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sábado, 17 de janeiro de 2015

INTERSTELLAR (2014) de Christopher Nolan



 Haverá poucos realizadores no panorama do cinema contemporâneo que detenham tão grande culto e adoração como Christopher Nolan, pelo menos ao nível de popularidade generalizada com que este autor é presenteado, sempre que entrega mais uma das suas criações aos cinemas e às massas de adoradores que parecem querer sempre defender o seu trabalho, independentemente de qualquer problema que essa obra possa ter. Esta adoração geral é algo que sempre me incomodou na apreciação dos filmes do realizador. Se acreditarmos no que se lê e na opinião geral, este é um dos maiores autores do cinema de sempre e, sem dúvida, o mais importante autor de cinema mainstream contemporâneo, criando filmes cerebrais, negros e complexos, de um modo que poucos conseguiram alcançar, Acho que é fácil perceber, pelo tom das minhas palavras, que eu não partilho essa opinião geral, e que não sou, aliás, grande fã de Nolan.

 Apesar dessa falta de adoração quase religiosa da minha parte, é difícil não admirar a ambição técnica e temática desta última obra do realizador. Certamente não vou declarar este filme uma obra-prima, mas acho que existe imenso a admirar em Interstellar, sem esquecer, no entanto, que o filme está longe da perfeição e que, pelo menos na minha opinião, padece de muitos dos problemas que afetam as obras passadas de Nolan.

 O filme foca-se num antigo piloto da NASA, Cooper (Matthew McConaughey), a viver com os seus dois filhos num futuro em que a Terra parece estar a morrer. Todos vivem numa existência de miséria assente numa precária economia agrícola em que as colheitas vão morrendo, sendo que, a única que ainda resiste nesse planeta moribundo, é o milho. Este é um mundo que desistiu, e que apenas tenta sobreviver face à abjeta destruição da humanidade. Cooper partilha uma forte relação com a sua filha Murph (Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn), que observa no seu quarto um estranho fenómeno que parece ter origens na manipulação da gravidade. A rapariga chama-lhe o seu fantasma, e um dia, graças a uma tempestade de pó, uma ocorrência comum neste árido planeta coberto de um inescapável resíduo, o antigo piloto encontra as coordenadas que o levam a uma base secreta onde uma equipa da NASA organiza uma missão de busca por um planeta onde a vida humana se possa desenvolver, tendo em conta que os dias do nosso planeta estariam contados.

 Na vaga esperança de salvar o planeta e a humanidade condenada que nele habita, Cooper deixa a sua família na Terra e parte numa perigosa missão de exploração e, caso a hipótese de levar as pessoas do planeta moribundo para essa nova casa, uma missão de colonização e repovoamento. Sempre na esperança de voltar para a sua família, Cooper é acompanhado por uma equipa composta, entre outros, por Brand (Anne Hathaway) uma cientista e exploradora, filha do professor Brand (Michael Caine), que permanece na Terra tentar encontrar uma solução para a transladação da população terrestre para outro planeta e que tem desenvolvido todo o projeto.

 Revelar mais sobre o filme seria um pouco traiçoeiro, para mim grande parte do prazer do filme provém da tensão que Nolan consegue ocasionalmente conjurar. Há que dizer que ocorrem visitas a outros planetas, várias cenas de diálogo e de tensão e uma avalanche de problemas que parecem amaldiçoar tanto a missão espacial como a população na Terra, entre muitos outros elementos do exponencialmente complicado enredo.

 Tal como a maioria dos filme com guião assinado por Christopher Nolan, obtemos aqui um filme cheio de diálogo expositivo, sendo os primeiros e os últimos 20 minutos do filme particularmente infetados com uma necessidade quase patológica de explicar tudo à audiência, por muito repetitivo ou redundante que o filme possa estar a ser. Não se diga nunca que Nolan é um guionista com capacidade de economia dramatúrgica. Isto leva-nos a um guião que explica ora demais ora menos do que deveria, sendo que o suposto realismo científico do filme, apenas traz mais problemas ao filme, criando buracos lógicos e científicos onde não haveria nenhuns se Nolan não estivesse tão empenhado em tudo explicar à sua audiência.

 E não é que o filme seja uma obra de intelectualismo científico ou filosofia complexa e profunda, por muito que a opinião pública queira indicar o contrário. Se há algo revelado neste filme acerca de Nolan é que, longe de ser um realizador cerebral ou intelectual, ele é um celebrado sentimentalista, resumindo um enredo que engloba o destino de toda a humanidade assim como conceitos de tempo e espaço longe de qualquer perceção usual dos mesmos, ao amor de um pai por uma filha e vice-versa. Todo o filme poderia ser resumido dizendo que o amor entre um pai e uma filha transcende tudo, espaço, tempo, tudo. O amor é a mais forte força da Natureza, etc. Longe de filosofias existenciais, não?

 Mas não usarei isso contra Nolan. Sentimentalismo não é necessariamente mau e acho que quando este filme se rende às emoções fortes sublinhadas tanto pelo fantástico trabalho de McConaughey, como de Foy ,como pela bombástica banda-sonora de Hans Zimmer que explode das colunas do cinema e varre audiência num ataque sonoro, vibrando todo o corpo da audiência juntamente com as suas emoções. Isto funciona muito melhor que a ciência e a exposição demasiado enfática. Oxalá todo o filme se mantivesse nesse registo entre a ópera espacial e o melodrama familiar entre galáxias. McConaughey é particularmente soberbo neste papel, sendo uma cena em que este visiona um vídeo após a visita ao primeiro planeta, o claro ponto alto do filme, para mim, quer seja pela absoluta confiança de Nolan no seu ator principal, quer seja pela simplicidade da cena que apenas realça a magistralidade de McConaughey que pode ter ganho um Óscar o ano passado por Dallas Buyers Club, mas que aqui oferece talvez a sua melhor interpretação (se nos esquecermos de Magic Mike é claro).

 O filme é pejado de problemas como a completa falta de necessidade da existência do irmão, falhas de lógica temporal, especialmente na emocionante sequência que marca o clímax do filme entre McConaughey e Chastain, em galáxias e realidades temporais completamente diferentes. E mal comecei, olhe-se para a reunião desenxabida que marca o verdadeiro final do filme e que parece trair as expetativas criadas na audiência, ou os clichés e péssimos diálogos que se espalham como uma doença infeciosa pelo guião. Mas não vale a pena continuar. O filme pode ter imensos defeitos mas não deixa por isso de ser uma experiência inegavelmente arrebatadora.

 Já falei um pouco da parede violenta de som que se abate sobre a audiência, e que levou muitos membros da audiência a expressarem o seu descontentamento internacionalmente, não conseguindo ouvir os diálogos devido ao volume da música. Isso não me afetou muito, sendo que achei isto uma interessante maneira de realmente realçar o foco do filme, as emoções operáticas da tragédia de Cooper em prol de ordem sonora ou coerência formal.

 O visual do filme também é, na generalidade, impossível de criticar com os seus fenomenais efeitos visuais, e com uma maravilhosa fotografia do prodigioso Hoyte van Hoytema, que aqui substitui o usual colaborador de Nolan Wally Pfister, e que faz um trabalho brilhante na criação de imagens cristalinas e cheias de um monumental impacto e beleza pitoresca, apesar da abundância de efeitos digitais na criação do ambiente espacial. Também os cenários são geralmente bons, sendo os planetas bem conseguidos na sua desolação desértica e visualmente estéril. Se bem que tenho grandes dúvidas em relação ao cenário que marca o final do filme e que, do meu ponto de vista, demonstra uma enorme falta de imaginação, criando um espaço para além da compreensão humana como um seguimento geométrico de prateleiras infinitas e fios esticados.

 Os problemas do filme são o que são, mas nada retira ao filme os seus pontos altos em que o filme atinge píncaros pouco usuais nas salas de cinema contemporâneas. Este é um verdadeiro épico, em ambição e execução, se também o é em incoerência e em problemas, que seja, mas não me tirem os momentos de verdadeira emoção e fulgor que este filme me deu e, presumo eu, deu a uma imensidão de pessoas, se nos guiarmos pelos seus ganhos financeiros.