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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Oscars 2015/16, MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO



Parabéns Academia! Esta é uma gloriosa seleção de nomeados e uma rara mostra de independência face às pressões do mercado cinematográfico americano e à horrenda presunção que o cinema de animação é algo exclusivamente concebido para audiências infantis.

Apenas dois dos nomeados são americanos, Inside Out e Anomalisa, sendo que o filme de Charlie Kaufman é um raro exemplo de cinema de animação norte-americano criado propositadamente para audiências dos circuitos art house, exclusivamente adultos.

Entre os restantes nomeados temos dois filmes praticamente mudos. Um deles é Shaun the Sheep Movie, uma adorável sobremesa cinematográfica britânica, e O Menino e o Mundo, uma sofisticada narrativa brasileira sobre o implacável avançar do desenvolvimento industria que vai destruindo o mundo natural e as culturas ancestrais de uma nação em crise.

Finalmente, temos Omoide no Mânî, o filme que será a ultima longa-metragem produzida pelos Estúdios Ghibli. Para qualquer amante de animação, a notícia do encerramento do mais importante estúdio de cinema de animação japonês terá, certamente sido uma cataclísmica tragédia, e parece que a Academia decidiu honrar o legado do estúdio. Há ainda que apontar que este filme e Inside Out são focados na psique e no custoso crescimento emocional de duas jovens raparigas, ambas prestes a entrar na sua adolescência, algo que é raro no cinema de modo geral, e ainda mais em filmes tão comerciais como usualmente o cinema de animação acaba por ser. Num panorama cinematográfico em que perspetivas femininas são menosprezadas e onde complexidades emocionais são tidas como algo de menor importância, este apoio da Academia de Hollywood a filmes assim é de uma importância formidável.

Com estes cinco nomeados, a Academia, ou pelo menos os votantes das categorias de animação, demonstra mais uma vez como não estão completamente cegos ao cinema de outras nacionalidades que não americanas e que nem sempre preferem a banalidade ao virtuosismo artístico. Para além do mais, com esta coleção de filmes, a Academia acaba por honrar a Pixar, a Aardman Animations e o Estúdio Ghibli, três dos mais importantes estúdios na história do cinema de animação, para além de que, indiretamente, acabam também por honrar a Disney e a GKids como distribuidoras norte-americanas de alguns dos mais importantes filmes de animação de sempre.

Eu adoro cinema de animação com uma força que não diminui desde os anos da minha infância em que tais filmes eram fontes inesgotáveis de alegria, prazer, e uma imaginação sem igual. Como tal, é um sonho observar esta formidável seleção em que, mesmo que eu não concorde com todos os nomeados, em geral a categoria é indiscutivelmente gloriosa.





RANKING DOS NOMEADOS:



5. Anomalisa, Charlie Kaufman, Duke Johnson e Rosa Tran


Eu sou um grande fã do trabalho passado de Charlie Kaufman, sendo que, face à inicial premissa de Anomalisa, o seu primeiro filme de animação, eu estava perfeitamente pronto para voltar a ser deslumbrado por este entusiasta do pós-modernismo cinematográfico. No entanto, o filme foi, para mim, um imenso desapontamento, demonstrando como, possivelmente, a criatividade de Kaufman se começa a esgotar e como os mais perniciosos aspetos da sua visão do mundo apenas se estão a tornar mais evidentes e difíceis de ignorar. Kaufman foca-se, em Anomalisa, em mais um homem desiludido e entediado com o mundo que o rodeia, vivendo uma existência cronicamente isolada e apática. Tomando a ideia de uma verdadeira doença mental, Kaufman concebeu uma visão subjetiva em que o mundo do seu protagonista é povoado por pessoas que partilham exatamente a mesma voz e feições, sendo que apenas uma mulher que ele conhece numa vulgar e triste noite num hotel, consegue emergir como outro ser humano fora desse absoluto anonimato.

Eu percebo as intenções de Kaufman, mas não as consigo celebrar. Este ano está recheado de filmes em que homens de sucesso e privilegiados são retratados como criaturas isoladas e incompreendidas, vítimas da sua própria arrogância, e, pessoalmente, já estou um pouco cansado desta irritante fórmula. Os defensores deste tipo de filme afirmam que o filme se apercebe dos problemas dos seus protagonistas, mas custa-me ver em Anomalisa, algo mais que uma montra da autopiedade de Kaufman e sua hubris cinematográfica. Eu consigo apreciar o filme de um ponto de vista puramente técnico e até aprecio o trabalho vocal dos atores, mas a obra perde qualquer integridade na sua construção misógina da figura titular, Lisa.

A mulher que concentra em si a peculiar e individualista banalidade da vida humana é pouco mais que um mecanismo narrativo para o arco da personagem masculina principal, e mesmo a sua personalidade parece existir apenas em função dos problemas dele, sendo que os diálogos entre os dois, por muito bem representados que sejam, são um perfeito exemplo de como subtilmente um texto consegue relegar uma das suas figuras a um objeto. O problema encontra-se no modo como Lisa deveria ser diferente, deveria ser palpavelmente humana, mesmo que por instantes, mas Kaufman cai nos erros que pensa estar superiormente a pintar na sua personagem principal, mostrando uma imaturidade incomum no seu trabalho e uma desumanidade assustadora. Muitos adoram este filme, mas não consigo fazer. Reconheço o seu valor enquanto criação ambiciosa e impetuosa de animação para adultos, mas o resultado final sofre de uma fétida podridão ideológica que, infelizmente, afundam todo o edifício do filme.




4. Shaun the Sheep Movie, Mark Burton e Richard Starzak



Da minha crítica de A Ovelha Choné – O Filme:

Shaun the Sheep Movie é um ótimo filme de animação familiar longe das complexidades emocionais de outras obras de animação deste ano mas não por isso menos charmoso ou encantador. Há algo de reconfortante na simplicidade e relativa falta de ambição do projeto. Uma delícia ligeira confecionada com um virtuosismo magistral numa técnica, cuja visibilidade tem vindo a desaparecer com o apogeu da animação digital. E talvez principalmente por esta última razão, eu não consiga de modo algum resistir aos encantos do filme e adorá-lo apesar de alguns problemas cruciais que anteriormente referi.”

Tenho pouco a acrescentar a estas palavras. Esta é uma obra adorável e imensamente charmosa, sendo que é difícil resistir aos seus encantos. É cinema essencial? Talvez não, mas para um amante de animação, qualquer produção dos estúdios Aardman é uma joia cinematográfica.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

BIG HERO 6 (2014) de Don Hall & Chris Williams

Ontem publiquei aqui os meus pensamentos sobre Inside Out, o grande favorito para o Óscar de Melhor Filme de Animação deste ano, pelo que achei ter arranjado a oportunidade perfeita para publicar um texto antigo que nunca cheguei a aqui colocar. Big Hero 6 foi o vencedor do Óscar de Melhor Filme de Animação de 2014, e, se tudo correr bem, Inside Out será o seu sucessor.


Big Hero 6


Pode ser uma opinião impopular entre amantes de cinema e pessoas que se achem intelectuais ou coisa semelhante, mas eu não consigo apagar em mim a chama de adoração que sinto pelos estúdios de animação Walt Disney. Pode ser uma adoração principalmente alimentada pela nostalgia e por memórias de um passado ilustre da companhia, mas continuo a achar esse estúdio uma das mais fascinantes fontes de animação ocidental. Dirigido a crianças? Infantil? Focado somente no entretenimento fácil e em interesses económicos? Sim, talvez, mas não é por isso que deixo de antecipar quase todos os anos a nova obra dessa dita fábrica de sonhos.

Com a aquisição de grande parte do espólio criativo da MARVEL, os estúdios de animação da Disney terão encontrado a obra de onde Big Hero 6 foi adaptado muito livremente. Não li a obra de origem, mas uma simples e rápida procura pelo Google traz imagens que praticamente nada têm de semelhante com o produto final do filme, senão uma leve semelhança de ideias específicas. Ou seja, este filme, melhor do que a maioria do recente trabalho desse estúdio, parece ser um perfeito exemplo do apetite capitalista e voraz por detrás de quase tudo o que sai dos estúdios Disney.

Penso, aliás, ser possível desdobrar muito deste filme e encontrar as inspirações em outros filmes de sucesso, os pedaços retirados de outras obras, de outros estilos, assim como as deliberadas escolhas para tornar esta, uma obra apelativa, comercialmente viável e abrangente do maior número de possíveis espetadores possível. E isso torna o filme numa obra má? Medíocre? Pobre? Para mim, pelo menos, não.


Big Hero 6


O filme desenrola-se à volta de Hiro Hamada, um jovem génio de catorze anos que vive com o seu irmão Tadashi e tia Cass na futurista cidade de San Fransokyo, uma mistura arquitetónica entre San Francisco e Tóquio. Apesar do seu talento para a robótica e inteligência notável, o jovem protagonista parece mais interessado em participar em combates de robots ilegais do que se aplicar nos estudos ou a criar algo com real importância social. Nisto ele contrasta com o seu irmão, um estudante universitário, que, juntamente com um elenco de coloridos colegas, trabalha num laboratório da faculdade num projeto pessoal, Baymax, uma espécie de robot enfermeiro, que se assemelha mais a um marshmallow ou a um boneco insuflável do que a qualquer tipo de mecanismo frio que normalmente é sugerido pela palavra robot.

Tadashi consegue, finalmente, aliciar o seu irmão mais novo a candidatar-se à faculdade onde este mesmo anda, culminando tudo isto numa feira de invenções em que Hiro apresenta os seus minibots, uma criação de infindáveis usos que consiste em minúsculos robots magnéticos que, controlados pela mente do utilizador, criam na sua massa qualquer tipo de forma ou movimento. As possibilidades são infinitas, chamando a atenção, entre outros, de um suspeito industrial, Alistair Krei. Um incêndio acaba por se deflagrar no edifício da feira, acabando com a morte de Tadashi.


Big Hero 6


O filme revela-se então como uma história baseada à volta da perda pessoal de um adolescente imaturo, da sua furiosa procura por vingança e de valores familiares e de amizade que se estendem principalmente à figura impossivelmente adorável de Baymax, cuja relação com o protagonista é, provavelmente, a parte mais facilmente apreciada de todo o filme.

Temas de contrastes entre desenvolvimento tecnológico para o bem da sociedade ou para violência e ganho pessoal são explorados, de melhor ou pior maneira, assim como, principalmente, a noção de família e da construção de uma família a partir da amizade, assim como o tema que assombra todo o filme da perda familiar, não fosse já Hiro um órfão antes de perder o irmão.


Big Hero 6


A história e as temáticas têm os seus momentos altos e baixos ao longo do filme, sendo que os momentos de ação perto do final do filme se revelam um pouco problemáticos para mim, tanto a nível temático como ao nível de desenvolvimento do enredo e das personagens, especialmente a do vilão mascarado do filme, cujo conflito parece apenas querer sublinhar os já explorados temas de vingança e perda expostos na narrativa de Hiro e Tadashi.

Mas, apesar do meu amor pelo desenvolvimento da relação entre os dois irmãos, assim como pelo geral apelo à educação superior feitos principalmente na primeira metade do filme, o que mais apreciei neste, foi, sem dúvida a sua animação. A personagem de Baymax é um particular sucesso, tendo até nos seus movimentos um estudo rigoroso de como criar uma personagem instantaneamente adorada por todos, sendo que todas as suas aparições no filme são puro ouro cinematográfico, e cujo apelo tem de ser forte o suficiente para a audiência conseguir sentir os ímpetos emocionais a que o filme almeja no seu final, apesar desta personagem se tratar simplesmente de um robot, cuja falta de livre arbítrio é constantemente realçada pelo texto do filme.


Big Hero 6


Também o vilão e a sua enorme massa de microbots roubados a Hiro durante o incêndio, são uma miraculosa visão de movimento animado. Assim como há que referir o desenho da cidade que, apesar de um pouco ridícula, nos traz uma divertida visão futurista dessa amálgama entre duas das mais visualmente familiares cidades da contemporaneidade.

Há, sem dúvida quem vá criticar o filme, ou quem vá olhar para ele com a frieza que eu simplesmente não consigo conjurar, e o reduzir a uma obra menor e pueril do panorama de cinema de animação contemporânea, mas, para mim, é uma obra essencial, nem que seja apenas pelas personagens, pela animação, pela relação entre os irmãos, pelo seu desenho geral ou pelo simples facto de este ser, muito provavelmente, o mais diverso elenco na história deste, tradicionalmente conservador, estúdio com apenas um dos membros do elenco principal a ser essa constante personagem masculina e caucasiana.


Big Hero 6

Em resumo, vejam Big Hero 6, mesmo que seja apenas para uma hora e meia de divertimento fácil, que apesar dos seus temas, tenho que dizer, nunca chega aos píncaros de complexidade que os filmes, por exemplo, da Pixar conseguiam atingir há uns anos atrás. (e que voltaram a alcançar em 2015 com Inside Out)


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

INSIDE OUT (2015) de Pete Docter


Inside Out Divertida-Mente


Finalmente, depois de alguns anos de projetos a aproximarem-se perigosamente do abismo da mediocridade, ou a se atirarem para as profundezas do abjeto fracasso como no caso de Carros 2, a Pixar finalmente parece ter voltado à glória que no passado tanto caracterizou o estúdio. O filme que trouxe esta revitalização artística é, há que dizer, um dos seus mais ambiciosos desde a sua génese, sendo que é, essencialmente, uma metáfora prolongada por 102 minutos sobre a complicada maturação emocional de uma pré-adolescente cujos protagonistas são ideias abstratas personificadas. Sim, Inside Out é um filme que não tem falta de ambição.

Um dos grandes desafios de Inside Out é aliás, o modo como é formado por duas narrativas simbioticamente interligadas mas imensamente distintas, tanto em tom como em abordagem estilística. Um desses fios narrativos retrata a história de Riley, uma jovem americana que se vê numa crise emocional depois da sua família se mudar para São francisco, onde a protagonista não conhece ninguém e onde a solidão e tristeza começam a tomar a melhor do seu usual otimismo. A outra metade do filme é uma representação simbólica da viagem emocional de Riley, passada no centro de operações da sua mente, onde as suas cinco principais emoções a comandam como pilotos de um monumental mecanismo. Esta equipa é formada por Disgust/Repulsa (Mindy Kaling), Fear/Medo (Bill Hader), Anger/Raiva (Lewis Black), Sadness/Tristeza (Phyllis Smith) e Joy/Alegria (Amy Phoeler) que, desde o nascimento de Riley, tem comandado a sua mente com um sorridente punho de ferro.


Inside Out Divertida-Mente


Phoeler é, aliás, uma escolha perfeitamente formidável para esta personificação da alegria, encontrando o perfeito balanço entre a simplicidade bidimensional necessária para que a personagem funcione como a antropomorfização de pura emoção, e a complexidade essencial para que Joy seja uma das protagonistas mais interessantes e perfeitamente construídas em todo o universo da Pixar. Não que o resto do elenco original não seja igualmente extraordinário, sendo que Logan, no que é essencialmente um papel de coprotagonista, é tão fantástica como Phoeler se bem que num registo colossalmente diferente.

Como disse, Joy e Sadness são as verdadeiras coprotagonistas de Inside Out, sendo que a maioria da narrativa se desenvolve em volta da desenfreada corrida contra o tempo que as duas emoções têm de enfrentar para voltarem ao centro de operações a seguir a um desastroso acidente. Basicamente, Inside Out pega no terceiro ato da maioria dos filmes da Pixar, a desinteressante perseguição cheia de ação que resolve os complicados conflitos do enredo, que sempre foi a pior parte da usual fórmula do estúdio, e estende-o ao tamanho de um inteiro filme. O melhor de tudo é que isto funciona quase perfeitamente, sendo que este filme tem um dos mais formidáveis guiões na história do estúdio.


Inside Out Divertida-Mente


Parte dessa glória narrativa devém da clara influência de Pete Docter, o mais emocionalmente maturo e aventuroso de todos os realizadores da Pixar, que ajuda este filme a se afirmar como um dos seus mais ousados a um nível narrativo e conceptual. Não que tudo isto seja um simples exercício intelectual, pois Inside Out contém em si uma avassaladora carga emocional. A final resolução, uma surpreendente celebração e defesa da necessidade de sentimentos negativas e complexidade emocional como parte do processo de crescimento, é uma das mais merecidamente lacrimosas na recente história do cinema de animação. E isto tudo, sem sequer mencionar Bing Bong, uma potente surpresa que eu não quero estragar a quem não tenha visto esta formidável explosão de criatividade.

Tal criatividade e impetuosidade conceptual estendem-se também ao design deste mundo, cheio de imagens tão inesquecíveis como inteligentes na sua carga simbólica. A ideia de fazer as emoções serem construídas por inúmeras partículas luminosas é particularmente admirável, assim como o visual de um inferno de desolação onde o esquecimento condena memórias velhas à inexistência. A própria escolha das cores na representação das memórias e das emoções é o trabalho de puro génio, jogando com combinações de cores, ora agradáveis ora repelentes como meio de facilmente traduzir à audiência que uma mente completamente dominada por raiva, repulsa e medo não será particularmente saudável.


Inside Out Divertida-Mente


Mas Inside Out não é apenas uma proeza de complexa melancolia, sendo que é, na verdade, uma das mais hilariantes comédias do ano cheia de pequenos detalhes como o jornal lido diariamente por Anger ou alguns dos mais ridículos pormenores do funcionamento da mente de Riley. Nenhuma sequência este ano, por exemplo, consegue superar o milagre de animação que é a cena passada na zona proibida do pensamento abstrato, um momento tão tecnicamente estonteante quão divertido. Num registo menos ambicioso, o vislumbre da mente de um gato é provavelmente o singular momento que mais riso e alegria me despertou em toda a luminosa filmografia da Pixar.


No final Inside Out é uma preciosa raridade no panorama contemporâneo do cinema supostamente feito para audiências juvenis, sendo uma gloriosa celebração da empatia humana e uma ode à complexidade emocional que parece amedrontar mesmo os mais adultos filmes a serem produzidos pela Hollywood atual. O filme torna dores de crescimento numa das mais espetaculares viagens emocionais do ano, revelando-se como uma obra essencial para qualquer cinéfilo, rica em inteligente complexidade mas completamente acessível assim como uma peça de maravilhoso entretenimento.


domingo, 8 de novembro de 2015

ANOMALISA (2015) de Charlie Kaufman e Duke Johnson

Já vamos no terceiro dia do LEFFEST ’15 mas acho que vale a pena relembrar o filme de abertura. Anomalisa é o primeiro filme de animação de Charlie Kaufman, sendo que Duke Johnson também assina a obra. Apesar de grandes reservas que tenho em relação ao filme, Anomalisa é uma das experiências essenciais deste ano.


 Durante os créditos finais de Anomalisa, a mais recente obra de Charlie Kaufman e o seu primeiro esforço no cinema de animação, chegamos a uma porção em que se listam os nomes dos vários contribuidores que, a partir do Kickstarter, financiaram o filme. Os nomes destes adoradores de Kaufman são de um imenso número, sendo irrevogavelmente mais numerosos que os nomes da própria equipa de produção do filme. Enquanto somos expostos a esta parede de texto, uma cacofonia de vozes assalta os nossos ouvidos. Todas as vozes são, contudo, do mesmo ator (Tom Noonan) no que é um dos marcos estilísticos do filme. Durante Anomalisa, Kaufman tece uma tragédia humana à volta da incapacidade de um homem se relacionar com o resto do mundo, que ele vê como uma multiplicidade infinita da mesma cara e voz. Muitas vezes, ao longo da história, várias pessoas proclamam o seu amor pelo protagonista e neste momento que referi dos créditos, há algo de inequivocamente inseparável entre o protagonista de Anomalisa e o próprio Kaufman. O autor, com o amor e adoração de uma imensidão de fãs criou aqui uma obra de insular indulgência, onde nos pede a pena lacrimosa e a simpatia, ao mesmo tempo que ignora o resto do mundo que não a sua individual psique e frustrações.

 Isto está longe de ser uma novidade no trabalho de Kaufman. Praticamente todos os filmes escritos por este autor têm como protagonista um homem bem-sucedido, branco, heterossexual e solitário que demonstra problemas em se relacionar com a realidade à sua volta. E, nesses filmes passados, nunca tive um problema com a limitada perspetiva da sua visão e das suas preocupações mas penso que isso se deveu maioritariamente a uma dose de humor, surrealismo e criatividade que fazem dos seus filmes obras tão fascinantes. Em Anomalisa a criatividade regista-se, nem que seja a um nível de simples técnica, o surrealismo marca presença, mas praticamente nada se vê do humor que tanto caracteriza o usual trabalho do autor. Em Sinédoque Nova Iorque, a obra-prima máxima da sua voz autoral, havia uma completa aceitação do ridículo e das limitações do seu protagonista, e era a partir desse lado mais sardónico e irónico que o filme encontrava a humanidade pulsante que tanto o caracterizou, como que emergindo do ridículo do indivíduo. Anomalisa tem pouco tempo para tais levezas, sendo um filme caracterizado por uma colossal sinceridade e seriedade, de tal forma que parece forçar a sua tragédia humana na audiência, ao invés de a deixar emergir do ridículo, do espetacular e do surreal.

 Com isto não quero afirmar que a sinceridade nunca resulta neste filme. De facto, Anomalisa obtém os seus mais gloriosos momentos durante uma prolongada sequência em que Michael Stone (David Thewlis), o protagonista, leva uma sua fã para o quarto de hotel em que habita por uma noite e acaba por dormir com ela. A fã chama-se Lisa e apresenta uma face e voz distintas da restante população. A sua voz é a de Jennifer Jason Leigh que nesta alma entristecida encontra um dos melhores papéis da sua carreira recente. Quando Kaufman e Duke Johnson, o co-realizador, observam estes dois humanos, uma mulher que não espera o reconhecimento, apreciação ou simpatia do mundo e um homem que não consegue evitar recusar tais simpatias à humanidade, há algo de mágico na intimidade conjurada. Aqui sim, a sinceridade e seriedade resulta, mas, infelizmente, o filme não é apenas uma curta-metragem sobre esta delicada sedução e consumação, mas sim uma prolongada experiência da hubris de um autor em aparente crise de meia-idade.

 Por muito que me seja difícil engolir a narrativa, a técnica demonstrada na execução deste filme é estrondosa. Utilizando impressões em 3D, Kaufman e Johnson constroem um mundo de figuras tão artificiais quanto humanas. Os corpos são realistas, assim como a expressão, mas as faces apresentam as marcas da união das várias componentes da marioneta, e as próprias proporções parecem, ocasionalmente, sugerir algo de irremediavelmente desumano nas pessoas que povoam o mundo de Anomalisa. E não é só a animação das figuras humanas a primar, sendo que os cenários, a música, o som e a belíssima fotografia também demonstram uma impressionante construção formal. No entanto, toda esta virtuosidade tem o deliberado efeito de provocar uma enorme alienação entre as audiências e o drama humano que Kaufman quer espremer do seu protagonista, pelo que longe do filme ser uma experiencia de comovente humanidade, há algo de controlado e frio exercício estilístico durante toda a experiência.

 Com tudo isto dito, tenho de admitir que, apesar dos seus numerosos defeitos e problemas, Anomalisa é uma das obras essenciais de 2015. Charlie Kaufman é uma voz imperdível no panorama do cinema contemporâneo, mesmo quando se mostra indulgente consigo mesmo e estranhamente sério, e com esta sua primeira obra de animação, o autor demonstra uma formidável nova possibilidade para o mundo da animação stop-motion.  Anomalisa está longe de ser dos melhores filmes de Kaufman mas, na sua delicada passagem central entre dois solitários humanos, há algo de efemeramente humano e intenso e de uma beleza rara e fugaz tanto na totalidade do filme como no cinema americano atual.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

SHAUN THE SHEEP MOVIE (2015) de Mark Burton e Richard Starzak



 Os estúdios Aardman têm ganho uma reputação invejável como a fonte de alguma da melhor animação stop motion no panorama do cinema de animação contemporâneo em que a criação digital parece esmagar qualquer outra técnica menos computorizada. A claymation destes estúdios não foi usada nos seus últimos dois esforços cinemáticos, o encantador Arthur Christmas e o desastre Flushed Away, mas tem-se fazendo sentir no que é uma das suas criações de maior sucesso, especialmente com o seu público. Falo da versão televisiva da chamada Ovelha Choné, que neste filme é transposta para o cinema sem perder o charme e gentileza que caracterizam o seu apelo e sucesso na televisão.

 O primeiro filme dos estúdios a não ser uma coprodução, segue o mesmo tipo de linguagem que o seu predecessor do pequeno ecrã, não incluindo qualquer diálogo no que é um filme com uma narrativa e enredo extremamente simples e fácil de percecionar e compreender. Shawn, o protagonista e a ovelha choné do título em português, é o líder de facto de um grupo de oito ovelhas na quinta Mossy Bottom, onde vivem, entre outros, com o seu Fazendeiro e o cão pastor de nome Bitzer. No início do filme, vemos imagens de um passado risonho e solarengo agora substituído por uma rotina entediante tanto na vida dos animais como do seu dono e companheiro humano, pelo que o protagonista organiza um dos seus usuais e ridículos estratagemas para obter um dia de folga na rotina, depois de inspirado por um anúncio exposto num autocarro. O plano acaba por dar para o torto e as ovelhas e Bitzer acabam por se aventurar pela cidade em busca do Fazendeiro perdido e amnésico, tornado barbeiro celebridade devido ao tipo de consequencialidade irracional típica das desventuras da ovelha protagonista.

 O tom humorístico e leve do filme é intrinsecamente dependente do design e da animação do filme. Linhas suaves e redondas, típicas dos filmes do estúdio, e personagens simples mas incrivelmente expressivas e distintas. O modo como as ovelhas são facilmente diferenciadas e que uma personalidade individual se consegue verificar na animação de cada uma, é de particular louvor, sendo que os elementos básicos do seu desenho são comuns a todas as oito figuras, com a possível exceção de Timmy, uma adorável ovelha bebé e a verdadeira estrela do filme se descontarmos o protagonista. O humor conseguido a partir da simples pantomima é delicioso, fazendo, por momentos, lembrar os mestres da comédia do cinema mudo americano ou mesmo Jacques Tati.

 A expressividade simples e delicada dos visuais é acompanhada por um tom bastante gentil e confortante, em que o conflito e perigo que o enredo oferece como obstáculo aos heróis nunca é apesentado com a intensidade que poderia causar qualquer receio. É um filme alegre e fácil de ver e adorar, uma experiência simples e com um charme bastante distinto da maioria da animação atual. A delicadeza e gentileza com que o filme aborda as personagens, e o afeto que concede a todas as figuras em si inseridas faz com que até os mais crassos momentos de humor funcionem. O filme conseguiu fazer-me rir de uma piada visual centrada na suposta flatulência da figura de um cavalo, e isso não é tarefa fácil para alguém com um ódio imenso a tal humor.

  Essa atmosfera de gentileza é grandemente devida à falta de diálogo e uso de pantomima, mas também ao uso de som que, aí certamente relembrando Tati, está cheio de ruídos ambiente e pontuações de som humorísticas que apoiam a comédia sem a arrebatarem ou distraírem. O mesmo não se poderá, infelizmente, dizer das músicas que vão aparecendo pelo filme cujas letras não poderiam ser mais óbvias ou descaradas. A própria presença da palavra inserida nessas canções é uma distração e rutura desnecessárias para o filme. Junte-se isto a algumas referências de cultura popular que parecem pertencer a um filme da Dreamworks e não a uma obra da Aardman e temos alguns pequenos problemas, cujo impacto no filme é, no entanto, irritantemente grande.

 Shaun the Sheep Movie é um ótimo filme de animação familiar longe das complexidades emocionais de outras obras de animação deste ano mas não por isso menos charmoso ou encantador. Há algo de reconfortante na simplicidade e relativa falta de ambição do projeto. Uma delícia ligeira confecionada com um virtuosismo magistral numa técnica, cuja visibilidade tem vindo a desaparecer com o apogeu da animação digital. E talvez principalmente por esta última razão, eu não consiga de modo algum resistir aos encantos do filme e adorá-lo apesar de alguns problemas cruciais que anteriormente referi.


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Hit Me With Your Best Shot - CHICKEN RUN (2000)


  Este post foi escrito para a série Hit Me With Your Best Shot do blogue The Film Experience de Nathaniel Rogers, sendo que, tal como na semana passada, é aqui apresentado em inglês ao invés do que é usual neste blogue.


 It’s interesting to watch a film you once watched as a child and revisit it with a new, much altered perspective, especially when faced with such a challenge as to pick a shot from the film itself and find some sort of justification.

 Before watching Chicken Run again, I tried to remember something about the film, maybe trying to capture some lingering nostalgia I had for it. But alas, I barely had any lasting recollection of the animated comedy. Well, that’s not completely true, I recalled quite clearly the sequence inside the pie machine, as well as the death of a chicken that happens very early in the film. Surprisingly early. But apart from that I don’t think I was that clouded by the nostalgia goggles of childhood. Eventually, though, I found out the film was mostly what I expected. Charming, entertaining, delightfully english, and, to my endless delight, curiously morbid and even sinister.

 And there’s also the visuals and the animation, of course, with its softness and muted color palette. The mixture of round, soft and mostly appealing character designs with its detailed and bleak world is jarring at first, but it gives the film quite a striking look. And the character designs are truly delightful, especially the chicken with their roundness and their clumsy movements, not to mention the hilarious detail of the chicken’s teeth. While simple and definitely far away from any sort of naturalism, I found myself apreciating just how much expression the animators could create out of their characters, especially when considering some more serious moments in the film, Sorrow, fear and desperation delicately visible in their facial expressions, particularly in the case of our protagonist Ginger (Julia Sawalha). It's beautiful work,

 Unfortunately not all is good. I was very unhappy to revisit the film and find it catastrophically formulaic, at least in everything that deals with the character of Rocky, an american circus rooster voiced in the original version by Mel Gibson.This cocky character is the sort of lying heroic protagonist we’ve seen a million times before. His story of deceit that is bound to end in rejection and then finish with a heroic effort that redeems him, especially in the eyes of his romantic interest, is, to me, sickeningly predictable. It's especially sad considering a film that, excluding this character, is remarkably offbeat in tone and even in story. Honestly, after I watched the film, I kept wishing that the film was only about the desperate chicken on a prison escape plot.

 But why do I bring forward such negativity when talking about such a harmless, mostly enjoyable feat of Claymation? Because despite his annoying presence, my pick for best shot actually has a lot to do with Rocky.


Best Shot 


 It’s set inside a chicken pie-making machine and first of all, I have to point out how I appreciate the use of a good visual joke. I think, especially in animated comedies, that the use of the visuals to convey humor is much better employed than the use of something like puns, which the creators of this film seemed to believe to be the medium’s greatest sort of humor. Moving on... Rocky’s incompetence as an action hero (until the finale), is probably what I most appreciate about the character, and his clumsiness is put to great effect in this tense sequence. The shot actually works as a sort of tension diffuser, a comic relief moment in the middle of what is to me, the film’s most tense and altogether intense sequence.

 But it’s not just the use of visual humor that made me choose this shot, but also both its striking composition with its use of an overhead camera and geometrical design, and its undercurrent of morbidity.

 This is, after all, a film where our main characters are trying desperately to escape their fate of being murdered and then eaten by humans. Early in the film, as I’ve pointed out before, a chicken dies, beheaded by the villainous Mrs. Tweedy (Miranda Richardson). The film quickly establishes its high stakes, as well as the strange but well employed sense of danger and imminent death that impregnates every single moment in the rest of the film.


 Look at the shot again, look at the way all those pies bear a black silhouette of a chicken. Dark and deep against the pies roundness. Its a cemetery of pies turned into the tombs of chickens. The gravy of these ominous culinary confections looks almost like blood spewing from the black sillouette. Add to this, the ominous orange in the background and you’ve got a strikingly beautiful, and surprisingly sinister shot, that still appears in the film as a moment of simple and funny visual humor.