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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

AS MIL E UMA NOITES, VOLUME 3: O ENCANTADO (2015) de Miguel Gomes



 Com este terceiro volume, encerra-se a trilogia épica de Miguel Gomes sobre a austeridade em Portugal. Nos textos que anteriormente escrevi sobre os dois volumes iniciais, já falei sobre o método que o realizador utilizou na construção desta sua obra, pelo que não me parece necessária uma repetida explicação. A estrutura deste volume, no entanto, difere um pouco da dos outros dois volumes, sendo que anteriormente cada volume continha em si três contos narrados por Xerazade (Crista Alfaiate), tendo o primeiro uma espécie de introdução tanto à estrutura do filme como a toda a experimentação aqui desenvolvida. Em O Encantado, não temos os usuais três episódios, mas sim um enorme episódio sobre passarinheiros que criam tentilhões e com eles entram em competições, inserindo-se pelo meio deste conto, um minúsculo episódio sobre uma imigrante chinesa chamada floresta em chamas. O filme também conta com a mais desenvolvida porção da trilogia sobre Xerazade, a contadora de histórias que sempre é uma constante nestes filmes, assemelhando-se quase à introdução que abre o primeiro volume, mas num registo imensamente mais fantasioso.

  A observação feita à comunidade dos passarinheiros irá possivelmente testar a paciência de muitos cinéfilos, aqui aparecendo o mais direto e observacional de todos os episódios, assim como o mais longo. Há uma densidade temática e informacional de impressionante monumentalidade nas histórias de vida dos passarinheiros, aqui capturados num retrato de uma comunidade em que, apesar do registo maioritariamente realista, temos a usual mistura de realidade e fantasia que tanto têm caracterizado toda a construção do épico de Gomes.

 Neste estranho exercício de retrato e observação intimista, o realizador captura algo de curiosamente tocante e sério sem deixar de ser delirantemente excêntrico. A montagem nunca foi nesta trilogia mais precisa que neste episódio, aqui entrecortando variadas histórias individuais numa imensa tapeçaria de vidas humanas, em que se entrelaça o peso da História nacional e comunitária assim como uma fúria social acídica e gritante na sua intensidade. Quando, por entre a interminável cacofonia do cantar de pássaros que, aparentemente, cantam tanto que morrem de esforço melódico, Gomes insere o cantar do hino nacional por manifestantes durante o 25 de Abril, há algo de indescritivelmente avassalador que emerge. Na miséria e sofrimento, as pessoas viram-se para a religião, para o desporto, para algo que ocupe o vazio do desespero, viram-se para os tentilhões, e aí se consome a sua vida. Há algo de simples neste episódio quando comparado com as criações exuberantes d’“As Lágrimas da Juíza” ou d’“Os Homens de Pau Feito”, e precisamente a partir dessa simplicidade se encontra o final perfeito para tão complexa criação como este filme. Um homem solitário que, depois de libertar uma criatura sobrenatural de uma rede e recusar compensação, anda pela paisagem natural, uma dedicação a uma filha que só no futuro poderá apreciar a criação de um pai, e assim termina o filme.

  De certo modo, este volume revela-se como o mais melancólico dos três, não havendo grande quantidade do humor irreverente que tanto marca os seus antecessores. E a melancolia é tão verificável no episódio dos passarinheiros que fecha a trilogia como na introdução por meio da história de Xerazade. Passamos um dia com a rainha que vai narrando os seus contos como método de se manter viva, e acompanhamo-la no encontro de várias figuras tão fantasiosas e extravagantes como alegóricas, sendo um diálogo numa roda gigante uma das mais belas sequências de toda a trilogia, tanto pelo seu movimento hipnotizante que lembra a cena no casino no anterior filme de Gomes, como pelas suas entristecidas palavras em que o fatalismo e o simbolismo da figura de Xerazade aparecem na sua mais bela expressão.

   Assim se encerram as minhas divagações acerca desta obra de Gomes, que será o inquestionável evento cinematográfico do ano. Um épico tão ambicioso na sua crítica e observação como na sua forma, uma orgiástica explosão de criatividade e experimentação como poucas vezes se tem registado nos cinemas internacionais dos últimos anos e um dos mais belos exemplos da fúria do cinema político, aqui tornado magnífica epopeia cinemática. Um filme imperdível e indispensável, cujo único defeito que tenho a apontar é o facto de terminar e assim nos privar de mais horas das suas fantasias e absurdos retratos de uma realidade tão dolorosa de viver como é extasiante de observar nesta trilogia.


domingo, 4 de outubro de 2015

AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 2, O DESOLADO (2015) de Miguel Gomes



 Tendo já escrito sobre o primeiro volume da trilogia épica de Miguel Gomes sobre a austeridade no nosso país e o devaste em que tem deixado a nossa nação, acho que não necessito de expressar de modo extensivo os meus sentimentos em relação à sua extraordinária abordagem e processo. Neste volume, o método de estruturação à volta de episódios que pegam na realidade portuguesa e a tornam em contos meio mitificados, meio espetáculo de absurdos, continua, sendo que as maravilhas cinemáticas que o realizador consegue obter desta abordagem também continuam.

 Ao contrário do primeiro volume, este segundo, não tem qualquer tipo de sequência introdutória, iniciando-se já dentro de uma das histórias de Xerazade. Isto faz com que o filme seja claramente uma parte separada de uma trilogia, ao contrário do primeiro que se assemelhava mais a um filme completo. O que eu quero dizer com isto é que o filme é difícil de separar da experiência completa, parece um seguimento do primeiro volume, o que não é um problema de todo, mas é algo que de novo me faz ansiar por acabar de ver a trilogia e poder ter uma opinião sobre a sua totalidade. Bem, ainda tenho, pelo menos, mais uma semana de espera pelo derradeiro volume, por isso, por enquanto, acho melhor continuar a marinar na minha psique as gloriosas visões dos três episódios que compõem este segundo volume.

 O primeiro episódio é denominado “A Crónica da Fuga de Simão Sem Tripas”, uma visão vagarosa de um assassino escapado pelos montes. Todo este capítulo se caracteriza pelo seu ritmo extremamente lento, algo que quase hipnotiza a audiência, especialmente quando combinado com visões de irracional estilo, como o desvanecer da figura central a meio de uma cena sem qualquer consequência, ou o aparecimento de três mulheres que o servem nuas, como que os espíritos das mulheres, suas familiares, que no final sabemos que o protagonista assassinou. Durante todo o episódio, que é, até agora, aquele que presumo ser mais difícil de experienciar para uma audiência de irrequieta atenção, não consegui parar de pensar nos filmes de Apichatpong Weerasethakul. Isto, em parte, devém do facto do diretor de fotografia ser Sayombhu Mukdeeprom, um usual colaborador do realizador tailandês, mas também é uma consequência dessa vagarosa abordagem à narrativa fragmentada, cheia de simbolismos inescrutáveis e uma atmosfera sonhadora. Digo tudo isto, mas o final é um delicioso retorno à sátira cortante, que tanto caracteriza esta obra na sua generalidade, sendo que, de certo modo, este episódio é como que uma lenta reintrodução aos ritmos e intenções satíricas da obra de Gomes.

 O segundo episódio será, talvez, aquele que mais fama tem ganho internacionalmente. Chama-se “As Lágrimas da Juíza” e debruça-se sobre um julgamento absurdista, em que uma progressivamente enervada juíza (Luísa Cruz) vai ouvindo uma série de relatos interligados no seu tribunal, que vão tecendo uma teia caótica que retrata o estado do país. Este é o mais abertamente cómico dos três episódios deste volume e é aquele que menos barreiras coloca sobre o direto entendimento da crítica de Gomes. Aqui é tudo bastante óbvio e elevado a níveis de ridículo delicioso, como quando uma vaca oferece o seu testemunho, sendo que o absurdismo vai progressivamente ganhando um sabor de tragédia. Há uma perversidade maravilhosa na criação deste episódio que vai produzindo momentos de invariável comédia, mas que, com a sua longa duração, vai-se tornando cada vez mais horripilante. À medida que a pilha de loucuras e injustiças vai crescendo a audiência, pelo menos eu, já não compreende se o objetivo é provocar o riso inegável ou as lágrimas desesperadas que, no final, são expressas pela própria juíza. Mas há uma certa complexidade a este episódio que, apesar da sua abordagem grotescamente direta contém em si uma fantástica estrutura que perversamente inicia e encerra o episódio com momentos que pervertem a própria figura da juíza e sua moralidade.

 Mas o mais fascinante, de um ponto de vista pessoal, de todos estes episódios é aquele que arrecadou em Cannes um prémio especial para o seu protagonista canino. Falo de “Os Donos de Dixie”, uma espécie de odisseia melancólica à volta de um cão que vai encontrando casa com os habitantes de um bairro em Loures, e que nos vai assim proporcionando um olhar sobre a sua existência. Há uma melancolia que impera sobre todo este episódio, assim como uma elegância estilística que substitui, por momentos, a orgiástica explosão de estilo indisciplinado dos outros episódios, tornando ainda mais deprimente todo o relato que observamos. Há aqui uma modéstia da parte de Gomes que não cai em qualquer banalidade, mas que retrata uma comunidade com uma delicadeza surpreendente, ao mesmo tempo que se vai movimentando pelas vidas individuais e criando um retrato coletivo avassalador. A montagem, fotografia e musicalidade são especialmente gloriosos nesta porção, encontrando uma beleza singularmente inesperada em momentos como o de urina a escorrer por um poço de elevador, como que um êxtase de beleza que persevera na delapidação do mundo. Para encerramento deste volume, a história de Dixie, ou melhor dos seus donos, é um ponto final incrivelmente deprimente, se bem que há algo de encantador na imagem final de dois cães, um fantasma e um vivo, a brincarem um com o outro, numa jovialidade despreocupada que injeta alguma vida e alegria num mundo onde a esperança de felicidade se vai desvanecendo das vidas perseverantes das figuras humanas aqui apresentadas.

 Algo que não pude ignorar neste volume foi a modulação de intensidade na acidez satírica do realizador. No anterior elemento desta trilogia, a fúria enlouquecida do autor era palpável em cada momento da sua duração, neste filme há algo de temperado e variante, que não retira impacto ao filme, mas que lhe dá algo de fascinante em termos de tom. Os ritmos também se alteram como que acompanhando a intensidade da raiva criativa, sendo que o primeiro, o mais calmo e opaco dos episódios, é lento e vagaroso, o segundo é um regresso à fúria explosiva do primeiro volume e faz de uma sequência, praticamente passada num só local, uma bomba incendiária de compaixão e humor devastador, e, finalmente, no terceiro episódio deste volume, há algo de lírico, não opaco, mas trágico e entristecido. Da opacidade hipnotizante para uma fúria incendiária a uma melancolia que deixa o espetador com uma amargura avassaladora no final do filme. É algo de fascinantemente complexo e modulado numa obra que parece celebrar uma certa indisciplina estilística e suas gloriosas criações.

 Esta trilogia de Miguel Gomes continua a provar-se como um dos maiores eventos cinematográficos dos últimos anos, e falo de cinema internacional, sendo que sua reflexão sobre o estado do país consegue ser das mais criativas abordagens que já vi ao cinema político e de cariz social. Sinceramente, irrita-me, se bem que parcialmente entendo, a baixa quantidade de cinemas a distribuir estes filmes pois, apesar de radicalmente criativos e experimentais na sua forma e estrutura, estes filmes são intrinsecamente portugueses e imensamente importantes, penso eu, para uma sociedade que tão poucas vezes se vê retratada no cinema com tal glória épica e grandiosidade cinemática. Um grito, tanto de experimentação e jogo de cinema, como de fúria invariável pelo estado moribundo da nossa nação. Apelo a todos que leiam isto que considerem ver estes filmes, estas joias cinematográficas, estas tempestades de criatividade, estes ataques violentamente satíricos contra a austeridade, esta celebração elegíaca da condição de, simplesmente, se ser português.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

ARABIAN NIGHTS: VOLUME 1, THE RESTLESS ONE (2015)

 Once a week, I'll be publishing one of my old reviews translated into english. Let's see of I can get some more visits to this blog.


 Not having seen the three part epic in its complete form, I’m still a bit apprehensive about writing about the first part, the first volume, of Miguel Gomes’ grand opus, Arabian Nights. The choice to divide and distribute the epic in three volumes is, doubtlessly, a commercially sound choice, while also allowing the film to have a broader audience that would tremble at the possibility of watching a six hour film. While I understand this, it still feel as if I need to watch the complete film before offering my thoughts on any of the volumes. But, since that will most likely not happen and the last volume will only be available in October, let’s throw caution to the wind and explore some of my thoughts on the first volume, having in mind that in the future, after watching the entirety of Arabian Nights, my opinion may have changed considerably.

 The film, which recently arrived at Portuguese cinemas, brings with itself an impressive baggage of social, political and artistic expectations as well as undeniable international prestige. Premiered at the Director’s Fortnight at this year’s Cannes Film Festival and awarded both in Australia and Poland, the film has been revealing itself as one of the most ambitious works of cinema this year, showing a political rage and intense satire that, to me, seems to have been slowly dissipating from most of European cinema in the past few decades.

 The ambition of Arabian Nights, which is a sort of epic of the current economic and social crisis, is undoubtedly monumental. And, when speaking of ambition, I’m speaking of both its narrative and volatile thematic content as well as its awe-inspiring form and structure. Example, the beginning of the film looks at the closing of the shipyards in Viana do Castelo, approaching its subject with a perspective that is both documentary-like and lyrical. The audience watches disperse images, gritty and raw while being beautiful as masterfully filmed by Sayombhu Mukdeeprom (usual DP of Apichatpong Weerasethakull), joined by a constant voice-over of the now unemployed workers. Simultaneous to these images of Viana do Castelo, we have a parallel story, an Asiatic wasp invasion that is devastating the native bees. The struggle to eliminate the invaders also contributes some of the most beautiful images Ive seen in cinemas all year, showing the burning of a hive during the night, filling the darkness with a rain of fiery sparks.

 The director, an inescapable presence in the first chapters, states that he can’t come up with a connection between the two different elements of these initial moments, which seems to be a bit disingenuous. A foreign threat entering Portugal and causing the destruction its indigenous population doesn’t seem to be particularly difficult to metaphorically relate to the film’s political intentions. The director apparent confusion is, however, one of the greatest facets of the film, culminating in the scene where Gomes appears on screen running away from his crew and from his film. The creative crisis joined by the social and economic crisis and in this torrent of desperation genius is born, the structure of the rest of the film is born. But it’s not directness and clarity what emerges from this genius, but another path, one of glorious ridicule and absurdist narrative.

 The structure and method of the remaining film have already been widely discusses, both nationally and internationally, but, basically, Gomes employed the help of journalists that would collect several news stories from across the country during a period of 12 months, thus providing material for the episodic structure that utilizes the character of Scheherazade from One Thousand and One Nights, The storyteller first materializes in an oneiric chapter about the virgins of Bagdad, here standing for the journalists that helped Gomes, who supply the Arabic queen with stories, which we watch throughout the following chapters of the film. Tales, satirical and crass, filled with a strange social realism occasionally peppered with fantasy and biblical tonalities.

 The first volume offers three tales, “The Men with Hard-Ons”, “The Story of the Cockerel and the Fire” and “The Bath of the Magnificents”. In the first of these tales we have a political satire, in which Portuguese politicians, amongst them the Prime Minister (Rogério Samora), receive a group of implacable foreigners and try to negotiate the economic measures to be imposed on the Portuguese people. In the midst of this, we have a magical man from the French colonies in Africa, a spray that produces otherworldly erections, and a parade of disgusting behaviours and decisions that demonstrate a frightening distancing between the country’s current social calamity and the incompetent power games played by the European politicians. The humour is crass and grotesque, the satire couldn’t be more obvious, there’s an undeniable rage behind each second of the episode, and all of this is presented in a glorious torrent of ridicule.

 The second story features a cockerel in Resende, which by singing in the middle of the night provokes the anger of the community, resulting in the animal being put on trial. If the first tale is am acidic political satire portrayed by actors that are relatively famous (in Portugal), this one is a delicious absurdist comedy with a deceptively sweet love story between pre-teens, which is revealed to an animal talking judge during the prophetic cockerel’s trial. All of this with non-actors and complete unknowns in contrast with the cast of “Hard-Ons”.

  The protagonist of the third tale is a tired and depressed syndicalist (Adriano Luz). He tries to organize the first bath of 2014, an old traditional o the region, among a community drowned in the misery brought upon by the closing of the shipyards. Three times we watch real-life unemployed people of the community talk about their predicament, filmed in long takes and deliberately slow paced. This last tale is thus filled with a suffocating sense of despair that is impossible to shake off, while also including images of biblical undertones like a beached whale that explodes during one of the protagonist’s dreams, who, in such settings, reveals himself as a sort of suffering Job living through the Portuguese crisis.

 Such a chaptered structure, as I’ve previously mentions in past reviews, brings with it the particular problem of enticing an audience to compare the separated episodes instead of appreciating the film as a whole. Throughout the film there’s an interesting progression, especially regarding humour. Comparing the three tales, there’s a gradation starting with crass and unavoidable satire, progressing into a pervasive melancholy in the love story retold by the cockerel, and ending with an uncomfortable register of dark comedy that emerges from the misery and despair of both the protagonist and the community.

 If I were to choose one of the chapters, falling into the temptation of separating the episodes, I would pick the second tale. There’s something fascinating in the work of the non-actors, in the absurd use of a cockerel for a protagonist, in the unexpected developments of the narrative. The satire is brilliant while containing the melancholy I’ve mentioned above. And it’s filled with a storm of formal and thematic ideas that seem to be at the edge of completely overwhelming the viewer. I’m speaking of, for example, the appearance of a Chinese emperor seems to cast the land itself into a tragedy of fatalistic destruction, the use of cell phone messages creates a game of mistranslations between the voice-over and the written text that extends to the other in other forms, and the mix of almost documentary images with peculiar details like a bowie worn by the cockerel or even the accordionist that follows one of the characters.

 It’s easy to establish connections with other auteurs in the history of the art like Pasolini, Kiarostami, Resnais, Andersson, Buñuel, etc, but, despite having done just that, such an effort seems futile and uninteresting having in account the way Gomes emerges as the creator of such an abysmally ambitious cinematic monument. The film is metatextual, intellectual, weirdly populist, documental and mythological in scope. It’s a miraculously clear and direct mixture of these aspects, creating a density that makes this almost a cinematic equivalent of The Lusiads for a contemporary audience. It’s an epic of the Portuguese people, but here, instead of the heroes of the age of Discovery, we have the misery of the social and economic conditions in contemporary Portugal told in the form of stories and legends, as magnificent in their oneiric visions as silly in their humour and tragic in their representation of the absurdities of this country.



terça-feira, 1 de setembro de 2015

AS MIL E UMA NOITES: VOLUME 1, O INQUIETO (2015) de Miguel Gomes



  Sinto-me um pouco receoso de expressar desde já a minha opinião acerca da grande opus de Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites, em parte porque ainda não vi o épico na sua forma completa. A escolha de dividir e distribuir o filme em três volumes é, sem dúvida, uma escolha comercialmente sã e uma maneira de assegurar uma maior acessibilidade do material a um público que estremeceria face à “tarefa” de ver um filme de seis horas, mas, mesmo assim, continuo infeliz de não ter a oportunidade de ver de uma só vez o material. Parece-me que necessito de ver o filme completo antes de tentar transmitir qualquer observação acerca dele mesmo, mas visto isso só ir acontecer em Outubro, venho desde já expressar algumas opiniões acerca do primeiro volume, sendo que no futuro talvez acabe por discordar com observações aqui feitas.

  O filme, recentemente chegado às salas de cinema portuguesas, traz consigo uma já enorme carga de expetativas e de prestígio internacional. Estreado na Quinzena dos Realizadores em Cannes e premiado em Sidney e na Polónia, o filme parece estar a revelar-se como uma das mais ambiciosas obras do cinema de 2015 a nível mundial, regressando a uma intensidade política e satírica que parece se ter vindo a desvanecer em grande parte do cinema contemporâneo.

 A ambição do filme, que é efetivamente uma espécie de epopeia da crise económica portuguesa levada ao nível do mito, é monumental. E, quando falo de ambição, falo tanto da narrativa e conteúdo temático volátil como falo de forma e estrutura. O início do filme perfeitamente demonstra este peso da ambição cinemática, iniciando-se com uma visão documental e quase lírica sobre o encerramento dos estaleiros de Viana do Castelo e o seu impacto na comunidade. Vemos imagens dispersas, rudes e cruas mas belíssimas, capturadas pelo diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom (usual colaborador de Apichatpong Weerasethakul), e conjugadas com um voz-off constante de trabalhadores afetados pelo fecho dos estaleiros. Mas, juntamente a isto, temos a invasão de vespas asiáticas e sua destruição das abelhas nativas, assim como a luta para a destruição das vespas que oferece à audiência imagens magníficas de uma colmeia de vespas a arder e espalhar uma chuva de fagulhas na escuridão de uma noite cerrada.

 O realizador, que é uma presença inescapável nestes primeiros capítulos do filme, afirma não perceber a ligação dos dois eventos, mas esta confusão parece ser um pouco de humildade forçada, sendo que uma ameaça estrangeira que entra em Portugal e destrói os seus nativos não me parece ser muito difícil de metaforicamente ligar às intenções políticas do filme. Esta confusão do realizador é, no entanto, um dos melhores elementos do filme, culminando na fuga do realizador da sua equipa de filmagens dentro do filme. A crise criativa junta-se à crise económica e social e no desespero surge o génio, surge a estrutura. Do ridículo e absurdo emerge a clareza, uma clareza que, na verdade, é um caminho a mais glorioso ridículo e absurdo.

 A estrutura e método do resto do filme já foram bastante falados tanto nacional como internacionalmente, mas, basicamente, Gomes utilizou jornalistas que iam reportando notícias de acontecimentos em Portugal ao longo de um período de 12 meses, fornecendo material para uma estrutura episódica que usa a história de Xerazade d’ As Mil e Uma Noites. A figura da contadora de histórias aparece num onírico capítulo das virgens de Bagdad, aqui no papel de fornecedoras de histórias, como que análogas dos jornalistas para Gomes, e a partir daí vamos observando capítulos do filme na forma de contos, ora satíricos e crassos, ora repletos de realismo social mesclado com tonalidades bíblicas.

 Neste volume, temos três desses contos, chamados “Homens de Pau Feito”, “A História do Galo e do Fogo” e “O Banho dos Magníficos”. No primeiro temos uma sátira política que vê políticos portugueses, entre eles o primeiro-ministro (Rogério Samora), a receberem implacáveis estrangeiros e a negociarem as medidas económicas e sociais a impor sobre o país. Pelo meio temos um feiticeiro das colónias francesas em África, um spray que produz ereções mágicas, e uma parada de nojentos comportamentos que apenas demonstram um distanciamento assustador entre a realidade da calamidade social do país e os jogos incompetentes de poder e relevância dos políticos europeus e portugueses. O humor é crasso, grotesco e a sátira não podia ser mais óbvia, há uma raiva inegável por detrás de cada momento, e uma gloriosa apreciação pelo ridículo e absurdo, tanto a um nível textual como formal.

 De seguida, uma história de um galo em Resende, que canta a meio da noite e vai enfurecendo a comunidade que põe o animal em tribunal. Se o primeiro conto é uma sátira ácida dos políticos atuais interpretada por atores conhecidos, este é uma deliciosa comédia absurdista que culmina no revelar de uma história de amor literalmente fogoso entre jovens pré-adolescentes, pelo galo, durante o seu julgamento face a um juiz que percebe a fala dos animais.

 No terceiro, um sindicalista cansado e deprimido (Adriano Luz) a tentar organizar o primeiro banho do ano de 2014, com uma comunidade na miséria depois do encerramento dos estaleiros vislumbrados no início da obra. Por três vezes vemos um relato real de trabalhadores desempregados, em planos longos e quase estáticos, dando uma atmosfera de inescapável miséria a estes últimos momentos do primeiro volume, que também inclui imagens de teor bíblico como uma baleia encalhada na praia que explode num sonho do protagonista, que no seu sofrimento lembra um Jonas do Portugal em crise.

  Tal estrutura episódica, como já mencionei em textos anteriores, traz o problema da comparação entre episódios, sendo que alguns se vão revelando mais bem-sucedidos que outros. Uma coisa interessante de se verificar na progressão do filme e dos três contos, é a gradação do humor que começa por ser crasso e inescapável nos políticos com ereções, passa por um absurdo melancólico com o galo profético e acaba numa espécie de humor negro que me lembra as supostas comédias do Novo Cinema Romeno na sua negrura e deprimência.

 Do meu gosto pessoal, provavelmente escolheria o segundo conto como o capítulo mais glorioso deste volume. Há algo de fascinante no trabalho dos não-atores escolhidos para o filme, no absurdo do galo, no ridículo dos desenvolvimentos do enredo, algo de brilhante na sátira e algo de estranhamente triste e melancólico na história de amor jovem e imaturo. Tudo isto acompanhado de uma torrente de ideias formais e narrativas que por vezes parecem afogar a audiência. Uma aparição de um imperador chinês parece condenar a terra à destruição futura, um jogo formal de mensagens de telemóvel cria um jogo de traduções mal feitas que parece repetir-se pelos outros contos noutros formatos, as imagens são ao mesmo tempo quase documentais como cheias de pormenores estranhíssimos como um laço no protagonista animal ou um acordeonista que vai dando acompanhamento musical a uma das figuras da história.

 É fácil começar a estabelecer ligações com outros autores na história do cinema como Pasolini, Kiarostami, Andersson, Buñuel etc., mas tal não me parece ser de grande interesse ou relevância. Com este filme, Gomes cria um filme indubitavelmente único na sua forma, abordagem e ambição inimaginável. Um filme metatextual, satírico, intelectual, populista, mitológico e documental. Uma mistura miraculosamente clara, mas densa, de ideias e histórias que fazem do filme como que Os Lusíadas do cinema português contemporâneo. Uma epopeia do povo português, só que aqui não são heróis navegadores que se tornam mitos gloriosos, mas sim a miséria da condição social e económica e a incompetência política que são tornados em histórias e lendas, tão magníficas no seu olhar onírico como ridículas no seu humor e no triste absurdo do panorama atual do nosso país.