terça-feira, 15 de dezembro de 2015

YOUTH (2015) de Paolo Sorrentino


A Juventude Youth Sorrentino Michael Caine

 Em 2013 parecia que a crítica internacional, pelo menos a online, se tinha dividido em duas fações no que dizia respeito ao muito celebrado filme de Paolo Sorrentino, A Grande Beleza. Havia quem proclamasse a obra como uma das melhores do ano cinemático, enquanto outros a acusavam de ser um exercício em vazia opulência e superficialidade pueril. Eu, apesar de ainda não estar a escrever sobre cinema nesse ano, fazia parte da ideologia primeiro referida. Nesse filme, como na maior parte da sua filmografia, Sorrentino usava um estilo exuberante, bastante derivativo de Fellini, como instrumento para a criação de um mundo de superfícies tão belas como bizarras. O génio do autor italiano estava precisamente no vazio da suas visões, cuja falta de conteúdo humano era o próprio sujeito dos seus filmes. Em A Grande Beleza, a beleza é vazia e espetacular, e apenas no momento final somos confrontados com a totalidade de nada que se esconde por detrás de tal fachada, num momento de pulsante humanidade. Em Il Divo, Sorrentino usou a estrutura do filme biográfico para tornar um dos mais infames políticos italianos numa gárgula monstruosa, e tornar lenda grotesca as maquinações governamentais e criminosas da sua nação. Em Consequências do Amor, A beleza era como que atirada para os olhos da audiência como modo de salientar a solidão e desconexão absoluta na vida do seu protagonista, ao mesmo tempo que o realizador olhava com pena e acídico humor o enredo humano.

 Em A Juventude, o seu mais recente filme, Sorrentino volta a usar o seu característico estilo mas, infelizmente, o autor parece ter substituído o vazio superficial por uma tentativa de filosofia humana. O resultado final é, talvez, o maior desastre na carreira de um realizador que eu tinha vindo a adorar nos últimos anos.

 Depois de ter homenageado La Dolce Vita com A Grande Beleza, Sorrentino parece ter-se inspirado noutra das obras-primas de Federico Fellini para A Juventude, neste caso 8 ½. Neste novo filme, observamos a vida de Fred Ballinger (Michael Caine), um compositor inglês, enquanto este está recluso numa estância de luxo, na companhia do seu amigo Mick Boyle (Harvey Keitel), um realizador americano que está a desenvolver aquele que será o seu filme testamento, e ocasionalmente pela sua filha e assistente pessoal, Lena (Rachel Weisz). A juntar-se a este trio está uma coleção de outras figuras, muitas delas bizarras.

 Apesar do elenco estar repleto de sonantes nomes, e das personagens apresentarem-se como um vasto leque de excêntricas criações, como um ator tragicamente sério interpretado por Paul Dano, é na perspetiva dos dois amigos idosos que o filme se apoia. Convém dizer, há nessa perspetiva um absoluto elitismo, especialmente no modo como estas privilegiadas personagens olham e encaram o mundo à sua volta e seus humanos.

 Este referido elitismo é ainda mais forte e inescapável na abordagem de Sorrentino. O elitismo e superioridade deste autor não se trata apenas de uma manifestação de privilégio social, ou conhecimento artístico, pois no modo como Sorrentino fetichiza os corpos desnudos, envelhecidos e decadentes ou luminosos com a flor da juventude, há algo de desconfortável, senão eticamente dúbio.

 Por muito que esta observação autoral me irrite e destrua a experiência do filme, talvez o maior problema não seja o trabalho de realização, mas sim o horrendo argumento, uma verdadeira montanha de clichés mascarados de profundos pensamentos filosóficos. Tirando os dois protagonistas, o desfile de personagens bizarras nunca contém sombra de humanidade. Sorrentino quer fazer grandes reflexões sobre a vida, o amor, o envelhecimento, etc., mas parece preferir olhar com desejo, escárnio ou curiosidade juvenil as suas belas marionetas de carne e osso, do que se confrontar com qualquer complexidade humana que não corresponda ao seu mundo de superfícies extravagantes e emoções gritadas que pintam o filme como grossas pinceladas em tons ácidos e puramente artificiais. Tenho de honestamente admitir que, aquando do meu visionamento de A Juventude, quase tive pena do elenco que tem de se debater com tal monstruosidade textual, especialmente Michael Caine que, mesmo assim, é quem se demonstra como uma das poucas salva-graças de A Juventude.

 Fred Ballinger como interpretado por Caine não difere muito do usual modelo de protagonista dos filmes de Sorrentino. Jep Gambardella e Titta di Girolamo poderiam ter acabado por viver a sua velhice numa posição semelhante à deste compositor, mas há algo de indubitavelmente distinto na abordagem do veterano inglês. Caine consegue encontrar alguma emoção genuína no artifício sufocante de A Juventude, sendo o único membro do elenco que realmente encontra alguma réstia de humanidade nas marionetas de Sorrentino, algo essencial para que o filme tenha esperança de funcionar.

 Neste vazio de artifícios e pirotécnicas estilísticas, o restante elenco está completamente perdido. Harvey Keitel é bastante sólido, mas os desenvolvimentos tardios da sua personagem são completamente repentinos e nunca justificados no trabalho do ator. Weisz tem um monólogo cortante, mas rapidamente se torna num adereço vivo ao estilo do pseudo-Maradona que se passeia pelos cenários como um símbolo de decadência depressiva e glórias passadas, ou mesmo a Miss Universo que parece uma revista da Playboy que ganhou vida para atormentar os homens que a observam. Paul Dano perde-se por completo nas reviravoltas deste circo cinemático e Jane Fonda, muito admirada pela sua minúscula presença no filme, é uma explosão de enfurecida energia, onde, no entanto, qualquer sombra de complexidade, nuance ou subtileza foi completamente obliterada.

 Em contrapartida, os visuais, como seria de esperar, sendo este um filme de Sorrentino, são maravilhosamente concebidos como um espetáculo absoluto de visões ousadas e pitorescas. No entanto, é a sonoridade de A Juventude que realmente se mostra como a absoluta joia da coroa deste filme e sua luminosa salvação. A climática canção, Simple Song #3, é particularmente extasiante na sua gloriosa intensidade, simplicidade, e carga emocional. No seu clímax, o filme é glorioso e um dos melhores de 2015. É só pena o resto do filme que antecede estes derradeiros momentos.

 Uma sedutora mistura de epicúria e primor técnico fazem de qualquer obra de Sorrentino uma criação essencial, mas, ao fugir à abjeta superficialidade inteligentemente vazia que tem caracterizado o seu trabalho e tentando criar um filme cheio de sabedoria e filosofia barata, o realizador trai-se a si mesmo e constrói um dos seus piores filmes. Sorrentino parece propor-se a dissecar uma cultura obcecada com a juventude, a superficialidade, a glória passada, o vazio, mas o seu olhar é demasiado caracterizado por tudo isto para poder fazer algo mais do que simplesmente se deixa cair na indulgência dos seus próprios vícios. É triste, pois A Juventude contém em si o inequívoco potencial para ser algo infinitamente superior, que, infelizmente, nunca se materializa por completo na final construção do filme.


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