terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

AMERICAN SNIPER (2014) de Clint Eastwood




 Antes de dizer o que quer que seja sobre este filme, há dois pequenos detalhes que deveria apontar. Eu tenho um admitido desagrado com a maior parte da obra de Clint Eastwood e olho sempre para o seu estilo classicista mas estranhamente relaxado apesar da sua sufocante seriedade, como um dos mais intragáveis trabalhos atribuídos a um realizador por muitos considerado uma lenda viva e “um dos grandes”. Segundo, antes de ver o filme, um dos meus maiores receios em relação a esta obra seria a flagrante exaltação patriótica e jingoísta que o tema e a ideologia política do realizador pareciam querer indicar. Por um lado o filme confirmou estes receios, por outro, o filme mostrou um lado um pouco surpreendente no modo de abordar esta temática pela parte do realizador veterano.

 O filme aborda a vida de Chris Kyle (Bradley Cooper), um membro dos Navy SEALS americanos, um sniper, e um veterano de guerra que acabou por encontrar a sua morte nas mãos de outro veterano traumatizado pela sua experiência nesses mesmos conflitos bélicos que elevam este tipo de homens ao estatuto de heróis da sua pátria. E há que apontar que a pátria é um elemento importantíssimo neste filme que tem como protagonista um admitido patriota, cujo patriotismo cego é algo que me colocou logo numa posição de falta de confiança para com a abordagem do filme dos seus temas.

  Mas é realmente nessa abordagem que Eastwood consegue alcançar algo de uma certa surpresa, mostrando o patriotismo bidimensional e cego de Kyle, assim como as suas crenças em que a violência e o homicídio são justificados para a proteção da sua pátria, sem fazer particulares julgamentos, positivos ou negativos. Aliás, para além de uma certa exploração do seu trauma e das marcas que a guerra deixa na psicologia danificada de Kyle, Eastwood mantém-se um pouco afastado da mente e da subjetividade do seu protagonista, observando o seu comportamento mais do que avaliando-o de um modo significativo. O argumento, por exemplo, mostra o modo como essa ideologia de justificação sistemática de violência terá origem na infância de Kyle, no seu pai em particular, mas quase que se reduz a mostrar esta influência paterna, deixando principalmente à audiência o juízo moral e ético que seria de esperar estarem presentes na execução do filme da parte de Eastwood.

 Mas, por muito defensível que seja a objetividade aparente de Eastwood existe, especialmente devido ao argumento e à estrutura do filme, uma grande defesa, ou mesmo glorificação de Kyle e da sua posição como um sniper, elevando, especialmente nos seus últimos momentos, Kyle a um mártir de uma guerra, um herói destruído pelo mal do mundo. Os momentos finais entre Kyle e a sua mulher, Taya (Sienna Miller), e os seus filhos, são particularmente notórios no modo como flagrantemente santificam este carneiro antes de este ser sacrificado num momento off screen, de que apenas temos conhecimento devido ao texto que aparece no ecrã, um apontamento textual que parece marcar presença em todos os filmes de cariz biográfico ultimamente.

 Outros momentos do filme, em contraposição a essa glorificação, parecem propor um ponto de vista nunca completamente explorado pelo realizador. Veja-se o modo como, numa sequência inicial, o filme passa do assassinato de uma mulher e de uma criança, dois bombistas, por Kyle, para uma cena de Kyle, em criança, a caçar com o seu pai, contrapondo o soldado que mata pela pátria, a um caçador que mata por prazer, ou ainda mais longe, contrapondo e comparando o modo como Kyle mata seres humanos com o modo como este mata animais. Isto acaba por não ter grande seguimento pois, como já disse, mais do que interessado em explorar os labirintos morais e éticos da figura de Chris Kyle, Eastwood parece mais empenhado em apresentar a sua figura, a sua persona, a sua vida, neste filme, observando-o sem grandes complexidades ou juízos.

 Por vezes, existem momentos que denunciam um pouco de jingoísmo que deixa um péssimo gosto na boca do espetador, como o modo como as vítimas e ataques terroristas são sempre mencionados especificamente como americanos e o próprio modo como o filme parece sempre tão pouco interessado em explorar o dito inimigo, reduzindo-o a uma ameaça monstruosa e indefinida assim como inumana e impessoal. Isto apenas corrobora essa falta de complexidade temática que já mencionei, essa redutividade apresentada pelo guião que, para ser sincero, não poderia ser mais banal na sua estruturação ou no modo de organizar e contar os momentos da vida de Kyle, focando-se grandemente na sua relação com a mulher, em grande parte para poder explorar, mais à frente no filme, o trauma de Kyle sentido já na segurança da sua pátria.

 O estilo de Eastwood, continua bastante simplista, prendendo-se a uma eficiência banal e a uma seriedade austera e, por vezes, sufocante. A única coisa a realmente apontar de interessante na conceção visual do filme é a sua fotografia que, apesar de arenosa e pouco colorida, não apresenta a dessaturação cromática que parece empestar todos os últimos filmes deste realizador, e que parecem sempre denunciar um realizador apreciador de uma seriedade e austeridade visual com um ódio à cor e que talvez estivesse melhor a realizar filmes em preto-e-branco, sendo que o desastre Jersey Boys é talvez o mais indefensível exemplo dessa estética de Eastwood. A montagem e o trabalho de som também são eficazes, mas nada de avassalador ou, francamente, merecedor dos laureais que tem estado a receber nesta temporada de prémios cinematográficos.

 No centro de tudo isto encontra-se a performance de Bradley Cooper, por este papel nomeado para um Óscar da Academia, e que é perfeitamente eficiente na sua representação de um homem simples, com códigos morais e éticos simples, inserindo a complexidade e expressividade necessárias em momentos chave do filme, sem oferecer a Eastwood nenhuma interpretação explosiva ou demasiado distrativa. Eastwood parece querer simplesmente observar Kyle, e Cooper parece estar perfeitamente em sintonia com esse registo, talvez um pouco pobre em criatividade. Miller também se revela como uma escolha sólida, se bem que o modo como o papel é escrito não lhe confere grande complexidade psicológica, mas, tal como Cooper, ela cumpre o seu papel no filme com a eficiência precisa para o funcionamento básico do filme.

 Com tudo isto dito, apesar de surpreendentemente seco e objetivo, o filme acaba sempre por revelar uma ideologia um tanto ou quanto jingoísta, e os momentos finais do filme trazem mais uma glorificação heroica do protagonista que um grito de protesto em relação aos horrores da guerra, cujo impacto, na perspetiva deste filme, é apenas importante na medida em que afeta irreparavelmente os heróis americanos, esses soldados patriotas que sofrem e morrem pela sua pátria, algo aparentemente inquestionável e necessário para a ordem do mundo. Não vou fazer mais juízos, tenho medo que as minhas próprias ideologias políticas influenciem em demasia a minha opinião deste filme, cujo estilo, independentemente de qualquer mensagem politica, me deixa muito a desejar como básico e funcional cinema americano.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

BIRDMAN: OR (THE UNEXPECTED VIRTUE OF IGNORANCE) (2014) de Alejandro González Iñárritu




 Depois de obras tão empenhadas num registo de miserabilismo inescapável como Biutiful e Babel, é estranho olhar para esta nova obra de Alejandro Iñarritu e encontrar uma fantástica comédia de um delicioso humor negro e desenvolvida à volta da figura meta-textual de um ator, antiga estrela de cinema de super-heróis, interpretada por Michael Keaton, ator principalmente conhecido pelo seu papel de Batman.

 Riggan (Michael Keaton) é esta figura, este ator, cuja psicologia informa toda a linguagem estilística do filme, que se vai desenrolando naquilo que superficialmente parece um longo plano em constante movimento de duas horas, que extingue quaisquer barreiras temporais e narrativas no seu orgástico trabalho de câmara. Assombrado pelo seu sucesso passado, personificado principalmente por uma voz mental da sua personagem mais famosa, Birdman, Riggan tenta encenar, escrever e atuar num espetáculo na Broadway, tentando recuperar prestígio, respeito e admiração, que há muito não encontra. Este é um filme que se entrega então, a uma exploração de uma desesperada personagem, fixada numa busca por aprovação e validação exterior, assim como de si próprio, e que parece sempre completamente perdido nos seus devaneios mentais e inseguranças, tornados realidade visual na concretização plástica do filme.

 Ao mesmo tempo que o filme se desenrola em torno de Riggan, podemos observar uma exploração humorística e estranhamente melancólica do mundo do teatro americano, da natureza do ator de teatro, de cinema e do ator celebridade, vemos uma crítica selvática e um pouco desajeitada à figura do crítico, e observamos também um elenco de personagens bizarras, humanas, fascinantes mesmo quando envoltas no cliché e na caricatura.

 É difícil encontrar filmes de tão grande ambição como este filme, a níveis temáticos e técnicos, assim como visuais e performativos, mas há que apontar alguns poucos problemas de que o filme padece, na minha opinião, antes de me aventurar mais pela glória com que o filme explode da tela de cinema. Para começar, penso haver algumas limitações temáticas no guião, especialmente na sua exploração da figura do ator, que por vezes cai na caricatura como na personagem de Mike (Edward Norton), um ator prima-dona adorado pela crítica e que, apesar de uma personalidade abrasiva, manienta e cheia de pretensiosismos ridículos, parece procurar uma intensidade e realidade em palco em tudo contraditórios à caricatura que apresenta na vida real, assim como a crítica vilanesca Tabitha (Lindsay Duncan) que assombra o filme com o seu ódio pela ideia de uma celebridade de Hollywood tentar entrar no mundo do teatro da Broadway, sem falar noutras figuras que recheiam o filme…

 Também há um enorme e flagrante problema estrutural no filme que revela as limitações e contradições do estilo e do guião do filme. Resumidamente falando, este é um filme que está completamente dependente do ponto de vista do seu protagonista, sendo que todo o estilo de filmagem do filme parece ser um prolongamento dessa psicologia ferida no seu centro. Essa prisão ao ponto de vista é essencial para o filme que, no entanto, parece perder-se em enredos secundários com outras personagens que parecem trair a história sobre a qual, principalmente no final, o filme se desenvolve. O facto de não haver cortes explícitos na montagem da maioria do filme, apenas exacerba mais estes problemas na conceção do filme e no seu abandono do olhar de Riggan. Mas isto não é apenas uma fonte de problemas, visto que alguns dos mais belos momentos do filme só são possibilitados por estas fugas da perspetiva do protagonista, nomeadamente as cenas partilhadas entre Mike e Sam (Emma Stone), a filha de Riggan, recentemente saída de uma clinica de reabilitação e presente assistente pessoal do pai. As cenas que os dois partilham, quebram e dissecam muito do absurdismo que as suas caracterizações no resto do filme, por vezes, denunciam, conferindo uma grande profundidade temática e maturidade psicológica ao filme. Algo que, por exemplo, parece faltar à personagem de Tabitha que parece querer simbolizar todos os críticos e que se parece revelar um monstro bidimensional e ridículo, apesar do maravilhoso trabalho de Duncan, especialmente numa cena em que a crítica é confrontada com um vil e venenoso discurso de Riggan, cujo desespero se parece aqui converter em ataques vitriólicos aos críticos de teatro.

 Mas, apesar disto, o filme é na sua generalidade um triunfo cinemático apoiado num glorioso trabalho da sua equipa desde Keaton a todos os aspetos técnicos do filme.

Este ator de quem não esperava muito, tenho de admitir, expõe-se aqui nesta personagem de óbvias semelhanças ao próprio ator, numa crueza e expressividade que são impossíveis de ignorar. Por muito indulgente que o filme possa parecer para com a sua personagem, Keaton é aqui uma revelação, sendo particularmente impressionante na sua expressividade facial apenas acentuada pelo modo quase predatório como a câmara, por vezes o filma. Emma Stone é também surpreendente, arrasando todos os seus “grandes” momentos com uma mistura curiosa de raiva quase adolescente e petulante com uma inocência inesperada. O modo como a expressão da atriz muda depois de um zangado discurso da personagem ao seu pai, é algo sublime, assim como a maturidade que Stone consegue revelar nas cenas partilhadas com Edward Norton no terraço do teatro.

 Norton também é de louvar no modo como encontra a comédia absurda no seu retrato caricaturado de um ator pretensioso e com quem parece ser um pesadelo trabalhar, encontrando um lado genuíno no seu comportamento em momentos específicos como os seus interlúdios com Stone, iluminando com uma nova luz no irritante e pretensioso registo que acompanha a maior parte das suas cenas e sequências.

 Em papéis mais pequenos, Andrea Riseborough, Amy Ryan e Lindsay Duncan são breves delícias neste filme, sendo que Duncan é de particular valor, retirando alguma da bidimensionalidade agressiva da personagem da crítica de teatro. E, há ainda que mencionar, Naomi Watts naquela que é talvez a sua melhor prestação desde The Painted Veil, sendo que numa cena partilhada com Keaton no camarim de Riggan, a atriz mostra uma complexidade que até aí a sua personagem não parecia ter, dando luz a uma narrativa pessoal paralela, e lembrando que fora da insularidade de Riggan, existem outras pessoas e outras vidas, para com as quais o ator parece muitas vezes indiferente, focando-se em si mesmo e no seu turbilhão emocional.

 A fotografia de Emanuel Lubezki é de particular relevância. Aqui este génio mexicano perde um dos seus principais fatores de sucesso, a luz natural, mas ganha uma expressividade fantástica nas luminosidades coloridas e artificiais que povoam este mundo teatral, sendo que até uma loja de bebidas alcoólicas parece existir num registo visual semelhante a um espetáculo psicadélico e exuberante. Mas mesmo com a luz posta de parte, temos o movimento da câmara, incessante e maravilhoso, que ganha principal genialidade no seu movimento tridimensional nos momentos em que explora as mudanças de cena dentro do espetáculo dentro do filme, misturando o artifício flagrante das técnicas de palco com o movimento puramente cinemático de uma câmara de cinema.

 Essa junção de dois mundos é, talvez, o mais interessante componente do filme, que apesar de algumas cenas e diálogos, não parece criar grandes juízes de valor em relação a estas duas artes. O interesse do filme parece focado, como já disse, em explorar a personagem de Riggan quase que se assemelhando mais a um stream of consciousness que a um tradicional guião de exploração de personagem e isso retira algum do mau sabor que cenas como o já mencionado discurso enraivecido de Riggan a Tabitha podem deixar num espetador, sendo que estamos bastante entrincheirados na perspetiva insegura e enraivecida de Riggan.

 Talvez não seja, para mim, a obra perfeita que outros parecem declarar este filme, mas como um estudo de personagem, com admitidas limitações temáticas e textuais, e uma experiência de incrível ambição técnica e formal, Birdman é um triunfo.

 Tal como Stone na luminosa imagem final do filme, nós, como membros da audiência, podemos apenas olhar para esta obra a voar sobre as nossas cabeças num esplendoroso voo de glória e ambição. Sangue, suor e lágrimas podem ser aqui derramadas mas, longe de ser uma criação elitista ou alienante, o filme revela-se como uma das mais excitantes experiências cinemáticas que o cinema contemporâneo americano tem para oferecer, nem que seja de uma perspectiva puramente técnica.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

THE IMITATION GAME (2014) de Morten Tyldum





“Sometimes it is the people who no one imagines anything of who do the things that no one can imagine.”



 Há que dizer, antes de se falar de mais alguma coisa neste filme, que a fala que é persistentemente repetida ao longo do filme por diferentes personagens e que é tão proeminente nas campanhas publicitárias do filme, é uma das mais horrendas falas que ouvi nos últimos anos. Cada vez que as palavras saíam da boca de uma das personagens eu desejava que me caíssem os ouvidos, tamanha era a atrocidade. Nenhum ator, por muito prodigioso que seja, consegue vender esse horror linguístico, nem mesmo Keira Knightley. Esta minha insistência poderá parecer um pouco despropositada, mas há já bastante tempo que nenhuma fala individual me conseguia irritar tanto, expondo-se como uma ferida pulsante no centro de um guião problemático, apenas sublinhando todos os problemas do filme no seu cariz emocional e inspirador forçado e verbalização desajeitada e cliché.

Nem a mais engenhosa das estruturas conseguiria salvar um filme com tamanha insistência num tão grande desastre verbal, e The Imitation Game é, como seria de esperar, o desastre que essa fala parece pressagiar, mas não o desastre que eu esperava. O filme, tal como Unbroken de Angelina Jolie, parece querer explorar uma personagem histórica a partir de uma estruturação à volta de flashbacks, mas neste caso é acrescentado também o flashforward, criando uma estrutura biográfica cliché e cansativa, em que não parecem existir quaisquer ideias interessante ou elucidativas acerca dessa figura fascinante que foi Alan Turing (Benedict Cumberbatch).

 O filme desenvolve-se à volta de Turing, nomeadamente dos seus esforços durante o auge da Segunda Guerra Mundial para quebrar o código alemão Enigma, o que passou pela construção de uma máquina, ainda hoje olhada como um precedente para a tecnologia que viria a dar origem aos computadores modernos. Este génio britânico era, apesar dos seus feitos na guerra, um homem de segredos e cuja glória e heroísmo na guerra nunca foram realmente celebrados durante a sua vida, quer seja pelo secretismo da missão em que isto foi desenvolvido, quer seja pelos segredos do próprio Turing que era homossexual e que nos últimos anos da sua vida terá sofrido uma perseguição judicial que levou a uma castração química ordenada pelo estado e ao subsequente suicídio daquele que deveria ter sido um dos mais celebrados heróis da Segunda Guerra Mundial.

 Para além de representar os anos de guerra e o envolvimento de Turing, o filme também nos expõe a juventude do génio e o seu relacionamento, em rapaz, com Christopher (Jack Bannon), um amigo próximo e colega de escola, assim como os anos que antecederam a sua morte, nomeadamente a investigação policial que desvendou o segredo da sua sexualidade e desencadeou os eventos que levaram à sua morte.

 Tal como é apresentado pelo filme, Turing teria sido um homem com fortes problemas de cariz social e até psicológico, cheio de maneirismos e trejeitos extremamente marcados e uma mente literal e de uma lógica fria e inteligência alienante. Cumberbatch parece simplesmente interpretá-lo como uma variação do seu mais famoso papel de Sherlock Holmes, substituindo algum do seu carisma da série de TV, com uma falta de graça e de delicadeza social, que nada fazem para tornar Turing na figura complexa que o guião parece sugerir. Ele até consegue ter momentos de brilhante interpretação, nomeadamente as suas cenas com Knightley no papel de Joan Clarke, o único membro feminino da equipa que descodificou Enigma e a momentânea noiva de Turing, cujo trabalho tudo faz para elevar o filme. O caráter mais humorístico destas cenas funciona perfeitamente com os dois atores, sendo que Cumberbatch brilha especialmente quando lhe é permitida uma certa leveza na interpretação e não tanto o desespero trágico indicado para os seus momentos finais, que o filme parece castrar de qualquer intensidade pelo modo como trata a sexualidade de Turing.

 Ao contrário do que muita da discussão online parece sugerir, o que o filme necessitava em termos de representação da sexualidade de Turing, não seria decerto uma cena de sexo explícito, mas sim uma certa franqueza e honestidade no tratamento do tema. Turing parece, francamente, uma figura quase assexual tal como á apresentada pelo filme, o que faz com que partes do guião pareçam particularmente estranhas, como o facto de Turing acabar por chamar a atenção da polícia a partir do seu relacionamento com um prostituto que o filme nunca mostra. O modo como o filme aborda a tragédia de Turing assemelha-se ao modo de como muitos filmes de guerra mostram a violência, algo importante e indispensável para o filme, cuja menção e discussão devem ser evitados a não ser em momentos cruciais e cuja abordagem tem de ser o mais segura e redutiva possível de modo a não alienar ninguém na audiência. Até metade do filme, o guião parece esconder a sexualidade de Turing, trazendo-a à conversa no modo mais desajeitado possível. Para um homem que tanto sofreu devido à sua sexualidade, este tipo de tratamento num filme biográfico é um maior insulto que qualquer outro problema deste filme que não é pobre em problemas, há que se apontar.

 Sendo um desses problemas a clara falta de compreensão que o filme tem pela máquina de Turing, cujo funcionamento parece quase mágico, pelo menos do modo como o filme apresenta o seu desenvolvimento. Temos ainda o problema estrutural que o filme cria, estando todo o seu melhor material, sem contar com um diálogo tardio entre Turing e Clarke, na secção do filme situada durante a Guerra. Problemas de tom também são abundantes num filme que não parece saber gerir a leveza cómica de algumas cenas com a tragédia pesada e prestigiosa de outras. Junte-se a isto uma pletora de más escolhas narrativas como a inclusão de um espião soviético fictício e temos um filme extremamente problemático com uma conceção formal completamente banal, sendo que apenas a música surpreendentemente eficaz de Alexandre Desplat e os engenhosos figurinos de Sammy Sheldon, particularmente eficazes na criação de várias e díspares posturas e silhuetas masculinas.

 Para além de Cumberbatch, o elenco apresenta apenas duas interpretações de grande relevância. Matthew Goode, que aproveita o seu usual charme carisma de estrela de cinema neste filme para bons, se bem que expectáveis efeitos, e Keira Knightley, que se eleva acima de todo o filme, dominando completamente as mudanças de tom do filme sem danificar a sua caracterização de Clarke, e cuja presença é uma constante brisa de ar fresco neste drama britânico que, sinceramente, não conseguiria ser mais banal na sua execução se proactivamente tentasse fazer isso mesmo.

 O filme apresenta ocasionalmente momentos inteligentes ou pelo menos de bom entretenimento, como cenas num pub em que os jogos de namoros e flirts numa sociedade heteronormativa parecem ser particularmente satirizados sob o olhar neutro de Turing, ou os diálogos entre Turing e Clarke, sendo que a expressão facial de Knightley quando Turing lhe propõe casamento vale todo o filme que a acompanha. No entanto, com estes momentos, vêm também uma infinidade de escolhas terríveis e cenas que apresentam uma clara falta de gosto ou bom julgamento da parte dos criativos do filme, como uns ridiculamente inapropriados piscar de olhos à audiência que envolvem maçãs e arsénico.

 Um filme banal, uma biografia inspiradora e de resultados expectáveis e aborrecidos. Tudo isto é uma inevitabilidade nesta altura do ano em que os cinemas parecem de repente se encher de filmes semelhantes a este, cuja sede de troféus e prémios, assim como a sua necessidade de serem validados como importantes obras de grande prestígio, parecem erradicar qualquer originalidade que neles pudesse existir.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

THE THEORY OF EVERYTHING (2014) de James Marsh



 Ao contrário de muitos filmes biográficos, esta nova obra de James March não é focada na vida inteira de uma personalidade famosa, ao invés disto, The Theory of Everything foca-se num aspeto da vida do seu protagonista, ou talvez seja mais correto dizer dos seus protagonistas pois este é um filme sobre um casamento, sobre uma relação e dos seus contratempos, do seu fracasso, e da sua deterioração progressiva. Stephen Hawking (Eddie Redmayne) poderá ser a mais famosa figura neste filme, mas a sua mulher, Jane (Felicity Jones), recebe relevo semelhante ao do celebrado génio. É certo que o filme acaba por, ocasionalmente, descambar no já bastante caminhado terreno temático comum a tantos outros biopics, mas o modo como este filme nos expõe a este casamento mostra uma surpreendente maturidade para além de uma visão interessantemente inesperada, tendo em conta a banalidade na execução de grande parte do filme.

 O filme observa a relação de Stephen e Jane Hawking desde o seu primeiro encontro até ao seu divórcio, tendo uma espécie de epílogo numa visita à casa Real em que o prodigioso génio terá sido acompanhado pela sua primeira mulher. Para além disto, o filme é uma representação dramática do deterioramento físico sofrido por Stephen vítima de esclerose lateral amiotrófica (ELA), e o modo como isto afetou o casamento dos dois protagonistas. O filme é curiosamente maturo no modo como explora a evolução da sua relação, sendo especialmente interessante e refrescante no modo como não oferece grandes juízos de valor no comportamento dos dois, que acabam por encontrar conforto noutros indivíduos fora do seu casamento, Jonathan (Charlie Cox) e Elaine (Maxine Peake), com quem Jane e Stephen acabariam por casar respetivamente.

 Há, sem dúvida, quem se manifeste contra esta noção de imparcialidade da parte do filme, sendo que já li vários textos que apontam para um certo desrespeito para com a figura de Jane e para uma demasiada glorificação de Stephen. No entanto, eu não concordo com estas visões, no máximo eu apontaria para uma certa falta de complexidade, para uma certa simplificação, na concretização dos dois protagonistas. Este pode ser um filme com uma surpreendente maturidade e inteligência, mas continua a padecer de muitos dos problemas usuais neste tipo de filme, especialmente no que diz respeito a uma escrita bastante simplista e bidimensional de personalidades complexas na vida real, não pense nenhum leitor que me deixei cegar pelo mar de mediocridade no panorama do cinema biográfico.

 Neste tipo de filme o trabalho do realizador não costuma ser particularmente notório, a não ser na sua banalidade, basta olharmos para alguns dos variados exemplos que marcaram o passado ano de cinema anglófono, especialmente os filmes que acabam por se tornar filmes de prestígio e candidatos ao Óscar como acabou por ser o caso deste filme com as suas variadas nomeações. Chamo a atenção a isto pois neste caso o estilo do realizador é bem presente, para grande detrimento do filme que é filmado por Marsh num registo para si familiar. O filme é-nos apresentado sob uma névoa de romantismo cinemático bastante flagrantes na banda-sonora assim como, principalmente, na fotografia do filme, típica de Marsh, em que tudo parece brilhar com uma luminosidade conferida pela sobre exposição da imagem. Para além disso o filme utiliza bastante manipulação de cor, conferindo-lhe uma estética bastante artificial, bastante polida e genericamente atraente, o que em certos momentos se torna bastante estranho e contraintuitivo para com o enredo e o comportamento dos seus protagonistas, Vejam-se as cenas de Hawking no hospital, tão luminosas e manipuladas como os primeiros encontros com Jane, a que um brilho romântico e inescapável é conferido pela fotografia.

 Mas o interesse para a maioria da audiência não será certamente a conceção plástica e musical do filme, ou mesmo a maturidade com que este consegue abordar o desenvolvimento do casamento no seu centro, mas sim na história de Hawking, essa celebrada figura famosa a quase todos os que vão ver o filme eu presumo, e no trabalho dos atores. Trabalho este, que tem sido bastante celebrado nesta temporada de galardões dourados, sendo que tanto Redmayne e Jones foram nomeados para os Óscares nas suas respetivas categorias.

 Redmayne é bastante eficaz, especialmente no que diz respeito à deterioração física de Stephen, se bem que nisto ele foi bastante ajudado pela equipa de maquilhagem do filme, especialmente na segunda metade deste. Mas, há que admitir, Redmayne não acrescenta nada de surpreendente à sua interpretação de Hawking, limitando-se a recriar o que é apontado pelo guião, tanto no que diz respeito ao lado físico de Hawking como ao curioso sentido de humor que parece transparecer em Stephen, mesmo na sua imobilidade física. Se bem que é difícil criticar este ator por interpretar um papel escrita de modo óbvio e simplista, de modo um pouco óbvio e simplista.

 Felicity Jones é menos interessante, estando presa a um papel menos desenvolvido que o de Redmayne, e com um péssimo trabalho da equipa de maquilhagem cuja ideia de envelhecimento feminino parece resumir-se a uma peruca de cabelo cinzento. Um grande problema que acabo por ter com a prestação de Jones provém da sua aparente incapacidade de retratar uma mulher a envelhecer, sendo que a não ser no que diz respeito ao seu crescente cansaço com Stephen, Jane nunca parece realmente envelhecer, o peso dos seus anos parece resumir-se ao seu comportamento face ao seu marido e pouco mais. Mesmo assim a atriz oferece grandes momentos quando emparelhada em cena com Redmayne, especialmente nos momentos mais finais do filme, sendo que a cena a seguir à traqueotomia que deixou Stephen sem a capacidade de falar, assim como a cena em que o casamento dos dois finalmente chega a um fim, grandes momentos para os dois atores e para a audiência que observa as suas melancólicas e cansadas caracterizações.

 Não é, claramente, uma obra de génio sem igual, ou mesmo merecedora das honras que tem recebido, mas comparado com muitos dos filmes seus semelhantes, The Theory of Everything acaba por se revelar como um agradável exemplo de filme biográfico. Marsh trabalha um guião limitado com escolhas óbvias e um pouco flagrantes, como o modo como os filhos de Hawking estão sempre a correr ou em constante movimento à volta do seu pai, contrapondo a sua trágica imobilidade, ou uma terrível cena com uma caneta e uma plateia de admiradores. Os atores trabalham de modo eficiente, se bem que praticamente ninguém para além dos protagonistas consegue realmente deixar grande impressão no filme, mesmo Charlie Cox com a sua charmosa presença. Mas é um filme de interessante maturidade, de refrescante foco, não numa vida inteira de glórias, mas num casamento falhado mas mesmo assim fascinante na sua resignação e perseverança ao longo dos anos.

domingo, 25 de janeiro de 2015

INTO THE WOODS (2014) de Rob Marshall



 Trazer obras teatrais para o cinema é sempre algo que traz consigo complicações e problemas de adaptação, e isto é, talvez, muito mais certo, quando olhamos para adaptações de musicais, que, na sua maioria, têm em si uma teatralidade inerente que se estende à sua própria estrutura. Não estou aqui a dizer que musicais são normalmente as mais arrojadas criações teatrais cuja linguagem é difícil de adaptar ao ecrã, mas o facto é, que muitos musicais, nomeadamente este, requerem, pelo seu texto base, o edifício e a estrutura teatral para realmente funcionarem, ou pelo menos os códigos da representação teatral que não se encontram aqui presentes em forma de filme.

 Stephen Sondheim, o ilustre criador de Into the Woods, é um autor particularmente difícil de adaptar, pelo menos pelo que indica os resultados das adaptações que têm sido feitas das suas obras. Há o seu uso de estruturas que se separam em atos distintos, de comédia negra, atores a falar diretamente para a audiência, comentário meta-textual de um narrador presente, números musicais de grupo que não respeitam quaisquer barreiras físicas que o enredo pareça indicar, mas que aproveitam a coletividade permitida pelo palco, etc.

 E acrescente-se a tudo isto, uma intenção satírica, que necessita de um toque leve e cómico e que parece, neste filme, ser quase que completamente devastado por uma seriedade e aura de tragédia melodramática que tanto parecem pertencer ao cinema de prestígio que se abate sobre as salas de cinema nesta altura do ano.

 Esta é uma obra de sátira musical que vai dissecando, explorando e levemente desconstruindo, ou tentando desconstruir, os clichés e fórmulas narrativas dos contos de fadas que tanto ocupam o imaginário infantil do mundo ocidental. O musical une, portanto, Rapunzel (Mackenzie Mauzy), a Cinderella (Anna Kendrick), a Jack (Daniel Huttlestone) com o seu feijoeiro, a capuchinho vermelho (Lilla Crawford), a uma bruxa (Meryl Streep) e até a um casal originalmente criado para esta obra, um padeiro (James Corden) e a sua esposa (Emily Blunt), que, apesar dos seus desejos, não conseguem ter filhos devido a uma maldição lhes imposta pela bruxa, após um roubo do pai do padeiro (Simon Russell Beale).

 Tal como a adaptação de Tim Burton de Sweeney Todd, esta adaptação parece perder a maioria da comédia presente no original. O que se revela particularmente preocupante quando unido a uma sanitização efetuada sobre o texto e que retiram algum do dramatismo e motivações que são essenciais para a segunda metade do musical. Metade esta que, já no texto original se parece revelar como um problemático e prolongado epílogo, e que aqui vai perdendo o rumo e o impacto quando se começa a cortar partes essenciais como a morte de Rapunzel. O reprise de Agony, o número final com todo o elenco, etc. Obtemos assim um filme que trocou o humor negro por drama comum e a violência temática por uma simplicidade fácil e irritantemente constante neste tipo de cinema, que parece tão interessado em audiências como em troféus dourados.

 E o realizador Rob Marshall certamente não ajuda nada com a sua realização, que transforma o filme num seguimento de números musicais completamente inconsistentes em tom e intenção, e que parecem estar sempre a testar as águas e ver até onde é que podem ir em termos de estilização e teatralidade. E esta inconsistência estende-se a quase todos os componentes do filme, especialmente o visual que oscila entre um realismo fantasioso e uma artificialidade flagrante, entre figurinos estilizados do século XVIII e zoot suits cobertos de pelo, entre bosques que parecem, não intencionalmente, revelar a sua falsidade cenográfica, e quartos cobertos de flores e raios de luz que parecem, intencionalmente e maravilhosamente, criados com a intenção de transferir para a fisicalidade tridimensional, a estética normalmente encontrada em versões animadas de contos de fadas.

 Junte-se a isto, um maravilhosamente competente elenco, em que praticamente todos os atores parecem perfeitamente confortáveis no registo musical, e uma banda-sonora que adapta de forma robusta e majestosa as melodias do original de palco, e temos um filme que varia entre a mediocridade aborrecida e o esplendor de cinema de entretenimento que, por vezes, se revela no filme.

 Agony, por exemplo, é um milagre de adaptação do humor satírico das letras de Sondheim, tornando o dueto entre os dois príncipes charmosos, uma competição de poses dramáticas e exaltações heroicas que fazem dos dois homens uma caricatura em movimento de todas essas capas de romances históricos em que vemos heróis românticos com a camisa aberta e ares de herói sofredor. O prólogo, também se revela como um triunfo do cinema musical, trazendo a difícil estruturação de Sondheim diretamente para o cinema, a partir de um soberbo elenco e de uma encenação surpreendentemente boa, da parte de Marshall, que nunca me impressionou muito, apesar do seu atual estatuto como o realizador de escolha para as adaptações musicais de Hollywood.

 Por outro lado, temos, por exemplo, Witch’s Lament que devido a cortes, adaptações narrativas e uma filmagem desinspirada, retira qualquer impacto que o número pudesse ter e, sinceramente, qualquer consistência à maioritariamente energética interpretação de Meryl Streep. Ou It Takes Two, filmado de modo estranho e errático e que parece desrespeitar quaisquer normas de montagem, e que confere ao cenário, a partir de uma incrivelmente mal escolhida iluminação, uma artificialidade quase risória, apesar de parecer querer insistir num realismo inapropriado no modo de filmar a cena. Até o devaneio visual em flashback que ocorre em I Know Things Now, salienta a inconsistência do filme, especialmente em termos de registo estilo.

 Um filme estilisticamente anárquico, indisciplinado e desenxabido, que apesar de tudo isto chega a grandes momentos e números musicais, principalmente devido ao elenco, o que não pode deixar de me desapontar, quando a equipa técnica inclui nomes como Dion Beebe e Colleen Atwood. Anna Kendrick como Cinderella e Chris Pine como o seu príncipe, são particularmente eficientes e prodigiosos na sua interpretação e modulação de estilo e registo, trazendo as suas personagens de contos de fada a uma modernidade satírica, tudo isto não sacrificando o seu impacto dramático, que existe, apesar do modo como estas personagens são intencionalmente arquétipos e superficialmente bidimensionais numa inicial inspeção. O resto do elenco também é bom, sendo que Daniel Huttlestone me surpreendeu com a maturidade com que interpretou Jack, sem esquecer a imaturidade inerente à juventude impetuosa do rapaz. Sreep, que é quem tem recebido maior admiração e respeito da crítica, também é bastante dinâmica na sua interpretação, trazendo uma estilização bem-vinda ao papel da bruxa, não deixando de imbuir os seus números musicais com a tristeza, raiva e energia necessárias para a sua bruxa, tudo isto com uma fantástica rendição das canções que apenas me traz tristeza quando penso nas poucas ocasiões em que esta atriz realmente aproveitou os seus talentos vocais.

 Apesar dos meus problemas com o filme, tenho que dizer que foi uma experiência agradável de cinema, é ao fim ao cabo, uma peça de entretenimento mais do que uma sátira musical, pelo menos nesta interpretação cinemática com aspirações a prestígio e a estatuetas de um careca despido e banhada em oiro.


sábado, 17 de janeiro de 2015

INTERSTELLAR (2014) de Christopher Nolan



 Haverá poucos realizadores no panorama do cinema contemporâneo que detenham tão grande culto e adoração como Christopher Nolan, pelo menos ao nível de popularidade generalizada com que este autor é presenteado, sempre que entrega mais uma das suas criações aos cinemas e às massas de adoradores que parecem querer sempre defender o seu trabalho, independentemente de qualquer problema que essa obra possa ter. Esta adoração geral é algo que sempre me incomodou na apreciação dos filmes do realizador. Se acreditarmos no que se lê e na opinião geral, este é um dos maiores autores do cinema de sempre e, sem dúvida, o mais importante autor de cinema mainstream contemporâneo, criando filmes cerebrais, negros e complexos, de um modo que poucos conseguiram alcançar, Acho que é fácil perceber, pelo tom das minhas palavras, que eu não partilho essa opinião geral, e que não sou, aliás, grande fã de Nolan.

 Apesar dessa falta de adoração quase religiosa da minha parte, é difícil não admirar a ambição técnica e temática desta última obra do realizador. Certamente não vou declarar este filme uma obra-prima, mas acho que existe imenso a admirar em Interstellar, sem esquecer, no entanto, que o filme está longe da perfeição e que, pelo menos na minha opinião, padece de muitos dos problemas que afetam as obras passadas de Nolan.

 O filme foca-se num antigo piloto da NASA, Cooper (Matthew McConaughey), a viver com os seus dois filhos num futuro em que a Terra parece estar a morrer. Todos vivem numa existência de miséria assente numa precária economia agrícola em que as colheitas vão morrendo, sendo que, a única que ainda resiste nesse planeta moribundo, é o milho. Este é um mundo que desistiu, e que apenas tenta sobreviver face à abjeta destruição da humanidade. Cooper partilha uma forte relação com a sua filha Murph (Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn), que observa no seu quarto um estranho fenómeno que parece ter origens na manipulação da gravidade. A rapariga chama-lhe o seu fantasma, e um dia, graças a uma tempestade de pó, uma ocorrência comum neste árido planeta coberto de um inescapável resíduo, o antigo piloto encontra as coordenadas que o levam a uma base secreta onde uma equipa da NASA organiza uma missão de busca por um planeta onde a vida humana se possa desenvolver, tendo em conta que os dias do nosso planeta estariam contados.

 Na vaga esperança de salvar o planeta e a humanidade condenada que nele habita, Cooper deixa a sua família na Terra e parte numa perigosa missão de exploração e, caso a hipótese de levar as pessoas do planeta moribundo para essa nova casa, uma missão de colonização e repovoamento. Sempre na esperança de voltar para a sua família, Cooper é acompanhado por uma equipa composta, entre outros, por Brand (Anne Hathaway) uma cientista e exploradora, filha do professor Brand (Michael Caine), que permanece na Terra tentar encontrar uma solução para a transladação da população terrestre para outro planeta e que tem desenvolvido todo o projeto.

 Revelar mais sobre o filme seria um pouco traiçoeiro, para mim grande parte do prazer do filme provém da tensão que Nolan consegue ocasionalmente conjurar. Há que dizer que ocorrem visitas a outros planetas, várias cenas de diálogo e de tensão e uma avalanche de problemas que parecem amaldiçoar tanto a missão espacial como a população na Terra, entre muitos outros elementos do exponencialmente complicado enredo.

 Tal como a maioria dos filme com guião assinado por Christopher Nolan, obtemos aqui um filme cheio de diálogo expositivo, sendo os primeiros e os últimos 20 minutos do filme particularmente infetados com uma necessidade quase patológica de explicar tudo à audiência, por muito repetitivo ou redundante que o filme possa estar a ser. Não se diga nunca que Nolan é um guionista com capacidade de economia dramatúrgica. Isto leva-nos a um guião que explica ora demais ora menos do que deveria, sendo que o suposto realismo científico do filme, apenas traz mais problemas ao filme, criando buracos lógicos e científicos onde não haveria nenhuns se Nolan não estivesse tão empenhado em tudo explicar à sua audiência.

 E não é que o filme seja uma obra de intelectualismo científico ou filosofia complexa e profunda, por muito que a opinião pública queira indicar o contrário. Se há algo revelado neste filme acerca de Nolan é que, longe de ser um realizador cerebral ou intelectual, ele é um celebrado sentimentalista, resumindo um enredo que engloba o destino de toda a humanidade assim como conceitos de tempo e espaço longe de qualquer perceção usual dos mesmos, ao amor de um pai por uma filha e vice-versa. Todo o filme poderia ser resumido dizendo que o amor entre um pai e uma filha transcende tudo, espaço, tempo, tudo. O amor é a mais forte força da Natureza, etc. Longe de filosofias existenciais, não?

 Mas não usarei isso contra Nolan. Sentimentalismo não é necessariamente mau e acho que quando este filme se rende às emoções fortes sublinhadas tanto pelo fantástico trabalho de McConaughey, como de Foy ,como pela bombástica banda-sonora de Hans Zimmer que explode das colunas do cinema e varre audiência num ataque sonoro, vibrando todo o corpo da audiência juntamente com as suas emoções. Isto funciona muito melhor que a ciência e a exposição demasiado enfática. Oxalá todo o filme se mantivesse nesse registo entre a ópera espacial e o melodrama familiar entre galáxias. McConaughey é particularmente soberbo neste papel, sendo uma cena em que este visiona um vídeo após a visita ao primeiro planeta, o claro ponto alto do filme, para mim, quer seja pela absoluta confiança de Nolan no seu ator principal, quer seja pela simplicidade da cena que apenas realça a magistralidade de McConaughey que pode ter ganho um Óscar o ano passado por Dallas Buyers Club, mas que aqui oferece talvez a sua melhor interpretação (se nos esquecermos de Magic Mike é claro).

 O filme é pejado de problemas como a completa falta de necessidade da existência do irmão, falhas de lógica temporal, especialmente na emocionante sequência que marca o clímax do filme entre McConaughey e Chastain, em galáxias e realidades temporais completamente diferentes. E mal comecei, olhe-se para a reunião desenxabida que marca o verdadeiro final do filme e que parece trair as expetativas criadas na audiência, ou os clichés e péssimos diálogos que se espalham como uma doença infeciosa pelo guião. Mas não vale a pena continuar. O filme pode ter imensos defeitos mas não deixa por isso de ser uma experiência inegavelmente arrebatadora.

 Já falei um pouco da parede violenta de som que se abate sobre a audiência, e que levou muitos membros da audiência a expressarem o seu descontentamento internacionalmente, não conseguindo ouvir os diálogos devido ao volume da música. Isso não me afetou muito, sendo que achei isto uma interessante maneira de realmente realçar o foco do filme, as emoções operáticas da tragédia de Cooper em prol de ordem sonora ou coerência formal.

 O visual do filme também é, na generalidade, impossível de criticar com os seus fenomenais efeitos visuais, e com uma maravilhosa fotografia do prodigioso Hoyte van Hoytema, que aqui substitui o usual colaborador de Nolan Wally Pfister, e que faz um trabalho brilhante na criação de imagens cristalinas e cheias de um monumental impacto e beleza pitoresca, apesar da abundância de efeitos digitais na criação do ambiente espacial. Também os cenários são geralmente bons, sendo os planetas bem conseguidos na sua desolação desértica e visualmente estéril. Se bem que tenho grandes dúvidas em relação ao cenário que marca o final do filme e que, do meu ponto de vista, demonstra uma enorme falta de imaginação, criando um espaço para além da compreensão humana como um seguimento geométrico de prateleiras infinitas e fios esticados.

 Os problemas do filme são o que são, mas nada retira ao filme os seus pontos altos em que o filme atinge píncaros pouco usuais nas salas de cinema contemporâneas. Este é um verdadeiro épico, em ambição e execução, se também o é em incoerência e em problemas, que seja, mas não me tirem os momentos de verdadeira emoção e fulgor que este filme me deu e, presumo eu, deu a uma imensidão de pessoas, se nos guiarmos pelos seus ganhos financeiros.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NIGHTCRAWLER (2014) de Dan Gilroy

 Neste dia de anúncio das nomeações aos Óscares, uma das ausências que mais senti foi, sem dúvida, a presença deste filme que, com os recentes prémios de sindicatos e críticos, parecia destinado a variadas menções e que acabou com apenas uma menção na categoria de argumento original. Em sinal de elogio ou lamento, aqui está um texto que escrevi há já algum tempo sobre este filme que, por variadas razões, ainda não tinha tido a oportunidade de publicar.





  Será que existe algo na suposta crítica social e moral, neste primeiro filme de Dan Gilroy, que traga algo de novo ao panorama cinematográfico? Haverá algo de novo ou revelador neste guião? Penso que, a um nível superficial, a crítica implícita no desenvolver do enredo e do filme não sejam da mais surpreendente inovação, sendo mesmo bastante previsíveis e quase que lugares comuns de narrativas cínicas e urbanas. Mas, apesar de tudo isso, não consigo deixar de olhar com admiração e com prazer para este filme, sendo que essa mesma apreciação positiva me acaba por levar a querer encontrar algo mais interessante, talvez mais rebuscado na interpretação deste filme, que parece ser uma, talvez, simples sátira moral, negra e sociopática feita a um mundo e a uns media corrompidos e perdidos numa amoralidade contemporânea.

  O filme desenrola-se à volta de uma amoral figura, Lou Bloom interpretado por um cadavérico Jake Gyllenhaal cujos olhos esbugalhados e protuberantes o assemelham quase a um lagarto noturno, uma figura reptícia mais perto de uma bestialidade que de qualquer impressão de humanidade ou empatia, um monstro bizarro, um sociopata eficiente e que parece ter encontrado na filmagem de crimes e acidentes sangrentos nas ruas de L.A. um negócio de sucesso, um lugar para os seus talentos e habilidades. Existe em toda a sua figura um pragmatismo assustador, especialmente na sua constante declamação de técnicas de motivação e modos de agir num ambiente de trabalho, etc. Esta figura é quem devemos seguir e por quem deveríamos ao mesmo tempo sentir repulsa e um fascínio que nos agarrem ao enredo do filme.

 Lou cai nesta carreira quase que por acaso, e daí irá formar uma relação profissional e perversa na sua vampiresca intensidade com Nina Romina (Rene Russo) encarregada de um noticiário numa das cadeias de televisão de menor sucesso em L.A. Uma figura de inegáveis ligações à personagem de Faye Dunaway em Network, e que tal como a sua antecessora cinematográfica, demonstra uma amoralidade e ausência de escrúpulos que a fazem um assustadoramente eficiente catalisador para a ambição de Lou. Entre os dois, cria-se uma procura pelas mais sangrentas imagens possíveis, mis chocantes e perversas, imagens que atraiam espetadores, sendo questões morais e éticas colocadas de parte nessa procura por audiências. A crítica do guião é abismalmente óbvia, portanto.

 Ao longo do filme observamos Lou avançar na sua carreira, na sua animalesca procura de sucesso económico e social, vemo-lo expandir o seu negócio e contratar Rick (Riz Ahmed) como seu assistente, numa figura que é claramente um cordeiro a ser sacrificado à monstruosidade do protagonista, e até eliminar a sua competição, no que se assemelha a um estudo de personagem. O realizador parece querer, por vezes, explorar mais a sociopatia e a frieza de Bloom do que realizar qualquer manifesto contra os media. A esteticização e composição da violência também parecem manifestar-se no comportamento de Bloom, sendo que o clímax final o eleva a um estatuto de realizador da realidade. Uma posição de enorme perversidade como que um orquestrador da violência e do horror real para a sua câmara.

 Mais não irei dizer sobre o enredo, não querendo revelar todos os desenvolvimentos do filme, mas tenho a dizer que não são muito surpreendentes, sendo que talvez o que mais me surpreendeu foi o modo aparentemente abrupto de como o filme se encerra. Não que não haja uma lógica temática por detrás desse final, mas não deixa de existir um certo aspeto de repentino cessar nessa exploração de Bloom, sendo que os momentos finais e o discurso final do nosso anti-herói nos servem como um reforço perverso de quase todos os temas do filme, especialmente em relação a esse pragmatismo vil que tanto caracteriza a criação de Gyllenhaal.

 E que criação soberba! Se o ator tem mostrado ultimamente a abrangência do seu talento com filmes como Prisoners, End of Watch e Enemy, neste filme demonstra aquela que é talvez a sua maior criação. Em Bloom, Gyllenhaal cria uma figura de ritmos exatos, uma fria máquina de discursos de pragmatismo e eficiência. Um sociopata rigoroso e repugnante, especialmente no seu aspeto com os seus olhos protuberantes, face encovada e cadavérica, cabelo oleoso e figurino simples e obsessivamente exato. Só pela sua fisicalidade e concretização visual, a personagem de Bloom seria um sucesso, mas mesmo a palavra e o modo como Gyllenhaal mostra, em ocasiões, a raiva e repugnância de Bloom para com os seus parceiros de cena, sem quase mexer um único músculo na sua cara gélida e rígida. É um grande trabalho da parte do jovem ator. Um trabalho que só por si, para mim pelo menos, seria uma justificação para a existência do filme. Mas não será ele a única razão, diria ainda mais que não será ele o único dos atores criar uma figura formidável. Rene Russo e Riz Ahmed também apresentam aqui, trabalhos exemplares.

 Russo, trás ao filme uma vulnerabilidade que parece sempre em contraste e confronto com a sua sede sanguinária e o seu lado vampiresco. A relação de Nina com Bloom é algo retorcido e perverso, e uma reviravolta um tanto ou quanto estranha e até um pouco inesperada que se dá numa cena num restaurante entre os dois, deixa em perigo qualquer consistência ou credibilidade da personagem. Nina poderia depois dessa cena ser apenas uma vítima, mas Russo permite que a audiência observe alguém muito mais complexo que uma simples vitima de um sociopata. Quando o filme acaba, já nos apercebemos da qualidade simbiótica na relação entre Bloom e esta mulher, do modo como os dois se alimentam um do outro e da amoralidade de ambos. Apesar de inicialmente olharmos Nina sempre como alguém mais humano e próximo de nós que o protagonista, o seu último diálogo mostra-nos os dois como as criaturas vampirescas que são, apesar de diferentes e com diferentes subtilezas na sua sede por essas imagens violentas.

 Ahmed, no seu papel de inocente cordeiro sacrificial, traz ao filme um naturalismo próximo da perspetiva da audiência completamente distante do jogo de intenções e ambições de Russo e Gyllenhaal. Rick é, sem dúvida, uma vítima da monstruosidade de Bloom, mas para elevar esse papel a algo mais que simples “carne para canhão” narrativo, Ahmed confere a Rick um nervosismo, uma felicidade e alívio quando consegue um trabalho, uma impaciência, uma naturalidade que o tornam o perfeito parceiro de cena para a reptiliana e manienta performance de Gyllenhaal. Numa cena em que Rick tenta negociar com Bloom, Ahmed é particularmente eficaz, colocando sempre uma tensão e nervosismo na cena sem cair no exagero ou estilização neste caso desnecessários.

 Mas não será só trabalho do elenco que eleva o filme. Basta olharmos para o filme para nos apercebermos da sua virtuosidade visual na fotografia digital com que as cenas noturnas foram capturadas, criando um mundo negro mas perfeitamente claro e frio. Quase lembra o trabalho de Michael Mann e o modo como este tão gloriosamente filma a vida noturna de Los Angeles. Também há que louvar a fotografia diurna feita em filme e não num suporte digital, criando uma barreira visual entre as duas facetas da vida de Bloom neste inferno urbano, assim como o trabalho de cenografia e figurinos, que são especialmente eficazes na criação plástica de Bloom, com as suas roupas exatas e simples, e o seu apartamento despido com um rasgo de cor e vida numa planta solitária junto à presença central da televisão.

 Este trabalho exemplar de um ponto de vista plástico, revela aquele que para mim será, um dos, se não o grande tema do filme. Falo da imagem, essa coisa distante e afastada de nós, algo superficial e vazio, algo representativo de uma realidade, que mesmo assim está longe de ser aquilo que expõe e representa. Veja-se a preocupação do filme em criar imagens de Bloom com o seu figurino rigidamente constante, o seu vistoso e um pouco incongruente carro vermelho, o seu olhar estético para a violência, etc. As imagens e o modo como estas nos distanciam da realidade ao nos mostrarem uma representação distante desta parecem ser algo tematicamente constante no filme. Até a própria relação de Bloom e Nina parece até um certo ponto ser uma criação de Bloom de uma relação e de uma imagem que ele quer transmitir de si mesmo, mesmo que a única pessoa a ver essa imagem seja ele mesmo.

 Bloom e Nina, esses vampiros noturnos, são, aliás, os que mais sedentos de imagens do que de sangue, basta olharmos o modo como Bloom parece olhar quase apaticamente para os horrores à sua frente, mas olha para o visor da sua câmara de modo extático e quase enlouquecido. Sei que é uma análise um pouco simplista do filme, mas penso ser mais interessante olhar o filme como uma exploração da distância entre a imagem e a realidade do que como uma mera crítica social de ideias já cansadas e repetidas.

 É, tendo em conta tudo isto, um grande primeiro passo para Dan Gilroy, e um grande passo no desenvolver de Gyllenhaal como ator. Mesmo que se aprecie este filme como um normalíssimo thriller, continuo a achar que existem variadas virtudes e complexidades no mesmo, que farão dele uma obra essencial a qualquer amante de thrillers contemporâneos ou mesmo de cinema americano em geral.