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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FILME



Com esta análise à categoria de melhor filme chegamos ao fim desta minha dissecação e exploração de todas as categorias dos Óscares referentes a longa-metragens. Infelizmente, não tenho acesso à maior parte das curtas-metragens nomeadas pelo que não tenho base com que escrever qualquer tipo de crítica das três categorias que visam honrar esse tipo de cinema.

Voltando ao Óscar de Melhor Filme, depois das suas vitórias nos BAFTAs e nos Golden Globes muitos estão a prever uma vitória sem precedentes para The Revenant, que também é o favorito em, pelo menos, mais três categorias. Eu não tenho grande convicção na vitória do filme protagonizado por Leonardo DiCaprio. Em anos anteriores, quando confrontados com a escolha entre um espetáculo de pirotecnia formal e alternativas com maior aparência de relevância social, a Academia mostrou tendência a preferir os filmes com mensagens mais relevantes e socialmente importantes.

Para além dessa tendência da Academia de Hollywood, também existe o facto de que os Óscares apenas partilham o seu sistema de votação com os PGAs, onde A Queda de Wall Street derrotou o filme de Iñarritu. Os Óscares usam um sistema de votação preferencial, em que os votantes colocam os nomeados por uma ordem de preferência ao invés de simplesmente nomearem aquele que acham o melhor. Isto favorece filmes que não polarizem o corpo votante, e The Revenant é tão adorado como é por muitos detestado, enquanto Spotlight é abertamente louvado, mesmo por quem não esteja particularmente entusiasmado com os seus feitos enquanto peça de cinema.

Com isto em conta assim como a geral imprevisibilidade da temporada, que chegou à sua apoteose com a divisão dos sindicatos principais, parece que estamos numa corrida de três filmes para o ouro. Pessoalmente prefiro Spotlight aos outros dois e acho que é também aquele que menos aversão consegue provocar na generalidade da população. Veremos se a minha previsão se verifica ou se vamos sofrer a colossal tragédia de ver The Revenant coroado como o Melhor Filme de 2015. Quase tremo só de pensar em tal horror.

Em relação aos outros nomeados, parece-me que não têm grande hipótese de ganhar aqui. É certo que Mad Max: Estrada da Fúria foi o grande favorito das massas críticas internacionais, mas não consigo imaginar os Óscares a fazerem uma escolha tão pouco ortodoxa, por muito que o filme mereça esta honra.

De resto, Perdido em Marte, A Ponte dos Espiões, Brooklyn e Room devem contentar-se somente com a sua nomeação. Mas quem sabe? O filme de Lenny Abrahamson recebeu um apoio surpreendente da Academia, com uma nomeação surpresa para Melhor Realizador e é inegável como Jacob Tremblay tem vindo a conquistar o coração de todos os que acompanham a Awards Season.

Não vou perder tempo a falar dos filmes que injustamente foram ignorados, mas tenho de salientar como incrivelmente mediana e desinspirada é esta seleção, com apenas um filme a se destacar pela sua incontornável genialidade. Enfim, mediano e banal são expressões que poderiam caracterizar grande parte dos nomeados a este Óscar desde a sua criação.

Mas chega de pensamentos negativos. Esta noite são os Óscares! Vamos celebrar e pensar em cinema, mesmo que seja simplesmente para afastarmos o pensamento das escolhas desastrosas da Academia. Viva o cinema!





RANKING DOS NOMEADOS:



8. The Revenant, Arnon Milchan, Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Mary Parent, Keith Redmon


Da minha crítica de The Revenant – O Renascido:

“Juvenil, limitado e cansativo são boas palavras para descrever The Revenant que, apesar da sua magnificência técnica, não encontra qualquer glória cinematográfica na sua eficiência, e que apenas se revelou como uma das mais tortuosas e estupidificantes experiências que tive ao ver filmes deste passado ano de 2015. Enfim, parabéns a DiCaprio pelo seu Óscar e a todos os nomeados deste filme, por muito que nenhum deles realmente tenha merecido a aclamação que receberam.”

Para além da sua impressionante, mas conceptualmente vazia, pirotecnia técnica, The Revenant é uma obra completamente desprezível. Há quem encontre profundidade e humanidade neste filme, mas eu nada disso vejo. Sinceramente, esta foi das mais odiosas experiências que o cinema de 2015 me trouxe, pois há poucas experiências mais irritantes que ver um desastre cinematográfico com pretensiosismos de genial grandeza e que, pelo caminho, conseguiu convencer muitos críticos e espectadores dessa mesma importância ilusória.




7. The Big Short, Brad Pitt, Dede Gardner e Jeremy Kleiner


Da minha crítica de A Queda de Wall Street:

“Para mim, o maior problema de todo este filme nem é a sua incompetência formal ou a sua desumana coleção de caracterizações limitadas, mas sim o seu tom, que já anteriormente referi. Ao investir num constante registo de insinceridade, The Big Short, que já é um projeto de premissas dúbias quando celebra o sucesso financeiro de um grupo de homens que se aproveitou da iminente miséria de milhões de pessoas para ganhar milhões, acaba por ser o arquiteto da sua própria irrelevância. O filme pretende explorar a doentia realidade e o perigo de um sistema capitalista caído em completa selvajaria gananciosa, e estas são ideias importantes para transmitir a uma audiência, mas eu não penso que reduzir tudo a uma comédia irónica e despreocupada seja a chave para tal, especialmente quando o tom do filme apenas parece retirar importância à informação que nos vai sendo dada.”

Apesar de eu conseguir encontrar valor nas intenções deste filme, a sua abordagem, para mim, é um completo desastre, ativamente trabalhando contra qualquer tipo de nobreza ideológica que possa estar na génese do projeto. Talvez a parte mais trágica de tudo isto seja mesmo o modo como o filme demonstra o potencial para ser uma obra de cinema muito superior ao que acabou por ser, com um elenco cheio de fantásticos atores, uma impetuosidade incomum na exploração da corrupção do sistema financeiro americano e um empenho extraordinário na disseminação de informações cruciais para o entendimento da catástrofe económica que explodiu em 2008 e cujas repercussões ainda estamos a sentir hoje em dia.




6. The Martian, Simon Kinberg, Ridley Scott, Michael Schaefer e Mark Huffam


Da minha crítica de Perdido em Marte:

“O que principalmente admirei no filme foi, de certo modo, a sua relativa simplicidade e falta de ambição. Tal parece ser uma crítica em forma de elogio traiçoeiro, mas não o é de todo, sendo que é exatamente nessa simplicidade que o filme floresce e evita cair nos perigos do pretensiosismo e auto glorificação que deflagram por outros filmes semelhantes como forças destruidoras. Para mim, aliás, os únicos momentos em que o filme realmente me começou a desiludir foram durante as cenas do resgate final em que começa a existir uma enfática insistência no dramatismo da situação que acaba por cair num cliché sentimentalista que não se conjuga bem com o resto da abordagem do filme. Isto é, eu volto a salientar, particularmente surpreendente quando consideramos a absoluta falta de leveza ou delicadeza tonal que se espalha pela filmografia de Scott, se bem que aqui o realizador tem muito que agradecer ao seu elenco.”

Quem diria que Ridley Scott ainda era capaz de criar uma leve peça de entretenimento cheia de humor e nenhuma da seriedade carrancuda que tem vindo a dominar a sua recente filmografia? Eu certamente não seria uma dessas pessoas e fico feliz com esse erro hipotético, sendo que este é o melhor filme do realizador desde Thelma e Louise. No entanto, é difícil ignorar alguns dos maiores problemas tonais do filme, assim como a sua abjeta falta de tensão. Perdido em Marte acaba por ser uma experiência facilmente descartável, mas não por isso menos digna de alguma admiração. Por vezes, há que valorizar cinema populista de entretenimento sem grandes ambições pela simples eficiência da sua concretização. Para além disso, é raro vermos um blockbuster construído em volta do que é quase uma celebração de heroísmo coletivo, de trabalho colaborativo e não do simples e redutivo arquétipo do indivíduo heroico.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR SOM



Primeiro que tudo, penso que é necessário explicar as diferenças entre as duas categorias a honrar o Melhor Som nos Óscares. Sound Editing, que se traduziria a algo como Montagem ou Edição de Som, refere-se à criação de elementos sonoros individuais, efeitos sonoros. Num filme como Star Wars: O Despertar da Força, um dos nomeados deste ano em ambas as categorias, este prémio iria reconhecer a produção dos sons dos sabres de luz, dos mecanismos, dos tiros etc. mas não a conjugação ou manipulação de todos estes elementos na sonoplastia do filme.

A conjugação dos efeitos sonoros, da música, do diálogo, do som ambiente etc. corresponde a Sound Mixing, ou Mistura de Som. Outro aspeto fulcral da mistura de som é a criação do equilíbrio ou desequilíbrio sonoro de um filme, nomeadamente em termos de volume e relevância de certos elementos sonoros na final experiência do filme. Por exemplo, quando Interstellar estreou gerou-se uma pequena controvérsia acerca do seu som, especificamente em volta de algumas sequências em que a banda-sonora estava colocada a volumes tão intensos que se sobrepunha a qualquer outro elemento sonoro, incluindo o diálogo.

Com essa explicação já feita, há que apontar como estas duas categorias, apesar das suas diferenças, raramente apresentam seleções de nomeados muito díspares. Normalmente acontece o que sucedeu este ano e apenas um par de filmes marca a diferença entre as duas coleções de filmes, sendo que este ano essas obras são A Ponte dos Espiões e Sicario.

As restantes escolhas da Academia são um usual reflexo dos gostos que os Óscares têm há muito mostrado nesta categoria, com filmes de ação cheios de tiros e explosões a marcarem uma incontornável presença. Mad Max: Estrada da Fúria e The Revenant serão, possivelmente, os grandes favoritos pela violência sensorial dos seus elementos técnicos assim como pela sua clara popularidade dentro da Academia, pelo menos aquando das nomeações.

É claro que nunca devemos subestimar um filme da saga Star Wars nas categorias de som. Será que O Despertar da Força vai alcançar o sucesso dos seus antecessores que, entre eles, arrecadaram 2 Óscares e um total de 6 nomeações nestas categorias?

Também muito dependente do seu exímio trabalho de som está Perdido em Marte, outro filme de aventura passado num ambiente espacial. Com um número de nomeações surpreendentemente pequeno em relação ao que era esperado, será que o filme de Ridley Scott conseguirá encontrar alguma vitória nestas categorias mais técnicas?

Como ambas as categorias estão tão interligadas e como já faltam poucos dias até aos Óscares e eu queria tentar conseguir examinar todos os nomeados, tirando as curtas-metragens, decidi abordar ambos os galardões e seus nomeados neste artigo.




RANKING DOS NOMEADOS (Sound Editing):



05. The Martian, Oliver Tarney


Para Perdido em Marte funcionar enquanto narrativa de sobrevivência e resiliência humana é necessário que o ambiente hostil de Marte e todo o mundo de mecanismos espaciais seja perfeitamente credível para a audiência. Esse foi o grande desafio da equipa que criou os sons para o mais recente filme de Ridley Scott, e é impossível apontar no seu trabalho qualquer fragilidade. Um trabalho sólido e musculosamente eficiente que, no entanto nunca chama demasiada atenção para si mesmo. Infelizmente, face a recentes filmes passados em ambientes semelhantes e em que o som representa uma porção muito mais vistosa da mise-en-scène, o som de Perdido em Marte consegue ser um pouco prosaico demais. Mesmo assim, há que destacar o modo como os sons do deserto marciano são imensamente convincentes e como o constante som de maquinaria a trabalhar no habitat da NASA confere ao filme um certo perigo e ameaça que de resto está maioritariamente excluído da abordagem estilística da obra, revelando nos efeitos sonoros uma curiosa precariedade mesmo nas mais avançadas construções tecnológicas imagináveis para exploração espacial.




04. The Revenant, Martín Hernández e Lon Bender

(se não querem spoilers, evitem este vídeo)

Da minha crítica de The Revenant:

“(…)é o som que se revela como o mais grandioso elemento, inundando a paisagem sonora com uma colossal densidade de pequenos sons que juntos compõem um retrato de um esmagador mundo natural que tudo envolve, afogando os elementos humanos na sua sonoridade(…)”

O mais recente filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu é uma obra completamente obcecada em encontrar e construir um registo de realismo que exceda as normais convenções desse tipo de experiência cinematográfica. Na minha opinião, essa abordagem é maioritariamente um fracasso e incrivelmente reacionária ao trabalho de outros mestres do cinema, mas, tenho de admitir que o filme me arrebatou no que diz respeito ao seu som, com os efeitos sonoros que pintam o mundo natural com uma assustadora visceralidade a serem de particular glória.




03. Star Wars: The Force Awakens, Matthew Wood e David Acord


Sabres de luz, explosões, viagens espaciais, criaturas fantasiosas, batalhas intergalácticas, o deslizar de portas numa nave espacial...! O universo Star Wars sempre esteve recheado de maravilhosos e memoráveis efeitos sonoros e este novo episódio não foge à regra, oferecendo uma variedade de formidáveis sons que tanto tornam credível o ambiente fantasioso em que a narrativa ocorre como são um elemento essencial para alimentar a nostalgia dos fãs dos filmes anteriores. Muitos dos efeitos sonoros são, aliás, reciclados ou recriados dos filmes passados da saga, mas, para mim, isso não lhe retira mérito. Como joia da coroa desta coleção de sons tenho de destacar a maravilhosa forma de comunicação de BB-8, cujos ruídos eletrónicos são um milagre de expressividade a partir de uma linguagem limitada e conseguem emular os semelhantes sons de R2-D2 sem os imitarem por completo, injetando algum necessário rejuvenescimento à paisagem sonora da saga.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR ATOR SECUNDÁRIO



Tradicionalmente, tenho de admitir, o Óscar de Melhor Ator Secundário é certamente a categoria de atuação que menos interesse tem despertado em mim. Possivelmente isto é uma consequência deste prémio ser um estranho veículo para atores conceituados receberem recompensas de carreira, sendo que, em certos anos, parece que a qualidade individual das prestações nomeadas é colocada em segundo plano em prol de narrativas e campanhas desenvolvidas em volta de filmografias ilustres.
Este ano, curiosamente, não sinto que esse seja o caso. De facto, os dois grandes frontrunners, Mark Rylance e Sylvester Stallone são curiosas anomalias. Nenhum deles possui os anos de filmes criticamente aclamados que outros vencedores já possuíram, apesar de que a campanha de Stallone é fortemente apoiada na sua longevidade profissional e que Rylance é um dos mais aclamados intérpretes de teatro em língua inglesa da atualidade.

Outra tendência que felizmente se começou a dissipar foi certamente a de usar esta categoria para reconhecer os vilões mais marcantes dos filmes de prestigio. Este ano isso apenas caracteriza a prestação de Tom Hardy, que também foi certamente auxiliado pelo amor geral que agraciou o seu filme assim como pelo curioso facto de que sempre que foi nomeado para Melhor Ator, Leonardo DiCaprio foi acompanhado por um dos seus colegas a ser nomeados para Melhor Ator Secundário. Deste modo Hardy junta-se a Jonah Hill, Djimon Hounson e Alan Alda. É claro que há que se reconhecer o modo como a carreira em meteórica ascensão de Hardy foi também de grande ajuda para a sua indicação aqui. Com o inegável sucesso de Mad Max: Fury Road, o reconhecimento crítico por prestações em filmes como Legend, Locke e Bronson e a celebridade que o ator tem adquirido pelo seu trabalho em blockbusters, especialmente os filmes de Christopher Nolan, Hardy é uma escolha apropriada se os Óscares querem reconhecer um dos jovens atores com maiores esperanças de ter um futuro de monumental sucesso e prestígio.

Mark Ruffalo e Christian Bale são dois atores que grandemente devem as suas nomeações ao sucesso dos seus filmes respetivos. Com elencos enormes, The Big Short e Spotlight ofereceram aos membros da Academia amplas escolhas para esta categoria, mas estes dois anteriores nomeados, e vencedor no caso de Bale, destacaram-se. Penso que esse destaque se deve ao modo como Bale e Ruffalo escolhem abordagens bastante díspares e discordantes do resto dos elencos em que se incluem mas esse tipo de análise é mais apropriado para o meu ranking dos nomeados.



RANKING DOS NOMEADOS



5. Tom Hardy em The Revenant



Em The Revenant, Tom Hardy acrescenta mais um grosseiro sotaque e grotesco registo vocal à sua curiosa coleção que inclui filmes como The Dark Knight Rises e Mad Max: Fury Road. Mais do que se integrar na sua prestação de modo orgânico, ajudando a uma caracterização naturalística, esta decisão técnica da parte de Hardy apenas distrai, especialmente quando posto em direta comparação com os restantes membros do seu elenco. Há uma qualidade imensamente vistosa no trabalho de Hardy, como se o ator estivesse aterrorizado de perder energia ou a atenção constante do seu público. Junte-se a isto uma panóplia de maneirismos telegrafados sem o mínimo de subtileza e um filme completamente focado numa pretensão de ultranaturalismo e Hardy é uma perfeita catástrofe, possivelmente mais merecedor de um Razzie que de um Óscar. Mesmo assim, tenho de admitir que o seu trabalho me deu um curioso prazer, injetando uma teatral e energética presença à carcaça de um filme cuja representação de sofrimento humano é uma perfeita ilustração da experiência que é a tortura que a obra inflige sobre sua audiência. Grotesco, exagerado, completamente unidimensional na sua vilania e impossivelmente ridículo, é uma tragédia que esta prestação marque a primeira nomeação de um ator tão promissor como Hardy, mas há sempre a esperança que nomeações mais merecidas se encontrem no seu futuro.



4. Mark Ruffalo em Spotlight



A prestação coletiva do elenco de Spotlight é caracterizada por uma enorme modéstia e descrição. Nada de gritos ou histerias despropositadas, o modo como Tom McCarthy dirige os seus atores e evita sentimentalismos inapropriados ou manipulações emocionais forçadas é um dos melhores aspetos deste grande favorito ao Óscar de Melhor Filme. É pena, portanto, que a única prestação a fugir a este registo tenha sido a escolhida pela academia aquando da votação para Melhor Ator Secundário. Mark Ruffalo é um ator que eu admiro há anos, especialmente a sua habilidade em nunca deixar qualquer esforço transparecer nas suas caracterizações, resultando num naturalismo descontraído e sem os histrionismos que usualmente resultam em nomeações aos prémios da Academia de Hollywood. Em Spotlight, no entanto, o ator cai nessas mesmas histrionias, adotando um estado de constante fúria moral que nunca é explorada com qualquer subtileza, mas sim gritada e exposta em cenas de explosiva e inapropriada intensidade. O seu trabalho em Spotlight representa o tipo de abordagem medíocre e óbvia que podia ter levado o filme a ser apenas mais uma enfadonha obra de cinema de prestígio americano e não a subtil criação de preciso humanismo que acabou por ser. Como consequência disto mesmo tenho de dizer que, invariavelmente da qualidade técnica do seu trabalho, Mark Ruffalo é o pior membro do elenco do seu filme e um injusto nomeado a este Óscar que seria uma honra mais apropriada a um imenso número de outros atores de Spotlight como Michael Keaton, Liev Schreiber ou Stabnley Tucci, entre muitos outros.
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

BRIDGE OF SPIES (2015) de Steven Spielberg




Depois de Lincoln, a possibilidade de Steven Spielberg regressar tão rapidamente a um drama de época com uma narrativa fortemente política era algo de criar água na boca de qualquer cinéfilo. Eu, pelo menos, fiquei estonteado com a qualidade de Lincoln em 2012, especialmente tendo em conta a minha relativa falta de afeição para com o estilo classicamente convencional de Steven Spielberg. Para aumentar ainda mais as espectativas, o argumento deste novo projeto tinha como autores os incomparáveis irmãos Coen. Estava então cimentada uma incontornável promessa de grandeza. A Ponte dos Espiões, infelizmente, não é tão formidável como Lincoln mas continua a ser um fascinante filme coberto pela pátina da nostalgia cinematográfica e construído por um dos autores mais gentilmente populistas do cinema americano. Quem diria que eu começaria a perceber a adoração generalizada pelo trabalho de Steven Spielberg nos anos mais tardios da sua carreira?

O filme, facilmente bipartido em dois impulsos narrativos, centra-se à volta de James B. Donovan (Tom Hanks), um comum, mas respeitado, advogado americano, a quem é pedido que defenda em tribunal o agente soviético Rudolf Abel (Mark Rylance) em plena Guerra Fria. Com uma fé desmesurada na justiça e nos ideais mais nobres da sociedade americana, Donovan monta a defesa de Abel, acreditando ser o seu dever defender o seu cliente, possibilitando-lhe um justo tratamento face ao sistema judicial americano. Como consequência das suas ações modestamente heroicas, Donovan torna-se num dos homens mais infames dos EUA nos anos 50, apelidado de traidor e com a sua família a ser tão perseguida como ele mesmo.




A primeira metade de A Ponte dos Espiões trata do julgamento de Abel e da confrontação do idealismo de Donovan face ao cinismo hipócrita e bastante fanático da sociedade americana da época, mas a segunda é bastante distinta. Depois do julgamento, Abel é considerado culpado, mas, graças a apelos de Donovan, condenado à morte, sendo que, quando um soldado americano (Austin Stowell) numa missão de espionagem é capturado pela União Soviética, as duas nações compõem um complexo esquema de troca de espiões. Donovan, um cidadão privado, torna-se no principal agente nas negociações cobertas pelo subterfúgio quase teatral das políticas da Guerra Fria, sendo enviado para Berlim, logo após ao muro ter sido erguido. Aí, no gélido mundo de uma Europa dividida, o filme torna-se num completo thriller político, onde os interesses da União Soviética, da Alemanha de Leste e dos EUA vão colidindo com a humanidade das pessoas envolvidas neste esquema, nomeadamente de Donovan.




A Ponte dos Espiões não contém as mesmas complexidades políticas e ideológicas de Lincoln mas usa a sua abordagem fortemente nostálgica como um perfeito veículo para levar as audiências a contemplar questões normalmente envolvidas na segurança conferida pela pátina do passado. O texto dos Coen é de particular relevância, conferindo uma certa acidez textual que vai sempre complicando mesmo os impulsos mais adocicados da mise-en-scène de Spielberg, cujo trabalho realmente brilha aquando da construção de tensão e suspense nas negociações internacionais em Berlim. Mas o filme não prima apenas por um sólido guião e realização inteligentemente convencional, sendo que o seu elenco é inegavelmente louvável pelo final sucesso do projeto.

Tom Hanks no papel de James B. Donovan é como que um James Stewart renascido. Há uma decência e moralidade na caracterização de Donovan que seria facilmente forçada ou cliché se outro ator estivesse a cargo da sua encarnação, mas Hanks é uma escolha perfeita. O seu trabalho de modulação tonal entre o drama, a tragédia, o thriller e a comédia é de uma precisão fantástica, assegurando que o filme nunca se perde, ou se torna pouco convincente. Em Hanks o classicismo da velha Hollywood encontra a contemporaneidade textual de algumas porções do guião, fazendo de Donovan um dos melhores protagonistas e heróis no cinema americano de 2015, sendo que o seu principal atributo é a sua surpreendente e magnifica modéstia.




O resto do elenco de A Ponte dos Espiões é bastante sólido, mas mais ninguém tem o mesmo tipo de triunfo que Hanks. Quem mais se aproxima é, certamente, Mark Rylance, um veterano dos palcos ingleses que é, de momento, o grande favorito para o Óscar de Melhor Ator Secundário. O seu trabalho é bastante delicado e gentil, nunca caindo em quaisquer histerias ou gritados dramatismos, e perfeitamente servindo de propulsionador para a maioria dos conflitos do filme. É graças ao ator que Abel se torna uma presença tão humana na narrativa do filme, tanto que o seu destino incerto se torna na perfeita nota amarga a complicar o triunfo do final.

A um nível mais técnico e formal A Ponte dos Espiões é concretizado com toda a usual eficiência do cinema de Spielberg. A montagem é de particular destaque, especialmente na segunda metade do filme, onde ajuda a criar um maravilhoso jogo de tensão prolongada. Infelizmente, nem tudo é tão eficiente como o trabalho de Michael Kahn, o editor de A Ponte dos Espiões. A fotografia de Janusz Kaminski e música de Thomas Newman são particularmente problemáticas. Kaminski é demasiado indulgente para com os seus usuais gostos por iluminação imensamente artificial que confere uma beleza bastante inapropriada e simplista a toda a construção visual de filme, onde as cenas noturnas são particularmente afetadas. A respeito da banda-sonora é incrivelmente claro que Spielberg necessita do trabalho bombástico e sentimentalista de John Williams, o seu perfeito companheiro para as suas nostálgicas viagens pelo classicismo do cinema americano.



Em conclusão, A Ponte dos Espiões é um filme que surpreende pela multiplicidade de tons que se propõe a abordar, sugerindo a comédia e o ridículo nas situações mais tensas, e sombreando o triunfo com a tragédia humana que nunca é completamente exposta. Spielberg criou assim um belo exercício de eficaz convencionalismo cinemático. Este realizador americano é um dos cineastas contemporâneos que mais se deixa cair no seu amor por valores do passado e uma nostalgia cinematográfica bastante forte mas que, ocasionalmente, concebe obras como esta, onde isso nunca é um defeito mas sim um dos seus mais fascinantes aspetos e inteligentes decisões estilísticas.