quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR ATRIZ



Depois de examinar as categorias de Melhor Ator Secundário, Atriz Secundária e Ator num Papel Principal, finalmente chegamos ao galardão de Melhor Atriz, a categoria, que para mim tem a melhor coleção de nomeados de toda esta edição dos Óscares. Até a prestação de Jennifer Lawrence, cuja nomeação tem sido muito denegrida face às outras performances nomeadas, merece uma certa admiração e está certamente repleta de escolhas interessantes que exigem análise.

Das cinco atrizes, Lawrence é a que terá menos hipóteses de ganhar, sendo que já recentemente arrecadou este preciso galardão pelo seu trabalho em Silver Linings Playbook e que Joy foi bastante ignorado pela Academia, com a exceção desta mesma nomeação.

Outra recente vencedora que se encontra nesta lista de nomeadas é Cate Blanchett. Esta atriz australiana encontra-se nomeada por Carol, um filme que certamente esteve perto de ser nomeado para Melhor Filme. Este projeto representa tanto a segunda colaboração com Todd Haynes como a sua segunda participação numa adaptação de uma obra de Patricia Highsmith, e tenho de dizer que essa coleção de três prestações representa algum do melhor trabalho na sua ilustre carreira. Num mundo ideal, Blanchett estaria aqui acompanhada pela sua coprotagonista, mas infelizmente, devido a campanhas fraudulentas, Rooney Mara foi relegada à categoria de Melhor Atriz Secundária. Desde 1991 que nenhum par de atrizes do mesmo filme é nomeado nesta categoria, e parece que a Academia não vai voltar a tomar tal decisão no futuro próximo.

Excluindo Blanchett e Lawrence, as outras atrizes ainda não arrecadaram nenhum Óscar. Saoirse Ronan encontrase aqui nomeada pela segunda vez, sendo que em 2007 foi indicada, na categoria de Atriz Secundária, pelo seu genial e austero trabalho em Atonement de Joe Wright. Passados 8 anos, a atriz finalmente teve acesso a um papel com a exposição e potencial necessário para a catapultar para o estrelato e para o topo da corrida ao Óscar. Se a sua carreira continuar a florescer desta maneira, será de esperar que mais nomeações se encontrem no seu futuro.

Quase tão jovem como Ronan é Brie Larson, que se encontra a desfrutar a sua primeira nomeação. A atriz de Room é a grande favorita para ganhar o Óscar e, se tal se verificar, penso que quase se poderia firmar que é uma recompensa por uma carreira cheia de consistente qualidade e eficiência. Apesar da sua juventude, Larson tem acumulado um impressionante currículo, cheio de prestações brilhantes, usualmente ignoradas aquando da Awards Season. Apenas a sua participação em Short Term 12 parece ter gerado algum furor entre as várias organizações de prémios de cinema e eu diria mesmo que Larson deve muito deste sucesso à exposição que teve com esse tocante drama.

É claro que nenhuma destas atrizes, nem mesmo Cate Blanchett, se podem sequer comparar a Charlotte Rampling no que diz respeito ao seu currículo. Desde 1965 que a atriz britânica tem vindo a desenvolver a sua carreira em volta de projetos memoráveis e de imensa importância artística. A sua facilidade com o francês também tem possibilitado a Rampling uma prolífera carreira no cinema francês, sendo que ela é quase que uma musa para o realizador François Ozon. A sua nomeação por 45 Years é o pináculo de uma gloriosa carreira, e a grande aceitação de Hollywood desta atriz que há décadas tem mostrado a sua genialidade em cinema de autor. Devido à sua escolha de projetos tender para um tipo de cinema artístico que a Academia usualmente ignora, eu temo que esta seja a única oportunidade que Rampling alguma vez terá para ganhar este prémio e por essa mesma razão eu estou a torcer por ela, mesmo tendo em conta os seus infelizes comentários sobre a questão da diversidade nos Óscares e a monumental qualidade das outras prestações que estão em competição com o seu magistral trabalho no mais recente drama de Andrew Haigh.





RANKING DAS NOMEADAS:



5. Jennifer Lawrence em Joy



Na minha análise desta prestação escrevi:

“O ponto de viragem, tanto na qualidade do filme como no trabalho da atriz vem aquando da participação de Joy no programa de televendas da QVC, tentando vender o fruto do seu trabalho em direto. É aqui que a atriz demonstra uma formidável mestria sobre a sua personagem e sobre as necessidades do filme. Lawrence é uma estrela de cinema, disso não há dúvida, mas curiosamente um dos seus melhores atributos enquanto intérprete devém precisamente da sua negação dessa mesma natureza de estrela como ela fez com a nervosa Katniss Everdeen nos primeiros dois filmes da saga Hunger Games. Ver Lawrence interpretar o colossal desconforto de Joy Mangano em frente a câmaras pela primeira vez na vida é uma delícia incalculável e uma perfeita exposição dos talentos da atriz que, nesta sequência torna Joy numa heroína fortemente humana e arrebatadoramente vulnerável apesar da sua força e imbatível vontade de vencer neste mundo.”

A cena que acimo descrevo é o píncaro da prestação de Jennifer Lawrence, sendo que até e poderia dizer que é um forte candidato ao melhor momento individual de toda a carreira desta estrela enquanto atriz. Infelizmente, nem Jennifer Lawrence nem o caótico filme que é Joy, conseguem manter de forma consistente esse nível de genialidade, o que, no entanto, não quer dizer que o resto da prestação de Lawrence seja algo desprezível ou facilmente descartado. Eu diria mesmo que este é dos melhores trabalhos da atriz tirando as derradeiras cenas do filme, em que a atriz é levada a tentar forçar na sua prestação uma maturidade que simplesmente não consegue conjurar de modo credível. Certamente, Joy representa a melhor colaboração entre Lawrence e David O. Russell, onde a indisciplina tonal do realizador quase serve de veículo para Lawrence desenvolver na personagem de Joy Mangano uma âncora emocional e humana de todo o filme. O papel permite a Lawrence brilhar com o seu usual carisma de estrela de cinema, mas também lhe dá uma fabulosa oportunidade para complicar o que podia ser facilmente um papel superficialmente heroico e inspirador, sendo que a atriz injeta nos procedimentos narrativos de Joy uma surpreendente melancolia que complica mesmo os momentos mais joviais e energéticos do filme. Um realizador indisciplinado e uma atriz indisciplinada encontram-se em Joy e, miraculosamente, o resultado é estranhamente sofisticado e emocionalmente complexo. Sim, está longe, na minha opinião, de ser uma das melhores prestações do ano, mas é certo que merece uma certa quantidade de louvor e admiração.




4. Saoirse Ronan em Brooklyn


Da minha crítica de Brooklyn:

“Ronan é um poço de carisma ao estilo da velha Hollywood, sendo que o seu trabalho funciona perfeitamente na sua modulação de emoções fortes e simples telegrafadas de modo claro mas belissimamente delicado. Aliás, toda a prestação da atriz é caracterizada por uma formidável delicadeza mesclada com uma estilização de maneirismos apropriados à localização histórica da narrativa. Uma mistura da simplicidade apelativa dos clássicos da velha Hollywood com a subtileza expressiva de estilos mais atuais, esta é uma performance de louvar que, infelizmente, é bastante limitada por algumas das imposições do texto.”

Por muito que o argumento de Nick Hornby mostre uma triste tendência a simplificar os conflitos interiores de Eilis, a protagonista de Brooklyn, e a resolver os contratempos da narrativa de um modo que quase rouba a personagem de agência. A prestação de Saoirse Ronan compensa todas essas fragilidades textuais. Acima refiro a abordagem estilística da atriz e sua delicada simplicidade, ambas perfeitas escolhas para o tom do filme, mas também devo referir quão perfeita e multifacetada é a caracterização que Ronan faz de Eilis. Por exemplo, apesar da sua juventude, inocência e confusão quando confrontada com uma nova realidade nos EUA, há sempre uma contracorrente de humor na personalidade de Eilis, que se mostra mesmo nos momentos mais desesperantes e que chega a maravilhosos píncaros nas cenas partilhadas com Emory Cohen. Ronan modula brilhantemente esse humor, não descurando também os elementos mais dramáticos da sua personagem, ou a sua indecisão e tristeza. Eu diria mesmo que o terceiro ato do filme só funciona devido aos esforços da atriz que pega na opacidade com que o texto retrata Eilis, e telegrafa para a audiência todas as dúvidas interiores da jovem assim como a sua progressiva sedução por uma volta à normalidade com que cresceu. Num panorama económico atual em que histórias de jovens a abandonar os seus países em busca de melhores oportunidades se está a tornar uma infeliz banalidade, é magnífico poder observar a prestação de Soairse Ronan, em que tal melancólica experiência é perfeitamente cristalizada na sua bravura e amargura. Para mim, o melhor momento da atriz é mesmo uma reação silenciosa durante um inesperado momento musical numa noite de Natal. No olhar lacrimoso de Ronan existe uma honestidade emocional rara no cinema contemporâneo, conferindo ao filme uma sinceridade emocional dos filmes de outros tempos, que a mise-en-scène do filme tanto quer homenagear com o seu romântico classicismo.




3. Brie Larson em Room


Em Short Term 12, Brie Larson demonstrou que tem um curioso e formidável talento para trabalhar com atores juvenis, conseguindo com eles estabelecer uma relação que nunca parece forçada e que resulta numa desconcertante intimidade capturada pela câmara. Em Room, a atriz leva esse seu talento à sua apoteose, ao participar num filme em que toda a integridade do edifício cinematográfico se apoia completamente na credível e orgânica relação entre Larson e o seu jovem coprotagonista, Jacob Tremblay, que interpretam uma mãe e filho presos num quarto, sendo que a criança nunca conheceu qualquer existência fora dessa clausura. A primeira metade do filme centra-se na isolada vida dos dois protagonistas dentro do espaço titular e Larson é uma maravilha, telegrafando o quotidiano da sua personagem e sua inseparável ligação ao seu filho de modo belíssimo. Quando é Joy, ou Ma como é chamada pelo seu filho, tem de convencer o seu companheiro de cela que existe um mundo fora do quarto, pela primeira vez começamos a perceber quão complexo é o retrato que Larson engendrou. Nas mãos desta atriz, Joy nunca é facilmente reduzida a uma simples vítima indefesa ou mártir maternal. Há uma fantástica frustração e raiva na personagem, mesmo por vezes direcionada ao seu filho, um desespero imenso que ora a atordoa e resigna, ora a faz determinada e com a energia de um animal enjaulado. Na segunda metade do filme, quando Joy tem de lidar com as cicatrizes emocionais do seu trauma, Larson é curiosamente opaca na sua evolução. O filme é contado do ponto de vista de Jack, o seu filho, e por isso esta escolha é algo integral para a narrativa subjetiva, tornando Ma numa cifra, à medida que ela se desmorona interiormente. Para além da magistral cena em que Joy primeiro confronta Jack com a existência de um mundo exterior, gostaria de destacar uma cena climática em que ela é sujeita à cruel invasão e escrutínio de uma entrevista televisiva e a sua seca e amarga reação a ver fotos das suas amigas de adolescência. Esta personagem poderia facilmente ter sido reduzida a um simples arquétipo de uma vítima traumatizada, mas Larson confere a Joy uma interioridade e agência pessoal impossíveis de ignorar, ajudando a elevar o seu filme como um delicado e humano retrato de inconcebível trauma.




2. Charlotte Rampling em 45 Years


Para quem conheça a filmografia de Charlotte Rampling, nomeadamente Sous le sable de François Ozon, o modo como a atriz constrói toda existência de um ser humano numa coleção de subtis detalhes como um olhar, ou o movimento das suas mãos, não será uma surpresa. Eu já conhecia esses filmes passados e não fiquei surpreendido com a genialidade da atriz em 45 Years, mas, mesmo assim, nada me preparava para quão emocionalmente avassalador seria o seu trabalho neste filme de Andrew Haigh. Nesta narrativa, Rampling interpreta Kate Mercer, uma mulher que, na semana em que vai celebrar 45 anos de casamento, vê a sua realidade estabilidade matrimonial serem ameaçadas pela descoberta do cadáver congelado da mulher pela qual o seu marido estava apaixonado antes desta desaparecer e ele conhecer Kate. Como consequência deste rígido posicionamento do filme como um estudo de uma relação de várias décadas sob a ameaça de emoções que há muito se julgavam esquecidas, toda a obra se desenvolve a partir de longas cenas em que Rampling e Tom Courtenay são convidados a telegrafar para a audiência, tanto a crise presente como todos os anos de casamento que os antecederam. Há um grande conforto na coexistência dos dois atores em cena, um equilíbrio invulgar que nunca parece forçado mas que se vai tornando cada vez mais tenso com o passar da narrativa. Courtnenay vai-se tornando cada vez mais reticente, como que perdido na insularidade da sua perda, enquanto Rampling vai passando por um turbilhão de emoções, expressas de modo sublime e subtil, com um pânico assustador a contaminar as suas interações com o seu marido, e depois a dúvida, alguma raiva, confusão, e finalmente um desespero vazio. Dois momentos são de particular destaque. O primeiro é uma cena passada no sótão na companhia de um projetor de slides, em que a face de Rampling lentamente se vai desmoronando numa expressão de completa perda quando confrontada com a felicidade passada do seu marido com essa outra mulher. A segunda é um momento igualmente desprovido de palavras, quando Kate e seu marido dançam durante a celebração do seu longo casamento. A evolução da linguagem corporal dos dois protagonistas é um dos pontos fortes de 45 Years, mas nestes derradeiros momentos, com um brusco movimento da sua mão, Rampling estilhaça qualquer ilusão a que a audiência, ou a própria personagem, se estivessem a agarrar. Depois desta crise nada vai voltar a ser o que era. Um trabalho complicado e simples e explosivamente genial, onde podemos observar uma veterana do cinema a alcançar aquele que é, possivelmente, o píncaro das suas capacidades enquanto artista.




1. Cate Blanchett em Carol


Da minha análise de Carol, publicada na MagazineHD:

“Como Carol Aird, Cate Blanchett chegou ao que é, possivelmente, a máxima apoteose da sua carreira. A teatralidade glamourosa da atriz chega a níveis deliciosamente barrocos em Carol, tornando a personagem numa criatura inseparável da época em que se encontra, os seus maneirismos e a sua postura uma sintetização formidável da estilização das estrelas que iluminavam os cinemas na era dos grandes estúdios. No entanto, a acrescentar a esta criação de elegância personificada, Blanchett destemidamente injeta momentos de vulnerabilidade perfeitamente modulada, não descurando, contudo, nos aspetos mais desconfortáveis da sua personagem, como a sua predatória procura pela satisfação dos seus desejos ou sua altivez e ocasional arrogância. A sua presença ilumina e aquece a atmosfera invernal de Carol e nos seus olhares para a Therese de Rooney Mara, existe uma fogosidade inegável.”

Eu sempre admirei o trabalho de Cate Blanchett enquanto atriz, mas também desde cedo que me apercebi que na maioria das suas prestações havia sempre alguma considerável dose de grandiosa teatralidade. Por vezes isso é usado para o benefício da atriz e dos filmes em que ela se insere, mas em muitas ocasiões a sua presença consegue quase ser sufocante, como que exigindo que a audiência se esqueça do resto do filme e simplesmente a observem pasmados com a sua magnificência e virtuosismo. Em Carol, contudo, Blanchett encontrou a perfeita oportunidade para dar asas a esse seu cataclísmico magnetismo e tendência a atuação estilizada. Dirigida por Todd Haynes, Blanchett consegue alcançar um pequeno milagre de caracterização multifacetada. Carol Aird é um objeto de desejo e glamour, mas também é a estrela altiva do seu próprio melodrama pessoal, uma visão dos teatros sociais de outras épocas, uma vulnerável mulher a apaixonar-se por uma jovem, uma desesperada mãe em crise emocional e uma elegante predadora em busca de prazer e felicidade num mundo que lhe quer negar isso mesmo. Este é o culminar de uma carreira luminosa e, para mim, Cate Blanchett merece este Óscar pelo simples facto que com o seu proferir das palavras “I love you” numa das cenas climáticas de Carol, ela já me fez chorar mais que em todo o ano cinematográfico. E eu já vi este filme múltiplas vezes. Todos façam uma vénia, pois temos aqui uma rainha do cinema em toda a sua glória!



PREVISÕES E DESEJOS:

Quem vai ganhar: Brie Larson

Quem eu quero que ganhe: Charlotte Rampling

Quem merece ganhar: Cate Blanchett



5 escolhas alternativas que a Academia ignorou*:
  • Emily Blunt em Sicario
  • Laia Costa em Victoria
  • Marion Cotillard em Macbeth
  • Rooney Mara em Carol (foi nomeada na categoria errada)
  • Bel Powley em The Diary of a Teenage Girl



*Esta seleção pessoal tem por base a lista de elegibilidade da Academia e não a generalidade de 2015 enquanto ano cinematográfico.


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