Depois de examinar as categorias de Melhor Ator Secundário,
Atriz Secundária e Ator num Papel Principal, finalmente chegamos ao galardão de
Melhor Atriz, a categoria, que para mim tem a melhor coleção de nomeados de
toda esta edição dos Óscares. Até a prestação de Jennifer Lawrence, cuja
nomeação tem sido muito denegrida face às outras performances nomeadas, merece
uma certa admiração e está certamente repleta de escolhas interessantes que
exigem análise.
Das cinco atrizes, Lawrence é a que terá menos hipóteses de
ganhar, sendo que já recentemente arrecadou este preciso galardão pelo seu
trabalho em Silver Linings Playbook e que Joy foi bastante ignorado
pela Academia, com a exceção desta mesma nomeação.
Outra recente vencedora que se encontra nesta lista de
nomeadas é Cate Blanchett. Esta atriz australiana encontra-se nomeada por Carol,
um filme que certamente esteve perto de ser nomeado para Melhor Filme. Este
projeto representa tanto a segunda colaboração com Todd Haynes como a sua
segunda participação numa adaptação de uma obra de Patricia Highsmith, e tenho
de dizer que essa coleção de três prestações representa algum do melhor
trabalho na sua ilustre carreira. Num mundo ideal, Blanchett estaria aqui
acompanhada pela sua coprotagonista, mas infelizmente, devido a campanhas
fraudulentas, Rooney Mara foi relegada à categoria de Melhor Atriz Secundária.
Desde 1991 que nenhum par de atrizes do mesmo filme é nomeado nesta categoria,
e parece que a Academia não vai voltar a tomar tal decisão no futuro próximo.
Excluindo Blanchett e Lawrence, as outras atrizes ainda não
arrecadaram nenhum Óscar. Saoirse Ronan encontrase aqui nomeada pela segunda
vez, sendo que em 2007 foi indicada, na categoria de Atriz Secundária, pelo seu
genial e austero trabalho em Atonement de Joe Wright. Passados 8
anos, a atriz finalmente teve acesso a um papel com a exposição e potencial
necessário para a catapultar para o estrelato e para o topo da corrida ao
Óscar. Se a sua carreira continuar a florescer desta maneira, será de esperar
que mais nomeações se encontrem no seu futuro.
Quase tão jovem como Ronan é Brie Larson, que se encontra a
desfrutar a sua primeira nomeação. A atriz de Room é a grande favorita
para ganhar o Óscar e, se tal se verificar, penso que quase se poderia firmar
que é uma recompensa por uma carreira cheia de consistente qualidade e
eficiência. Apesar da sua juventude, Larson tem acumulado um impressionante
currículo, cheio de prestações brilhantes, usualmente ignoradas aquando da
Awards Season. Apenas a sua participação em Short Term 12 parece ter
gerado algum furor entre as várias organizações de prémios de cinema e eu diria
mesmo que Larson deve muito deste sucesso à exposição que teve com esse tocante
drama.
É claro que nenhuma destas atrizes, nem mesmo Cate
Blanchett, se podem sequer comparar a Charlotte Rampling no que diz respeito ao
seu currículo. Desde 1965 que a atriz britânica tem vindo a desenvolver a sua
carreira em volta de projetos memoráveis e de imensa importância artística. A
sua facilidade com o francês também tem possibilitado a Rampling uma prolífera
carreira no cinema francês, sendo que ela é quase que uma musa para o
realizador François Ozon. A sua nomeação por 45 Years é o pináculo de
uma gloriosa carreira, e a grande aceitação de Hollywood desta atriz que há
décadas tem mostrado a sua genialidade em cinema de autor. Devido à sua escolha
de projetos tender para um tipo de cinema artístico que a Academia usualmente
ignora, eu temo que esta seja a única oportunidade que Rampling alguma vez terá
para ganhar este prémio e por essa mesma razão eu estou a torcer por ela, mesmo
tendo em conta os seus infelizes comentários sobre a questão da diversidade nos
Óscares e a monumental qualidade das outras prestações que estão em competição
com o seu magistral trabalho no mais recente drama de Andrew Haigh.
RANKING DAS
NOMEADAS:
5. Jennifer Lawrence em Joy
Na minha análise desta prestação escrevi:
“O ponto de viragem, tanto na qualidade do filme como no
trabalho da atriz vem aquando da participação de Joy no programa de televendas
da QVC, tentando vender o fruto do seu trabalho em direto. É aqui que a atriz
demonstra uma formidável mestria sobre a sua personagem e sobre as necessidades
do filme. Lawrence é uma estrela de cinema, disso não há dúvida, mas
curiosamente um dos seus melhores atributos enquanto intérprete devém
precisamente da sua negação dessa mesma natureza de estrela como ela fez com a
nervosa Katniss Everdeen nos primeiros dois filmes da saga Hunger Games. Ver
Lawrence interpretar o colossal desconforto de Joy Mangano em frente a câmaras
pela primeira vez na vida é uma delícia incalculável e uma perfeita exposição
dos talentos da atriz que, nesta sequência torna Joy numa heroína fortemente
humana e arrebatadoramente vulnerável apesar da sua força e imbatível vontade
de vencer neste mundo.”
A cena que acimo descrevo é o píncaro da prestação de
Jennifer Lawrence, sendo que até e poderia dizer que é um forte candidato ao
melhor momento individual de toda a carreira desta estrela enquanto atriz.
Infelizmente, nem Jennifer Lawrence nem o caótico filme que é Joy,
conseguem manter de forma consistente esse nível de genialidade, o que, no
entanto, não quer dizer que o resto da prestação de Lawrence seja algo
desprezível ou facilmente descartado. Eu diria mesmo que este é dos melhores
trabalhos da atriz tirando as derradeiras cenas do filme, em que a atriz é
levada a tentar forçar na sua prestação uma maturidade que simplesmente não
consegue conjurar de modo credível. Certamente, Joy representa a melhor
colaboração entre Lawrence e David O. Russell, onde a indisciplina tonal do
realizador quase serve de veículo para Lawrence desenvolver na personagem de
Joy Mangano uma âncora emocional e humana de todo o filme. O papel permite a
Lawrence brilhar com o seu usual carisma de estrela de cinema, mas também lhe
dá uma fabulosa oportunidade para complicar o que podia ser facilmente um papel
superficialmente heroico e inspirador, sendo que a atriz injeta nos
procedimentos narrativos de Joy uma surpreendente melancolia que
complica mesmo os momentos mais joviais e energéticos do filme. Um realizador
indisciplinado e uma atriz indisciplinada encontram-se em Joy e, miraculosamente, o
resultado é estranhamente sofisticado e emocionalmente complexo. Sim, está
longe, na minha opinião, de ser uma das melhores prestações do ano, mas é certo
que merece uma certa quantidade de louvor e admiração.
4. Saoirse Ronan em Brooklyn
Da minha crítica de Brooklyn:
“Ronan é um poço de carisma ao estilo da velha Hollywood,
sendo que o seu trabalho funciona perfeitamente na sua modulação de emoções
fortes e simples telegrafadas de modo claro mas belissimamente delicado. Aliás,
toda a prestação da atriz é caracterizada por uma formidável delicadeza
mesclada com uma estilização de maneirismos apropriados à localização histórica
da narrativa. Uma mistura da simplicidade apelativa dos clássicos da velha
Hollywood com a subtileza expressiva de estilos mais atuais, esta é uma
performance de louvar que, infelizmente, é bastante limitada por algumas das
imposições do texto.”
Por muito que o argumento de Nick Hornby mostre uma triste
tendência a simplificar os conflitos interiores de Eilis, a protagonista de Brooklyn,
e a resolver os contratempos da narrativa de um modo que quase rouba a
personagem de agência. A prestação de Saoirse Ronan compensa todas essas
fragilidades textuais. Acima refiro a abordagem estilística da atriz e sua
delicada simplicidade, ambas perfeitas escolhas para o tom do filme, mas também
devo referir quão perfeita e multifacetada é a caracterização que Ronan faz de
Eilis. Por exemplo, apesar da sua juventude, inocência e confusão quando
confrontada com uma nova realidade nos EUA, há sempre uma contracorrente de
humor na personalidade de Eilis, que se mostra mesmo nos momentos mais
desesperantes e que chega a maravilhosos píncaros nas cenas partilhadas com
Emory Cohen. Ronan modula brilhantemente esse humor, não descurando também os
elementos mais dramáticos da sua personagem, ou a sua indecisão e tristeza. Eu
diria mesmo que o terceiro ato do filme só funciona devido aos esforços da
atriz que pega na opacidade com que o texto retrata Eilis, e telegrafa para a
audiência todas as dúvidas interiores da jovem assim como a sua progressiva
sedução por uma volta à normalidade com que cresceu. Num panorama económico
atual em que histórias de jovens a abandonar os seus países em busca de
melhores oportunidades se está a tornar uma infeliz banalidade, é magnífico
poder observar a prestação de Soairse Ronan, em que tal melancólica experiência
é perfeitamente cristalizada na sua bravura e amargura. Para mim, o melhor
momento da atriz é mesmo uma reação silenciosa durante um inesperado momento
musical numa noite de Natal. No olhar lacrimoso de Ronan existe uma honestidade
emocional rara no cinema contemporâneo, conferindo ao filme uma sinceridade
emocional dos filmes de outros tempos, que a mise-en-scène do filme tanto quer
homenagear com o seu romântico classicismo.