domingo, 21 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR ATOR



A categoria de Melhor Ator é o absoluto nadir da presente edição dos óscares, pelo menos no que diz respeito a qualidade. Os atores que estão nomeados não são certamente uma má coleção de nomes, mas as específicas prestações pela qual eles estão nomeados é uma das mais horrendas e medíocres seleções que a Academia apresenta há anos.

Eddie Redmayne, fresco de uma vitória pelo The Theory of Everything, volta aqui a interpretar uma personagem retirada de uma sofredora história verídica. Acrescentamos a estas fontes verídicas, a vistosa qualidade transformativa do papel de Lili Elbe, e a nomeação de Redmayne parecia já uma certeza desde que o seu casting foi anunciado. Houve mesmo quem conjeturasse se o ator conseguiria duplicar o que Tom Hanks alcançou nos anos 90 e ganhar o Óscar dois anos seguidos, mas, principalmente devido à qualidade deplorável do filme, tal é neste momento uma completa impossibilidade.

Tirando Redmayne, nenhum destes nomeados é um prévio vencedor de um Óscar pelo seu trabalho de ator. No entanto, Matt Damon é já um vencedor de um Óscar, tendo ganho o galardão para Melhor Argumento Original de 1997 pelo seu texto para O Bom Rebelde, o filme que lhe valeu também a sua primeira nomeação para Melhor Ator. Muitos anos depois, o ator encontra-se no apogeu da sua carreira enquanto estrela de cinema de Hollywood e se não fosse um certo ator fétiche de Martin Scorsese, Damon seria certamente uma aposta segura para ganhar o Óscar, mesmo que a ficção-cientifica seja um género usualmente aberrante para os Óscares.

A desfrutar a sua primeira nomeação está Bryan Cranston, um ator que certamente não terá falta de galardões, tendo já uma impressionante coleção de troféus pelo seu trabalho televisivo. Também a sua nomeação, como a de Redmayne, se deve principalmente à natureza biográfica do seu papel como Donald Trumbo, mas há que também valorizar quão popular este ator se tornou devido ao sucesso de Breaking Bad. De realeza da televisão a príncipe do cinema, Cranston parece estar imparável ultimamente, mesmo que isso nem sempre se reflita no seu trabalho.

Outro ator cuja carreira parece estar em constante e violenta ascensão é Michael Fassbender, cujas prestações, no entanto, apresentam, usualmente, um consistente nível de pura genialidade. Este ano o ator irlandês também poderia ter sido nomeado por Macbeth, mas é de esperar que a Academia mostre preferência pela obra mais segura, prosaica e, é claro, baseada em factos verídicos. Convém dizer, aliás, como desta categoria, apenas Matt Damon está nomeado por interpretar uma personagem fictícia.

Finalmente, temos Leonardo DiCaprio, o incontornável e imparável vencedor deste galardão. Apesar de Dicaprio ser apenas um dos muitos atores a nunca ter arrecadado um Óscar, por alguma razão a internet uniu-se em prol da sua campanha, declarando a sua falta de Óscar como uma injustiça apenas comparada aos mais hediondos genocídios na história do século XX. Talvez esteja a exagerar, mas não muito. O frenesim enlouquecido que tem envolvido o ator fez com que, assim que o projeto com Iñarritu foi publicamente anunciado, DiCaprio ganhasse o Óscar. De todas as categorias deste ano esta é a que está mais trancada, sendo também a pior delas todas, mas isso é uma conversa reservada para o ranking presente abaixo.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Eddie Redmayne em The Danish Girl


Na minha crítica de A Rapariga Dinamarquesa, publicada na Magazine HD, escrevi:

“Na primeira metade do filme, há uma cena em que Lili, ainda na persona de Einar, confessa que se apresentar como homem é sempre uma performance e que apenas é confortável como mulher, mas o trabalho de Redmayne nunca transmite tal coisa. Inicialmente, o carácter performativo da sua transformação em mulher parece ser justificado, mas, à medida que o filme avança, o desconforto e esforço nunca desaparecem do trabalho do ator, pejado de tiques nervosos e gestos forçosamente coquetes. Isto apenas piora nas cenas mais emocionais em que o ator vai demarcando os momentos mais dramáticos com um abandono momentâneo dos seus maneirismos, desastrosamente salientando como nas suas mãos, Lili nunca é mais que uma personagem a servir de exercício técnico para o ator. Lili nunca é credível como a verdadeira identidade da protagonista, o que subverte toda a mensagem que o texto tenta apresentar à audiência. Poucos atores em 2015 tanto trabalham contra a ideologia do seu próprio filme, por muito inadvertido que seja esse desajeitado esforço.”

Já não tenho mais paciência ou energia para pensar nesta prestação. É, simplesmente, um desastre, do princípio ao fim do filme, com apenas alguns momentos nas cenas de festa enquanto Einar que redimem o ator e o elevam um pouco acima do nível de abjeta e trágica incompetência. Este é o pior trabalho na carreira de Eddie Redmayne e é um crime que tal pestilência cinematográfica esteja nomeada a um Óscar, um galardão que, supostamente, deveria reconhecer excelência.




4. Bryan Cranston em Trumbo


Como apaixonado pela história de Hollywood nos seus anos dourados e devoto fã de cinema político, Trumbo é um filme que me ofendeu profundamente com a sua bastardização histórica, repugnante e desleixado texto, simplismos morais, uso desenfreado de arquétipos e desumanas caricaturas no lugar de personagens credíveis, e geral mediocridade enquanto uma obra de cinema. Apesar de toda esta animosidade para com a pútrida obra que se propõe a pintar Donald Trumbo como o singular herói da luta contra a blacklist aquando do McCartismo, eu tenho de admitir que consegui encontrar uma relativa salvação nas prestações do seu elenco. No entanto, apesar de ser um ator pelo qual eu tenho grande admiração, Bryan Cranston não está incluído nesse grupo de atores que conseguem, de algum modo, redimir a monstruosidade de Trumbo. Todo o elenco do filme está preso a um registo típico deste tipo de obra medíocre e de prestígio, onde a palavra toma primazia e onde os atores parecem deleitar-se em entrar num doentio jogo de ver quem consegue ser mais vistoso no seu diálogo. Até um certo ponto, a teatralidade forçada que Cranston injeta no papel titular é justificada tanto pelo texto como pela tese que o filme tem sobre o seu protagonista, insistindo em retratar o argumentista como uma personalidade arrogante e com ideias de auto importância que faziam com que falasse como se estivesse num filme em que cada uma das suas falas se possa tornar numa icónica catchphrase cheia de peso e importância moral. Esta é uma abordagem interessante mas muito superficial e, infelizmente, Cranston nunca se afasta desse registo superficial, tornando o centro narrativo do filme numa figura de implausível falsidade e vazia. Como um estudo de personagem Trumbo é, portanto, um desastre, parcialmente devido à incapacidade de Cranston em modular a sua prestação ou elevar o material pueril que o argumento lhe propõe. É uma tristeza que Cranston esteja nomeado a um Óscar por aquela que é uma das piores prestações na sua ilustre carreira, mas isso parece ter sido uma doentia temática nos nomeados deste ano para Melhor Ator.


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO



Parabéns Academia! Esta é uma gloriosa seleção de nomeados e uma rara mostra de independência face às pressões do mercado cinematográfico americano e à horrenda presunção que o cinema de animação é algo exclusivamente concebido para audiências infantis.

Apenas dois dos nomeados são americanos, Inside Out e Anomalisa, sendo que o filme de Charlie Kaufman é um raro exemplo de cinema de animação norte-americano criado propositadamente para audiências dos circuitos art house, exclusivamente adultos.

Entre os restantes nomeados temos dois filmes praticamente mudos. Um deles é Shaun the Sheep Movie, uma adorável sobremesa cinematográfica britânica, e O Menino e o Mundo, uma sofisticada narrativa brasileira sobre o implacável avançar do desenvolvimento industria que vai destruindo o mundo natural e as culturas ancestrais de uma nação em crise.

Finalmente, temos Omoide no Mânî, o filme que será a ultima longa-metragem produzida pelos Estúdios Ghibli. Para qualquer amante de animação, a notícia do encerramento do mais importante estúdio de cinema de animação japonês terá, certamente sido uma cataclísmica tragédia, e parece que a Academia decidiu honrar o legado do estúdio. Há ainda que apontar que este filme e Inside Out são focados na psique e no custoso crescimento emocional de duas jovens raparigas, ambas prestes a entrar na sua adolescência, algo que é raro no cinema de modo geral, e ainda mais em filmes tão comerciais como usualmente o cinema de animação acaba por ser. Num panorama cinematográfico em que perspetivas femininas são menosprezadas e onde complexidades emocionais são tidas como algo de menor importância, este apoio da Academia de Hollywood a filmes assim é de uma importância formidável.

Com estes cinco nomeados, a Academia, ou pelo menos os votantes das categorias de animação, demonstra mais uma vez como não estão completamente cegos ao cinema de outras nacionalidades que não americanas e que nem sempre preferem a banalidade ao virtuosismo artístico. Para além do mais, com esta coleção de filmes, a Academia acaba por honrar a Pixar, a Aardman Animations e o Estúdio Ghibli, três dos mais importantes estúdios na história do cinema de animação, para além de que, indiretamente, acabam também por honrar a Disney e a GKids como distribuidoras norte-americanas de alguns dos mais importantes filmes de animação de sempre.

Eu adoro cinema de animação com uma força que não diminui desde os anos da minha infância em que tais filmes eram fontes inesgotáveis de alegria, prazer, e uma imaginação sem igual. Como tal, é um sonho observar esta formidável seleção em que, mesmo que eu não concorde com todos os nomeados, em geral a categoria é indiscutivelmente gloriosa.





RANKING DOS NOMEADOS:



5. Anomalisa, Charlie Kaufman, Duke Johnson e Rosa Tran


Eu sou um grande fã do trabalho passado de Charlie Kaufman, sendo que, face à inicial premissa de Anomalisa, o seu primeiro filme de animação, eu estava perfeitamente pronto para voltar a ser deslumbrado por este entusiasta do pós-modernismo cinematográfico. No entanto, o filme foi, para mim, um imenso desapontamento, demonstrando como, possivelmente, a criatividade de Kaufman se começa a esgotar e como os mais perniciosos aspetos da sua visão do mundo apenas se estão a tornar mais evidentes e difíceis de ignorar. Kaufman foca-se, em Anomalisa, em mais um homem desiludido e entediado com o mundo que o rodeia, vivendo uma existência cronicamente isolada e apática. Tomando a ideia de uma verdadeira doença mental, Kaufman concebeu uma visão subjetiva em que o mundo do seu protagonista é povoado por pessoas que partilham exatamente a mesma voz e feições, sendo que apenas uma mulher que ele conhece numa vulgar e triste noite num hotel, consegue emergir como outro ser humano fora desse absoluto anonimato.

Eu percebo as intenções de Kaufman, mas não as consigo celebrar. Este ano está recheado de filmes em que homens de sucesso e privilegiados são retratados como criaturas isoladas e incompreendidas, vítimas da sua própria arrogância, e, pessoalmente, já estou um pouco cansado desta irritante fórmula. Os defensores deste tipo de filme afirmam que o filme se apercebe dos problemas dos seus protagonistas, mas custa-me ver em Anomalisa, algo mais que uma montra da autopiedade de Kaufman e sua hubris cinematográfica. Eu consigo apreciar o filme de um ponto de vista puramente técnico e até aprecio o trabalho vocal dos atores, mas a obra perde qualquer integridade na sua construção misógina da figura titular, Lisa.

A mulher que concentra em si a peculiar e individualista banalidade da vida humana é pouco mais que um mecanismo narrativo para o arco da personagem masculina principal, e mesmo a sua personalidade parece existir apenas em função dos problemas dele, sendo que os diálogos entre os dois, por muito bem representados que sejam, são um perfeito exemplo de como subtilmente um texto consegue relegar uma das suas figuras a um objeto. O problema encontra-se no modo como Lisa deveria ser diferente, deveria ser palpavelmente humana, mesmo que por instantes, mas Kaufman cai nos erros que pensa estar superiormente a pintar na sua personagem principal, mostrando uma imaturidade incomum no seu trabalho e uma desumanidade assustadora. Muitos adoram este filme, mas não consigo fazer. Reconheço o seu valor enquanto criação ambiciosa e impetuosa de animação para adultos, mas o resultado final sofre de uma fétida podridão ideológica que, infelizmente, afundam todo o edifício do filme.




4. Shaun the Sheep Movie, Mark Burton e Richard Starzak



Da minha crítica de A Ovelha Choné – O Filme:

“Shaun the Sheep Movie é um ótimo filme de animação familiar longe das complexidades emocionais de outras obras de animação deste ano mas não por isso menos charmoso ou encantador. Há algo de reconfortante na simplicidade e relativa falta de ambição do projeto. Uma delícia ligeira confecionada com um virtuosismo magistral numa técnica, cuja visibilidade tem vindo a desaparecer com o apogeu da animação digital. E talvez principalmente por esta última razão, eu não consiga de modo algum resistir aos encantos do filme e adorá-lo apesar de alguns problemas cruciais que anteriormente referi.”

Tenho pouco a acrescentar a estas palavras. Esta é uma obra adorável e imensamente charmosa, sendo que é difícil resistir aos seus encantos. É cinema essencial? Talvez não, mas para um amante de animação, qualquer produção dos estúdios Aardman é uma joia cinematográfica.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR DOCUMENTÁRIO



Eu adoro documentários. Para mim, este é um tipo de cinema, em que, mais do que em qualquer outro género, existe uma possibilidade imensa de experimentação e criação de novas ideias e visões do que é a linguagem cinematográfica. Mais do que outros filmes, os documentários, ao exporem informação e terem uma certa noção de realidade às suas apresentações, criam um diálogo intelectual com as suas audiências que filmes narrativos não têm hipótese de emular ou equiparar.
Infelizmente, apesar deste meu amor e da crescente relevância do cinema documental nos mercados cinematográficos contemporâneos, as seleções dos Óscares nem sempre são grande mostra dessa mesma genialidade contida neste cinema. Um dos mais irritantes tipos de documentário que contaminam de modo sistémico todos os grupos de nomeados nesta categoria, é o” talking head documentary”, basicamente uma direta exposição de informação a partir de entrevistas filmadas.

Este tipo de abordagem nem sempre tem de ser um sinal de má qualidade ou desinspirada mediocridade, basta observar filmes como The Unknown Known que torna uma comprida entrevista a Donald Rumsfeld numa exímia dissecação da sua retórica e personalidade enquanto força política, ou Shoah, possivelmente o melhor documentário de sempre que consiste essencialmente em nove horas e meia de entrevistas a vários intervenientes do holocausto e estudiosos, sem qualquer pirotecnia formal a temperar o poder do testemunho direto. No entanto, algo muito importante separa estes filmes da maior parte dos favoritos dos óscares. Ao invés de simplesmente apresentarem a informação de modo prosaico e se recusarem a desafiar e dialogar com as suas audiências, estes filmes apresentam teses de pensamento, criam discursos sobre o que estão a observar e examinar, para além de conceberem uma magistral ligação para com as suas audiências forçando-as a pensar e avaliar, questionar e reconfigurar o seu pensamento sobre estes temas.

Um dos mais comuns tipos de “talking head documentaries” é aquele género de filme que se propõe a explorar uma personalidade famosa, muitas vezes depois da sua morte. Este ano temos Amy e What Happened, Miss Simone? a ocuparem este nicho da categoria de Melhor Documentário, sendo que, tanto pela sua popularidade e sucesso comercial como pela sua convencionalidade ideológica, o documentário sobre Amy Winehouse é o claro favorito para arrecadar este prémio.

Filmes como essas explorações de personalidades do passado raramente se debatem com temáticas minimamente controversas ou desafiadoras, encontrando-se na segurança pacífica da especificidade individual do seu retrato. Obras com intenções claramente políticas são bastante mais raras nesta categoria, mas este ano os nomeados são dominados por questões de caráter político. Cartel Land debruça-se sobre as lutas contra os cartéis de droga no México e nos EUA, enquanto Winter on Fire propõe-se a retratar a crise ucraniana, nomeadamente a revolução que teve início no final de 2013.

O Olhar do Silêncio também é um filme de cariz violentamente político e quase ativista, mas a sua exploração da Indonésia atual e das cicatrizes putrefactas que o genocídio de comunistas tem nesta nação é de uma sofisticação e impetuosidade cinematográfica que completamente ofusca os outros nomeados. Este filme é uma espécie de sequela de O Ato de Matar, outro documentário de Joshua Oppenheimer sobre este mesmo genocídio, mas ao invés de se focar na horrenda perspetiva dos assassinos, este filme cimenta a sua observação no olhar das vítimas. Com esta abordagem muito menos desconcertante, eu ainda tinha esperanças que este filme conseguisse alcançar o galardão que o seu antecessor não conseguiu arrecadar, mas com a monumental popularidade de Amy tal parece ser apenas um sonho de impossível concretização.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Cartel Land, Matthew Heineman e Tom Yellin


Na sua abordagem do tema da guerra aos cartéis de droga que assombram o México contemporâneo num opressivo pesadelo de bárbara violência e selvática criminalidade, Heineman decidiu focar-se em dois grupos de vigilantes armados que enfrentam esta ameaça criminosa dos dois lados da fronteira. Em Cartel Land, podemos observar de uma estonteante proximidade as lutas destas milícias armadas, uma mexicana e outra americana, sendo que o filme se foca principalmente nos seus líderes, o Dr. José Meireles e Tim Foley. É de perceber o fascínio que o realizador tem com as imagens que conseguiu acumular, assim como com a dramática violência que caracteriza toda esta realidade, mas também é fácil de perceber como, devido a essa fenomenal proximidade, Heineman parece ter-se perdido na celebração destes dois grupos de resistência civil. Nunca o realizador se afasta dos seus sujeitos para questionar as suas ações e seus princípios, nunca explorando o fanatismo que caracteriza os esforços destas duas organizações, ou o claro racismo e xenofobia que infecta o pensamento dos americanos envolvidos nesta luta. Ao invés de tentar explorar este mundo, Heineman apresenta-o como um filme de ação cheio de sanguinária violência humana, sem se preocupar ora em criar uma tese, ora em examinar os seus sujeitos ou mesmo em construir algum tipo de discurso cinematográfico a partir de estrutura e imagem. É verdade, que Cartel Land consegue ser uma obra de grande intensidade e que contém em si magníficas visões do deserto mexicano e americano, maravilhosamente fotografado pelos dois diretores de fotografia do filme, mas como cinema, mesmo cinema jornalístico, este filme deixa imenso a desejar e acaba por cair nos simplismos ideológicos que, do meu ponto de vista, deveria a todo o custo tentar evitar.




4. Amy, Asif Kapadia e James Gay-Rees


Quando se fala dos documentários de Asif Kapadia, muito se celebra o modo como este realizador constrói retratos de personalidades famosas a partir de um exclusivo uso de filmagens de arquivo, recusando-se a incluir entrevistas filmadas ou imagens encenadas. Para dizer a verdade, essa é a única escolha interessante que este autor faz em Amy, e certamente se poderá afirmar que a única razão pela qual este filme teve tanto sucesso foi exatamente pela riqueza de algumas das filmagens que ele consegue aqui reunir, sendo de particular interesse as imagens da vida privada de Amy Winehiuse antes de ela se tornar a decadente estrela que todos conhecemos. Mas isto também é imensamente problemático, pois é impossível separar qualquer mérito que o filme possa ter do modo como Kapadia ativamente procura despertar na sua audiência um certo prazer de voyeur ao expor esta coletânea de momentos na vida desta cantora. O filme é ostentosamente uma homenagem a Winehouse, mas é ao mesmo tempo uma repugnante exploração da mesma, tornando alguns momentos imensamente privados e desconfortáveis em algo de entretenimento, construindo uma obra que, sinceramente, me parece mais um insulto que uma celebração. Isto é exacerbado pela completa superficialidade na abordagem de Kapadia que se recusa a explorar a personagem que foi Amy Winehouse, reduzindo-a a um simples arquétipo de uma artista trágica e incompreendida. Eu ainda desculparia os aspetos mais voyeur do filme se ainda houvesse alguma fascinante examinação da figura de Winehouse, mas tal não ocorre, reduzindo este filme a uma infeliz e banal mediocridade. Enfim, muitas vezes é precisamente este tipo de cinema populista e prosaico que ganha Óscares.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHORES EFEITOS VISUAIS



Tal como na maior parte das categorias técnicas, o Óscar de Melhores Efeitos Visuais é usualmente dado tendo por base o critério da quantidade e não da qualidade. Em geral, são filmes cheios de vistosos e constantes efeitos gerados por computador a alcançarem nomeações e, nos últimos anos, o vencedor é normalmente o nomeado para Melhor Filme com maior presença de efeitos.

Com tudo isso em conta, a nomeação para a equipa de Ex Machina é imensamente surpreendente e fenomenalmente deliciosa. Efeitos subtis, perfeitamente executados e apropriadamente discretos, que são empregues de modo essencial para a construção do filme em que se inserem. É uma triste raridade, mas ainda bem que a Academia se recordou desta desafiadora obra de cinema de ficção-científica.

Apesar deste aparente desgosto por efeitos visuais mais discretos, um tipo usual de nomeação nesta categoria é a de um filme de prestígio com uma sequência apoiada em vistosos e inescapáveis efeitos. Seguindo esta lógica, o Hereafter deste ano é The Revenant, que, sejamos sinceros, deve esta nomeação ao ataque de urso que despoleta todo o enredo do filme.

The Revenant está nomeado também ao Óscar de Melhor Filme, assim como outros dois nomeados nesta categoria, Perdido em Marte e Mad Max: Estrada da Fúria. Em qualquer outro ano seria de esperar que um destes três filmes arrecadasse este galardão, sendo que Perdido em Marte seria o candidato mais tradicional.

Infelizmente para as equipas desses três filmes, eu prevejo que o Óscar de Melhores Efeitos Visuais acabe por ser entregue a Star Wars: O Despertar da Força. De todas as nomeações do maior blockbuster de 2015, esta parece a mais facilmente ganha e eu duvido que a Academia perca esta oportunidade de celebrar o monumental sucesso de bilheteiras que foi este sétimo episódio da saga originalmente concebida por George Lucas.




RANKING DOS NOMEADOS:


5. The Revenant, Richard McBride, Matt Shumway, Jason Smith e Cameron Waldbauer


(apesar deste vídeo se focar na maquilhagem, é possível nele vislumbrar alguns instantes do ataque da ursa)

Sim, o ataque de uma ursa a proteger as suas crias é uma espetacular montra para os efeitos visuais de The Revenant, mas está longe de ser a apoteose dos efeitos especiais em cinema que tantos artigos na internet parecem proclamar. O modo como os movimentos de DiCaprio enquanto está ser chacinado são um milagre de engenharia cinematográfica, mas, para mim, a animação do urso deixa um pouco a desejar, com a criatura a parecer estranhamente mais fisicamente realista quando é vista estática e em pormenor do que nos seus violentos movimentos. Independentemente dessa sequência, os efeitos de The Revenant são maioritariamente impressionantes, com a ajuda de CGI a ser uma necessidade invariável para sequências tão violentas e caóticas como o ataque de nativos americanos que abre o filme. A única falha descarada desta equipa é, para mim, a queda de uma falésia dada pelo protagonista e seu cavalo, de resto este é um louvável trabalho e uma boa nomeação para um filme em que os efeitos visuais não são o principal foco da mise-en-scène.




4. The Martian, Richard Stammers, Anders Langlands, Chris Lawrence e Steven Warner


É impossível imaginar Perdido em Marte sem os seus eficazes efeitos visuais, sendo que é um imperativo para o funcionamento da narrativa que a paisagem e atmosfera marciana seja indubitavelmente credível para a audiência. Mas não é somente o planeta vermelho a demonstrar os fenomenais efeitos visuais em ação no mais recente filme de Ridley Scott, sendo que todas as cenas dedicadas à equipa da missão que deixou o protagonista sozinho em Marte são uma verdadeira explosão de efeitos visuais brilhantemente realizados, sem pirotecnias desnecessárias. De destacar está a visualização da nave com uma estrutura giratória, assim como toda a atribulada sequência do derradeiro salvamento de Mark Whatney. O único aspeto relativamente negativo que eu tenho a apontar é o modo como depois de filmes como Interstellar e Gravity, os efeitos de Perdido em Marte parecem tragicamente prosaicos e desinspirados, apesar de toda a sua abjeta eficiência.


Oscars 2015/16, MELHOR BANDA-SONORA ORIGINAL



Juntamente com a categoria de Melhor Fotografia, esta é provavelmente a categoria que mais reúne incomparáveis filmografias. Apenas Jóhann Jóhannson se destaca como uma ovelha negra, mas, tendo em conta a qualidade recente do seu trabalho, daqui uns anos talvez o seu nome não destoe tanto neste grupo de génios musicais. O seu trabalho, nesta coleção de bandas-sonoras, é certamente o menos melodioso e, consequentemente, a mais atípica escolha da Academia, que, na minha opinião, devia dar muito mais valor a bandas-sonoras que tomam uma abordagem diferente da usual beleza de uma orquestra classicista que tanto parece dominar esta categoria todos os anos.

A competir com Jóhannson pelo Óscar de Melhor Banda-sonora Original estão duas verdadeiras lendas vivas do mundo da música de cinema, John Williams e Ennio Morricone. Neste momento, Williams já tem mais de 40 nomeações, tendo já arrecadado 5 Óscares pelo que eu espero que ele não ganhe. Afinal, é muito mais interessante quando a Academia honra vozes diferentes e não sempre a mesma pessoa. Morricone, por exemplo, apesar do seu estatuto quase divino na história do cinema, nunca ganhou um Óscar, pelo que eu duvido que a Academia consiga resistir à oportunidade de honrar este monumento vivo dos epítetos gloriosos a que pode chegar a música composta para filmes.

Outro compositor que nunca recebeu um Óscar, apesar da aclamação da crítica é Thomas Newman, Este americano já conta com 13 nomeações e já seria hora da Academia finalmente celebrar o seu trabalho, que inclui filmes como American Beauty, Wall-E e Skyfall, três filmes pelos quais Newman recebeu nomeações.

Por último temos Carter Burwell, um dos melhores compositores do cinema americano contemporâneo que, apesar de uma constante genialidade no seu trabalho, nunca havia sido nomeado anteriormente. Somente o seu trabalho com os irmãos Coen já lhe devia ter garantido uma nomeação, mas foi preciso a beleza inegável de Carol para a Academia finalmente se aperceber da magnificência musical deste compositor.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Thomas Newman por Bridge of Spies


Thomas Newman é um compositor que eu há muito admiro, e tenho de admitir que penso ser um dos melhores compositores a trabalhar na atualidade que ainda não arrecadou um Óscar pelo seu trabalho. Apesar de toda esta admiração, a banda-sonora que Newman concebeu para A Ponte dos Espiões está bastante longe de ser a sua melhor, ou mesmo de ser uma das suas 20 melhores. Tal como muitos compositores de música para cinema, Thomas Newman tem uma tendência a repetir-se bastante, ultrapassando o que seria uma marca estilística e chegando mesmo ao que se assemelha a um copy paste de filme para filme. Felizmente, em A Ponte dos Espiões Newman não faz isso, apesar de muitas das suas composições serem marcadamente da sua autoria. Ao invés disso, Newman criou uma das suas mais anónimas bandas-sonoras, oscilando entre a leveza sonora do seu usual trabalho e uma musicalidade tipicamente americana que parece quase uma tentativa falhada de copiar John Williams, o usual compositor de Steven Spielberg. Pior do que isso é mesmo os momentos em que, musicalmente, o filme cai num jogo de suspense e tensão sonora que é completamente genérico, sem ter a gloriosa celebração de classicismos do cinema de Hollywood convencional que tanto caracterizam os outros aspetos deste filme. A banda-sonora de A Ponte dos Espiões está longe de ser um mau trabalho, mas também está muito distante de ser extraordinário e os Óscares, supostamente, devem honrar excelência e não simples eficiência.




4. John Williams por Star Wars: The Force Awakens


Um dos mais significativos aspetos da estrutura narrativa de Star Wars: O Despertar da Força é a sua reinterpretação de momentos e enredos originados na trilogia original. Seguindo esta linha de pensamento, temos o trabalho de John Williams, que concebeu uma banda-sonora maioritariamente caracterizada pela reciclagem e adaptação dos temas mais famosos da saga em novas versões e novas composições. Para um fã do universo musical de Star Wars, como eu, esta celebração das glórias passadas em forma musical é deliciosa, especialmente quando os temas são fortemente reinterpretados e moldados em algo novo, como a aparição da melodia da marcha imperial de O Império Contra-Ataca como marca sonora da chegada e introdução de Kylo Ren. Apesar disto, e da gloriosa robustez orquestral que Williams traz a esta banda-sonora com o seu usual classicismo, a falta de quaisquer temas novos, a não ser o delicado “Rey’s Theme”, é uma grande desilusão. Mesmo para as detestáveis prequelas, Williams concebeu novas e memoráveis peças musicais como “Duel of Fates” ou o tema romântico de O Ataque dos Clones, mas infelizmente nada nesta banda-sonora chega aos píncaros dos filmes anteriores. De novo, esta banda-sonora é gloriosa e, se alguém não tiver conhecimento da música dos filmes anteriores, será fácil proclamar estas composições como algumas das melhores do ano, só que, infelizmente, eu tenho esse conhecimento e é difícil encarar esta nomeação e esta banda-sonora de modo geral sem desejar que Williams tivesse criado algo mais original e memorável para este sétimo episódio da saga mais famosa da história do cinema.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR CARACTERIZAÇÃO



De todas as categorias dos Óscares, esta é a única que ainda se mantém com apenas três nomeados, para além de ter sido uma das categorias mais tardiamente criadas, sendo que este Óscar foi pela primeira vez entregue, num panorama competitivo, a An American Werewolf in London de 1981. O ridículo desta situação é inegável, especialmente quando consideramos que praticamente todos os filmes têm departamentos de caracterização. Esta é uma componente técnica que merece, na minha opinião, muito mais reconhecimento que, por exemplo, canções originais ou mesmo efeitos especiais, dois aspetos que marcam presença num número relativamente diminuto de filmes.

Ao longo da sua breve história esta categoria tem sido dominada por vistosas transformações feitas à base de prostéticos, ignorando, infelizmente, outros tipos de caracterização, igualmente louvável mas muito menos vistosa. Mesmo com a recente alteração do nome desta categoria de “Best Achievement in Makeup” para “Best Achievement in Makeup and Hairstyling”, os seus nomeados ainda são maioritariamente caracterizados por explosões de pirotecnia técnica e chamativos virtuosismos, sendo que trabalhos mais subtis são tradicionalmente esquecidos aquando das nomeações.

Outro interessante aspeto desta categoria é a sua curiosa propensão para nomear filmes completamente inesperados ou desconhecidos. A indicação mais surpreendente deste ano é certamente O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, um filme sueco que poucos conheciam antes de ter sido divulgada a lista de finalistas para esta categoria.

Em termos de previsões, eu penso que qualquer um destes nomeados poderá alcançar uma vitória dia 28 deste mês. The Revenant, com as suas 12 nomeações, é um dos óbvios favoritos da Academia e a transformação de Leonardo DiCaprio é capaz de arrecadar atenção suficiente para que o filme ganhe este troféu. Por outro lado, Mad Max: Estrada da Fúria tem uma maquilhagem muito mais vistosa e variada que The Revenant, assim como um considerável apoio da Academia, com 10 nomeações incluindo para Melhor Filme. Por fim, O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu é uma descarada montra para um dos tipos de maquilhagem prediletos da Academia, caracterização de envelhecimento, pelo que este filme poderá também ser um viável vencedor.




RANKING DOS NOMEADOS:









Eu não partilho a louca adoração da Academia por maquilhagem de envelhecimento, sendo que, para mim, os resultados de tais transformações são raramente plausíveis e acabam por usualmente se tornar numa distração perniciosa para a total qualidade de um filme. Em O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, a maquilhagem é a verdadeira estrela do filme e o seu melhor aspeto. Tendo em conta a qualidade do filme como um todo, dizer que a maquilhagem é o seu melhor aspeto está longe de ser um elogio com algum módico de positivismo. Na verdade, para mim, a maquilhagem deste filme é pouco mais que uma montra de virtuosismos técnicos sem pouca ponderação sobre os efeitos dessa mesma técnica na experiência do filme. As transformações de vários atores em personalidades célebres da história europeia e americana são particularmente atrozes, convertendo atores em descaradas caricaturas ao invés de credivelmente povoarem o filme com alguns dos seres humanos mais significativos na história do século XX. Independentemente desses cameos de personalidades como Francisco Franco e Josef Stalin, a principal transformação do filme é o progressivo envelhecimento da personagem principal que vemos desde que é criança até à idade centenária do título. Esta é uma impressionante maquilhagem, mas, especialmente nas etapas mais avançadas da idade do protagonista, a caracterização tem uma feia tendência em limitar os movimentos faciais do ator de modo notório. Um trabalho impressionante e vistoso, mas pouco sofisticado ou particularmente louvável.


Oscars 2015/16, MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA




Aquilo a que se deu o nome de “category fraud” raramente é discutido durante a Awards Season, a não ser que o vosso blogue de eleição seja The Film Experience. Este ano, no entanto, isso mudou, e várias publicações decidiram criar uma enorme controvérsia em volta das campanhas fraudulentas feitas pelos estúdios em que atores e atrizes principais são promovidas como secundários para que mais facilmente arrecadem uma nomeação. Algumas organizações, como a HFPA, decidiram retificar estas ridículas injustiças, acabando por nomear Rooney Mara e Alicia Vikander na categoria de Melhor Atriz Principal.

Eu há vários anos que detesto este tipo de campanhas mercenárias, e este ano finalmente parece que o resto do mundo acordou para esta situação, que já resultou em muitas categorizações ridículas e detestavelmente desonestas. Infelizmente, parece que a Academia pouco se importa com isto, sendo que as grandes favoritas ao Óscar de Melhor Atriz Secundária são duas prestações indubitavelmente principais. Alicia Vikander irá provavelmente ganhar por um filme que se apoia na tragédia da sua personagem face à transição do seu marido numa mulher em A Rapariga Dinamarquesa.

Ainda mais absurda é a pretensão que Therese Belivet, interpretada por Rooney Mara, é uma personagem secundária em Carol. Apesar do seu título, este é um filme sobre um romance entre duas mulheres e ambas são igualmente fulcrais para a narrativa. Eu diria mesmo que, entre as duas, Mara é muito mais protagonista que Cate Blanchett, sendo que o filme se inicia e termina na sua perspetiva pessoal e esse seu olhar é uma constante em quase toda a narrativa, tal como no romance original de Patricia Highsmith.

Como consequência das campanhas fraudulentas destes filmes, o resto das atrizes nomeadas estão incrivelmente prejudicadas, sendo que poucas pessoas têm discutido as suas prestações ou probabilidade de ganharem o Óscar. Entre Rachel McAdams, Jennifer Jason Leigh e Kate Winslet, talvez a atriz britânica seja a única com alguma esperança de arrecadar o galardão pelo seu trabalho em Steve Jobs, tendo já alcançado uma inesperada vitória nos Golden Globes.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Alicia Vikander em The Danish Girl


Depois de um ano marcado pelo sucesso e omnipresença nos cinemas, Alicia Vikander tem a infeliz honra de ser reconhecida pela Academia pela que é provavelmente a pior prestação que a atriz teve em filmes elegíveis aos óscares deste ano. O meu ódio por A Rapariga Dinamarquesa será bem conhecido para quem tiver lido a minha análise na MagazineHD, pelo que, possivelmente, estou a deixar que a qualidade geral do filme influencie de modo prejudicial a minha perspetiva sobre a prestação desta jovem estrela em ascensão. É inegável que, de todos os atores desta miséria cinematográfica, Alicia Vikander é quem mais se destaca, injetando uma curiosa contemporaneidade e energia carismática à narrativa. Infelizmente, Tom Hooper e o argumento estão longe de querer aproveitar esta carismática presença jovial, forçando a atriz a interpretar uma infinita sequência de momentos trágicos em que a única abordagem desta intérprete é a de lacrimejar de modo atraente. Não culpo Vikander pela bidimensionalidade da sua personagem, mas é frustrante ver a sua luminosa presença nos primeiros momentos do filme ser reduzida a uma desastrada acumulação de cenas repetitivas que culminam no odioso final do filme, em que a manipulação emocional chega a níveis tão descarados que são quase risíveis, não tivesse o tédio já atordoado a audiência quando o misericordioso final de A Rapariga Dinamarquesa finalmente se manifesta. E pensar que Vikander podia ter sido nomeada por Ex Machina, em que, apesar de também interpretar uma personagem principal, a sua prestação é incalculavelmente mais complexa e fascinante que a sua encarnação de Gerda Wegener em A Rapariga Dinamarquesa.



4. Jennifer Jason Leigh em The Hateful Eight


Eu sou um grande fã de Jennifer Jason Leigh e, até há pouco tempo, também me considerava um fã de Quentin Tarantino, sendo que a sua coleção de formidáveis personagens femininas sempre foi algo que me encantou na maioria da sua filmografia. Mesmo tendo em conta as minhas reservas em relação a Os Oito Odiados, eu não esperava, de todo, que acabaria por considerar a prestação de Leigh como uma das menos interessantes em todo o filme. Tal como em A Rapariga Dinamarquesa, o meu problema com a prestação desta formidável atriz depreende de questões textuais e de direção mais do que o trabalho concreto da intérprete. Em resumo, do mesmo modo que todas as personagens de Os Oito Odiados são mais símbolos que humanos credíveis, também Daisy Domergue, a personagem de Jennifer Jason Leigh, é uma unidimensional e inumana presença, cuja principal característica é a sua bizarra atitude de constante antagonismo e vitriólico ódio por todos os que a rodeiam. De certo modo, especialmente no seu persistente uso de insultos raciais, Domergue é como que uma personificação do doentio niilismo de Tarantino face à realidade social e cultural do seu país, como que incorporando aqueles que são, para mim, os piores elementos ideológicos do filme. Eu poderia então simplesmente descartar a falta de complexidade ou credível humanidade de Domergue aos problemas originados no trabalho de Tarantino, mas o facto é que Walton Goggins e Samuel L. Jackson pegam num material imensamente semelhante ao de Leigh e encontram nos seus papéis uma formidável e carismática teatralidade, assim como sugerem nas suas reações algo mais humano e complicado que a caracterização oferecida no texto de Tarantino. Jennifer Jason Leigh, infelizmente, não tem aqui a mesma habilidade e genialidade desses dois atores, e o seu trabalho tem a mesma complexidade e credibilidade que um simplista cartoon. O melhor do seu trabalho é mesmo a sua energia e grotesca capacidade de fazer de cada um dos seus movimentos uma juvenil e jovial manifestação do ódio que propulsiona todas as ações de Daisy, fazendo de alguns momentos, como a sua pantomima de um enforcamento, pequenos instantes de triunfante comédia negra.