segunda-feira, 21 de setembro de 2015

THE SOUND OF MUSIC (1965) de Robert Wise

 Tal como foi pedido através de um comentário no Google+, aqui estão os meus pensamentos sobre Música no Coração.


 The Sound of Music de Robert Wise é, ainda hoje, um dos mais bem-sucedidos filmes alguma vez criados por Hollywood. Um sucesso de bilheteiras, um dos filmes mais lembrados e adorados de sempre, um vencedor de 5 Óscares, incluindo Melhor Filme, e um filme que, apesar da passagem do tempo, se mantém firmemente na psique coletiva da contemporaneidade e que continua a ser relevante em termos de cultura popular. O filme é difícil de observar sem o seu legado se intrometer, sem qualquer nostalgia pessoal se infiltrarem no espetador, mas o contrário também acontece, não fosse este um dos mais menosprezados e erradamente descartados filmes para uma audiência contemporânea cheia de cinismo e superioridade irónica.

 O filme, cujo enredo penso ser tão conhecido que seria uma tola futilidade colocar aqui um resumo, é uma adaptação de um musical do duo Rodgers e Hammerstein, sendo que é, para mim, a melhor adaptação do seu trabalho em filme. O verdadeiro herói por detrás do sucesso do filme será, aliás, o argumentista Ernest Lehman que, libertando-se de quaisquer noções de fidelidade para com a obra teatral, pega num dos mais problemáticos trabalhos desse lendário duo do teatro musical e sintetiza, reformula, reestrutura, molda e adapta o espetáculo num maravilhoso texto, onde a maioria dos problemas que amaldiçoam o texto original se dissipam. Lehman muda canções de lugar, muda motivações e comportamentos de personagens, corta cenas e encurta momentos com uma absoluta precisão. O final é um texto claro e dissimuladamente simples e com um ritmo onde as pausas dramáticas são perfeitamente calibradas, permitindo que o filme flua delicadamente apesar de ter quase três horas. Tantos outros musicais pecam por uma falta de libertação das suas origens teatrais que The Sound of Music salta logo à vista. Longe de teatral, o filme é intrinsecamente cinemático, se bem que a agradecer a esse facto temos também a realização de Robert Wise.

  Este não foi o primeiro musical de Robert Wise a alcançar tão grande sucesso, tendo o realizador criado a versão para cinema de West Side Story alguns anos antes deste filme, mas nunca o impacto do seu cinema foi tão monumental como com este filme, e raramente foi a sua eficiência melhor empregue que aqui. Tal como muitos dos seus filmes, o início do filme é um triunfo de dinâmica e emoção avassaladora, um momento de puro cinema cheio de grandiosidade e majestade, sendo que o seu uso das paisagens naturais e dos planos por helicóptero é inegavelmente inspirado. A sua insistência em filmar nas localizações reais, por exemplo, representa tanto da sua abordagem ao filme, em que a atenção do realizador com detalhes e pormenores paga os seus dividendos. No meio de toda a grandiosidade do filme há um magistral domínio de tom, uma fuga ao simplicismo sacarino da história e, como já disse, uma atenção ao pormenor que é típica do realizador Veja-se a sua direção do simples número Maria, uma introdução na segunda pessoa da protagonista do filme, em que a coreografia das mãos das freiras é de uma enorme precisão, mostrando sempre um contraste entre as pessoas que estão a favor ou contra Maria e apenas se tornando uma união visual no final do número quando as freiras, como unidade de linhas pretas e respeitosas, observam a chegada apressada e desajeitada da noviça que passa o tempo a cantar e rodopiar pelas montanhas austríacas.

 O visual do filme, de forma geral, é do melhor que Hollywood poderia oferecer, com uma cenografia que, seguindo o uso de localizações reais, parece almejar a um certo realismo se bem que este é temperado por uma suavidade visual que engloba todo o design do filme. Tanto na cenografia como nos figurinos há uma escolha insistente em cores pastéis e suaves tonalidades em que o dramatismo cromático pertence unicamente ao choque de vermelho que infeta a segunda metade do filme. Os cenários são detalhados e complexos na sua superficial simplicidade, e os figurinos, mais do que recriarem o ambiente pré-guerra são confortáveis desenhos completamente pertencentes aos anos 60, mas com uma harmonia magistral em relação ao resto da imagética do filme. A imagem do filme é de simplicidade precisamente construída e que esconde o que é, na verdade, uma cuidada e pormenorizada concretização. Isso nunca é mais visível que na fotografia do filme que, mais do que triunfar nas filmagens de paisagens naturais, vai encontrando, nos momentos mais negros e de pausa que Wise concede ao filme, uma delicadeza e elegância visual surpreendente. O uso de luz e sombras é de imensa perfeição, especialmente na segunda metade do filme e em cenas na abadia.

  Mas toda a perfeição visual do mundo seria um desperdício de talento e trabalho não fosse o elenco genial. Julie Andrews e Christopher Plummer são de uma genialidade especial, trabalhando num modo em que, apesar de aparentemente simples e pouco complexas, as suas prestações são essenciais em não deixar o filme cair num vazio adocicado, sem, no entanto negar a sua sinceridade. Andrews, que tinha acabado de ganhar o Óscar de Melhor Atriz por Mary Poppins quando este filme primeiro estreou, é um milagre em forma humana, sendo capaz de injetar uma melancolia e sentido de abnegação dolorosa ao otimismo avassalador que caracteriza a personagem de Maria Von Trapp, que é completamente removida da realidade histórica da verdadeira Maria. Nas mãos de muitas outras atrizes, Maria é um vácuo de fútil simplicidade, um sorriso santificado na forma de uma jovem heroína romântica, uma imagem distante e inalcançável de melodiosa e inabalável felicidade, mas, com o trabalho de Andrews, Maria nunca é distante ou fútil, mas sim o coração emocional de toda a construção do edifício do filme. Plummer não é de menor importância, sendo que o seu bem conhecido ódio pelo filme contagia a sua presença no filme que, longe de ser simples e docemente ríspida, é verdadeiramente abrasiva e severa, acrescentando uma acidez notória ao desenvolver do romance e ao desenrolar do enredo, nunca permitindo que o filme caísse na tolice açucarada que o ator julgava o filme ser.

 Mas este tempero dos mais simplisticamente doces aspetos do filme nunca é melhor visível que na presença de Eleanor Parker como a Baronesa que tem intenções românticas e mercenárias em relação ao Capitão Von Trapp. Parker é uma presença de incandescente ironia e cinismo no meio do filme, movendo-se com uma elegância e sofisticação quase sexual e que está muito além da inocência da figura de Maria. Repare-se no modo como Wise lhe concede a sua atenção quando a atriz está presente, usando-a não tanto como figura antagónica mas como forma de modular o tom do filme. No meio de toda a inspiradora história de uma freira apaixonada está esta presença, este toque de ironia e superioridade magnificamente elegante e cortante. O guião e o realizador sabem, no entanto, quando se afastar da sua figura, não permitindo que a sua leve manipulação e ciúme se tornem demasiado fulcrais e centrais, permitindo à figura dissipar-se e não distrair do verdadeiro poder antagónico do filme, cuja realidade da sua ameaça é monumentalmente pesada e inabalável em relação à sobremesa musical que muitos julgam o filme ser.

 A estrutura do filme é imensamente fácil de dividir em duas partes de invariável diferença tonal, sendo que é na segunda em que essa ameaça nazi se manifesta em toda a sua sufocante e opressiva totalidade. Primeiro temos o filme até ao casamento dos dois protagonistas, ou se quisermos ser mais abrangentes poderíamos dizer que apenas dura até à partida de Maria da casa dos Von Trapp. Esta parte é imensamente inocente e alegre, com uma corrente de melancolia e romance pelo meio e é maioritariamente sincera e tocante. Há uma condição quase infantil na ingenuidade e inocência desta parte, que é contrastado com a enorme incongruência do tom na segunda parte. Aí a inocência infantil passa a uma maturidade adulta. O sonho de uma criança passa a ser o otimismo perseverante de um adulto. Se os filmes musicais são usualmente caracterizados como felizes, simples e invariavelmente risonhos e otimistas, a segunda metade deste filme parece pôr essa noção à prova, colocando o otimismo do género face a uma das maiores instituições do mal da humanidade, mesclando o romantismo histórico com o legado sanguinário que a mera imagem da cruz suástica consigo carrega. Por muitos anos, achei que o filme se perdia nesta segunda parte, perdendo Andrews como foco do filme. Mas, tendo revisto o filme três vezes antes de escrever este texto, tenho a dizer que a minha opinião tem-se vindo a alterar, sendo que, apesar da sua simplicidade, há algo de imensamente complicado e até sofisticado na mistura de tons e intenções nesta segunda parte, tanto que a mudança de uma história de uma protagonista para uma história de uma família como unidade parece-me não só defensível, como inerentemente essencial.

 Os anos 60 foram uma década muito negra para o cinema americano, sendo que a mediocridade opulente parecia ser a ordem do dia. Os musicais foram particularmente afetados por isto, entrando numa fase de decadência na segunda metade da década que iria apenas culminar nos anos setenta, em que o género se tornou uma espécie em vias de extinção no panorama cinematográfico americano. Este foi um dos seus últimos momentos de indubitável glória na tradição classicista de Hollywood, sendo que a delicadeza e primor estrutural e técnico permitiram ao filme escapar ao tipo de falhas que afetaram outros filmes na época celebrados mas que hoje em dia são objeto de escárnio e crítica, como My Fair Lady Doctor Dolittle ou Hello Dolly! Onde o resto desses filmes eram monstruosos e pesados, há uma leveza e claridade absoluta em The Sound of Music.

 Não sou tolo o suficiente ao ponto de negar que o filme é uma obra de classicismo otimista e concebido para ganhar quantidades grotescas de dinheiro para os estúdios, mas, com tudo isso em conta, o filme é impossível de ignorar. O charme da obra é inegável e tem-se mantido vivo e relevante durante décadas e os aspetos, que anteriormente mencionei, contribuem para que o filme seja uma obra modulada e tonalmente variada, não sendo simplesmente uma alegria vazia sem limites. Este é o absoluto píncaro do dito cinema para famílias, e talvez por isso tenha ganho uma reputação tão paradoxal. Muitos adoram o filme, e muitos outros detestam a sua existência, olhando com desdém as suas intenções, a sua musicalidade e o seu otimismo e sinceridade. Para mim, que muitas vezes caio em semelhantes cinismos e pensamentos críticos, o filme é uma obra de pouca ambição, simples intenções, e maravilhosa concretização. Como muitos profissionais de Hollywood dizem em chorosos discursos cheios de clichés quando ganham troféus, o filme é simplesmente uma história bem contada. Uma história tocante e contada com todo o luxo que Hollywood podia fornecer e com uma equipa incrivelmente sagaz e precisa por detrás, fazendo deste filme um dos inabaláveis clássicos do cinema como arte e como forma de entretenimento.


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