segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

MR. TURNER (2014) de Mike Leigh



 Apesar do que o que alguém poderá deduzir dos outros textos que tenho aqui publicado, eu não tenho um invariável ódio ou aversão por filmes de cariz biográfico. Por vezes existem obras que conseguem realmente capturar algo interessante a partir de uma estrutura biográfica, filmes que retratam uma personalidade e que realmente parecem explorar essa figura utilizando à sua disposição as várias especificidades e possibilidades da arte cinematográfica. A nova obra de Mike Leigh, um dos meus favoritos realizadores a trabalharem atualmente, será um exemplo deste segundo tipo de filme biográfico.

 Em obras anteriores, Leigh terá explorado realidades contemporâneas a partir de um estudado trabalho de ator com um grande apelo ao realismo, sendo que alguns desvios como Topsy-Turvy e Vera Drake, apesar de serem filmes de época, continuavam a apoiar-se numa visão sobre um enorme elenco de interpretações naturalistas. Mesmo Vera Drake acaba por se tornar um retrato coletivo de uma família. Neste novo filme, Leigh parece quebrar com alguns dos seus usuais cânones, criando uma obra que se desenvolve à volta de uma única personalidade, de uma única figura, uma figura que provém, aliás, de uma realidade histórica, sendo que o próprio modo como o filme é filmado, parece olhar o mundo como uma extensão da perspetiva singular do seu protagonista.

 Deixem que me esclareça um pouco. O filme explora o último quarto de século, os últimos capítulos se preferirem, da vida daquele que é uma das mais célebres figuras na história da pintura europeia, Joseph Mallord William Turner. O mestre da luz e da atmosfera na pintura romântica do século XIX, que nas suas obras tardias quase pareceu anteceder o impressionismo na sua quase abstrata visão de luz e cor na composição das suas, por vezes, turbulentas e indefinidas paisagens.

 Apesar de uma proposta biográfica, o filme, mesmo assim, nunca parece estar interessado num seguimento solene de marcos históricos na vida do seu sujeito de protagonismo, preferindo ir capturando momentos na vida do pintor, muitas vezes sem aparente seguimento lógico, e acompanhando os seus últimos anos, através de uma vida sem grandes aparentes glórias ou momentos de inspiradora magnitude, como é usual neste tipo de filme. Se há algo que me incomoda na maioria dos filmes biográficos será, aliás, esta predileção por uma visão glorificada ou pelo menos de óbvia dramatização das figuras retratadas, sempre acabando por apelar a fórmulas e a marcos históricos.

 Pelo desenvolver do filme, nas suas deliberadamente lânguidas duas horas e meia, Leigh vai apresentando figuras novas à volta de Turner, nunca, no entanto, perdendo de vista o foco singular do filme. Assim acabamos por obter o usual elenco de grandes dimensões em que personagens menores são aparentemente criadas com o mesmo tipo de atenção, usualmente dado a protagonistas.
 Alguns dos mais marcantes membros desse elenco serão, por exemplo, Timothy Spall no papel central, numa interpretação cheia de grunhidos e de rudes maneirismos, capturando uma crueza e uma animalesca fisicalidade no pintor, e que arrecadou o prémio de Melhor Interpretação Masculina na edição de 2014 do festival de Cannes; Dorothy Atkinson como uma doméstica de Turner, padecendo de uma estranha doença de pele e cheia de trejeitos e maneirismos bizarros e que parece ter uma estranha e dependente relação com o pintor; Paul Jesson como William Turner, o velho e cansado pai do pintor, com quem tem uma jovial relação até à sua inevitável morte; e Marion Bailey como Sophia Booth, dona de uma estalagem numa região costeira e com quem Turner, estabelece uma relação romântica até à morte sofrida do pintor. Para além destes atores, um prodigioso elenco estende-se em papéis de menores dimensões, em que muitos dos atores usuais do trabalho de Leigh voltam a trabalhar aqui com o realizador, como Lesley Manville, tão magnífica em Another Year, Ruth Sheen e Martin Savage entre muitos outros.

 Este elenco com as suas magnificas interpretações e a estrutura narrativa do filme, possibilitam logo aqui um retrato um tanto ou quanto impressionista da vida de Turner, não se focando tanto na historicidade da sua vida, mas sim numa coleção de momentos a partir dos quais obtemos uma impressão, bastante filtrada através da própria perspetiva de Leigh, tanto do pintor como do mundo em que este se insere. Mas a ajudar tudo isto virá a concretização plástica do filme, que demonstra aqui um nível de exímia realização e esplendor que não são assim tão usuais nas obras passadas do realizador.

 O filme convirá referir, assemelha-se quase a uma pintura, sendo que o grande culpado desta magnificência visual será Dick Pope, o diretor de fotografia do filme, um veterano da obra de Leigh, que ganhou, aliás, um prémio especial em Cannes pelo seu inegavelmente impressionante feito técnico. O filme é banhado, através do trabalho de Pope, numa quase contínua luz dourada, um apelo à luz natural e rica das pinturas de Turner. Tanto interiores como exteriores assemelham-se a representações pictóricas, sendo o céu e a luz natural uma constante presença na composição. O mundo é visto como quase filtrado através do olhar do protagonista, ganhando uma absoluta riqueza visual que poucos filmes alcançam. Um visual em particular que gostaria de referir seria o modo como Pope e Leighj filmam os interiores da casa da senhora Booth, aonde todas as janelas parecem abrir-se para uma paisagem marítima, criando o efeito, conseguido através do foco profundo e de uma magistral captura da luz, de uma casa trespassada por pinturas vivas em constante e lento movimento ao mesmo tempo que o filme se parece focar nas vidas humanas que no se inserem no ambiente.

 Esse exemplo em particular é bom de referir, não só pelo magnífico trabalho de fotografia, mas também pela cenografia, que juntamente com os figurinos e mesmo a caracterização, criam em Mr. Turner um mundo de rudes texturas e luz filtrada por tecidos e vidros sujos, um mundo do qual quase conseguimos deduzir o aroma. Esta criação de um panorama de grande fisicalidade textura cria um ambiente de curiosos paradoxos onde até um teto de musselina rasgada coberto de varejeiras mortas ou a face manchada e doente de uma velha mulher, são capturados com a delicadeza de uma pintura pela câmara de Leigh. Um mundo assente na realidade mas filtrado por um olhar subjetivo e particular.

 Isto é quase um resumo de todo o filme, especialmente do modo como explora essa figura de Turner, animalesca e rude, por vezes repulsiva, mas sempre fascinante, sempre humano, e sempre com a promessa de mestria e luz no seu olhar envelhecido. Leigh pode não ter criado uma prestigiosa exposição dos mais importantes eventos na vida de Turner expondo o seu génio, mas com a sua característica abordagem criou algo muito mais especial, um retrato, uma pintura em forma de filme, em que o olhar de Leigh poderá trair a realidade histórica, revelando ao mesmo tempo uma maior humanidade e realidade que qualquer abordagem mais convencional revelaria.

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