sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR CANÇÃO ORIGINAL



Tenho de admitir que não tenho o mínimo afeto ou respeito pela categoria de Melhor Canção Original. Para mim, esta é uma categoria completamente dispensável e tem vindo a tornar-se num poço de infindável mediocridade em que filmes de outro modo esquecidos pela academia conseguem alcançar uma fácil nomeação.

Independentemente dessas minhas reservas pessoais, nos últimos anos esta categoria tem vindo a marcadamente oferecer admiráveis seleções de nomeados, sendo que este ano é um pequeno desapontamento, não havendo aqui nenhuma obra do calibre de “Skyfal” ou com a inescapável popularidade de “Let it Go” e “Happy”, ou mesmo a insanidade energética de “Everything Is Awesome”.

Mesmo assim, é um ano interessante, marcando a primeira vez que uma categoria dos óscares apresenta mais do que um filme documental como nomeado, para além das categorias propositadamente criadas para honrar esse tipo de cinema. Assim como estes nomeados marcam a primeira vez que uma pessoa abertamente transgénera é nomeada para um Óscar, Antony Hegarty, assim como a primeira vez que todos os filmes desta seleção têm apenas esta nomeação a seu nome. Um ano cheio de estreias e factoides destes não poderia deixar de ter algum interesse, nem que seja pelo facto de 50 Sombras de Grey ser agora um filme que sempre terá “Nominated for 1 Oscar” na sua página do IMDB.

Em termos de previsões, este ano poderá marcar o triunfo de Diane Warren que, apesar de numerosas nomeações, nunca conseguiu arrecadar o galardão. A ajudar o seu caso está Lady Gaga, a intérprete e coautora da letra da canção que encerra o documentário The Hunting Ground. A estrela pop tem sido uma incontornável presença nos media desde a sua nomeação, tendo já até cantado a sua obra nomeada nos Producers Guild Awards. Isso é que é fazer campanha para o ouro.

Pelo menos eu espero que seja a canção de Diane Warren a ganhar o Óscar pois estremeço com a possibilidade de Sam Smith, autor de uma das piores canções de um filme de James Bond desde o início do franchise na década de 60, arrecadar um Óscar pelo seu trabalho. Apreciações destas, no entanto, são mais apropriadas para o meu ranking dos nomeados pelo que prossigamos.




RANKING DOS NOMEADOS:


5. “Writing’s on the Wall” de Spectre, Sam Smith e Jimmy Napes




Apesar de a música orquestral apresentar uma sedutora e melosa melodia para acompanhar os vocais de Sam Smith, a letra edificada pelo cantor britânico aniquila qualquer possibilidade de esta ser uma boa canção para um filme de James Bond. As palavras lacrimosas que suplicam pela compaixão da audiência apenas se tornam em risível melodrama e irritante sentimentalismo, algo que nunca é bem-vindo num tema para um filme sobre o espião com mais estilo da história do cinema. Poder-se-ia apontar que Smith apenas segue as intenções sentimentais e estupidamente sérias da narrativa do filme, especialmente no seu tratamento do passado do seu protagonista, mas ao cantar os seus dúbios versos num tom que apenas exacerba a súplica choramingas do seu conteúdo textual, Smith construiu uma das piores canções alguma vez usadas como tema para um filme de James Bond. Que o seu trabalho vem em direta comparação com “Skyfall” não ajuda, sendo que a robustez musical da canção de Adele ofusca por completo quaisquer intenções de grandeza deste triste número musical. É uma pena que a melodia seja destruída pelo trabalho de Smith, mas pelo menos Thomas Newman teve a decência de usar o trabalho instrumental desta canção, desprovido de acompanhamento vocal, na banda-sonora do filme, nomeadamente na sequência de Roma.




4. “Til It Happens to You” de The Hunting Ground, Diane Warren e Lady Gaga





A diferença de qualidade entre esta canção e a obra de Sam Smith é astronómica, pelo que peço que não vejam o meu posicionamento em 4ª lugar como uma enorme crítica à qualidade musical de “Til It Happens to You”. A grande razão para eu colocar a mais recente nomeação de Diane Warren tão baixo neste ranking devém do modo como esta obra se integra no filme para a qual foi supostamente criada. The Hunting Ground é um documentário prosaico na sua execução, mas profundamente perturbador e essencial nas informações que revela à sua audiência, sendo que a sua simplicidade torna-se tanto numa das suas maiores forças como no seu mais pernicioso defeito. Uma obra que se encontra no precário balanço entre importante documento jornalístico e insignificância cinematográfica certamente não precisa de vistosas distrações que venham arrebatar a atenção da audiência para longe das suas informações e, infelizmente, com o seu posicionamento no final do filme e completa desconexão de qualquer ambiente musical até então empregue na obra, “Til It Happens to You” é precisamente esse terrível tipo de distração. Esta canção é louvável pelas suas letras nobremente intencionadas que têm a infeliz tendência para caírem no óbvio e pouco convincente, e é de especial admiração pela sua poderosa prestação vocal, mas, esta categoria está inserida numa celebração de cinema, não de música pop. Como canção de um filme, isto é uma pequena catástrofe, mas como uma obra musical independente de quaisquer apreciações cinemáticas é bastante triunfante. Infelizmente para Warren e Gaga, neste blog o cinema está sempre em primazia em relação à música, e elas vão ter de se consolar com um óscar ao invés de uma boa crítica aqui. Pobrezinhas.




3. “Earned It” de 50 Shades of Grey, Abel Tesfaye, Ahmad Balshe, Jason 'DaHeala' Quenneville e Stephan Moccio




Sim, a letra de “Earned It” é ligeiramente repugnante no seu descarado chauvinismo, mas, tendo isso em consideração, é impossível negar quão bem esta canção funciona no contexto do seu filme. A adaptação ao cinema de 50 Sombras de Grey é um perfeito exemplo de como Hollywood tem uma relação curiosamente tresloucada e contraditória com o sexo. Por um lado, os estudos americanos estão sempre prontos a usar o desejo sexual da sua audiência como modo de os aliciar aos cinemas, tornando o sexo numa comodidade comercial completamente abusada pelo seu marketing, por outro, há uma estranha fobia na representação de sexo, desejo, ou mera atração. Em todo o edifício cinematográfico que é a adaptação do romance sensação de P. L. James, as canções que foram usadas para acompanhar o estranhamente casto relacionamento entre os dois protagonistas são uma das poucas graças do filme, trazendo à narrativa uma sensualidade e carnalidade que, de outra forma, apenas existiria nas férteis imaginações da sua audiência. Não é que eu seja grande fã desta canção, mas como uma obra musical criada com o intuito de complementar, apoiar e ajudar a construir um filme, este é um dos melhores nomeados.




2. “Manta Ray” de Racing Extinction, J. Ralph e Antony Hegarty




Esta é a segunda vez que J. Ralph alcança uma nomeação surpresa por uma canção de um documentário até então completamente ignorado na Awards Season, e ainda bem que o fez, pois “Manta Ray” é, inquestionavelmente, um dos melhores nomeados desta categoria. Ao contrário da canção com vocais de Lady Gaga, esta obra integra-se perfeitamente no seu filme, sendo que toda a banda-sonora da autoria de J. Ralph se apoia grandemente em volta das melancólicas melodias em pano que caracterizam a parte instrumental de “Manta Ray”, cuja letra, uma triste saudação à magnificência das gigantescas mantas que estão no precipício da extinção, é igualmente simbiótica com todo o conteúdo e tom de Racing Extinction. A cereja no topo do bolo é mesmo a prestação vocal de Antony Hegarty, uma artista que eu admiro grandemente, e que confere a esta canção a sua usual intensidade entristecida, que perfeitamente transmite a tragédia do desaparecimento deste gigante dos oceanos, funcionando quase como um hino fúnebre, ao mesmo tempo que deixa transparecer uma arrebatadora adoração pela sua majestade e beleza. Ouvir a música no contexto do filme é algo que destroça o coração da audiência, especialmente pelo modo como o ritmo pacífico e temperado de “Manta Ray” funciona como uma pausa de reflexão num documentário que está constantemente a bombardear o seu público com uma enchente de monstruosas informações sobre uma das mais imperdoáveis tragédias ecológicas da atualidade.




1. “Simple Song #3” de Youth, David Lang




Na minha crítica de A Juventude, eu escrevi:

“A climática canção, Simple Song #3, é particularmente extasiante na sua gloriosa intensidade, simplicidade, e carga emocional. No seu clímax, o filme é glorioso e um dos melhores de 2015. É só pena o resto do filme que antecede estes derradeiros momentos.”

Os meus pensamentos em relação à qualidade desta canção pouco se têm alterado desde o meu primeiro visionamento da mais recente obra de Paolo Sorrentino, pelo que tenho a acrescentar como na sua simplista sinceridade sentimental, estrutura repetitiva e redutora visão de romance, a letra da canção acaba por se tornar numa magistral extensão das próprias limitações da filosofia do seu protagonista. Em resumo, é fácil perceber como Fred Ballinger, a personagem de Michael Caine, poderia plausivelmente ter escrito esta canção, assim como é perfeitamente fácil acreditar na sua inexorável popularidade. Há algo de estranhamente memorável nesta canção do mestre compositor David Lang e, se ele conseguisse ganhar o Óscar não há dúvida que esta canção se tornaria numa das mais estranhas criações a alguma vez ter alcançado o troféu, assim como uma das mais curiosamente difíceis de esquecer. Esta canção está longe de ser uma obra de perfeição musical, eu até diria que prefiro “Manta Ray”, mas pelo modo como “Simple Song #3” consegue revitalizar a carcaça de A Juventude, conferindo-lhe um glorioso final, esta obra merece o Óscar.



PREVISÕES E DESEJOS:

Quem vai ganhar: Diane Warren e Lady Gaga

Quem eu quero que ganhe: Diane Warren e Lady Gaga

Quem merece ganhar: David Lang



5 escolhas alternativas que a Academia ignorou*:



*Esta seleção pessoal foi feita com base na lista de canções elegíveis que a academia divulgou previamente às nomeações.

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