetos do filme nunca é melhor visível que na presença de Eleanor Parker como a Baronesa que tem intenções românticas e mercenárias em relação ao Capitão Von Trapp. Parker é uma presença de incandescente ironia e cinismo no meio do filme, movendo-se com uma elegância e sofisticação quase sexual e que está muito além da inocência da figura de Maria. Repare-se no modo como Wise lhe concede a sua atenção quando a atriz está presente, usando-a não tanto como figura antagónica mas como forma de modular o tom do filme. No meio de toda a inspiradora história de uma freira apaixonada está esta presença, este toque de ironia e superioridade magnificamente elegante e cortante. O guião e o realizador sabem, no entanto, quando se afastar da sua figura, não permitindo que a sua leve manipulação e ciúme se tornem demasiado fulcrais e centrais, permitindo à figura dissipar-se e não distrair do verdadeiro poder antagónico do filme, cuja realidade da sua ameaça é monumentalmente pesada e inabalável em relação à sobremesa musical que muitos julgam o filme ser.

 A estrutura do filme é imensamente fácil de dividir em duas partes de invariável diferença tonal, sendo que é na segunda em que essa ameaça nazi se manifesta em toda a sua sufocante e opressiva totalidade. Primeiro temos o filme até ao casamento dos dois protagonistas, ou se quisermos ser mais abrangentes poderíamos dizer que apenas dura até à partida de Maria da casa dos Von Trapp. Esta parte é imensamente inocente e alegre, com uma corrente de melancolia e romance pelo meio e é maioritariamente sincera e tocante. Há uma condição quase infantil na ingenuidade e inocência desta parte, que é contrastado com a enorme incongruência do tom na segunda parte. Aí a inocência infantil passa a uma maturidade adulta. O sonho de uma criança passa a ser o otimismo perseverante de um adulto. Se os filmes musicais são usualmente caracterizados como felizes, simples e invariavelmente risonhos e otimistas, a segunda metade deste filme parece pôr essa noção à prova, colocando o otimismo do género face a uma das maiores instituições do mal da humanidade, mesclando o romantismo histórico com o legado sanguinário que a mera imagem da cruz suástica consigo carrega. Por muitos anos, achei que o filme se perdia nesta segunda parte, perdendo Andrews como foco do filme. Mas, tendo revisto o filme três vezes antes de escrever este texto, tenho a dizer que a minha opinião tem-se vindo a alterar, sendo que, apesar da sua simplicidade, há algo de imensamente complicado e até sofisticado na mistura de tons e intenções nesta segunda parte, tanto que a mudança de uma história de uma protagonista para uma história de uma família como unidade parece-me não só defensível, como inerentemente essencial.

 Os anos 60 foram uma década muito negra para o cinema americano, sendo que a mediocridade opulente parecia ser a ordem do dia. Os musicais foram particularmente afetados por isto, entrando numa fase de decadência na segunda metade da década que iria apenas culminar nos anos setenta, em que o género se tornou uma espécie em vias de extinção no panorama cinematográfico americano. Este foi um dos seus últimos momentos de indubitável glória na tradição classicista de Hollywood, sendo que a delicadeza e primor estrutural e técnico permitiram ao filme escapar ao tipo de falhas que afetaram outros filmes na época celebrados mas que hoje em dia são objeto de escárnio e crítica, como My Fair Lady Doctor Dolittle ou Hello Dolly! Onde o resto desses filmes eram monstruosos e pesados, há uma leveza e claridade absoluta em The Sound of Music.

 Não sou tolo o suficiente ao ponto de negar que o filme é uma obra de classicismo otimista e concebido para ganhar quantidades grotescas de dinheiro para os estúdios, mas, com tudo isso em conta, o filme é impossível de ignorar. O charme da obra é inegável e tem-se mantido vivo e relevante durante décadas e os aspetos, que anteriormente mencionei, contribuem para que o filme seja uma obra modulada e tonalmente variada, não sendo simplesmente uma alegria vazia sem limites. Este é o absoluto píncaro do dito cinema para famílias, e talvez por isso tenha ganho uma reputação tão paradoxal. Muitos adoram o filme, e muitos outros detestam a sua existência, olhando com desdém as suas intenções, a sua musicalidade e o seu otimismo e sinceridade. Para mim, que muitas vezes caio em semelhantes cinismos e pensamentos críticos, o filme é uma obra de pouca ambição, simples intenções, e maravilhosa concretização. Como muitos profissionais de Hollywood dizem em chorosos discursos cheios de clichés quando ganham troféus, o filme é simplesmente uma história bem contada. Uma história tocante e contada com todo o luxo que Hollywood podia fornecer e com uma equipa incrivelmente sagaz e precisa por detrás, fazendo deste filme um dos inabaláveis clássicos do cinema como arte e como forma de entretenimento.