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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, Post mortem e análise da cerimónia e vencedores



Primeiro que tudo, tenho de dizer que, ao contrário do que parece ser a maioria da população mundial com acesso à internet, eu nunca achei que Leonardo DiCaprio fosse um enorme injustiçado dos Óscares, nem que ele devesse ganhar por The Revenant. Sinceramente, nunca lhe daria nenhum Óscar por qualquer uma das suas prestações, se bem que nomearia várias. Quando existem tantos maravilhosos artistas que não têm Óscares como Roger Deakins, Diane Warren, Thomas Newman, entre muitos outros, não percebo qual a razão para este fanatismo em volta de DiCaprio. Olhemos, por exemplo, para 1993 quando este ator recebeu a sua primeira nomeação. Ralph Fiennes recebeu também nesse ano a sua primeira nomeação e, tal como DiCaprio até ontem, ele não ganhou qualquer Óscar. Fiennes é, para mim, um ator monumentalmente superior a DiCaprio mas nunca se ouve ninguém falar de como a Academia lhe deve um Óscar. Para quem esteve anos a martelar a cabeça da Academia que Leo devia ganhar um destes prémios, eu dou o exemplo de Peter O’Toole, que nunca teve essa sorte antes de morrer e que foi um dos grandes atores da história do cinema. Basicamente, por favor pessoas da internet acalmem-se com a vossa desmedida paixão por Leonardo DiCaprio.

Com tudo isso dito e com a maior parte dos leitores afugentados, tenho de admitir que adorei o discurso de DiCaprio e que ele me conquistou nesses momentos. A sua vitória era certa e ele teve tempo de preparar o modo como iria aceitar este prémio e fez justiça às altas espectativas. Parabéns!
Esquecendo um pouco a vitória incontornável do ator que para mim será sempre Jack Dawson, falemos um pouco dos restantes vencedores da noite.


Nas minhas previsões pessoais apenas acertei em 15 dos eventuais escolhidos da Academia, tendo-me enganado em Ator Secundário, Canção original, Efeitos Visuais, ambas as categorias de som, Caracterização, Filme numa Língua Estrangeira, e melhor curta-metragem de animação e documental. Enfim, já tive anos piores e anos melhores e a verdade é que eu adoro surpresas na noite dos Óscares, mesmo quando são ocasionalmente desagradáveis.

Eu diria mesmo que a pior surpresa do ano e pior vencedor da noite foi a vitória de Sam Smith na categoria de Melhor Canção Original. Quem diria que ele conseguiria traduzir a sua vitória nos Globos de Ouro numa coroação pela Academia? E por uma das piores canções alguma vez nomeadas em toda a história da categoria. Certamente a Academia não supunha que Smith fosse ganhar, sendo que toda a produção da prestação musical de Lady Gaga parecia prenunciar uma celebração ao estilo de “Glory” o ano passado. Pelo menos esta vitória deu-nos a oportunidade de ver a melhor atuação da carreira de Gaga, quando esta forçou um dos mais insinceros sorrisos que já vi aquando da vitória do seu adversário nesta categoria.


As restantes surpresas foram infinitamente mais prazerosas, com a vitória de Ex Machina na categoria de Melhores Efeitos Visuais a ser o meu ponto alto da noite. Quem diria que a Academia iria contrariar décadas de uma preferência por obras vistosas nesta categoria, decidindo honrar aquele que é possivelmente o menos gritado e explosivo dos cinco nomeados. Apenas a vitória de Babe em 1995 é comparável.

Também a completa torrente de apoio para com Mad Max: Estrada da Fúria me tomou de surpresa, sendo que já tinha perdido a esperança que o filme conseguisse arrecadar mais que 2 ou 3 Óscares. O filme de George Miller varreu quase que por completo as categorias técnicas, saindo do Dolby Theatre como um dos grandes vencedores da noite com 6 galardões, todos eles imensamente merecidos. A vitória de Margaret Sixel foi de particular júbilo para mim.


Ainda a destacar nas minhas previsões erróneas está a vitória de O Filho de Saul do Óscar de Melhor Filme numa Língua Estrangeira. Eu estava certo que a Academia ia renunciar esta obra agressiva e iria refugiar-se na relativa convencionalidade de Mustang, especialmente considerando a força de alguns dos detratores do filme de Lázló Nemes. Felizmente a qualidade triunfou sobre a tradição, e o discurso do jovem realizador foi, para mim, um dos melhores de uma noite repleta de belos discursos, apesar de nenhum deles se realmente comparar à fogosidade de alguns do ano passado.


Na maior parte das restantes categorias, os esperados vencedores triunfaram, mesmo aqueles que mais fraudulentamente arrecadaram os seus prémios como Alicia Vikander, cuja prestação não pertence de modo algum à categoria que visa reconhecer a excelência de prestações secundárias. Talvez apenas a vitória de Mark Rylance me tenha realmente surpreendido nas categorias ditas principais. Eu já calculava que Stallone fosse perder ao estilo de Mickey Rourke, mas tinha assumido que Ruffalo fosse propulsionado tanto pela força das suas anteriores nomeações como pela vitória que já previa para Spotlight na mais alta honra da noite.


E assim chegamos a Melhor Filme e Realizador. Orgulho-me, tenho de admitir, de ter previsto este final desenrolar de uma Awards Season cheia de imprevisibilidades e falta de consenso. No final, a votação preferencial fez a sua magia e The Revenant mostrou-se como uma obra demasiado polarizante para ganhar. É claro que Iñarritu acabou por voltar a ganhar, mas aí eu tinha poucas esperanças de um diferente resultado. Tal como Leo, no entanto, tenho de reconhecer o valor do seu discurso, especialmente no que diz respeito à sua indignação para com alguma da atual retórica política xenófoba que domina as primárias republicanas dos EUA.


Dos vencedores tenho apenas a acrescentar que foi maravilhoso finalmente ver Ennio Morricone a ganhar um Óscar.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FILME



Com esta análise à categoria de melhor filme chegamos ao fim desta minha dissecação e exploração de todas as categorias dos Óscares referentes a longa-metragens. Infelizmente, não tenho acesso à maior parte das curtas-metragens nomeadas pelo que não tenho base com que escrever qualquer tipo de crítica das três categorias que visam honrar esse tipo de cinema.

Voltando ao Óscar de Melhor Filme, depois das suas vitórias nos BAFTAs e nos Golden Globes muitos estão a prever uma vitória sem precedentes para The Revenant, que também é o favorito em, pelo menos, mais três categorias. Eu não tenho grande convicção na vitória do filme protagonizado por Leonardo DiCaprio. Em anos anteriores, quando confrontados com a escolha entre um espetáculo de pirotecnia formal e alternativas com maior aparência de relevância social, a Academia mostrou tendência a preferir os filmes com mensagens mais relevantes e socialmente importantes.

Para além dessa tendência da Academia de Hollywood, também existe o facto de que os Óscares apenas partilham o seu sistema de votação com os PGAs, onde A Queda de Wall Street derrotou o filme de Iñarritu. Os Óscares usam um sistema de votação preferencial, em que os votantes colocam os nomeados por uma ordem de preferência ao invés de simplesmente nomearem aquele que acham o melhor. Isto favorece filmes que não polarizem o corpo votante, e The Revenant é tão adorado como é por muitos detestado, enquanto Spotlight é abertamente louvado, mesmo por quem não esteja particularmente entusiasmado com os seus feitos enquanto peça de cinema.

Com isto em conta assim como a geral imprevisibilidade da temporada, que chegou à sua apoteose com a divisão dos sindicatos principais, parece que estamos numa corrida de três filmes para o ouro. Pessoalmente prefiro Spotlight aos outros dois e acho que é também aquele que menos aversão consegue provocar na generalidade da população. Veremos se a minha previsão se verifica ou se vamos sofrer a colossal tragédia de ver The Revenant coroado como o Melhor Filme de 2015. Quase tremo só de pensar em tal horror.

Em relação aos outros nomeados, parece-me que não têm grande hipótese de ganhar aqui. É certo que Mad Max: Estrada da Fúria foi o grande favorito das massas críticas internacionais, mas não consigo imaginar os Óscares a fazerem uma escolha tão pouco ortodoxa, por muito que o filme mereça esta honra.

De resto, Perdido em Marte, A Ponte dos Espiões, Brooklyn e Room devem contentar-se somente com a sua nomeação. Mas quem sabe? O filme de Lenny Abrahamson recebeu um apoio surpreendente da Academia, com uma nomeação surpresa para Melhor Realizador e é inegável como Jacob Tremblay tem vindo a conquistar o coração de todos os que acompanham a Awards Season.

Não vou perder tempo a falar dos filmes que injustamente foram ignorados, mas tenho de salientar como incrivelmente mediana e desinspirada é esta seleção, com apenas um filme a se destacar pela sua incontornável genialidade. Enfim, mediano e banal são expressões que poderiam caracterizar grande parte dos nomeados a este Óscar desde a sua criação.

Mas chega de pensamentos negativos. Esta noite são os Óscares! Vamos celebrar e pensar em cinema, mesmo que seja simplesmente para afastarmos o pensamento das escolhas desastrosas da Academia. Viva o cinema!





RANKING DOS NOMEADOS:



8. The Revenant, Arnon Milchan, Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Mary Parent, Keith Redmon


Da minha crítica de The Revenant – O Renascido:

“Juvenil, limitado e cansativo são boas palavras para descrever The Revenant que, apesar da sua magnificência técnica, não encontra qualquer glória cinematográfica na sua eficiência, e que apenas se revelou como uma das mais tortuosas e estupidificantes experiências que tive ao ver filmes deste passado ano de 2015. Enfim, parabéns a DiCaprio pelo seu Óscar e a todos os nomeados deste filme, por muito que nenhum deles realmente tenha merecido a aclamação que receberam.”

Para além da sua impressionante, mas conceptualmente vazia, pirotecnia técnica, The Revenant é uma obra completamente desprezível. Há quem encontre profundidade e humanidade neste filme, mas eu nada disso vejo. Sinceramente, esta foi das mais odiosas experiências que o cinema de 2015 me trouxe, pois há poucas experiências mais irritantes que ver um desastre cinematográfico com pretensiosismos de genial grandeza e que, pelo caminho, conseguiu convencer muitos críticos e espectadores dessa mesma importância ilusória.




7. The Big Short, Brad Pitt, Dede Gardner e Jeremy Kleiner


Da minha crítica de A Queda de Wall Street:

“Para mim, o maior problema de todo este filme nem é a sua incompetência formal ou a sua desumana coleção de caracterizações limitadas, mas sim o seu tom, que já anteriormente referi. Ao investir num constante registo de insinceridade, The Big Short, que já é um projeto de premissas dúbias quando celebra o sucesso financeiro de um grupo de homens que se aproveitou da iminente miséria de milhões de pessoas para ganhar milhões, acaba por ser o arquiteto da sua própria irrelevância. O filme pretende explorar a doentia realidade e o perigo de um sistema capitalista caído em completa selvajaria gananciosa, e estas são ideias importantes para transmitir a uma audiência, mas eu não penso que reduzir tudo a uma comédia irónica e despreocupada seja a chave para tal, especialmente quando o tom do filme apenas parece retirar importância à informação que nos vai sendo dada.”

Apesar de eu conseguir encontrar valor nas intenções deste filme, a sua abordagem, para mim, é um completo desastre, ativamente trabalhando contra qualquer tipo de nobreza ideológica que possa estar na génese do projeto. Talvez a parte mais trágica de tudo isto seja mesmo o modo como o filme demonstra o potencial para ser uma obra de cinema muito superior ao que acabou por ser, com um elenco cheio de fantásticos atores, uma impetuosidade incomum na exploração da corrupção do sistema financeiro americano e um empenho extraordinário na disseminação de informações cruciais para o entendimento da catástrofe económica que explodiu em 2008 e cujas repercussões ainda estamos a sentir hoje em dia.




6. The Martian, Simon Kinberg, Ridley Scott, Michael Schaefer e Mark Huffam


Da minha crítica de Perdido em Marte:

“O que principalmente admirei no filme foi, de certo modo, a sua relativa simplicidade e falta de ambição. Tal parece ser uma crítica em forma de elogio traiçoeiro, mas não o é de todo, sendo que é exatamente nessa simplicidade que o filme floresce e evita cair nos perigos do pretensiosismo e auto glorificação que deflagram por outros filmes semelhantes como forças destruidoras. Para mim, aliás, os únicos momentos em que o filme realmente me começou a desiludir foram durante as cenas do resgate final em que começa a existir uma enfática insistência no dramatismo da situação que acaba por cair num cliché sentimentalista que não se conjuga bem com o resto da abordagem do filme. Isto é, eu volto a salientar, particularmente surpreendente quando consideramos a absoluta falta de leveza ou delicadeza tonal que se espalha pela filmografia de Scott, se bem que aqui o realizador tem muito que agradecer ao seu elenco.”

Quem diria que Ridley Scott ainda era capaz de criar uma leve peça de entretenimento cheia de humor e nenhuma da seriedade carrancuda que tem vindo a dominar a sua recente filmografia? Eu certamente não seria uma dessas pessoas e fico feliz com esse erro hipotético, sendo que este é o melhor filme do realizador desde Thelma e Louise. No entanto, é difícil ignorar alguns dos maiores problemas tonais do filme, assim como a sua abjeta falta de tensão. Perdido em Marte acaba por ser uma experiência facilmente descartável, mas não por isso menos digna de alguma admiração. Por vezes, há que valorizar cinema populista de entretenimento sem grandes ambições pela simples eficiência da sua concretização. Para além disso, é raro vermos um blockbuster construído em volta do que é quase uma celebração de heroísmo coletivo, de trabalho colaborativo e não do simples e redutivo arquétipo do indivíduo heroico.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR REALIZADOR



Já nos estamos a aproximar das últimas categorias!

Há algo que eu devia esclarecer que é o modo como eu e a Academia temos uma visão claramente diferente do que constitui um louvável trabalho de realização. Para mim, o trabalho de autores formalistas é normalmente aquele que eu mais valorizo enquanto para a Academia, as vozes autorais mais distintas e individualistas parecem ser algo desprezível, sendo que o Óscar de Melhor Realização tem vindo a demonstrar uma triste tendência para simplesmente reconhecer bons trabalhos de direção de autores, ignorando as restantes complexidades do trabalho de realização.

Interessantemente, apesar desta minha queixosa introdução, é de destacar como o provável vencedor deste ano, Alejandro Ginzález Iñarritu, está a alcançar este seu presente sucesso precisamente como uma consequência da sua vistosa pirotecnia técnica e não tanto pelos atores dos seus filmes. Seria erróneo ignorar como a vitória garantida de Leonardo DiCaprio tem catapultado este filme para a frente da Awards Season, mas seria igualmente erróneo menosprezar quanto a ambição formal de Iñarritu tem contribuído para a aclamação crítica do filme.

Outro aspeto grandemente atípico é a nomeação de George Miller, o grande favorito dos críticos pelo seu trabalho em Mad Max: Estrada da Fúria. Mais do que qualquer outro dos outros nomeados, que alcançou esta posição através da geral aceitação das suas obras pelos mecanismos mediáticos da Awards Season, Miller conseguiu esta nomeação pela absoluta mestria do seu trabalho que fez com que um filme tão grotesco e atípico conseguisse este reconhecimento por parte da Academia. Eu diria mesmo que é um verdadeiro milagre que Miller tenha conseguido esta nomeação, mas ainda bem que tal sucedeu.

Tom McCarthy e Adam McKay, pelo contrário, devem as suas nomeações quase que exclusivamente ao estatuto das suas obras como frontrunners para o óscar de Melhor Filme, assim como ao seu manejamento de enormes elencos cheios de nomes sonantes e aclamadas prestações.

A grande surpresa destas nomeações foi certamente Lenny Abrahamson que, para muitos que não eu roubou o lugar de Ridley Scott nesta seleção. Eu diria que este realizador irlandês não tem hipóteses nenhumas de vencer, mas este ano nunca se sabe com toda a temporada a ser caracterizada por uma deliciosa imprevisibilidade em todas as categorias que não as de Melhor Ator e Atriz.





RANKING DOS NOMEADOS:



5. Adam McKay por The Big Short


Da minha crítica de A Queda de Wall Street:

“Em termos formais, o filme é uma obra de crónica indisciplina e franca incompetência técnica. A fotografia é prosaica no melhor dos momentos e ativamente incompetente nos piores, focando-se na cara dos atores e em composições banais que quase dão a impressão de estarmos a ver um telefilme da ABC com noções de desproporcional importância própria. Isto não é ajudado pela montagem enlouquecida em que o conceito de continuidade, lógica espacial e ritmo dramático são conceitos obscuros e nunca aplicados. (…) hiperbólicos cortes que pouco fazem senão distrair e demonstrar um desenfreado desespero da parte dos cineastas em injetar energia num filme que se afoga na sua constante necessidade de expor informação a partir de longos monólogos.”

Há uma coisa que destaca McKay de todos os seus companheiros nesta categoria. Apesar das fragilidades que eu vejo no trabalho e visão de alguns dos outros nomeados, nenhum deles é o que chamaria de um mau realizador, pelo menos todos eles demonstram um certo domínio e conhecimento da linguagem do cinema. McKay, por outro lado, apenas demonstra uma crónica incompetência, limitada visão e absurda indisciplina. Eu entendo que é difícil conjurar um tom cómico da constante torrente de informação que o argumento de The Big Short atira contra a sua audiência, mas a abordagem deste realizador é nada mais que uma simples e intolerável coleção de forçados facilitismos estilísticos. Desde a horrenda e desesperada tentativa de injetar energia por entre a vasta verbosidade do argumento, à inconsistente direção do elenco, McKay nunca demonstra ser mais que um mestre da abjeta incompetência. É um insulto a todo o legado da Academia e do cinema americano que esta podridão diretorial esteja nomeada para o prémio de Melhor Realizador, mas enfim… acho que por esta altura já todos nós nos devíamos ter apercebido que os Óscares têm muito pouco que ver com verdadeira excelência cinematográfica.




4. Alejandro González Iñarritu por The Revenant


Da minha crítica de The Revenant:

“O que é que, no entanto, resulta de toda esta eficiência técnica? Um espetáculo da mais formidável pirotecnia que Hollywood tem para oferecer com os seus luxuosos recursos, mas não, de modo algum, a exposição de ousada aventura e risco cinematográfico e humano obsessivamente descrito pela sua equipa sedenta de troféus dourados. Já muito se ouviu falar das dificuldades das filmagens deste filme, da carga de sofrimento psicológico e físico que todos os envolvidos tiveram de suportar, mas, no entanto, nenhum desse risco se regista na obra final que não poderia ser um mais descarado fruto da industrial competência dos estúdios da atualidade. Nenhuma da perigosa ousadia e impetuosa vanguarda de Herzog se consegue encontrar aqui, e muito menos o tipo de filosofia multifacetada e estruturação fluida do cinema de Malick. No final, apesar de Iñarritu praticamente forçar a sua audiência a comparar o seu trabalho com o desses outros autores, esta comparação apenas resulta na perceção de quão abjetamente superficial e completamente vazio de ideias se encontra o filme sobre Hugh Glass.”

Para ser perfeitamente sincero, eu estou a ficar exausto de tanto escrever sobre este filme. Tal como podem ler na minha crítica, eu não tenho nenhum afeto por The Revenant e este já é o 12º artigo em que falo desta obra de Alejandro González Iñarritu. Grande parte da minha irritação com este filme devém da abordagem do seu realizador que parece julgar que a imitação equivale a genialidade cinematográfica. Os comentários do autor mexicano sobre o seu próprio filme têm apenas ajudado a alimentar a minha animosidade. Em resumo, eu não valorizo o esforço técnico que Iñarritu passou como uma marca segura de qualidade, sendo que o filme, de modo geral, é um desastre ideológico, uma catástrofe desumana e um irritante fracasso no que diz respeito a telegrafar para a sua audiência a interioridade e perspetiva individual do seu protagonista, preferindo observá-lo à distância com um olhar formalista e quase pornográfico na sua exploração de sofrimento humano. Um trabalho deplorável que é apenas admirável pela sua impressionante eficiência técnica.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR SOM



Primeiro que tudo, penso que é necessário explicar as diferenças entre as duas categorias a honrar o Melhor Som nos Óscares. Sound Editing, que se traduziria a algo como Montagem ou Edição de Som, refere-se à criação de elementos sonoros individuais, efeitos sonoros. Num filme como Star Wars: O Despertar da Força, um dos nomeados deste ano em ambas as categorias, este prémio iria reconhecer a produção dos sons dos sabres de luz, dos mecanismos, dos tiros etc. mas não a conjugação ou manipulação de todos estes elementos na sonoplastia do filme.

A conjugação dos efeitos sonoros, da música, do diálogo, do som ambiente etc. corresponde a Sound Mixing, ou Mistura de Som. Outro aspeto fulcral da mistura de som é a criação do equilíbrio ou desequilíbrio sonoro de um filme, nomeadamente em termos de volume e relevância de certos elementos sonoros na final experiência do filme. Por exemplo, quando Interstellar estreou gerou-se uma pequena controvérsia acerca do seu som, especificamente em volta de algumas sequências em que a banda-sonora estava colocada a volumes tão intensos que se sobrepunha a qualquer outro elemento sonoro, incluindo o diálogo.

Com essa explicação já feita, há que apontar como estas duas categorias, apesar das suas diferenças, raramente apresentam seleções de nomeados muito díspares. Normalmente acontece o que sucedeu este ano e apenas um par de filmes marca a diferença entre as duas coleções de filmes, sendo que este ano essas obras são A Ponte dos Espiões e Sicario.

As restantes escolhas da Academia são um usual reflexo dos gostos que os Óscares têm há muito mostrado nesta categoria, com filmes de ação cheios de tiros e explosões a marcarem uma incontornável presença. Mad Max: Estrada da Fúria e The Revenant serão, possivelmente, os grandes favoritos pela violência sensorial dos seus elementos técnicos assim como pela sua clara popularidade dentro da Academia, pelo menos aquando das nomeações.

É claro que nunca devemos subestimar um filme da saga Star Wars nas categorias de som. Será que O Despertar da Força vai alcançar o sucesso dos seus antecessores que, entre eles, arrecadaram 2 Óscares e um total de 6 nomeações nestas categorias?

Também muito dependente do seu exímio trabalho de som está Perdido em Marte, outro filme de aventura passado num ambiente espacial. Com um número de nomeações surpreendentemente pequeno em relação ao que era esperado, será que o filme de Ridley Scott conseguirá encontrar alguma vitória nestas categorias mais técnicas?

Como ambas as categorias estão tão interligadas e como já faltam poucos dias até aos Óscares e eu queria tentar conseguir examinar todos os nomeados, tirando as curtas-metragens, decidi abordar ambos os galardões e seus nomeados neste artigo.




RANKING DOS NOMEADOS (Sound Editing):



05. The Martian, Oliver Tarney


Para Perdido em Marte funcionar enquanto narrativa de sobrevivência e resiliência humana é necessário que o ambiente hostil de Marte e todo o mundo de mecanismos espaciais seja perfeitamente credível para a audiência. Esse foi o grande desafio da equipa que criou os sons para o mais recente filme de Ridley Scott, e é impossível apontar no seu trabalho qualquer fragilidade. Um trabalho sólido e musculosamente eficiente que, no entanto nunca chama demasiada atenção para si mesmo. Infelizmente, face a recentes filmes passados em ambientes semelhantes e em que o som representa uma porção muito mais vistosa da mise-en-scène, o som de Perdido em Marte consegue ser um pouco prosaico demais. Mesmo assim, há que destacar o modo como os sons do deserto marciano são imensamente convincentes e como o constante som de maquinaria a trabalhar no habitat da NASA confere ao filme um certo perigo e ameaça que de resto está maioritariamente excluído da abordagem estilística da obra, revelando nos efeitos sonoros uma curiosa precariedade mesmo nas mais avançadas construções tecnológicas imagináveis para exploração espacial.




04. The Revenant, Martín Hernández e Lon Bender

(se não querem spoilers, evitem este vídeo)

Da minha crítica de The Revenant:

“(…)é o som que se revela como o mais grandioso elemento, inundando a paisagem sonora com uma colossal densidade de pequenos sons que juntos compõem um retrato de um esmagador mundo natural que tudo envolve, afogando os elementos humanos na sua sonoridade(…)”

O mais recente filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu é uma obra completamente obcecada em encontrar e construir um registo de realismo que exceda as normais convenções desse tipo de experiência cinematográfica. Na minha opinião, essa abordagem é maioritariamente um fracasso e incrivelmente reacionária ao trabalho de outros mestres do cinema, mas, tenho de admitir que o filme me arrebatou no que diz respeito ao seu som, com os efeitos sonoros que pintam o mundo natural com uma assustadora visceralidade a serem de particular glória.




03. Star Wars: The Force Awakens, Matthew Wood e David Acord


Sabres de luz, explosões, viagens espaciais, criaturas fantasiosas, batalhas intergalácticas, o deslizar de portas numa nave espacial...! O universo Star Wars sempre esteve recheado de maravilhosos e memoráveis efeitos sonoros e este novo episódio não foge à regra, oferecendo uma variedade de formidáveis sons que tanto tornam credível o ambiente fantasioso em que a narrativa ocorre como são um elemento essencial para alimentar a nostalgia dos fãs dos filmes anteriores. Muitos dos efeitos sonoros são, aliás, reciclados ou recriados dos filmes passados da saga, mas, para mim, isso não lhe retira mérito. Como joia da coroa desta coleção de sons tenho de destacar a maravilhosa forma de comunicação de BB-8, cujos ruídos eletrónicos são um milagre de expressividade a partir de uma linguagem limitada e conseguem emular os semelhantes sons de R2-D2 sem os imitarem por completo, injetando algum necessário rejuvenescimento à paisagem sonora da saga.


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHORES EFEITOS VISUAIS



Tal como na maior parte das categorias técnicas, o Óscar de Melhores Efeitos Visuais é usualmente dado tendo por base o critério da quantidade e não da qualidade. Em geral, são filmes cheios de vistosos e constantes efeitos gerados por computador a alcançarem nomeações e, nos últimos anos, o vencedor é normalmente o nomeado para Melhor Filme com maior presença de efeitos.

Com tudo isso em conta, a nomeação para a equipa de Ex Machina é imensamente surpreendente e fenomenalmente deliciosa. Efeitos subtis, perfeitamente executados e apropriadamente discretos, que são empregues de modo essencial para a construção do filme em que se inserem. É uma triste raridade, mas ainda bem que a Academia se recordou desta desafiadora obra de cinema de ficção-científica.

Apesar deste aparente desgosto por efeitos visuais mais discretos, um tipo usual de nomeação nesta categoria é a de um filme de prestígio com uma sequência apoiada em vistosos e inescapáveis efeitos. Seguindo esta lógica, o Hereafter deste ano é The Revenant, que, sejamos sinceros, deve esta nomeação ao ataque de urso que despoleta todo o enredo do filme.

The Revenant está nomeado também ao Óscar de Melhor Filme, assim como outros dois nomeados nesta categoria, Perdido em Marte e Mad Max: Estrada da Fúria. Em qualquer outro ano seria de esperar que um destes três filmes arrecadasse este galardão, sendo que Perdido em Marte seria o candidato mais tradicional.

Infelizmente para as equipas desses três filmes, eu prevejo que o Óscar de Melhores Efeitos Visuais acabe por ser entregue a Star Wars: O Despertar da Força. De todas as nomeações do maior blockbuster de 2015, esta parece a mais facilmente ganha e eu duvido que a Academia perca esta oportunidade de celebrar o monumental sucesso de bilheteiras que foi este sétimo episódio da saga originalmente concebida por George Lucas.




RANKING DOS NOMEADOS:


5. The Revenant, Richard McBride, Matt Shumway, Jason Smith e Cameron Waldbauer


(apesar deste vídeo se focar na maquilhagem, é possível nele vislumbrar alguns instantes do ataque da ursa)

Sim, o ataque de uma ursa a proteger as suas crias é uma espetacular montra para os efeitos visuais de The Revenant, mas está longe de ser a apoteose dos efeitos especiais em cinema que tantos artigos na internet parecem proclamar. O modo como os movimentos de DiCaprio enquanto está ser chacinado são um milagre de engenharia cinematográfica, mas, para mim, a animação do urso deixa um pouco a desejar, com a criatura a parecer estranhamente mais fisicamente realista quando é vista estática e em pormenor do que nos seus violentos movimentos. Independentemente dessa sequência, os efeitos de The Revenant são maioritariamente impressionantes, com a ajuda de CGI a ser uma necessidade invariável para sequências tão violentas e caóticas como o ataque de nativos americanos que abre o filme. A única falha descarada desta equipa é, para mim, a queda de uma falésia dada pelo protagonista e seu cavalo, de resto este é um louvável trabalho e uma boa nomeação para um filme em que os efeitos visuais não são o principal foco da mise-en-scène.




4. The Martian, Richard Stammers, Anders Langlands, Chris Lawrence e Steven Warner


É impossível imaginar Perdido em Marte sem os seus eficazes efeitos visuais, sendo que é um imperativo para o funcionamento da narrativa que a paisagem e atmosfera marciana seja indubitavelmente credível para a audiência. Mas não é somente o planeta vermelho a demonstrar os fenomenais efeitos visuais em ação no mais recente filme de Ridley Scott, sendo que todas as cenas dedicadas à equipa da missão que deixou o protagonista sozinho em Marte são uma verdadeira explosão de efeitos visuais brilhantemente realizados, sem pirotecnias desnecessárias. De destacar está a visualização da nave com uma estrutura giratória, assim como toda a atribulada sequência do derradeiro salvamento de Mark Whatney. O único aspeto relativamente negativo que eu tenho a apontar é o modo como depois de filmes como Interstellar e Gravity, os efeitos de Perdido em Marte parecem tragicamente prosaicos e desinspirados, apesar de toda a sua abjeta eficiência.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR CARACTERIZAÇÃO



De todas as categorias dos Óscares, esta é a única que ainda se mantém com apenas três nomeados, para além de ter sido uma das categorias mais tardiamente criadas, sendo que este Óscar foi pela primeira vez entregue, num panorama competitivo, a An American Werewolf in London de 1981. O ridículo desta situação é inegável, especialmente quando consideramos que praticamente todos os filmes têm departamentos de caracterização. Esta é uma componente técnica que merece, na minha opinião, muito mais reconhecimento que, por exemplo, canções originais ou mesmo efeitos especiais, dois aspetos que marcam presença num número relativamente diminuto de filmes.

Ao longo da sua breve história esta categoria tem sido dominada por vistosas transformações feitas à base de prostéticos, ignorando, infelizmente, outros tipos de caracterização, igualmente louvável mas muito menos vistosa. Mesmo com a recente alteração do nome desta categoria de “Best Achievement in Makeup” para “Best Achievement in Makeup and Hairstyling”, os seus nomeados ainda são maioritariamente caracterizados por explosões de pirotecnia técnica e chamativos virtuosismos, sendo que trabalhos mais subtis são tradicionalmente esquecidos aquando das nomeações.

Outro interessante aspeto desta categoria é a sua curiosa propensão para nomear filmes completamente inesperados ou desconhecidos. A indicação mais surpreendente deste ano é certamente O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, um filme sueco que poucos conheciam antes de ter sido divulgada a lista de finalistas para esta categoria.

Em termos de previsões, eu penso que qualquer um destes nomeados poderá alcançar uma vitória dia 28 deste mês. The Revenant, com as suas 12 nomeações, é um dos óbvios favoritos da Academia e a transformação de Leonardo DiCaprio é capaz de arrecadar atenção suficiente para que o filme ganhe este troféu. Por outro lado, Mad Max: Estrada da Fúria tem uma maquilhagem muito mais vistosa e variada que The Revenant, assim como um considerável apoio da Academia, com 10 nomeações incluindo para Melhor Filme. Por fim, O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu é uma descarada montra para um dos tipos de maquilhagem prediletos da Academia, caracterização de envelhecimento, pelo que este filme poderá também ser um viável vencedor.




RANKING DOS NOMEADOS:









Eu não partilho a louca adoração da Academia por maquilhagem de envelhecimento, sendo que, para mim, os resultados de tais transformações são raramente plausíveis e acabam por usualmente se tornar numa distração perniciosa para a total qualidade de um filme. Em O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, a maquilhagem é a verdadeira estrela do filme e o seu melhor aspeto. Tendo em conta a qualidade do filme como um todo, dizer que a maquilhagem é o seu melhor aspeto está longe de ser um elogio com algum módico de positivismo. Na verdade, para mim, a maquilhagem deste filme é pouco mais que uma montra de virtuosismos técnicos sem pouca ponderação sobre os efeitos dessa mesma técnica na experiência do filme. As transformações de vários atores em personalidades célebres da história europeia e americana são particularmente atrozes, convertendo atores em descaradas caricaturas ao invés de credivelmente povoarem o filme com alguns dos seres humanos mais significativos na história do século XX. Independentemente desses cameos de personalidades como Francisco Franco e Josef Stalin, a principal transformação do filme é o progressivo envelhecimento da personagem principal que vemos desde que é criança até à idade centenária do título. Esta é uma impressionante maquilhagem, mas, especialmente nas etapas mais avançadas da idade do protagonista, a caracterização tem uma feia tendência em limitar os movimentos faciais do ator de modo notório. Um trabalho impressionante e vistoso, mas pouco sofisticado ou particularmente louvável.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FOTOGRAFIA




Mesmo que eu não concorde por completo com esta seleção de nomeados, tenho de dizer que esta é das melhores categorias nesta edição dos Óscares. Mesmo o trabalho de Robert Richardson que eu considero como o pior destes cinco, é um exemplo de imensa ambição visual.

À qualidade geral da categoria ajuda o facto que estes cinco diretores de fotografia são alguns dos melhores a trabalhar no cinema contemporâneo, sendo que três destes homens já são vencedores de edições anteriores. Richardson, que é um frequente colaborador de Quentin Tarantino e Martin Scorsese, já ganhou três Óscares pelo seu trabalho em JFK de Oliver Stone e The Aviator e Hugo de Scorsese. John Seale arrecadou o Óscar pelo seu trabalho em The English Patient, um épico situado no deserto africano com um estilo completamente distinto do filme de George Miller pelo qual este diretor de fotografia se encontra indicado este ano.

É difícil recordar o tempo, há 3 anos, em que Emmanuel Lubezki era um dos eternos injustiçados da Academia. A sua filmografia é uma coleção de triunfos geniais, sendo que as suas colaborações com Alfonso Cuáron e Terrence Malick são de particular destaque. Aliás, apesar do seu primeiro Óscar ter vindo de uma colaboração com Cuáron em Gravity, é fácil de perceber que foi a ligação estética de Lubezki ao cinema de Malick que levou o realizador de The Revenant a tanto posicionar o seu trabalho, especialmente o movimento de câmara e vistoso uso de luz natural, como componente principal do discurso visual do filme.

Do outro lado desta equação de magistrais diretores de fotografia temos Roger Deakins e Ed Lachman. O diretor de fotografia de Carol é um indiscutível mestre desta arte, sendo que o seu trabalho em Longe do Paraíso é um dos píncaros do cinema da década passada, mas entre estes dois, Deakins é quem merece finalmente levar para casa um Óscar depois da sua carreira e numerosas nomeações sem sucesso. Para além do mais, com a sua contribuição para o cinema de animação, poder-se-á afirmar que destes nomeados, apenas Deakins realmente avançou e desenvolveu a fotografia de cinema enquanto técnica e arte.




RANKING DOS NOMEADOS:



5. Robert Richardson por The Hateful Eight






Filmado em pelicula de 65mm, mais tarde exposta nos cinemas em 70mm, Os Oito Odiados é uma obra que procura reproduzir a opulência majestosa dos spaghetti westerns dos anos 60 e 70, nomeadamente as obras de mestres como Sergio Leone e Carlos Simi. O píncaro do trabalho de Robert Richardson neste filme é certamente a primeira secção do filme, situada nos exteriores nevosos do Wyoming. A escala épica das imagens conjuradas por Richardson são arrebatadoras, utilizando por completo o esplendor daquele que é o formato mais largo disponível. Quando o filme se fixa no interior da Minnie’s Haberdasherie, Richardson perde a beleza monumental do mundo natural e o formato do filme é como que posto em direto contraste com as limitações claustrofóbicas do ambiente físico. Isto é uma escolha interessante, mas as composições e a iluminação de Richardson ricas em contraluzes e esquemas artificialmente dramáticos, conferem ao filme uma debilitante teatralidade que retira dinamismo visual a toda a construção de Os Oito Odiados.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR ATOR SECUNDÁRIO



Tradicionalmente, tenho de admitir, o Óscar de Melhor Ator Secundário é certamente a categoria de atuação que menos interesse tem despertado em mim. Possivelmente isto é uma consequência deste prémio ser um estranho veículo para atores conceituados receberem recompensas de carreira, sendo que, em certos anos, parece que a qualidade individual das prestações nomeadas é colocada em segundo plano em prol de narrativas e campanhas desenvolvidas em volta de filmografias ilustres.
Este ano, curiosamente, não sinto que esse seja o caso. De facto, os dois grandes frontrunners, Mark Rylance e Sylvester Stallone são curiosas anomalias. Nenhum deles possui os anos de filmes criticamente aclamados que outros vencedores já possuíram, apesar de que a campanha de Stallone é fortemente apoiada na sua longevidade profissional e que Rylance é um dos mais aclamados intérpretes de teatro em língua inglesa da atualidade.

Outra tendência que felizmente se começou a dissipar foi certamente a de usar esta categoria para reconhecer os vilões mais marcantes dos filmes de prestigio. Este ano isso apenas caracteriza a prestação de Tom Hardy, que também foi certamente auxiliado pelo amor geral que agraciou o seu filme assim como pelo curioso facto de que sempre que foi nomeado para Melhor Ator, Leonardo DiCaprio foi acompanhado por um dos seus colegas a ser nomeados para Melhor Ator Secundário. Deste modo Hardy junta-se a Jonah Hill, Djimon Hounson e Alan Alda. É claro que há que se reconhecer o modo como a carreira em meteórica ascensão de Hardy foi também de grande ajuda para a sua indicação aqui. Com o inegável sucesso de Mad Max: Fury Road, o reconhecimento crítico por prestações em filmes como Legend, Locke e Bronson e a celebridade que o ator tem adquirido pelo seu trabalho em blockbusters, especialmente os filmes de Christopher Nolan, Hardy é uma escolha apropriada se os Óscares querem reconhecer um dos jovens atores com maiores esperanças de ter um futuro de monumental sucesso e prestígio.

Mark Ruffalo e Christian Bale são dois atores que grandemente devem as suas nomeações ao sucesso dos seus filmes respetivos. Com elencos enormes, The Big Short e Spotlight ofereceram aos membros da Academia amplas escolhas para esta categoria, mas estes dois anteriores nomeados, e vencedor no caso de Bale, destacaram-se. Penso que esse destaque se deve ao modo como Bale e Ruffalo escolhem abordagens bastante díspares e discordantes do resto dos elencos em que se incluem mas esse tipo de análise é mais apropriado para o meu ranking dos nomeados.



RANKING DOS NOMEADOS



5. Tom Hardy em The Revenant



Em The Revenant, Tom Hardy acrescenta mais um grosseiro sotaque e grotesco registo vocal à sua curiosa coleção que inclui filmes como The Dark Knight Rises e Mad Max: Fury Road. Mais do que se integrar na sua prestação de modo orgânico, ajudando a uma caracterização naturalística, esta decisão técnica da parte de Hardy apenas distrai, especialmente quando posto em direta comparação com os restantes membros do seu elenco. Há uma qualidade imensamente vistosa no trabalho de Hardy, como se o ator estivesse aterrorizado de perder energia ou a atenção constante do seu público. Junte-se a isto uma panóplia de maneirismos telegrafados sem o mínimo de subtileza e um filme completamente focado numa pretensão de ultranaturalismo e Hardy é uma perfeita catástrofe, possivelmente mais merecedor de um Razzie que de um Óscar. Mesmo assim, tenho de admitir que o seu trabalho me deu um curioso prazer, injetando uma teatral e energética presença à carcaça de um filme cuja representação de sofrimento humano é uma perfeita ilustração da experiência que é a tortura que a obra inflige sobre sua audiência. Grotesco, exagerado, completamente unidimensional na sua vilania e impossivelmente ridículo, é uma tragédia que esta prestação marque a primeira nomeação de um ator tão promissor como Hardy, mas há sempre a esperança que nomeações mais merecidas se encontrem no seu futuro.



4. Mark Ruffalo em Spotlight



A prestação coletiva do elenco de Spotlight é caracterizada por uma enorme modéstia e descrição. Nada de gritos ou histerias despropositadas, o modo como Tom McCarthy dirige os seus atores e evita sentimentalismos inapropriados ou manipulações emocionais forçadas é um dos melhores aspetos deste grande favorito ao Óscar de Melhor Filme. É pena, portanto, que a única prestação a fugir a este registo tenha sido a escolhida pela academia aquando da votação para Melhor Ator Secundário. Mark Ruffalo é um ator que eu admiro há anos, especialmente a sua habilidade em nunca deixar qualquer esforço transparecer nas suas caracterizações, resultando num naturalismo descontraído e sem os histrionismos que usualmente resultam em nomeações aos prémios da Academia de Hollywood. Em Spotlight, no entanto, o ator cai nessas mesmas histrionias, adotando um estado de constante fúria moral que nunca é explorada com qualquer subtileza, mas sim gritada e exposta em cenas de explosiva e inapropriada intensidade. O seu trabalho em Spotlight representa o tipo de abordagem medíocre e óbvia que podia ter levado o filme a ser apenas mais uma enfadonha obra de cinema de prestígio americano e não a subtil criação de preciso humanismo que acabou por ser. Como consequência disto mesmo tenho de dizer que, invariavelmente da qualidade técnica do seu trabalho, Mark Ruffalo é o pior membro do elenco do seu filme e um injusto nomeado a este Óscar que seria uma honra mais apropriada a um imenso número de outros atores de Spotlight como Michael Keaton, Liev Schreiber ou Stabnley Tucci, entre muitos outros.
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

THE REVENANT (2015) de Alejandro González Iñarritu

Peço, desde já, desculpa pela minha ausência deste blog e pela extensa dimensão deste texto. No entanto, depois de todo o amor que este filme tem recebido e da triunfante celebração do filme pela Academia de Hollywood nas suas nomeações, eu achei necessária oferecer uma pormenorizada justificação da minha animosidade para com o filme mais recente de Alejandro González Iñarritu, The Revenant – O Renascido.


The Revenant


Depois de uma noite de inequívoco triunfo nos Golden Globes e uma estonteante coleção de 12 nomeações para os Óscares da Academia, The Revenant – O Renascido tem-se vindo provar como um dos incontornáveis favoritos da Awards Season. É claro que, convém esclarecer, por muito que se fale da sua formidável técnica ou dos esforços do seu realizador, a mais importante narrativa associada ao filme nesta temporada dos prémios de cinema centra-se em volta do seu ator principal, Leonardo DiCaprio. Depois de 4 nomeações que não resultaram em nenhum galardão e uma estranhíssima obsessão da internet para com a sua aparente condição como um dos grandes injustiçados dos Óscares contemporâneos, parece que é com este filme que DiCaprio irá finalmente arrecadar o tão desejado prémio para Melhor Ator. Percebo, obviamente, toda esta obsessão com o reconhecimento máximo ao trabalho de um dos mais populares atores de Hollywood, mas, para mim, este filme nunca foi o projeto de Leonardo DiCaprio, mas sim um filme do seu autor, o mexicano Alejandro González Iñarritu, e do seu diretor de fotografia, Emmanuel Lubezki.

A minha relação com o trabalho de Iñarritu nunca foi algo caracterizado pela harmonia ou pela minha admiração dos seus esforços. Apesar da explosiva genialidade e vitalidade de Amores Perros, um dos filmes que mais culpo pela odiosa moda do filme mosaico que assolou a primeira década do presente século, o realizador depressa se provou como o mestre do mais sufocante miserabilismo e juvenil misantropia no panorama do cinema internacional. Que os seus filmes pareciam estar sempre em busca do mais prosaico tipo de aceitação e respeitabilidade de Hollywood certamente não ajudou a que a minha consideração por este autor fosse particularmente positiva.




Mas, depois de Biutiful, um filme tão focado no sofrimento abjeto da sua personagem principal que quase caía no mais hilariante e inapropriado tipo de comédia acidental, houve um fugaz raio de luz sob a forma de Birdman. Já neste blog falei da obra que valeu a Iñarritu um Óscar para Melhor Realizador, um filme que está longe de ser perfeito ou minimamente inovador ou mesmo completamente funcional nas suas ideias formais, mas que, mesmo assim, primou por uma energética leveza e refrescante jovialidade. É triste ter de admitir isto, mas Iñarritu não aprendeu nada com Birdman e em The Revenant regrediu e voltou ao seu habitual miserabilismo, que desta vez quase que chega ao ponto de ser um exemplo de torture porn coberto pela detestável pátina da respeitabilidade mainstream.

Quando o primeiro trailer, o teaser, para The Revenant foi revelado, eu tenho que confessar que ainda tive esperança do realizador ter transportado a energia cinemática, e um pouco desajeitada, de Birdman e a tivesse aplicado a um drama mais ao estilo dos seus usuais estudos de miséria humana. Basicamente, a formidável concretização técnica sugerida por esse teaser parecia indicar uma maturação no cinema de Iñarritu, a abertura de uma nova fase no seu cansativo discurso artístico. No final, no entanto, parece que a única coisa que esse teaser realmente demonstrou na sua totalidade é quão reacionário o filme é como objeto final, devendo praticamente todo o seu estilo ao trabalho de génios do meio, cuja grandeza Iñarritu poderá tentar imitar, mas cuja mestria ele nunca conseguirá igualar.




Werner Herzog e Terrence Malick são os realizadores cuja influência mais é difícil de ignorar, o que no caso do mestre texano é particularmente impossível. Todo o visual do filme, na verdade, é quase que uma reciclagem direta do trabalho de Malick durante a sua última década de trabalho, sendo que Iñarritu emprega o trabalho de Emmanuel Lubezki, o diretor de fotografia de eleição de Malick, de tal modo que, longe de encontrar uma estética mais ou menos característica do projeto como objeto independente, praticamente copia o mesmo tipo de abordagem naturalista e focada na utilização de fontes de luz naturais que caracteriza a magistral relação artística entre o genial diretor de fotografia mexicano e o génio americano. Para além disso, Iñarritu também escolheu como seu cenógrafo e figurinista, Jack Fisk e Jacqueline West que, neste momento, são indiscutíveis regulares da filmografia de Malick. O look de O Novo Mundo parece ter sido uma particular influência, com a solarenga vitalidade desse filme a ser aqui substituída por uma horrenda frieza e desumana polidez.

Aliás, é precisamente nessa polidez, própria do cinema de prestígio de Hollywood, que se encontram os maiores triunfos e algumas das maiores fragilidades de The Revenant. A execução técnica conseguida pela formidável equipa por detrás deste filme é simplesmente espetacular. A fotografia de Lubezki leva a sua câmara a mover-se em baléticos movimentos através do espaço natural com uma precisão completamente deslocada da selvajaria dos seus sujeitos. A concretização física do mundo da narrativa é assombrosa na sua fidelidade histórica e reprodução de rudes texturas, criando uma superfície de admirável ultranaturalismo. Mas é o som que se revela como o mais grandiosos elemento, inundando a paisagem sonora com uma colossal densidade de pequenos sons que juntos compõe um retrato de um esmagador mundo natural que tudo envolve, afogando os elementos humanos na sua sonoridade que é complementada por uma banda-sonora em que o ruído desabrocha no espectro de sofredoras peças musicais onde a elegância melódica é posta de parte em prol da máxima violência sensorial e emocional.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

BIRDMAN: OR (THE UNEXPECTED VIRTUE OF IGNORANCE) (2014) de Alejandro González Iñárritu




 Depois de obras tão empenhadas num registo de miserabilismo inescapável como Biutiful e Babel, é estranho olhar para esta nova obra de Alejandro Iñarritu e encontrar uma fantástica comédia de um delicioso humor negro e desenvolvida à volta da figura meta-textual de um ator, antiga estrela de cinema de super-heróis, interpretada por Michael Keaton, ator principalmente conhecido pelo seu papel de Batman.

 Riggan (Michael Keaton) é esta figura, este ator, cuja psicologia informa toda a linguagem estilística do filme, que se vai desenrolando naquilo que superficialmente parece um longo plano em constante movimento de duas horas, que extingue quaisquer barreiras temporais e narrativas no seu orgástico trabalho de câmara. Assombrado pelo seu sucesso passado, personificado principalmente por uma voz mental da sua personagem mais famosa, Birdman, Riggan tenta encenar, escrever e atuar num espetáculo na Broadway, tentando recuperar prestígio, respeito e admiração, que há muito não encontra. Este é um filme que se entrega então, a uma exploração de uma desesperada personagem, fixada numa busca por aprovação e validação exterior, assim como de si próprio, e que parece sempre completamente perdido nos seus devaneios mentais e inseguranças, tornados realidade visual na concretização plástica do filme.

 Ao mesmo tempo que o filme se desenrola em torno de Riggan, podemos observar uma exploração humorística e estranhamente melancólica do mundo do teatro americano, da natureza do ator de teatro, de cinema e do ator celebridade, vemos uma crítica selvática e um pouco desajeitada à figura do crítico, e observamos também um elenco de personagens bizarras, humanas, fascinantes mesmo quando envoltas no cliché e na caricatura.

 É difícil encontrar filmes de tão grande ambição como este filme, a níveis temáticos e técnicos, assim como visuais e performativos, mas há que apontar alguns poucos problemas de que o filme padece, na minha opinião, antes de me aventurar mais pela glória com que o filme explode da tela de cinema. Para começar, penso haver algumas limitações temáticas no guião, especialmente na sua exploração da figura do ator, que por vezes cai na caricatura como na personagem de Mike (Edward Norton), um ator prima-dona adorado pela crítica e que, apesar de uma personalidade abrasiva, manienta e cheia de pretensiosismos ridículos, parece procurar uma intensidade e realidade em palco em tudo contraditórios à caricatura que apresenta na vida real, assim como a crítica vilanesca Tabitha (Lindsay Duncan) que assombra o filme com o seu ódio pela ideia de uma celebridade de Hollywood tentar entrar no mundo do teatro da Broadway, sem falar noutras figuras que recheiam o filme…

 Também há um enorme e flagrante problema estrutural no filme que revela as limitações e contradições do estilo e do guião do filme. Resumidamente falando, este é um filme que está completamente dependente do ponto de vista do seu protagonista, sendo que todo o estilo de filmagem do filme parece ser um prolongamento dessa psicologia ferida no seu centro. Essa prisão ao ponto de vista é essencial para o filme que, no entanto, parece perder-se em enredos secundários com outras personagens que parecem trair a história sobre a qual, principalmente no final, o filme se desenvolve. O facto de não haver cortes explícitos na montagem da maioria do filme, apenas exacerba mais estes problemas na conceção do filme e no seu abandono do olhar de Riggan. Mas isto não é apenas uma fonte de problemas, visto que alguns dos mais belos momentos do filme só são possibilitados por estas fugas da perspetiva do protagonista, nomeadamente as cenas partilhadas entre Mike e Sam (Emma Stone), a filha de Riggan, recentemente saída de uma clinica de reabilitação e presente assistente pessoal do pai. As cenas que os dois partilham, quebram e dissecam muito do absurdismo que as suas caracterizações no resto do filme, por vezes, denunciam, conferindo uma grande profundidade temática e maturidade psicológica ao filme. Algo que, por exemplo, parece faltar à personagem de Tabitha que parece querer simbolizar todos os críticos e que se parece revelar um monstro bidimensional e ridículo, apesar do maravilhoso trabalho de Duncan, especialmente numa cena em que a crítica é confrontada com um vil e venenoso discurso de Riggan, cujo desespero se parece aqui converter em ataques vitriólicos aos críticos de teatro.

 Mas, apesar disto, o filme é na sua generalidade um triunfo cinemático apoiado num glorioso trabalho da sua equipa desde Keaton a todos os aspetos técnicos do filme.

Este ator de quem não esperava muito, tenho de admitir, expõe-se aqui nesta personagem de óbvias semelhanças ao próprio ator, numa crueza e expressividade que são impossíveis de ignorar. Por muito indulgente que o filme possa parecer para com a sua personagem, Keaton é aqui uma revelação, sendo particularmente impressionante na sua expressividade facial apenas acentuada pelo modo quase predatório como a câmara, por vezes o filma. Emma Stone é também surpreendente, arrasando todos os seus “grandes” momentos com uma mistura curiosa de raiva quase adolescente e petulante com uma inocência inesperada. O modo como a expressão da atriz muda depois de um zangado discurso da personagem ao seu pai, é algo sublime, assim como a maturidade que Stone consegue revelar nas cenas partilhadas com Edward Norton no terraço do teatro.

 Norton também é de louvar no modo como encontra a comédia absurda no seu retrato caricaturado de um ator pretensioso e com quem parece ser um pesadelo trabalhar, encontrando um lado genuíno no seu comportamento em momentos específicos como os seus interlúdios com Stone, iluminando com uma nova luz no irritante e pretensioso registo que acompanha a maior parte das suas cenas e sequências.

 Em papéis mais pequenos, Andrea Riseborough, Amy Ryan e Lindsay Duncan são breves delícias neste filme, sendo que Duncan é de particular valor, retirando alguma da bidimensionalidade agressiva da personagem da crítica de teatro. E, há ainda que mencionar, Naomi Watts naquela que é talvez a sua melhor prestação desde The Painted Veil, sendo que numa cena partilhada com Keaton no camarim de Riggan, a atriz mostra uma complexidade que até aí a sua personagem não parecia ter, dando luz a uma narrativa pessoal paralela, e lembrando que fora da insularidade de Riggan, existem outras pessoas e outras vidas, para com as quais o ator parece muitas vezes indiferente, focando-se em si mesmo e no seu turbilhão emocional.

 A fotografia de Emanuel Lubezki é de particular relevância. Aqui este génio mexicano perde um dos seus principais fatores de sucesso, a luz natural, mas ganha uma expressividade fantástica nas luminosidades coloridas e artificiais que povoam este mundo teatral, sendo que até uma loja de bebidas alcoólicas parece existir num registo visual semelhante a um espetáculo psicadélico e exuberante. Mas mesmo com a luz posta de parte, temos o movimento da câmara, incessante e maravilhoso, que ganha principal genialidade no seu movimento tridimensional nos momentos em que explora as mudanças de cena dentro do espetáculo dentro do filme, misturando o artifício flagrante das técnicas de palco com o movimento puramente cinemático de uma câmara de cinema.

 Essa junção de dois mundos é, talvez, o mais interessante componente do filme, que apesar de algumas cenas e diálogos, não parece criar grandes juízes de valor em relação a estas duas artes. O interesse do filme parece focado, como já disse, em explorar a personagem de Riggan quase que se assemelhando mais a um stream of consciousness que a um tradicional guião de exploração de personagem e isso retira algum do mau sabor que cenas como o já mencionado discurso enraivecido de Riggan a Tabitha podem deixar num espetador, sendo que estamos bastante entrincheirados na perspetiva insegura e enraivecida de Riggan.

 Talvez não seja, para mim, a obra perfeita que outros parecem declarar este filme, mas como um estudo de personagem, com admitidas limitações temáticas e textuais, e uma experiência de incrível ambição técnica e formal, Birdman é um triunfo.

 Tal como Stone na luminosa imagem final do filme, nós, como membros da audiência, podemos apenas olhar para esta obra a voar sobre as nossas cabeças num esplendoroso voo de glória e ambição. Sangue, suor e lágrimas podem ser aqui derramadas mas, longe de ser uma criação elitista ou alienante, o filme revela-se como uma das mais excitantes experiências cinemáticas que o cinema contemporâneo americano tem para oferecer, nem que seja de uma perspectiva puramente técnica.