Listen to Me Marlon foi exibido este fim-de-semana
como parte do DocLisboa, um festival obrigatório para qualquer apreciador de documentários. Como tal, aqui estão alguns dos meus pensamentos em relação a
este tocante autorretrato de Marlon Brando, possibilitado pelo trabalho de
Stevan Riley como realizador.
Mais do que uma elegia
a um dos mais importantes atores da história do cinema americano, Listen to Me Marlon, o novo documentário
de Stevan Riley sobre Marlon Brando, consegue estar mais próximo da
autobiografia. O filme é construído à volta de gravações feitas por Brando ao
longo da sua vida, uma espécie de diário gravado, que são aqui mescladas com
imagens da sua vida pública e privada, num retrato de cortante intensidade.
Logo no início do
filme, Riley mostra-nos a face de Brando digitalmente construída com base em
informações scaneadas aquando da participação do ator nos filmes do Super-Homem.
O efeito de ter esta construção digital a “falar” as gravações do ator, é
imediatamente chocante. Riley como que conjura um fantasma no seu ecrã, ma
sombra do passado, que não é de todo real, mas que na sua fraturada
artificialidade ganha uma força que nenhuma entrevista com o ator poderia
alcançar. Como os espíritos que assombram a mansão de Crimson Peak e os cinemas mundiais, este espectro de Brando confronta-nos
com o passado da sua existência e daí partimos para um dos mais tocantes
documentários biográficos de que tenho memória.
O que faz do documentário, que, para além do fantasma
digital, pouco arrisca formalmente, uma obra de inegável fascínio e importância
é o modo como Riley concede o seu documentário à perspetiva de Brando e nunca
tenta impor qualquer reflexão contemporânea sobre o seu sujeito. Ao recusar a
inclusão de entrevistas atuais, de voz-off que contextualizassem a figura de
Brando na contemporaneidade, o realizador deste documentário prende-nos
singularmente no olhar de um homem sobre si mesmo. O que ouvimos e vemos
durante quase duas horas é a reflexão de Brando sobre si mesmo ao longo dos
anos, tornando este filme, não uma grande homenagem ao ator estrela, mas uma
autobiografia que atravessa os limites do tempo e da vida quando nos é apresentada
em Listen to Me Marlon.
Pessoalmente, há
muito que me transtorna nas divagações de Brando, como a sua visão sobre a
importância do ator na totalidade do filme, a sua rejeição de qualquer
perspetiva do realizador, a sua celebração egocêntrica do naturalismo mimético
aquando da sua juventude, ou mesmo o modo como na sua paixão pelo Taiti ele,
para mim, consegue ser tão preconceituoso e até racista como aqueles contra
quem ele se manifesta, exoticizando um povo num ideal de idílica existência
quase mágica, como o estereótipo do magic negro que tanto aparece na cultura
americana. E o filme, longe de explorar as inconsistências, contradições e arrogâncias
da sua estrela, pelo contrário, simplesmente apoia a voz de Brando com escolhas
musicais e montagem que parecem celebrar as suas palavras.
Estes problemas, no
entanto, não são particularmente difíceis de contornar e ignorar, pelo simples
facto de que, ao nunca se desviar da perspetiva de Brando, apenas pontuada por
notícias e imagens dos media a que Brando teria tido acesso na sua vida, o
filme torna-se a obra do ator, mais ainda que a obra de Stephen Riley. O que ouvimos
é a perspetiva de Marlon Brando, daí ser lógica a celebração das suas ideias na
forma e abordagem do filme.
E, apesar do que possa ser sugerido pelas minhas palavras
anteriores, o filme nunca se torna num monólogo intelectualista em que o ator
se celebra a sai mesmo. O lado mais tocante do documentário, para além da
avassaladora dor trazida pelos destinos dos filhos do ator, é o modo como vamos
ouvindo as reflexões de um indivíduo ao longo da sua vida, o modo como a
opinião dele muda sobre si mesmo e suas convicções passadas, o modo como se
autocritica e como se perde na sua própria arrogância ou medo, etc.
Listen to Me Marlon pega na figura
lendária de Marlon Brando e, ao invés de a dissecar de modo intrusivo e pós-moderno,
simplesmente deixa que essa imagem se abra por si mesma numa explosão de
chocante intimidade. Marlon Brando como um ser humano complexo e não como uma
estrela arrogante e importante para o cinema, é algo que poucas vezes vimos e é
algo que este documentário nos propulsiona. Para além de tudo isto, há ainda
que apontar o modo como este filme é emocionalmente devastador na sua
introspeção, sendo que quando vi Listen
to me Marlon no DocLisboa, eram numerosos os espetadores que iam tendo de
limpar lágrimas dos seus olhos. Uma obra a não perder, mesmo para quem não
tenha grande afeição por Brando ou pelo cinema da sua era, simplesmente porque
pega numa figura tão celebrada como este ator e dela extrai a intimidade
lacrimosa da autorreflexão, infelizmente bastante difícil de encontrar na
maioria dos documentários que Hollywood faz sobre o seu passado.
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