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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Hit Me With Your Best Shot, STAR WARS: THE FORCE AWAKENS (2015)

Este post foi escrito para a série Hit Me With Your Best Shot do blogue The Film Experience de NathanielR, sendo que é aqui apresentado em inglês, ao invés do que é usual neste blogue.





This week’s Hit Me With Your Best Shot takes Star Wars: The Force Awakens as its object of study and I must confess this was an assignment I was dreading. This is a film everyone has written about in the past six months, either to praise it, analyze it, deconstruct it, and decry it as a senseless failure of cinema or a new blockbuster masterpiece. Even I have written extensively about it, with a review, several articles about its costumes and, of course, my coverage of its Oscar nominations. In summary, I do believe have nothing new to say about this particular work, and for that I beg the reader’s patience and forgiveness.

In the words of the great Meryl Streep upon being anointed a three time Oscar winner, “whatever”.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FILME



Com esta análise à categoria de melhor filme chegamos ao fim desta minha dissecação e exploração de todas as categorias dos Óscares referentes a longa-metragens. Infelizmente, não tenho acesso à maior parte das curtas-metragens nomeadas pelo que não tenho base com que escrever qualquer tipo de crítica das três categorias que visam honrar esse tipo de cinema.

Voltando ao Óscar de Melhor Filme, depois das suas vitórias nos BAFTAs e nos Golden Globes muitos estão a prever uma vitória sem precedentes para The Revenant, que também é o favorito em, pelo menos, mais três categorias. Eu não tenho grande convicção na vitória do filme protagonizado por Leonardo DiCaprio. Em anos anteriores, quando confrontados com a escolha entre um espetáculo de pirotecnia formal e alternativas com maior aparência de relevância social, a Academia mostrou tendência a preferir os filmes com mensagens mais relevantes e socialmente importantes.

Para além dessa tendência da Academia de Hollywood, também existe o facto de que os Óscares apenas partilham o seu sistema de votação com os PGAs, onde A Queda de Wall Street derrotou o filme de Iñarritu. Os Óscares usam um sistema de votação preferencial, em que os votantes colocam os nomeados por uma ordem de preferência ao invés de simplesmente nomearem aquele que acham o melhor. Isto favorece filmes que não polarizem o corpo votante, e The Revenant é tão adorado como é por muitos detestado, enquanto Spotlight é abertamente louvado, mesmo por quem não esteja particularmente entusiasmado com os seus feitos enquanto peça de cinema.

Com isto em conta assim como a geral imprevisibilidade da temporada, que chegou à sua apoteose com a divisão dos sindicatos principais, parece que estamos numa corrida de três filmes para o ouro. Pessoalmente prefiro Spotlight aos outros dois e acho que é também aquele que menos aversão consegue provocar na generalidade da população. Veremos se a minha previsão se verifica ou se vamos sofrer a colossal tragédia de ver The Revenant coroado como o Melhor Filme de 2015. Quase tremo só de pensar em tal horror.

Em relação aos outros nomeados, parece-me que não têm grande hipótese de ganhar aqui. É certo que Mad Max: Estrada da Fúria foi o grande favorito das massas críticas internacionais, mas não consigo imaginar os Óscares a fazerem uma escolha tão pouco ortodoxa, por muito que o filme mereça esta honra.

De resto, Perdido em Marte, A Ponte dos Espiões, Brooklyn e Room devem contentar-se somente com a sua nomeação. Mas quem sabe? O filme de Lenny Abrahamson recebeu um apoio surpreendente da Academia, com uma nomeação surpresa para Melhor Realizador e é inegável como Jacob Tremblay tem vindo a conquistar o coração de todos os que acompanham a Awards Season.

Não vou perder tempo a falar dos filmes que injustamente foram ignorados, mas tenho de salientar como incrivelmente mediana e desinspirada é esta seleção, com apenas um filme a se destacar pela sua incontornável genialidade. Enfim, mediano e banal são expressões que poderiam caracterizar grande parte dos nomeados a este Óscar desde a sua criação.

Mas chega de pensamentos negativos. Esta noite são os Óscares! Vamos celebrar e pensar em cinema, mesmo que seja simplesmente para afastarmos o pensamento das escolhas desastrosas da Academia. Viva o cinema!





RANKING DOS NOMEADOS:



8. The Revenant, Arnon Milchan, Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Mary Parent, Keith Redmon


Da minha crítica de The Revenant – O Renascido:

“Juvenil, limitado e cansativo são boas palavras para descrever The Revenant que, apesar da sua magnificência técnica, não encontra qualquer glória cinematográfica na sua eficiência, e que apenas se revelou como uma das mais tortuosas e estupidificantes experiências que tive ao ver filmes deste passado ano de 2015. Enfim, parabéns a DiCaprio pelo seu Óscar e a todos os nomeados deste filme, por muito que nenhum deles realmente tenha merecido a aclamação que receberam.”

Para além da sua impressionante, mas conceptualmente vazia, pirotecnia técnica, The Revenant é uma obra completamente desprezível. Há quem encontre profundidade e humanidade neste filme, mas eu nada disso vejo. Sinceramente, esta foi das mais odiosas experiências que o cinema de 2015 me trouxe, pois há poucas experiências mais irritantes que ver um desastre cinematográfico com pretensiosismos de genial grandeza e que, pelo caminho, conseguiu convencer muitos críticos e espectadores dessa mesma importância ilusória.




7. The Big Short, Brad Pitt, Dede Gardner e Jeremy Kleiner


Da minha crítica de A Queda de Wall Street:

“Para mim, o maior problema de todo este filme nem é a sua incompetência formal ou a sua desumana coleção de caracterizações limitadas, mas sim o seu tom, que já anteriormente referi. Ao investir num constante registo de insinceridade, The Big Short, que já é um projeto de premissas dúbias quando celebra o sucesso financeiro de um grupo de homens que se aproveitou da iminente miséria de milhões de pessoas para ganhar milhões, acaba por ser o arquiteto da sua própria irrelevância. O filme pretende explorar a doentia realidade e o perigo de um sistema capitalista caído em completa selvajaria gananciosa, e estas são ideias importantes para transmitir a uma audiência, mas eu não penso que reduzir tudo a uma comédia irónica e despreocupada seja a chave para tal, especialmente quando o tom do filme apenas parece retirar importância à informação que nos vai sendo dada.”

Apesar de eu conseguir encontrar valor nas intenções deste filme, a sua abordagem, para mim, é um completo desastre, ativamente trabalhando contra qualquer tipo de nobreza ideológica que possa estar na génese do projeto. Talvez a parte mais trágica de tudo isto seja mesmo o modo como o filme demonstra o potencial para ser uma obra de cinema muito superior ao que acabou por ser, com um elenco cheio de fantásticos atores, uma impetuosidade incomum na exploração da corrupção do sistema financeiro americano e um empenho extraordinário na disseminação de informações cruciais para o entendimento da catástrofe económica que explodiu em 2008 e cujas repercussões ainda estamos a sentir hoje em dia.




6. The Martian, Simon Kinberg, Ridley Scott, Michael Schaefer e Mark Huffam


Da minha crítica de Perdido em Marte:

“O que principalmente admirei no filme foi, de certo modo, a sua relativa simplicidade e falta de ambição. Tal parece ser uma crítica em forma de elogio traiçoeiro, mas não o é de todo, sendo que é exatamente nessa simplicidade que o filme floresce e evita cair nos perigos do pretensiosismo e auto glorificação que deflagram por outros filmes semelhantes como forças destruidoras. Para mim, aliás, os únicos momentos em que o filme realmente me começou a desiludir foram durante as cenas do resgate final em que começa a existir uma enfática insistência no dramatismo da situação que acaba por cair num cliché sentimentalista que não se conjuga bem com o resto da abordagem do filme. Isto é, eu volto a salientar, particularmente surpreendente quando consideramos a absoluta falta de leveza ou delicadeza tonal que se espalha pela filmografia de Scott, se bem que aqui o realizador tem muito que agradecer ao seu elenco.”

Quem diria que Ridley Scott ainda era capaz de criar uma leve peça de entretenimento cheia de humor e nenhuma da seriedade carrancuda que tem vindo a dominar a sua recente filmografia? Eu certamente não seria uma dessas pessoas e fico feliz com esse erro hipotético, sendo que este é o melhor filme do realizador desde Thelma e Louise. No entanto, é difícil ignorar alguns dos maiores problemas tonais do filme, assim como a sua abjeta falta de tensão. Perdido em Marte acaba por ser uma experiência facilmente descartável, mas não por isso menos digna de alguma admiração. Por vezes, há que valorizar cinema populista de entretenimento sem grandes ambições pela simples eficiência da sua concretização. Para além disso, é raro vermos um blockbuster construído em volta do que é quase uma celebração de heroísmo coletivo, de trabalho colaborativo e não do simples e redutivo arquétipo do indivíduo heroico.

Oscars 2015/16, MELHOR FILME NUMA LÍNGUA ESTRANGEIRA



Para grandes amantes de cinema internacional que acompanhem os Óscares, não será de estranhar que todos os anos a categoria de Melhor Filme Estrangeiro apresente uma coleção de nomeados infinitamente mais interessantes do que aqueles outros filmes a que é atribuída uma nomeação na principal categoria de Melhor Filme. Este ano, tenho de confessar, que nem todos os nomeados desta categoria partilham o mesmo nível de genialidade e importância, mas, pelo menos, oferecem algumas visões de cinema que nunca conseguiriam entrar na categoria principal.

Parte desse reconhecimento de obras com intenções agressivamente artísticas deve-se grandemente ao invulgar processo pelo qual filmes são nomeados para este prémio. Depois de serem selecionados como representantes dos seus países por diversas entidades de cada nação, os filmes candidatos a este Óscar são prontamente reduzidos a um grupo de 9 finalistas, sendo que existe um comité especial que tem o poder de salvar uma obra que julguem ser de particular importância ou mérito. É desse modo que conseguimos acabar por ter nomeados tão bizarros como Canino de Yorgos Lanthimos, por exemplo.

Este ano, os dois filmes com abordagens cinematográficas mais distintas e formalistas são El abrazo de la serpiente da Colômbia e Saul fia da Hungria. Esta é a primeira vez que a Colômbia arrecada uma nomeação, mas não é decerto a estreia da Hungria cujo último vencedor deste Óscar, Mephisto, foi precisamente outra obra sobre o Holocausto.

Aliás, o Holocausto é o grande tema de eleição desta categoria, mas eu diria que poucas vezes foi nomeado um filme tão estilisticamente violento como Saul fia. É exatamente devido a essa sua impetuosidade formal que eu vejo a grande ameaça à sua vitória. Quando confrontados com obras de difícil assimilação, os Óscares têm a infeliz tendência de preferirem honrar filmes mais convencionais e muito menos desafiadores.

Por isso, eu estou a prever uma semi surpresa esta noite, com França a arrecadar mais um Óscar nesta categoria com Mustang, um filme de produção francesa que é, no entanto, um filme criado por cineastas da Turquia, com uma história turca e filmado nessa nação.

Para além desses três nomeados, temos ainda dois filmes que receberam muito menos atenção dos media, Theeb e Krigen da Jordânia e Dinamarca, respetivamente. Nenhum destes filmes é de particular inovação ou desafio, mas se há quem destrone o favorito Saul fia penso que será Mustang. No entanto, nunca se sabe e esta categoria não é particularmente oposta a presentear cinéfilos com terríveis e inesperadas escolhas.




RANKING DOS NOMEADOS:


5. Theeb, Jordânia


Os Óscares parecem estar presentemente obcecados com histórias de sobrevivência em ambientes hostis, pelo que a narrativa de Theeb deve ter sido particularmente apelativa para os votantes que aqui puderam apreciar uma quase classicista narrativa de aventura e resiliência no meio do magnífico e implacável deserto da Jordânia. Como isso mesmo, um filme de aventura, esta obra resulta de modo inequivocamente eficiente, se um pouco desastrado. As composições dos atores na paisagem, por exemplo, são muito desinspiradas por muito que a natureza capturada pelas câmaras seja de cortar a respiração na sua austera beleza. Também a acrescentar a esta abordagem clássica que quase cai no banal, temos um daqueles infelizes casos em que a utilização de não atores é mais prejudicial que benéfica, colocando no centro do filme uma presença que nunca consegue completamente transmitir a viagem emocional traumática sofrida pela personagem. Mesmo assim, o filme tem grandes qualidades e consegue, ocasionalmente, sugerir alguma grandeza cinemática. Por exemplo, uma sequência noturna em que todo o enredo sofre uma cruel e violenta reviravolta é um inesquecível momento de musculosa bravura cinematográfica, com as trevas de uma noite no deserto a ganharem dimensões demónicas quando o som de atacantes invisíveis concede ao filme a atmosfera de um traumático pesadelo. É claro que, para mim pelo menos, a grande força do filme está no seu retrato de uma cultura e um modo de viver prestes a cair no precipício do oblívio que viria com o período a seguir à primeira guerra mundial no Médio Oriente. Esse aspeto de reflexão histórica é algo inesperado e imensamente mais bem conseguido que o drama humano, que, apesar disto, tem uma potente conclusão em que esse peso cultural de tradições e noções ancestrais de honra se mesclam com a fúria juvenil do protagonista. O resultado final é um momento de vingança sangrenta em que o triunfo está ausente, sendo apenas um vazio melancólico a marcar presença e a injetar uma louvável complexidade moral a um filme que tem tendência a recorrer a demasiadas fórmulas narrativas típicas deste tipo de aventuras.




4. Krigen, Dinamarca


Depois de uma infinidade de filmes de Guerra a retratar os conflitos no Médio Oriente nas últimas décadas, é muito difícil encontrar alguma obra que nos ofereça visões novas dessas mesmas situações, sendo que muitas destas narrativas parecem estar presas numa constante repetição de temas já explorados por outros. Em termos estéticos, é inegável que Krigen é uma obra de uma banalidade quase opressiva, que não contém uma única imagem ou mesmo qualquer tipo de escolha formal que o distingam enquanto filme da imensidão de outras obras semelhantes no panorama do cinema contemporâneo. O que o distingue, no entanto, é o seu argumento e o modo como este apresenta uma estrutura agressivamente bifurcada, em que uma metade é um modesto e prosaico filme de guerra, enquanto a outra é um drama de tribunal que coloca em questão o que vimos anteriormente. Inteligentemente, os cineastas de Krigen esvaziam o filme de qualquer tipo de subjetividade estilística nessa segunda metade, apresentando o material acusatório como algo a ser ponderado tanto pela audiência como pelos intervenientes dentro do filme. O grande passo em falso do filme é o modo como insiste em construir um retrato familiar em simultâneo à sua exploração ética. Noutro filme essa mesma representação de uma família a lidar com as cicatrizes da guerra na sua unidade poderia ser bastante fascinante, mas neste filme apenas serve para simplificar e forçar uma defesa do protagonista. Felizmente, os atores são exímios na execução deste enredo, criando caracterizações tão opacas como reveladoras e que, de modo geral, conseguem contornar as maiores fragilidades e facilitismos dramáticos do texto. Está longe de ser uma obra inovadora, mas é um filme de inegável interesse.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR REALIZADOR



Já nos estamos a aproximar das últimas categorias!

Há algo que eu devia esclarecer que é o modo como eu e a Academia temos uma visão claramente diferente do que constitui um louvável trabalho de realização. Para mim, o trabalho de autores formalistas é normalmente aquele que eu mais valorizo enquanto para a Academia, as vozes autorais mais distintas e individualistas parecem ser algo desprezível, sendo que o Óscar de Melhor Realização tem vindo a demonstrar uma triste tendência para simplesmente reconhecer bons trabalhos de direção de autores, ignorando as restantes complexidades do trabalho de realização.

Interessantemente, apesar desta minha queixosa introdução, é de destacar como o provável vencedor deste ano, Alejandro Ginzález Iñarritu, está a alcançar este seu presente sucesso precisamente como uma consequência da sua vistosa pirotecnia técnica e não tanto pelos atores dos seus filmes. Seria erróneo ignorar como a vitória garantida de Leonardo DiCaprio tem catapultado este filme para a frente da Awards Season, mas seria igualmente erróneo menosprezar quanto a ambição formal de Iñarritu tem contribuído para a aclamação crítica do filme.

Outro aspeto grandemente atípico é a nomeação de George Miller, o grande favorito dos críticos pelo seu trabalho em Mad Max: Estrada da Fúria. Mais do que qualquer outro dos outros nomeados, que alcançou esta posição através da geral aceitação das suas obras pelos mecanismos mediáticos da Awards Season, Miller conseguiu esta nomeação pela absoluta mestria do seu trabalho que fez com que um filme tão grotesco e atípico conseguisse este reconhecimento por parte da Academia. Eu diria mesmo que é um verdadeiro milagre que Miller tenha conseguido esta nomeação, mas ainda bem que tal sucedeu.

Tom McCarthy e Adam McKay, pelo contrário, devem as suas nomeações quase que exclusivamente ao estatuto das suas obras como frontrunners para o óscar de Melhor Filme, assim como ao seu manejamento de enormes elencos cheios de nomes sonantes e aclamadas prestações.

A grande surpresa destas nomeações foi certamente Lenny Abrahamson que, para muitos que não eu roubou o lugar de Ridley Scott nesta seleção. Eu diria que este realizador irlandês não tem hipóteses nenhumas de vencer, mas este ano nunca se sabe com toda a temporada a ser caracterizada por uma deliciosa imprevisibilidade em todas as categorias que não as de Melhor Ator e Atriz.





RANKING DOS NOMEADOS:



5. Adam McKay por The Big Short


Da minha crítica de A Queda de Wall Street:

“Em termos formais, o filme é uma obra de crónica indisciplina e franca incompetência técnica. A fotografia é prosaica no melhor dos momentos e ativamente incompetente nos piores, focando-se na cara dos atores e em composições banais que quase dão a impressão de estarmos a ver um telefilme da ABC com noções de desproporcional importância própria. Isto não é ajudado pela montagem enlouquecida em que o conceito de continuidade, lógica espacial e ritmo dramático são conceitos obscuros e nunca aplicados. (…) hiperbólicos cortes que pouco fazem senão distrair e demonstrar um desenfreado desespero da parte dos cineastas em injetar energia num filme que se afoga na sua constante necessidade de expor informação a partir de longos monólogos.”

Há uma coisa que destaca McKay de todos os seus companheiros nesta categoria. Apesar das fragilidades que eu vejo no trabalho e visão de alguns dos outros nomeados, nenhum deles é o que chamaria de um mau realizador, pelo menos todos eles demonstram um certo domínio e conhecimento da linguagem do cinema. McKay, por outro lado, apenas demonstra uma crónica incompetência, limitada visão e absurda indisciplina. Eu entendo que é difícil conjurar um tom cómico da constante torrente de informação que o argumento de The Big Short atira contra a sua audiência, mas a abordagem deste realizador é nada mais que uma simples e intolerável coleção de forçados facilitismos estilísticos. Desde a horrenda e desesperada tentativa de injetar energia por entre a vasta verbosidade do argumento, à inconsistente direção do elenco, McKay nunca demonstra ser mais que um mestre da abjeta incompetência. É um insulto a todo o legado da Academia e do cinema americano que esta podridão diretorial esteja nomeada para o prémio de Melhor Realizador, mas enfim… acho que por esta altura já todos nós nos devíamos ter apercebido que os Óscares têm muito pouco que ver com verdadeira excelência cinematográfica.




4. Alejandro González Iñarritu por The Revenant


Da minha crítica de The Revenant:

“O que é que, no entanto, resulta de toda esta eficiência técnica? Um espetáculo da mais formidável pirotecnia que Hollywood tem para oferecer com os seus luxuosos recursos, mas não, de modo algum, a exposição de ousada aventura e risco cinematográfico e humano obsessivamente descrito pela sua equipa sedenta de troféus dourados. Já muito se ouviu falar das dificuldades das filmagens deste filme, da carga de sofrimento psicológico e físico que todos os envolvidos tiveram de suportar, mas, no entanto, nenhum desse risco se regista na obra final que não poderia ser um mais descarado fruto da industrial competência dos estúdios da atualidade. Nenhuma da perigosa ousadia e impetuosa vanguarda de Herzog se consegue encontrar aqui, e muito menos o tipo de filosofia multifacetada e estruturação fluida do cinema de Malick. No final, apesar de Iñarritu praticamente forçar a sua audiência a comparar o seu trabalho com o desses outros autores, esta comparação apenas resulta na perceção de quão abjetamente superficial e completamente vazio de ideias se encontra o filme sobre Hugh Glass.”

Para ser perfeitamente sincero, eu estou a ficar exausto de tanto escrever sobre este filme. Tal como podem ler na minha crítica, eu não tenho nenhum afeto por The Revenant e este já é o 12º artigo em que falo desta obra de Alejandro González Iñarritu. Grande parte da minha irritação com este filme devém da abordagem do seu realizador que parece julgar que a imitação equivale a genialidade cinematográfica. Os comentários do autor mexicano sobre o seu próprio filme têm apenas ajudado a alimentar a minha animosidade. Em resumo, eu não valorizo o esforço técnico que Iñarritu passou como uma marca segura de qualidade, sendo que o filme, de modo geral, é um desastre ideológico, uma catástrofe desumana e um irritante fracasso no que diz respeito a telegrafar para a sua audiência a interioridade e perspetiva individual do seu protagonista, preferindo observá-lo à distância com um olhar formalista e quase pornográfico na sua exploração de sofrimento humano. Um trabalho deplorável que é apenas admirável pela sua impressionante eficiência técnica.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR GUARDA-ROUPA




Depois de Jenny Beavan e Paco Delgado terem ganho os Costume Designers Guild Awards para Melhores Figurinos num Filme de Fantasia e de Época, respetivamente, parece que, possivelmente, a esperança de Sandy Powell em ganhar um quarto Óscar se comece a esmorecer. É claro que este sindicato não tem uma relação particularmente próxima dos Óscares, no que diz respeito à semelhança entre as suas escolhas, mas com a sua vitória nos BAFTAs parece que Jenny Beavan poderá vir a ser a figurinista galardoada com o Óscar de Melhor Guarda-Roupa deste ano.

Apesar da minha devoção à magnífica Sandy Powell, sobre a qual poderão ler um pouco nesta minha análise sobre o seu trabalho em Cinderella, eu não ficaria entristecido se Beavan arrecadasse o troféu no próximo domingo. Depois de uma carreira inteira construída em volta de respeitosos filmes de época, esta aventura de Beavan pelo caótico mundo da ficção-científica pós-apocalíptica de Mad Max é uma deliciosa surpresa e uma das mais fascinantes reviravoltas profissionais imagináveis.

De resto, temos Delgado indicado por A Rapariga Dinamarquesa, a sua segunda colaboração com Tom Hooper, Jacqueline West por The Revenent, uma nomeação assegurada somente pela paixão absoluta que a Academia teve por este filme, e Powell por Carol e Cinderella.

Já em 1998, Sandy Powell esteve candidata ao Óscar com duas nomeações, tendo acabado por arrecadar o Óscar em nome de A Paixão de Shakespeare. Será que ela consegue repetir essa vitória neste ano em que volta a desfrutar da rara dupla nomeação?

Apesar de esta ser uma lista de cinco sólidos ou geniais nomeados, eu tenho de admitir que fiquei um pouco desapontado no dia das nomeações. A categoria de Melhor Guarda-Roupa tem vindo a se afirmar como uma das partes da Academia com um gosto mais autónomo e idiossincrático, muitas vezes indicando filmes que não são recordados por mais nenhuma categoria. Infelizmente, neste ano de imprevisibilidades, parece que os figurinistas da Academia escolheram a segurança e conformidade que usualmente rejeitam. Eu duvido, por exemplo, que The Revenant tivesse adquirido esta nomeação se não fosse um dos inegáveis frontrunners ao Óscar de Melhor Filme,





RANKING DOS NOMEADOS:



5. Paco Delgado por The Danish Girl



 





Apesar das minhas colossais reservas em relação ao mais recente filme de Tom Hooper, tenho de reconhecer que os visuais de A Rapariga Dinamarquesa conseguem escapar ao poço de sufocante mediocridade em que o resto do filme se afoga. Os figurinos do filme ficaram a cargo do figurinista espanhol Paco Delgado, que aqui colabora pela segunda vez com o realizador, sendo que Delgado também desenhou os figurinos de Les Misérables. Tal como a cenografia de Eve Stewart, os figurinos de Delgado demonstram uma inteligente delicada paleta cromática inspirada nas pinturas das duas artistas cuja história é retratada no filme. Eu diria mesmo que a grande qualidade que Delgado traz ao seu filme é o seu domínio do uso de materiais e cores, conferindo ao filme um caracter tátil que está completamente ausente da restante mise-en-scène. De destacar também está a construção do guarda-roupa de Lili e da sua transição de um visual masculino a uma identidade exterior completamente feminina, sendo que os fatos largos e cintados desenhados por Delgado são o grande highlight de todo o guarda-roupa. Nem tudo é positivo, no entanto. A narrativa de A Rapariga Dinamarquesa passa-se na segunda metade da década de 20 do século passado e seria de esperar que Delgado tentasse recriar essa realidade, especialmente se considerarmos a estética relativamente realista que caracteriza abordagem estilística do filme. Apesar disso, na primeira metade do filme, Delgado parece completamente ignorar esses dados temporais, construindo um guarda-roupa baseado nas modas do período da Primeira Guerra Mundial. O figurinista alegou em entrevistas que esta escolha foi feita como modo de salientar as restrições sociais impostas sobre o casal no centro da narrativa, sendo que, quando chegam a Paris, as suas roupas mostram uma imensa progressão e adotam as modas vigentes da sua época numa mostra de “libertação”. O problema é que isso vai propositadamente contra as indicações textuais, que salientam numa cena quão curta a saia de Gerde é, por exemplo. Eu tenho noção que A Rapariga Dinamarquesa é uma versão extremamente ficcionada das vidas das suas protagonistas, mas é horrendo quão o filme distorce o seu modo de vida, ignorando quão progressivas as suas atitudes eram para com a sexualidade e as normas sociais. Apesar de Delgado querer simplificar a história de Gerde e Lili num arco narrativo de repressão antiquada e libertação, isso ignora as complexidades das suas vidas e apenas prejudica o filme como um todo. Não que o filme realizado por Hooper precise de muita ajuda para ser um completo desastre.




4. Jacqueline West por The Revenant







Tal como a cenografia concebida por Jack Fisk, o guarda-roupa da autoria de Jacqueline West foi construído com o intuito de edificar para The Revenant um mundo físico autêntico e com uma força visceral. Muitos dos aspetos do filme, como a fotografia e a montagem, tendem a parecer demasiado indulgentes e polidos, mas o vestuário que West criou para este filme está longe de tais impulsos ou fragilidades, primando por uma imensa fidelidade histórica e extrema preocupação em recriar não só o corte e a cor, mas também a textura e temperatura das roupas usadas pelo elenco de personagens que integram esta narrativa de vingança e resiliência humana face à Natureza cruel. O trabalho de investigação, focado tanto em registos textuais como em retratos e fotografias dos povos nativos americanos da região, deu os seus frutos, concedendo aos figurinos de The Revenant uma forte presença que, apesar de imensamente deselegante e quase monótona, é de louvar. Apesar da maior parte dos figurinos, devido à sua cor e sujidade, parecerem quase idênticos à distância, West construiu pequenas coleções de precisos detalhes a diferenciar cada figura humana, delineando as suas origens e condição social antes da narrativa. Talvez o mais notório exemplo de caracterização através da linguagem do vestuário seja mesmo o contraste entre Glass, vestido em leves roupas baseadas em trajes de nativos americanos, e o peso e corpulência de Fitzgerald com o seu casaco feito de múltiplas espécies de animais, como que uma prova visual da sua hubris e aptidão para indecente carnificina. O trabalho de West é um aspeto essencial da experiência sensorial que The Revenant pretende criar, sendo que as suas criações, feitas de materiais autênticos, são uma componente indispensável de uma mise-en-scène em que o abater das monumentais adversidades naturais sobre a figura humana é também integralmente inserido em todo o discurso visual concebido por West.



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR ATRIZ



Depois de examinar as categorias de Melhor Ator Secundário, Atriz Secundária e Ator num Papel Principal, finalmente chegamos ao galardão de Melhor Atriz, a categoria, que para mim tem a melhor coleção de nomeados de toda esta edição dos Óscares. Até a prestação de Jennifer Lawrence, cuja nomeação tem sido muito denegrida face às outras performances nomeadas, merece uma certa admiração e está certamente repleta de escolhas interessantes que exigem análise.

Das cinco atrizes, Lawrence é a que terá menos hipóteses de ganhar, sendo que já recentemente arrecadou este preciso galardão pelo seu trabalho em Silver Linings Playbook e que Joy foi bastante ignorado pela Academia, com a exceção desta mesma nomeação.

Outra recente vencedora que se encontra nesta lista de nomeadas é Cate Blanchett. Esta atriz australiana encontra-se nomeada por Carol, um filme que certamente esteve perto de ser nomeado para Melhor Filme. Este projeto representa tanto a segunda colaboração com Todd Haynes como a sua segunda participação numa adaptação de uma obra de Patricia Highsmith, e tenho de dizer que essa coleção de três prestações representa algum do melhor trabalho na sua ilustre carreira. Num mundo ideal, Blanchett estaria aqui acompanhada pela sua coprotagonista, mas infelizmente, devido a campanhas fraudulentas, Rooney Mara foi relegada à categoria de Melhor Atriz Secundária. Desde 1991 que nenhum par de atrizes do mesmo filme é nomeado nesta categoria, e parece que a Academia não vai voltar a tomar tal decisão no futuro próximo.

Excluindo Blanchett e Lawrence, as outras atrizes ainda não arrecadaram nenhum Óscar. Saoirse Ronan encontrase aqui nomeada pela segunda vez, sendo que em 2007 foi indicada, na categoria de Atriz Secundária, pelo seu genial e austero trabalho em Atonement de Joe Wright. Passados 8 anos, a atriz finalmente teve acesso a um papel com a exposição e potencial necessário para a catapultar para o estrelato e para o topo da corrida ao Óscar. Se a sua carreira continuar a florescer desta maneira, será de esperar que mais nomeações se encontrem no seu futuro.

Quase tão jovem como Ronan é Brie Larson, que se encontra a desfrutar a sua primeira nomeação. A atriz de Room é a grande favorita para ganhar o Óscar e, se tal se verificar, penso que quase se poderia firmar que é uma recompensa por uma carreira cheia de consistente qualidade e eficiência. Apesar da sua juventude, Larson tem acumulado um impressionante currículo, cheio de prestações brilhantes, usualmente ignoradas aquando da Awards Season. Apenas a sua participação em Short Term 12 parece ter gerado algum furor entre as várias organizações de prémios de cinema e eu diria mesmo que Larson deve muito deste sucesso à exposição que teve com esse tocante drama.

É claro que nenhuma destas atrizes, nem mesmo Cate Blanchett, se podem sequer comparar a Charlotte Rampling no que diz respeito ao seu currículo. Desde 1965 que a atriz britânica tem vindo a desenvolver a sua carreira em volta de projetos memoráveis e de imensa importância artística. A sua facilidade com o francês também tem possibilitado a Rampling uma prolífera carreira no cinema francês, sendo que ela é quase que uma musa para o realizador François Ozon. A sua nomeação por 45 Years é o pináculo de uma gloriosa carreira, e a grande aceitação de Hollywood desta atriz que há décadas tem mostrado a sua genialidade em cinema de autor. Devido à sua escolha de projetos tender para um tipo de cinema artístico que a Academia usualmente ignora, eu temo que esta seja a única oportunidade que Rampling alguma vez terá para ganhar este prémio e por essa mesma razão eu estou a torcer por ela, mesmo tendo em conta os seus infelizes comentários sobre a questão da diversidade nos Óscares e a monumental qualidade das outras prestações que estão em competição com o seu magistral trabalho no mais recente drama de Andrew Haigh.





RANKING DAS NOMEADAS:



5. Jennifer Lawrence em Joy



Na minha análise desta prestação escrevi:

“O ponto de viragem, tanto na qualidade do filme como no trabalho da atriz vem aquando da participação de Joy no programa de televendas da QVC, tentando vender o fruto do seu trabalho em direto. É aqui que a atriz demonstra uma formidável mestria sobre a sua personagem e sobre as necessidades do filme. Lawrence é uma estrela de cinema, disso não há dúvida, mas curiosamente um dos seus melhores atributos enquanto intérprete devém precisamente da sua negação dessa mesma natureza de estrela como ela fez com a nervosa Katniss Everdeen nos primeiros dois filmes da saga Hunger Games. Ver Lawrence interpretar o colossal desconforto de Joy Mangano em frente a câmaras pela primeira vez na vida é uma delícia incalculável e uma perfeita exposição dos talentos da atriz que, nesta sequência torna Joy numa heroína fortemente humana e arrebatadoramente vulnerável apesar da sua força e imbatível vontade de vencer neste mundo.”

A cena que acimo descrevo é o píncaro da prestação de Jennifer Lawrence, sendo que até e poderia dizer que é um forte candidato ao melhor momento individual de toda a carreira desta estrela enquanto atriz. Infelizmente, nem Jennifer Lawrence nem o caótico filme que é Joy, conseguem manter de forma consistente esse nível de genialidade, o que, no entanto, não quer dizer que o resto da prestação de Lawrence seja algo desprezível ou facilmente descartado. Eu diria mesmo que este é dos melhores trabalhos da atriz tirando as derradeiras cenas do filme, em que a atriz é levada a tentar forçar na sua prestação uma maturidade que simplesmente não consegue conjurar de modo credível. Certamente, Joy representa a melhor colaboração entre Lawrence e David O. Russell, onde a indisciplina tonal do realizador quase serve de veículo para Lawrence desenvolver na personagem de Joy Mangano uma âncora emocional e humana de todo o filme. O papel permite a Lawrence brilhar com o seu usual carisma de estrela de cinema, mas também lhe dá uma fabulosa oportunidade para complicar o que podia ser facilmente um papel superficialmente heroico e inspirador, sendo que a atriz injeta nos procedimentos narrativos de Joy uma surpreendente melancolia que complica mesmo os momentos mais joviais e energéticos do filme. Um realizador indisciplinado e uma atriz indisciplinada encontram-se em Joy e, miraculosamente, o resultado é estranhamente sofisticado e emocionalmente complexo. Sim, está longe, na minha opinião, de ser uma das melhores prestações do ano, mas é certo que merece uma certa quantidade de louvor e admiração.




4. Saoirse Ronan em Brooklyn


Da minha crítica de Brooklyn:

“Ronan é um poço de carisma ao estilo da velha Hollywood, sendo que o seu trabalho funciona perfeitamente na sua modulação de emoções fortes e simples telegrafadas de modo claro mas belissimamente delicado. Aliás, toda a prestação da atriz é caracterizada por uma formidável delicadeza mesclada com uma estilização de maneirismos apropriados à localização histórica da narrativa. Uma mistura da simplicidade apelativa dos clássicos da velha Hollywood com a subtileza expressiva de estilos mais atuais, esta é uma performance de louvar que, infelizmente, é bastante limitada por algumas das imposições do texto.”

Por muito que o argumento de Nick Hornby mostre uma triste tendência a simplificar os conflitos interiores de Eilis, a protagonista de Brooklyn, e a resolver os contratempos da narrativa de um modo que quase rouba a personagem de agência. A prestação de Saoirse Ronan compensa todas essas fragilidades textuais. Acima refiro a abordagem estilística da atriz e sua delicada simplicidade, ambas perfeitas escolhas para o tom do filme, mas também devo referir quão perfeita e multifacetada é a caracterização que Ronan faz de Eilis. Por exemplo, apesar da sua juventude, inocência e confusão quando confrontada com uma nova realidade nos EUA, há sempre uma contracorrente de humor na personalidade de Eilis, que se mostra mesmo nos momentos mais desesperantes e que chega a maravilhosos píncaros nas cenas partilhadas com Emory Cohen. Ronan modula brilhantemente esse humor, não descurando também os elementos mais dramáticos da sua personagem, ou a sua indecisão e tristeza. Eu diria mesmo que o terceiro ato do filme só funciona devido aos esforços da atriz que pega na opacidade com que o texto retrata Eilis, e telegrafa para a audiência todas as dúvidas interiores da jovem assim como a sua progressiva sedução por uma volta à normalidade com que cresceu. Num panorama económico atual em que histórias de jovens a abandonar os seus países em busca de melhores oportunidades se está a tornar uma infeliz banalidade, é magnífico poder observar a prestação de Soairse Ronan, em que tal melancólica experiência é perfeitamente cristalizada na sua bravura e amargura. Para mim, o melhor momento da atriz é mesmo uma reação silenciosa durante um inesperado momento musical numa noite de Natal. No olhar lacrimoso de Ronan existe uma honestidade emocional rara no cinema contemporâneo, conferindo ao filme uma sinceridade emocional dos filmes de outros tempos, que a mise-en-scène do filme tanto quer homenagear com o seu romântico classicismo.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR ARGUMENTO



Como os Óscares raramente mostram grande interesse pelo que se convencionou chamar de cinema de autor, a componente textual dos filmes nomeados tem tendência a ser posta em grande evidência e posição de destaque, sendo que é uma raridade quando uma obra ganha o máximo galardão de Melhor Filme sem ter sequer uma nomeação numa das categorias para Melhor Argumento. Infelizmente, eu não sei se tal se vai confirmar este ano, ou se seremos testemunhas de uma infeliz irregularidade com a vitória de The Revenant, mas isso é uma conversa para outro dia.

Na categoria de Melhor Argumento Adaptado houveram poucas surpresas este ano. A única exclusão de algum destaque foi mesmo o argumento de Steve Jobs escrito por Aaron Sorkin. Existem poucos argumentistas com o estatuto de celebridade e Sorkin é um deles o que, juntamente com a sua vitória nos Globos de Ouro, parecia profetizar uma nomeação aqui, mas parece que os Óscares não se deixaram convencer pela sua brincadeira com estruturas teatrais e mania de fragmentar os seus textos em contínuos seguimentos de grandes e megalómanos discursos.

Outra exclusão de um argumentista bastante famoso foi a de Quentin Tarantino que, inesperadamente, não foi aqui indicado pelo seu controverso mas popular trabalho em Os Oito Odiados. Tarantino ainda há pouco tempo ganhou um Óscar para Melhor Argumento Original e é estranho não o ver nesta lista de nomeados, especialmente se tivermos em consideração quem foi nomeado no seu lugar.

Duas surpreendentes inclusões marcaram a categoria de Argumento Original, onde Straight Outta Comtpon arrecadou a sua única indicação. Já era de esperar que este filme, que foi das obras mais lucrativas nos cinemas americanos em 2015, fosse nomeado para algo mas muitos ficaram surpreendidos quando esse reconhecimento se manifestou numa nomeação pelo seu texto, um dos seus aspetos mais problemáticos e cuja autoria é exclusiva de escritores caucasianos, não ajudando, portanto, quaisquer alegações de diversidade pela Academia.

O outro nomeado surpresa foi Ex Machina, que, ao ser um filme de ficção-cientifica, encontrava.se com uma diabólica desvantagem para obter esta nomeação. Os Óscares parecem ter uma aversão inexplicável ao género e é por isso fantástico ver como os votantes se lembraram do trabalho de Alex Garland, especialmente se considerarmos quão ideologicamente desafiante o seu texto consegue ser com as suas explorações de sexualidade, identidade e autenticidade humana.

Uma pequena vitória na luta pela diversidade de representação nos Óscares manifestou-se, no entanto, nestas mesmas categorias, com vários filmes centrados em volta de personagens femininas a arrecadarem nomeações, o que é, infelizmente, uma raridade, Carol, Room, Brooklyn, Ex Machina e Inside Out. O caso do filme da Pixar é de particular destaque, sendo que toda a premissa narrativa do filme se desenvolve em torno de uma exploração metafórica da psique de uma jovem rapariga em crescimento.

Apesar de tudo isso, tenho de dizer que os prováveis vencedores serão filmes com mínima presença feminina, ou qualquer ilusão de diversidade. Spotlight e The Big Short parecem destinados a ganhar estes galardões, e a não ser que nos esperem grandes surpresas na cerimónia de dia 28, tenho sérias dúvidas que outros filmes consigam reunir votos suficientes para sequer ameaçarem o domínio destas obras.




RANKING DOS NOMEADOS (Argumento Adaptado):



5. Charles Randolph e Adam McKay por The Big Short baseado no livro de Michael Lewis


Da minha crítica de A Queda de Wall Street:

The Big Short apresenta-se como uma exposição da catástrofe que foi o despoletar da crise económica em 2008, oferecendo às suas audiências um lugar de primeira fila para o cataclismo ao acompanhar alguns dos poucos homens que se aperceberam do desastre iminente e conseguiram lucrar a partir do cataclismo financeiro. O filme também se apresenta como uma explicação acessível e divertida, ao estilo de programas como o Daily Show ou o Last Week Tonight, da complicada realidade dos jogos monetários de Wall Street, sendo que, infelizmente, é impossível olhar o produto final sem observar ora uma colossal condescendência dos cineastas para com a sua audiência ora uma estranha e desconfortável atitude de leviano desprezo para com a importância e seriedade das suas informações que tanto tenta transmitir a partir de joviais e desnecessários truques cinematográficos.”

Eu não acho que o humor seja uma forma necessariamente errada para se abordar temas tão sérios como a crise económica que em 2008 arrasou todo o mundo, mas The Big Short não é esse filme. Eu, pessoalmente tenho pouca paciência para os trejeitos e devaneios humorísticos da bro culture da atualidade, o que me diferencia imenso de grande parte da audiência deste filme assim como dos seus autores, e que faz de mim alguém que dificilmente conseguiria aceitar esta abordagem com algo mais que simples desdém. Com tudo isto dito, mesmo ignorando os meus gostos pessoais, o argumento deste filme é um verdadeiro pesadelo de desleixada estruturação dramática, vazias caracterizações, ritmos ineficientes e uma catastrófica dependência de declarativos e constantes momentos de exposição.




4. Emma Donoghue por Room baseado no seu romance


Se há um aspeto da adaptação de literatura para cinema que sempre me irritou, é o uso de voz-off como meio para transmitir monólogos interiores que narram um livro. Sempre me pareceu um mecanismo imensamente simplista e cronicamente anti cinemático. Por vezes resulta brilhantemente, mas essas ocasiões são um elefante branco no panorama do cinema, e, infelizmente, o texto de Room não é essa tão preciosa raridade. Eu percebo o modo como Donoghue recorre à voz interior de Jack para melhor dramatizar a sua viagem emocional, mas isso prende o filme às suas raízes literárias de um modo imensamente distrativo e rouba ao fabuloso protagonista a oportunidade de construir a sua prestação somente a partir das ações da narrativa. O modo como o argumento usa este recurso dramático de modo intermitente e fortemente errático ainda piora a situação, o que, combinado com uma infeliz tendência a cair em desnecessários sentimentalismos, poderia facilmente resultar em desastre. Felizmente, Donoghue tem a inteligência e a ligação ao material que lhe permitem conceber uma delicada teia de complexas caracterizações que tornam Room num arrebatador retrato humano. O modo como Donoghue nunca foge aos aspetos mais abrasivos dos sobreviventes que protagonizam a narrativa é outro grande ponto forte, assim como o é a grande consistência e delicadeza com que a autora concebe a personagem de Jack e sua perceção do mundo ao longo do filme, uma evolução que é tão expressa a um nível emocional como a um nível linguístico.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR ATOR



A categoria de Melhor Ator é o absoluto nadir da presente edição dos óscares, pelo menos no que diz respeito a qualidade. Os atores que estão nomeados não são certamente uma má coleção de nomes, mas as específicas prestações pela qual eles estão nomeados é uma das mais horrendas e medíocres seleções que a Academia apresenta há anos.

Eddie Redmayne, fresco de uma vitória pelo The Theory of Everything, volta aqui a interpretar uma personagem retirada de uma sofredora história verídica. Acrescentamos a estas fontes verídicas, a vistosa qualidade transformativa do papel de Lili Elbe, e a nomeação de Redmayne parecia já uma certeza desde que o seu casting foi anunciado. Houve mesmo quem conjeturasse se o ator conseguiria duplicar o que Tom Hanks alcançou nos anos 90 e ganhar o Óscar dois anos seguidos, mas, principalmente devido à qualidade deplorável do filme, tal é neste momento uma completa impossibilidade.

Tirando Redmayne, nenhum destes nomeados é um prévio vencedor de um Óscar pelo seu trabalho de ator. No entanto, Matt Damon é já um vencedor de um Óscar, tendo ganho o galardão para Melhor Argumento Original de 1997 pelo seu texto para O Bom Rebelde, o filme que lhe valeu também a sua primeira nomeação para Melhor Ator. Muitos anos depois, o ator encontra-se no apogeu da sua carreira enquanto estrela de cinema de Hollywood e se não fosse um certo ator fétiche de Martin Scorsese, Damon seria certamente uma aposta segura para ganhar o Óscar, mesmo que a ficção-cientifica seja um género usualmente aberrante para os Óscares.

A desfrutar a sua primeira nomeação está Bryan Cranston, um ator que certamente não terá falta de galardões, tendo já uma impressionante coleção de troféus pelo seu trabalho televisivo. Também a sua nomeação, como a de Redmayne, se deve principalmente à natureza biográfica do seu papel como Donald Trumbo, mas há que também valorizar quão popular este ator se tornou devido ao sucesso de Breaking Bad. De realeza da televisão a príncipe do cinema, Cranston parece estar imparável ultimamente, mesmo que isso nem sempre se reflita no seu trabalho.

Outro ator cuja carreira parece estar em constante e violenta ascensão é Michael Fassbender, cujas prestações, no entanto, apresentam, usualmente, um consistente nível de pura genialidade. Este ano o ator irlandês também poderia ter sido nomeado por Macbeth, mas é de esperar que a Academia mostre preferência pela obra mais segura, prosaica e, é claro, baseada em factos verídicos. Convém dizer, aliás, como desta categoria, apenas Matt Damon está nomeado por interpretar uma personagem fictícia.

Finalmente, temos Leonardo DiCaprio, o incontornável e imparável vencedor deste galardão. Apesar de Dicaprio ser apenas um dos muitos atores a nunca ter arrecadado um Óscar, por alguma razão a internet uniu-se em prol da sua campanha, declarando a sua falta de Óscar como uma injustiça apenas comparada aos mais hediondos genocídios na história do século XX. Talvez esteja a exagerar, mas não muito. O frenesim enlouquecido que tem envolvido o ator fez com que, assim que o projeto com Iñarritu foi publicamente anunciado, DiCaprio ganhasse o Óscar. De todas as categorias deste ano esta é a que está mais trancada, sendo também a pior delas todas, mas isso é uma conversa reservada para o ranking presente abaixo.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Eddie Redmayne em The Danish Girl


Na minha crítica de A Rapariga Dinamarquesa, publicada na Magazine HD, escrevi:

“Na primeira metade do filme, há uma cena em que Lili, ainda na persona de Einar, confessa que se apresentar como homem é sempre uma performance e que apenas é confortável como mulher, mas o trabalho de Redmayne nunca transmite tal coisa. Inicialmente, o carácter performativo da sua transformação em mulher parece ser justificado, mas, à medida que o filme avança, o desconforto e esforço nunca desaparecem do trabalho do ator, pejado de tiques nervosos e gestos forçosamente coquetes. Isto apenas piora nas cenas mais emocionais em que o ator vai demarcando os momentos mais dramáticos com um abandono momentâneo dos seus maneirismos, desastrosamente salientando como nas suas mãos, Lili nunca é mais que uma personagem a servir de exercício técnico para o ator. Lili nunca é credível como a verdadeira identidade da protagonista, o que subverte toda a mensagem que o texto tenta apresentar à audiência. Poucos atores em 2015 tanto trabalham contra a ideologia do seu próprio filme, por muito inadvertido que seja esse desajeitado esforço.”

Já não tenho mais paciência ou energia para pensar nesta prestação. É, simplesmente, um desastre, do princípio ao fim do filme, com apenas alguns momentos nas cenas de festa enquanto Einar que redimem o ator e o elevam um pouco acima do nível de abjeta e trágica incompetência. Este é o pior trabalho na carreira de Eddie Redmayne e é um crime que tal pestilência cinematográfica esteja nomeada a um Óscar, um galardão que, supostamente, deveria reconhecer excelência.




4. Bryan Cranston em Trumbo


Como apaixonado pela história de Hollywood nos seus anos dourados e devoto fã de cinema político, Trumbo é um filme que me ofendeu profundamente com a sua bastardização histórica, repugnante e desleixado texto, simplismos morais, uso desenfreado de arquétipos e desumanas caricaturas no lugar de personagens credíveis, e geral mediocridade enquanto uma obra de cinema. Apesar de toda esta animosidade para com a pútrida obra que se propõe a pintar Donald Trumbo como o singular herói da luta contra a blacklist aquando do McCartismo, eu tenho de admitir que consegui encontrar uma relativa salvação nas prestações do seu elenco. No entanto, apesar de ser um ator pelo qual eu tenho grande admiração, Bryan Cranston não está incluído nesse grupo de atores que conseguem, de algum modo, redimir a monstruosidade de Trumbo. Todo o elenco do filme está preso a um registo típico deste tipo de obra medíocre e de prestígio, onde a palavra toma primazia e onde os atores parecem deleitar-se em entrar num doentio jogo de ver quem consegue ser mais vistoso no seu diálogo. Até um certo ponto, a teatralidade forçada que Cranston injeta no papel titular é justificada tanto pelo texto como pela tese que o filme tem sobre o seu protagonista, insistindo em retratar o argumentista como uma personalidade arrogante e com ideias de auto importância que faziam com que falasse como se estivesse num filme em que cada uma das suas falas se possa tornar numa icónica catchphrase cheia de peso e importância moral. Esta é uma abordagem interessante mas muito superficial e, infelizmente, Cranston nunca se afasta desse registo superficial, tornando o centro narrativo do filme numa figura de implausível falsidade e vazia. Como um estudo de personagem Trumbo é, portanto, um desastre, parcialmente devido à incapacidade de Cranston em modular a sua prestação ou elevar o material pueril que o argumento lhe propõe. É uma tristeza que Cranston esteja nomeado a um Óscar por aquela que é uma das piores prestações na sua ilustre carreira, mas isso parece ter sido uma doentia temática nos nomeados deste ano para Melhor Ator.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO



Parabéns Academia! Esta é uma gloriosa seleção de nomeados e uma rara mostra de independência face às pressões do mercado cinematográfico americano e à horrenda presunção que o cinema de animação é algo exclusivamente concebido para audiências infantis.

Apenas dois dos nomeados são americanos, Inside Out e Anomalisa, sendo que o filme de Charlie Kaufman é um raro exemplo de cinema de animação norte-americano criado propositadamente para audiências dos circuitos art house, exclusivamente adultos.

Entre os restantes nomeados temos dois filmes praticamente mudos. Um deles é Shaun the Sheep Movie, uma adorável sobremesa cinematográfica britânica, e O Menino e o Mundo, uma sofisticada narrativa brasileira sobre o implacável avançar do desenvolvimento industria que vai destruindo o mundo natural e as culturas ancestrais de uma nação em crise.

Finalmente, temos Omoide no Mânî, o filme que será a ultima longa-metragem produzida pelos Estúdios Ghibli. Para qualquer amante de animação, a notícia do encerramento do mais importante estúdio de cinema de animação japonês terá, certamente sido uma cataclísmica tragédia, e parece que a Academia decidiu honrar o legado do estúdio. Há ainda que apontar que este filme e Inside Out são focados na psique e no custoso crescimento emocional de duas jovens raparigas, ambas prestes a entrar na sua adolescência, algo que é raro no cinema de modo geral, e ainda mais em filmes tão comerciais como usualmente o cinema de animação acaba por ser. Num panorama cinematográfico em que perspetivas femininas são menosprezadas e onde complexidades emocionais são tidas como algo de menor importância, este apoio da Academia de Hollywood a filmes assim é de uma importância formidável.

Com estes cinco nomeados, a Academia, ou pelo menos os votantes das categorias de animação, demonstra mais uma vez como não estão completamente cegos ao cinema de outras nacionalidades que não americanas e que nem sempre preferem a banalidade ao virtuosismo artístico. Para além do mais, com esta coleção de filmes, a Academia acaba por honrar a Pixar, a Aardman Animations e o Estúdio Ghibli, três dos mais importantes estúdios na história do cinema de animação, para além de que, indiretamente, acabam também por honrar a Disney e a GKids como distribuidoras norte-americanas de alguns dos mais importantes filmes de animação de sempre.

Eu adoro cinema de animação com uma força que não diminui desde os anos da minha infância em que tais filmes eram fontes inesgotáveis de alegria, prazer, e uma imaginação sem igual. Como tal, é um sonho observar esta formidável seleção em que, mesmo que eu não concorde com todos os nomeados, em geral a categoria é indiscutivelmente gloriosa.





RANKING DOS NOMEADOS:



5. Anomalisa, Charlie Kaufman, Duke Johnson e Rosa Tran


Eu sou um grande fã do trabalho passado de Charlie Kaufman, sendo que, face à inicial premissa de Anomalisa, o seu primeiro filme de animação, eu estava perfeitamente pronto para voltar a ser deslumbrado por este entusiasta do pós-modernismo cinematográfico. No entanto, o filme foi, para mim, um imenso desapontamento, demonstrando como, possivelmente, a criatividade de Kaufman se começa a esgotar e como os mais perniciosos aspetos da sua visão do mundo apenas se estão a tornar mais evidentes e difíceis de ignorar. Kaufman foca-se, em Anomalisa, em mais um homem desiludido e entediado com o mundo que o rodeia, vivendo uma existência cronicamente isolada e apática. Tomando a ideia de uma verdadeira doença mental, Kaufman concebeu uma visão subjetiva em que o mundo do seu protagonista é povoado por pessoas que partilham exatamente a mesma voz e feições, sendo que apenas uma mulher que ele conhece numa vulgar e triste noite num hotel, consegue emergir como outro ser humano fora desse absoluto anonimato.

Eu percebo as intenções de Kaufman, mas não as consigo celebrar. Este ano está recheado de filmes em que homens de sucesso e privilegiados são retratados como criaturas isoladas e incompreendidas, vítimas da sua própria arrogância, e, pessoalmente, já estou um pouco cansado desta irritante fórmula. Os defensores deste tipo de filme afirmam que o filme se apercebe dos problemas dos seus protagonistas, mas custa-me ver em Anomalisa, algo mais que uma montra da autopiedade de Kaufman e sua hubris cinematográfica. Eu consigo apreciar o filme de um ponto de vista puramente técnico e até aprecio o trabalho vocal dos atores, mas a obra perde qualquer integridade na sua construção misógina da figura titular, Lisa.

A mulher que concentra em si a peculiar e individualista banalidade da vida humana é pouco mais que um mecanismo narrativo para o arco da personagem masculina principal, e mesmo a sua personalidade parece existir apenas em função dos problemas dele, sendo que os diálogos entre os dois, por muito bem representados que sejam, são um perfeito exemplo de como subtilmente um texto consegue relegar uma das suas figuras a um objeto. O problema encontra-se no modo como Lisa deveria ser diferente, deveria ser palpavelmente humana, mesmo que por instantes, mas Kaufman cai nos erros que pensa estar superiormente a pintar na sua personagem principal, mostrando uma imaturidade incomum no seu trabalho e uma desumanidade assustadora. Muitos adoram este filme, mas não consigo fazer. Reconheço o seu valor enquanto criação ambiciosa e impetuosa de animação para adultos, mas o resultado final sofre de uma fétida podridão ideológica que, infelizmente, afundam todo o edifício do filme.




4. Shaun the Sheep Movie, Mark Burton e Richard Starzak



Da minha crítica de A Ovelha Choné – O Filme:

Shaun the Sheep Movie é um ótimo filme de animação familiar longe das complexidades emocionais de outras obras de animação deste ano mas não por isso menos charmoso ou encantador. Há algo de reconfortante na simplicidade e relativa falta de ambição do projeto. Uma delícia ligeira confecionada com um virtuosismo magistral numa técnica, cuja visibilidade tem vindo a desaparecer com o apogeu da animação digital. E talvez principalmente por esta última razão, eu não consiga de modo algum resistir aos encantos do filme e adorá-lo apesar de alguns problemas cruciais que anteriormente referi.”

Tenho pouco a acrescentar a estas palavras. Esta é uma obra adorável e imensamente charmosa, sendo que é difícil resistir aos seus encantos. É cinema essencial? Talvez não, mas para um amante de animação, qualquer produção dos estúdios Aardman é uma joia cinematográfica.