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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR SOM



Primeiro que tudo, penso que é necessário explicar as diferenças entre as duas categorias a honrar o Melhor Som nos Óscares. Sound Editing, que se traduziria a algo como Montagem ou Edição de Som, refere-se à criação de elementos sonoros individuais, efeitos sonoros. Num filme como Star Wars: O Despertar da Força, um dos nomeados deste ano em ambas as categorias, este prémio iria reconhecer a produção dos sons dos sabres de luz, dos mecanismos, dos tiros etc. mas não a conjugação ou manipulação de todos estes elementos na sonoplastia do filme.

A conjugação dos efeitos sonoros, da música, do diálogo, do som ambiente etc. corresponde a Sound Mixing, ou Mistura de Som. Outro aspeto fulcral da mistura de som é a criação do equilíbrio ou desequilíbrio sonoro de um filme, nomeadamente em termos de volume e relevância de certos elementos sonoros na final experiência do filme. Por exemplo, quando Interstellar estreou gerou-se uma pequena controvérsia acerca do seu som, especificamente em volta de algumas sequências em que a banda-sonora estava colocada a volumes tão intensos que se sobrepunha a qualquer outro elemento sonoro, incluindo o diálogo.

Com essa explicação já feita, há que apontar como estas duas categorias, apesar das suas diferenças, raramente apresentam seleções de nomeados muito díspares. Normalmente acontece o que sucedeu este ano e apenas um par de filmes marca a diferença entre as duas coleções de filmes, sendo que este ano essas obras são A Ponte dos Espiões e Sicario.

As restantes escolhas da Academia são um usual reflexo dos gostos que os Óscares têm há muito mostrado nesta categoria, com filmes de ação cheios de tiros e explosões a marcarem uma incontornável presença. Mad Max: Estrada da Fúria e The Revenant serão, possivelmente, os grandes favoritos pela violência sensorial dos seus elementos técnicos assim como pela sua clara popularidade dentro da Academia, pelo menos aquando das nomeações.

É claro que nunca devemos subestimar um filme da saga Star Wars nas categorias de som. Será que O Despertar da Força vai alcançar o sucesso dos seus antecessores que, entre eles, arrecadaram 2 Óscares e um total de 6 nomeações nestas categorias?

Também muito dependente do seu exímio trabalho de som está Perdido em Marte, outro filme de aventura passado num ambiente espacial. Com um número de nomeações surpreendentemente pequeno em relação ao que era esperado, será que o filme de Ridley Scott conseguirá encontrar alguma vitória nestas categorias mais técnicas?

Como ambas as categorias estão tão interligadas e como já faltam poucos dias até aos Óscares e eu queria tentar conseguir examinar todos os nomeados, tirando as curtas-metragens, decidi abordar ambos os galardões e seus nomeados neste artigo.




RANKING DOS NOMEADOS (Sound Editing):



05. The Martian, Oliver Tarney


Para Perdido em Marte funcionar enquanto narrativa de sobrevivência e resiliência humana é necessário que o ambiente hostil de Marte e todo o mundo de mecanismos espaciais seja perfeitamente credível para a audiência. Esse foi o grande desafio da equipa que criou os sons para o mais recente filme de Ridley Scott, e é impossível apontar no seu trabalho qualquer fragilidade. Um trabalho sólido e musculosamente eficiente que, no entanto nunca chama demasiada atenção para si mesmo. Infelizmente, face a recentes filmes passados em ambientes semelhantes e em que o som representa uma porção muito mais vistosa da mise-en-scène, o som de Perdido em Marte consegue ser um pouco prosaico demais. Mesmo assim, há que destacar o modo como os sons do deserto marciano são imensamente convincentes e como o constante som de maquinaria a trabalhar no habitat da NASA confere ao filme um certo perigo e ameaça que de resto está maioritariamente excluído da abordagem estilística da obra, revelando nos efeitos sonoros uma curiosa precariedade mesmo nas mais avançadas construções tecnológicas imagináveis para exploração espacial.




04. The Revenant, Martín Hernández e Lon Bender

(se não querem spoilers, evitem este vídeo)

Da minha crítica de The Revenant:

“(…)é o som que se revela como o mais grandioso elemento, inundando a paisagem sonora com uma colossal densidade de pequenos sons que juntos compõem um retrato de um esmagador mundo natural que tudo envolve, afogando os elementos humanos na sua sonoridade(…)”

O mais recente filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu é uma obra completamente obcecada em encontrar e construir um registo de realismo que exceda as normais convenções desse tipo de experiência cinematográfica. Na minha opinião, essa abordagem é maioritariamente um fracasso e incrivelmente reacionária ao trabalho de outros mestres do cinema, mas, tenho de admitir que o filme me arrebatou no que diz respeito ao seu som, com os efeitos sonoros que pintam o mundo natural com uma assustadora visceralidade a serem de particular glória.




03. Star Wars: The Force Awakens, Matthew Wood e David Acord


Sabres de luz, explosões, viagens espaciais, criaturas fantasiosas, batalhas intergalácticas, o deslizar de portas numa nave espacial...! O universo Star Wars sempre esteve recheado de maravilhosos e memoráveis efeitos sonoros e este novo episódio não foge à regra, oferecendo uma variedade de formidáveis sons que tanto tornam credível o ambiente fantasioso em que a narrativa ocorre como são um elemento essencial para alimentar a nostalgia dos fãs dos filmes anteriores. Muitos dos efeitos sonoros são, aliás, reciclados ou recriados dos filmes passados da saga, mas, para mim, isso não lhe retira mérito. Como joia da coroa desta coleção de sons tenho de destacar a maravilhosa forma de comunicação de BB-8, cujos ruídos eletrónicos são um milagre de expressividade a partir de uma linguagem limitada e conseguem emular os semelhantes sons de R2-D2 sem os imitarem por completo, injetando algum necessário rejuvenescimento à paisagem sonora da saga.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FOTOGRAFIA




Mesmo que eu não concorde por completo com esta seleção de nomeados, tenho de dizer que esta é das melhores categorias nesta edição dos Óscares. Mesmo o trabalho de Robert Richardson que eu considero como o pior destes cinco, é um exemplo de imensa ambição visual.

À qualidade geral da categoria ajuda o facto que estes cinco diretores de fotografia são alguns dos melhores a trabalhar no cinema contemporâneo, sendo que três destes homens já são vencedores de edições anteriores. Richardson, que é um frequente colaborador de Quentin Tarantino e Martin Scorsese, já ganhou três Óscares pelo seu trabalho em JFK de Oliver Stone e The Aviator e Hugo de Scorsese. John Seale arrecadou o Óscar pelo seu trabalho em The English Patient, um épico situado no deserto africano com um estilo completamente distinto do filme de George Miller pelo qual este diretor de fotografia se encontra indicado este ano.

É difícil recordar o tempo, há 3 anos, em que Emmanuel Lubezki era um dos eternos injustiçados da Academia. A sua filmografia é uma coleção de triunfos geniais, sendo que as suas colaborações com Alfonso Cuáron e Terrence Malick são de particular destaque. Aliás, apesar do seu primeiro Óscar ter vindo de uma colaboração com Cuáron em Gravity, é fácil de perceber que foi a ligação estética de Lubezki ao cinema de Malick que levou o realizador de The Revenant a tanto posicionar o seu trabalho, especialmente o movimento de câmara e vistoso uso de luz natural, como componente principal do discurso visual do filme.

Do outro lado desta equação de magistrais diretores de fotografia temos Roger Deakins e Ed Lachman. O diretor de fotografia de Carol é um indiscutível mestre desta arte, sendo que o seu trabalho em Longe do Paraíso é um dos píncaros do cinema da década passada, mas entre estes dois, Deakins é quem merece finalmente levar para casa um Óscar depois da sua carreira e numerosas nomeações sem sucesso. Para além do mais, com a sua contribuição para o cinema de animação, poder-se-á afirmar que destes nomeados, apenas Deakins realmente avançou e desenvolveu a fotografia de cinema enquanto técnica e arte.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Robert Richardson por The Hateful Eight






Filmado em pelicula de 65mm, mais tarde exposta nos cinemas em 70mm, Os Oito Odiados é uma obra que procura reproduzir a opulência majestosa dos spaghetti westerns dos anos 60 e 70, nomeadamente as obras de mestres como Sergio Leone e Carlos Simi. O píncaro do trabalho de Robert Richardson neste filme é certamente a primeira secção do filme, situada nos exteriores nevosos do Wyoming. A escala épica das imagens conjuradas por Richardson são arrebatadoras, utilizando por completo o esplendor daquele que é o formato mais largo disponível. Quando o filme se fixa no interior da Minnie’s Haberdasherie, Richardson perde a beleza monumental do mundo natural e o formato do filme é como que posto em direto contraste com as limitações claustrofóbicas do ambiente físico. Isto é uma escolha interessante, mas as composições e a iluminação de Richardson ricas em contraluzes e esquemas artificialmente dramáticos, conferem ao filme uma debilitante teatralidade que retira dinamismo visual a toda a construção de Os Oito Odiados.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Oscar Hopefuls, Taylor Sheridan por SICARIO




Sicario foi o primeiro filme com guião escrito por Taylor Sheridan, um ator que apenas recentemente se parece ter dedicado à escrita. Para uma estreia como argumentista, há que louvar a complexidade moral e ética que o seu texto consegue conjurar, ou pelo menos que o Denis Villeneuve consegue retirar do texto.

Essa, aliás, foi uma dúvida que mantive comigo desde que vi o filme, se o trabalho de Sheridan merece admiração ou se foi apenas o trabalho do realizador que possibilitou a emergência de surpreendentes complexidades e problemáticas na narrativa de Sicario e seu estudo de personagem. No final, decidi que, mesmo que as intenções de Sheridan estejam bastante distantes dos aspetos que eu mais aprecio no filme, o seu trabalho merecia louvor por possibilitar a construção de um dos melhores filmes do ano.




Em Sicario, seguimos a personagem de Kate Macer, interpretada por Emily Blunt no melhor trabalho da sua carreira, uma agente do FBI que se vê integrada numa equipa da CIA envolvida na guerra às drogas focada na luta contra os cartéis mexicanos. Com ela vamos descobrindo a sufocante teia de secretismos que formam a abordagem americana ao poder e influência dos cartéis, sendo que vamos também observando o machismo intrínseco a todas as interações dos membros da equipa para com Kate, nomeadamente o odioso, mas nojentamente descontraído, Matt Gaver (Josh Brolin) e o misterioso Alejandro Gillick (Benicio del Toro).

À medida que a narrativa se desenvolve, Kate vai constantemente investindo contra as obscuras forças de autoridade masculinas, tentando perceber o que realmente se está a passar no amoral mundo da luta contra os impérios das drogas, sendo que vai descobrindo, aos poucos os horrores desse mundo, assim como os horrores das ações americanas e o modo como tem sido manipulada durante toda a narrativa.




Em relação ao tratamento da sua protagonista, o guião de Sheridan lembra fortemente O Silêncio dos Inocentes, cuja protagonista, Claice Starling, é igualmente uma agente num mundo de domínio masculino, cujo maior adversário, mais ainda do que os monstros criminosos que sobre ela se abatem parece ser a sufocante patriarquia de todo o sistema em que se encontra. É claro que há algo a fortemente separar as duas personagens, Starling á uma heroína proactiva, enquanto Kate é um veículo da audiência, e longe de ser heroica e ativa ela funciona como uma testemunha aterrorizada de todos os horrores do filme que não se estendem somente à violência dos cartéis.

Parte do génio de todo o texto, devém do modo como encara as personagens da patriarquia que rodeiam Kate, nunca as julgando abertamente, mas deixando espaço à audiência para ver a negrura que se esconde por detrás do seu bravado, ativamente subvertendo as expectativas de uma audiência quando confrontada com o que é efetivamente um thriller de ação. Isto torna-se particularmente evidente quando o filme se torna numa narrativa de vingança a partir do momento em que abandona a perspetiva de Kate e se dedica a observar o sanguinário plano de Alejandro, o assassino titular.




Textualmente, há pouco de complexo ou verdadeiramente subversivo nesta porção do filme, mas a execução de Denis Villeneuve e todo a narrativa que a antecedem, levam a que esta clássica história de vingança, esta popular imagem do anti-herói contemporâneo, se revelem como tenebrosas expressões de amoralidade, aqui aprovada pelas forças americanas, que, na criação das suas demoníacas narrativas, são tão culpados da infernal situação do México como os cartéis. Sicario revela-se assim como uma surpreendente examinação de narrativas a que estamos perigosamente acostumados e que raramente questionamos, estando sempre na inocente presunção que sabemos distinguir heróis de vilões.


Toda esta brilhante subversão de narrativas populares no panorama atual do cinema americano podem ser inadvertidamente indicadas pelo texto de Sheridan, mas, independentemente, das suas intenções, volto a salientar quão brilhante é o resultado final. No panorama atual da Awards Season, uma nomeação para Melhor Argumento Original é uma possibilidade, especialmente depois do sucesso do filme entre os sindicatos de Hollywood, mas outros filmes, escritos por nomes bastante mais sonantes que o de Taylor Sheridan, poderão roubar o lugar a este merecedor, complicado e desafiador trabalho.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

SICARIO (2015) de Denis Villeneuve



 Depois do tecnicamente impressionante, mas textualmente limitado, Raptadas e da opacidade intrigante de O Homem Duplicado, eu não sabia bem o que esperar de Sicario - Infiltrado, o novo filme de Denis Villeneuve e o seu terceiro em inglês. O cinema e, especialmente, a televisão americana têm estado pejados de narrativas em volta da guerra contra a droga e da relação entre os EUA e o México, sendo que nos últimos anos tem havido como que uma calcificação narrativa e formal neste tipo de histórias, infetadas por uma banalidade e simplicidade politica que me têm repelido. Sicario – Infiltrado está longe de qualquer acusação de complacência ou simplismo, sendo um dos mais surpreendentes filmes narrativos a sair de Hollywood e a debruçar-se sobre temas tão politicamente acesos como estes.

 O filme desenvolve-se à volta de Kate Macer (Emily Blunt), uma agente do FBI que, depois de uma horrenda abertura numa casa armadilhada e forrada de cadáveres, é convidada a fazer parte de uma equipa especial, com supostas ligações com a CIA, que está envolvida na guerra da droga. Sem grande informação e desejosa de finalmente fazer alguma diferença, Kate é mergulhada num pesadelo acordado, seguindo a liderança dúbia de Matt Graver (Josh Brolin), um agente da CIA, e Alejandro Gillick (Benicio del Toro), um misterioso consultor que outra foi um advogado cuja família foi devastada por um dos senhores da droga perseguidos pela equipa central ao filme. O que, juntamente com Kate, vamos descobrindo é uma teia de horrenda manipulação em que os “heróis” americanos são, em parte, culpados pela criação do inferno na Terra que observam no México.

 Longe de simplificar a visão do México e da guerra contra os cartéis, o filme parece recusar-se a cair nos simplicismos de outras narrativas semelhantes. Quase todo o filme é passado a acompanhar Kate e a partir da sua perspetiva olhamos o mundo dos agentes americanos a ser um pesadelo tão sufocante e imoral como o caos aterrador das cenas passadas no México. Apenas nos afastamos ocasionalmente da perspetiva horrorizada e quase paralisada da protagonista, sendo que, num momento crucial do filme, acompanhamos Gillick. A sequência relembra tantas outras narrativas de anti-heróis vingadores. Aqui, no entanto, a figura do anti-herói e suas ações estão longe de glorificações banais, sendo que nos apercebemos da irremediável amoralidade e desumanidade das suas ações. A outra figura que observamos proximamente é um polícia envolvido com os cartéis, Silvio (Maximiliano Hernández). Vemo-lo maioritariamente em casa com sua família, sendo que antes de ser mais um peão neste violento jogo de guerra, o vemos como um pai, como um humano com quem é fácil simpatizar. Quando o seu final chega, temos a impressão que, em outros filmes, esta personagem seria uma figura de uma só cena, algo dispensável e esquecível, mas aqui é uma vítima, não completamente inocente, de um mundo negro que se parece ter esquecido da noção de básica humanidade.

 O mundo aterrador do filme é requintadamente criado por um formidável trabalho técnico que faz a precisão admirável de Raptadas parecer um pueril exercício escolar. A fotografia é um dos melhores trabalhos na filmografia do mestre Roger Deakins, assim como é um dos seus trabalhos menos característicos. As imagens são cristalinas e precisas, evitando os filtros amarelados que na televisão americana parecem sinónimos do México, e trabalhando com sombras negras e profundas que ora se manifestam como manchas cortantes na paisagem luminosamente infernal ou como ambientes envolventes de sombras que tudo parecem consumir, abatendo-se ameaçadoramente sobre as personagens. O visual do filme também deve muito à discreta e eficaz cenografia de Patrice Vermette, sendo a casa de horrores que abre o filme um espaço de particular horror e eficácia visual.

 Ainda mais importante e magistral que o visual do filme é o seu estupendo som. A música, da autoria de Jóhann Jóhannsson, funde-se com os efeitos sonoros numa avassaladora atmosfera de constante ameaça. Há algo de horrendamente opressivo na sonoplastia do filme, como se criaturas infernais se fossem movimentando debaixo dos pés da audiência, sendo que por vezes parecemos ouvir a terra mover-se em estrondosa intensidade, como se num submundo invisível o caos fosse tão grande como na realidade em que habitam as figuras humanas do filme, e seus movimentos cataclísmicos se fizessem ouvir por toda a narrativa. Há algo de demoníaco no som, e ao mesmo tempo de impressionantemente expressionista e imersivo, tornando, em algumas sequências, o som de um caótico ambiente urbano numa cacofonia infernal digna de pesadelos aterradores.

 Este fantástico ambiente é habitado e vitalizado por um elenco formidável com Emily Blunt no protagonismo e a apresentar o seu mais complexo e impressionante trabalho até à data. A sua presença aterrada e impetuosidade palpável lembram Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes, sendo que, especialmente na segunda metade do filme, Blunt vai muito mais longe que Foster mostrando como Kate quase fica paralisada pela descoberta da realidade corrupta e horrenda e seu papel nas maquinações masculinas à sua volta. O filme sem Blunt sem Blunt seria impensável, sendo que a luta de Villeneuve pela sua escolha de uma atriz para protagonista do filme bem pagou os seus dividendos. Del Toro, Brolin e Daniel Kaluuya, como o parceiro de Kate, são de louvar também. Del Toro é particularmente estrondoso na sua reticência misteriosa e agressividade assustadora, enquanto Brolin brilha na sua repugnante criação de arrogância nojenta e perigosa e Kaluuya oferece uma visão de rara humanidade e apoio num mundo em que o perigo parece espreitar por entre as sombras.

 Sem Dilleneuve, contudo, toda esta mestria técnica e performativa seria inútil, sendo a mão segura do realizador que une todos os componentes do filme numa obra de mestria quase maquinal na sua precisão. Uma das sequências mais impressionantes do filme passa-se no regresso de uma frota de carros aos EUA, depois de passarem por Juarez. Num engarrafamento, na fronteira entre os países, os carros ficam bloqueados e explode um confronto violento. Aqui todos os componentes do filme chegam a gloriosa união, sendo a tensão criada por Villeneuve uma maravilha que lembra o que Hitchcock em tempos fez com uma bomba escondida na pasta de um rapaz. Sabemos há muito que algo violento vai ocorrer na passagem pela fronteira, sendo essa informação explicitamente atirada à audiência, a construção cénica aponta inexoravelmente para o conflito que se despoleta, mas no entanto há algo de fulgurante em toda a experiência da sequência. Tal como na maior parte do filme, aqui a violência é repentina, expectável e intensa, sendo mais aterradora pela sua fugaz banalidade que pela glorificação acentuada que outros realizadores menores tentariam nela explorar.

 Sicario – Infiltrado funciona como uma das armas que tanto aparecem ao longo da sua narrativa. Todos os seus componentes estão precisamente criados e calibrados para uma violenta funcionalidade final, sendo que nada é desperdiçado ou erroneamente concebido. Por detrás de toda a sua perfeição estrutural, interpretativa e formal está ainda um dos mais formidáveis e desafiadores textos sobre a guerra contra a droga no México e nos EUA, renunciando a simples dicotomias entre o bem e o mal ou a glorificações repugnantes de desumanidade e amoralismos. Não é um filme fácil de ver ou particularmente agradável de experienciar mas é, sem dúvida, uma das mais importantes obras a sair de Hollywood neste ano cinematográfico.