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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

THE SOLOIST (2009) de Joe Wright

 Depois de Orgulho & Preconceito e Expiação, assim continua a minha retrospectiva sobre a obra de Joe Wright, em antecipação do seu novo filme Pan.


 Com O Solista Joe Wright realizou aquele que é o seu mais atípico trabalho até agora. Longe das adaptações de clássicos literários e da inspiração em contos de fadas que marcam o resto da filmografia, o seu terceiro filme é baseado numa história verídica. Ao contrário do resto das suas obras, aqui a ação passa-se nos EUA, nomeadamente em Los Angeles, o que retira muitas das caras usuais dos filmes do autor, e, talvez o mais importante, é o seu único filme que utiliza a malfadada e cliché estrutura do filme inspirador.

 O guião foi construído com base no livro de Steve Lopez (Robert Downey Jr.), e segue a história de um jornalista, Lopez, que descobre nas ruas de Los Angeles Nathaniel Ayers (Jamie Foxx), um prodígio musical que em tempos estudou em Julliard mas, devido aos seus problemas com esquizofrenia, acabou por se encontrar a viver como um sem-abrigo. A partir desta relação, desta amizade mesclada de interesses profissionais, O Solista desenrola-se numa previsível narrativa em que Lopez vai tentando ajudar Ayers, acabando por encontrar uma espécie de redenção para si mesmo, como é usual neste tipo de histórias. Pelo caminho o filme vai tentando abordar uma coletânea de temáticas como os problemas sociais latentes na condição de Ayers, o modo como a sociedade trata pessoas com problemas de saúde mental, a vida das comunidades de sem-abrigos, questões raciais, os problemas pessoais de Lopez e Ayer, etc.

 O que no final acaba por acontecer é que o filme é uma obra de curiosa falta de foco e direção. A estrutura usual do filme inspirador está aqui, especialmente nos flashbacks da juventude de Ayers e no final completo com voz-off de Downey Jr., mas pelo meio a narrativa vai-se perdendo por essas outras ambições temáticas, sem nunca conseguir injetar grande complexidade ou nuance. Para além de provavelmente ser o mais desapontante e pouco característico dos filmes de Wright (ainda não vi Pan), este é certamente aquele que possui pior texto, que apenas alcança algum triunfo no seu retrato intimista de Lopez, mas isso também é grande responsabilidade do trabalho do ator.

 Tal como nos outros filmes do realizador, o elenco é de louvar, desde os atores que apenas têm alguns momentos passageiros como Jena Malone e Lorraine Toussant até aos dois protagonistas. Muitos dirão o mesmo de Expiação, mas O Solista é o filme de Wright que mais parece suplicar a atenção dos prémios de cinema, sendo que todo o edifício do filme parece ser construído em prol de exibir algum do melhor trabalho que Downey Jr. e Foxx alguma vez produziram. Como Ayers, Foxx consegue encontrar uma fascinante vulnerabilidade por entre os seus tiques e trejeitos, tornando palpavelmente humano o que poderia ser uma irritante criação de técnica vazia, como eu penso que o ator fez no papel que lhe valeu um Óscar. Mas, muito melhor que Foxx, e abençoado com uma personagem infinitamente melhor escrita, temos Donwney Jr. que consegue sempre evitar tornar Lopez num santo ou num anti-herói comum em trajetória de redenção simplista. Não se enganem, a redenção e auto reflexão aparecem na narrativa, mas misturadas com as fobias, sua compaixão e sua surpreendente opacidade, criam uma visão reticente de um ser humano complexo e cujas motivações nunca nos são perfeitamente claras ou insultuosamente simplistas. Nunca a persona arrogante e carismática do ator foi tão bem modulada e aproveitada por um realizador e talvez apenas por isso, valha a pena rever este filme.

 Tenho estado a relatar como este filme é algo atípico na oeuvre do seu realizador, no entanto, tal como no que diz respeito ao trabalho de atores, o toque usual de Wright está inegavelmente presente nesta obra, permitindo a O Solista manter-se longe da banalidade devastadora de tantos outros filmes supostamente inspiradores. Algo que se torna impossível de ignorar é o gosto do realizador pelo movimento da câmara, aqui tão exuberante como em Expiação, não tendo a opulência romântica desse outro filme no que é capturado pela câmara. Planos que atravessam escritórios, que sobrevoam comunidades de sem-abrigos, que dançam por entre convidados numa festa, tudo isto com o toque de excesso sublime que tanto parece ter vindo a caracterizar o estilo deste autor inglês.

 Outro, óbvio, aspeto será o papel da música na mise-en-scène do filme, sendo que é absolutamente inescapável na narrativa. A banda-sonora é uma mistura luxuriante de música clássica, especialmente Beethoven, com composições originais de Dario Marianelli, um frequente colaborador do realizador, ajudando a mover o filme a um elegante ritmo. Na mais singular e maravilhosa cena do filme, Wright filma Foxx a ouvir uma orquestra tocar Beethoven num auditório vazio. A câmara afasta-se, retratando-o como um ponto luminosos na escuridão absoluta, de seguida passando a uma abstrata visão de luz e cor, onde manchas luminosas se movem em ritmo com a música. Neste momento de abstração, Wright cria algo de imersivo e apaixonante, uma pausa na estrutura do filme, que enche o espetador de vitalidade e, melhor do que qualquer cena de exposição, dá-nos uma oportunidade de vislumbrar a paixão de Ayers e a glória que este encontra na música. O ato de ouvir convertido em experiência visual que pode ser acusada de uma certa falta de originalidade, mas não é por isso que é menos comovente ou estonteantemente bela.

 O design do filme é bastante menos opulente que o que se regista no resto do trabalho do realizador, estando preso a uma noção de realidade contemporânea inédita no trabalho do realizador. Mesmo assim, os flashbacks para a infância de Ayers, a cor e excentricidade, levemente desconfortável, da vida do músico e outros doentes mentais, concedem ao filme alguns momentos em que mostrar a cenografia e figurinos vistosos que tanto se evidenciam em filmes como Expiação e Anna Karenina.

 O Solista acaba por ser um trabalho menor na filmografia de Wright, mas é fascinante de observar, tanto pelo trabalho do elenco como pelo modo como coloca o realizador num terreno geográfico, temporal e temático que não se regista em mais qualquer filme seu. As suas limitações textuais e franca falta de nuance ou perspicácia na representação de suas facetas sociais, impedem o filme de emergir como uma obra de relevância por entre a banalidade soporífera dos filmes inspiradores baseados em factos verídicos, mas, pelo menos, aqui encontra-se alguma originalidade fugaz, alguns momentos de imersiva emoção, e alguns vislumbres de um retrato duplo muito menos elegíaco e aborrecido do que seria de esperar.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

J’AI TUÉ MA MÈRE (2009) de Xavier Dolan



 Muitos filmes ao longo da história do cinema, especialmente a partir da rebelde década de 50, têm utilizado adolescentes como protagonistas, engendrando-se nas suas emoções exasperantes e juventude, mas na maioria dos casos que vemos ao longo do cinema, essa adolescência é vista por uma perspetiva definidamente adulta. Quer seja nostalgia açucarada, quer seja reflexões melancólicas do passado, o que for, é raro vermos um filme sobre adolescentes em que o filme em si parece pulsar com a juventude dos seus sujeitos. Com o seu primeiro filme, Xavier Dolan, ofereceu-nos uma obra em que isto acontece, um filme verdadeiramente preso a uma perspetiva jovem, imatura, irrascível, e muitas vezes irritante e histérica.

 J’ai tué ma mère foi escrito quando Dolan tinha supostamente apenas 16 anos e foi filmado quando o realizador tinha apenas 19. Esta não é, certamente, a obra de um realizador adulto e com um estilo cinemático amadurecido. O guião é, alegadamente, uma parcial autobiografia de Dolan, focando-se na relação entre Hubert (o próprio Xavier Dolan) e sua mãe, Chantale (Anne Dorval), pegando em tudo o que se pode ver de dramatismo e histeria nos seguintes filmes de Dolan e subindo o seu volume ao máximo.

 O filme mostra-nos imediatamente os dois em conflito passivo-agressivo durante o pequeno-almoço em sua casa (a casa da mãe de Dolan). Vemos como Hubert parece olhar com desdém tudo o que a mãe faz, como come, como age e como se veste em roupas exageradas e muitas vezes ridículas, cheias de brilhantes, padrões animais, pelo, cortes provocadores, etc. Nada do que a mãe faz parece estar certo, sendo que em contrapartida Chantale parece também, tal como seu filho, estar em constante perigo de explodir a qualquer instante, acabando por deixar o filho no meio da rua depois de uma discussão no carro a caminho da escola, uma ação que se repete no filme. Ela acaba por colocar o filho num colégio interno, levando a sua relação a um cisma até aí inalcançado. Mesmo assim, ao longo do filme um fantasma de um passado feliz, em que o divórcio dos pais ainda não tinha ocorrido e Hubert era uma criança, vai assombrando o filme, manifestando-se no final.

 Hubert e Chantale não são protagonistas fáceis de observar. Ambos são criaturas de um imenso dramatismo, sendo isto particularmente aparente em Hubert, que deverá ser o mais insuportável de todos os protagonistas de Dolan. Egoísta, egocêntrico, manipulador, pretensioso, cruel, mesquinho, emotivo, histérico, imaturo e jovem, Hubert é uma constante tempestade personificada, um agente de caos em constante conflito com outra criatura caótica. O filme é visto do seu olhar na sua generalidade, imbuindo cada momento com o olhar de Hubert, iniciando-se até com uma espécie de confessionário em grande plano monocromático e cortando para um plano apertado da boca de Chantale, a comer um pão com queijo creme, capturado do modo mais repelente possível. A suposta intimidade do monólogo direto para a câmara, comparado e contrastado com a imaturidade do seu ponto-de-vista em relação à sua mãe.

 A mise-en-scéne é sempre, de certo modo, uma manifestação do olhar de Hubert, sendo tão injusto e cruel como o seu protagonista, mas não escondendo ou glorificando essa mesma crueldade. A injustiça na representação formal da figura materna é visível desde o início do filme, começando logo a explorar os lados mais negativos do protagonista. Dolan pode-se estar a filmar a si próprio numa representação de si próprio, mas não é por isso que nos oferece Hubert como uma figura idealizada ou glorificada. Seria mais correto até dizer que o filme só exacerba quão intolerável o jovem pode ser.

 As fantasias usuais de Dolan marcam a sua presença, aqui mais simplistas que nunca. Numa cena, a meio de uma discussão, Hubert imagina-se a partir loiça em câmara lenta, noutra cena imagina a mãe num caixão coberto de flores, ainda noutra observamos a mãe vestida de noiva a fugir de um filho que a persegue por entre um bosque. Também o seu uso de música é, como usual em Dolan, absolutamente exuberante e energético.

Acompanhe-se este tipo de realização, com uma coleção de interpretações que parecem competir para ver quem consegue gritar mais alto, e temos um filme que vibra com a imaturidade do protagonista e do realizador. Manifesta-se também o pretensiosismo de Hubert no modo como citações ou poemas da autoria do jovem vão aparecendo em texto imposto na imagem ao longo do filme, assim como os confessionários que parecem encontrar o meio entre um vlog postado no youtube e um filme de Godard.

   No entanto, para além de toda essa imaturidade estilística, que para mim apenas beneficia o filme final, Dolan também mostra uma estranha maturidade no seu primeiro filme. Ele filma com uma mão segura, usando a simetria e o uso do grande plano como modo de sempre juntar ou forçosamente separar as figuras em cena.

 Também o seu retrato da figura materna é menos simplista e monstruoso do que poderia parecer no início. Numa das cenas mais impactantes do filme, Hubert e a mãe, discutem em frente ao autocarro que o levará para o colégio interno. Ele, furioso e desesperado, insulta-a, grita-lhe e num momento final, pergunta-lhe o que é que ela faria se ele morresse naquele dia. Chantale não responde, mas Dolan não desvia a câmara dela, para que, momentos depois do filho se ter afastado, possamos ouvir a sua resposta, Morreria no dia seguinte.

 Algo que, apesar de tudo, nunca parece posto em causa, é o facto que a mãe e o filho se amam, a natureza de tal laço é que é explorada no filme, mostrando ódios expostos como carne viva. A mãe, apesar de momentos como esse que descrevi, nunca é a figura sofredora e martirizada que Anne Dorval viria a interpretar em Mommy. Aqui temos alguém que quando quer consegue ser tão cruel e horrenda como o seu filho, como variadas cenas mostram. É fácil, por breves momentos, simpatizar com Hubert, a mãe entra-lhe pela escola adentro aos gritos, quando ele demora demasiado tempo a escolher filmes num clube de vídeo, entrando ela a gritar histericamente com ele, e deixando-o sozinho, para depois o apanhar na rua, mais tarde, e de novo o deixar na rua, à noite, sem chave de casa. O modo como o colégio interno é usado pela personagem, cria um jogo de poder desconfortável entre os dois protagonistas, culminando numa discussão depois de Hubert descobrir que vai ficar mais um ano neste.

 Nessa cena, Hubert aparece-nos, talvez no seu estado mais vulnerável, como se todas as portas se tivessem fechado, mais do que adolescente petulante, ele parece uma criança em pânico. Quando começa a mostrar a sua usual agressividade, a mãe atira-lhe à cara a sua homossexualidade, algo que ele lhe tinha escondido, mostrando-se impassível aos seus pedidos e gritos e parecendo até manipular as suas palavras de modo a magoá-lo o máximo possível.

 Os dois, passam o filme nessa luta constante, nesse jogo de poder emocional um sobre o outro. Mas no final, depois de tudo o que acontece, parece haver uma certa serenidade.

 Depois de Hubert fugir do colégio, no seguimento de ser espancado num dos momentos mais melodramáticos do filme, vemo-lo no carro com Antonin, numa cena semelhante às variadas vezes que o vimos no carro com a mãe. A câmara está estática quase que copiando Kiarostami na sua observação fixa dos dois intervenientes em diálogo. Aí Antonin acusa Hubert do seu egoísmo, do modo como o usa como criado, como motorista, como prostituto. No entanto, depois das suas acusações, confessa que o ama. Há algo de ilógico neste diálogo, neste seguimento linguístico, mas no final, o filme parece abraçar essa irracionalidade no que diz respeito às emoções humanas, quase que exausto depois de todo o conflito que foi observado.

 Quando Chantale alcança o filho, na antiga casa que agora pertence ao pai de Hubert, os dois sentam-se em silêncio nas rochas junto à água. Os dois olham para a frente e não um para o outro. Não falam, apenas recordam. E nós, a audiência, com eles recordamos, e observamos o seu passado. Depois de uma hora e meia de crueldade e sofrimento, vemos os dois felizes, quando Hubert era uma criança, filmados no estilo de vídeos caseiros. Uma inocência tão formal como emocional. O filme termina numa nota de simplicidade infantil.


 Com o seu primeiro filme, Dolan criou algo que está longe da perfeição ou mesmo da simples característica de ser agradável. O seu estilo é difícil, é irritante como as suas personagens, mas, mais do que muitos na história do cinema, a visão de adolescente de Dolan, vibra com a intensidade da juventude febril. A sua imaturidade explode em filme, criando algo desagradável, mas fascinante, algo glorioso na sua euforia e feio na sua fúria. É talvez o menos ambicioso dos filmes do realizador, mas é também o seu mais pessoal e sem dúvida o seu mais visceral. Um magnífico melodrama adolescente, demasiado rude para ser belo, mas pulsante com uma energia que poucos realizadores demonstram.